Ascensão: O Erotismo Acidental e a Materialização do Ser
Entenda o conceito de Erotismo Acidental através da poesia e da psicologia de Jung e Bataille. Uma análise sobre a materialização do ser e a autorregulação sensorial no autismo.

Ascensão
Vou sentir o meu dormente corpo arder
Sob o Sol Vermelho de olhos olhos orientais
E sentirá a alma leve e segura ascender
Absorvendo de ti desejadas por suas vitais.
Vou tocar com desejo tua pele branca
Inspirar com o máxima Volúpia teu cheiro
Tocar em tua mente para mim tão Franca
E sensível e cálida descobrir-te inteiro.
Solta aprender mentir os cabelos negros
Em teus poros soprar antigo segredos
E esquecer-me em também negro olhar
Penetrar suave em tua alma obscura
Mostrar em minha alma o que procuras
E dar-te o místico prazer de me amar
O Erotismo Acidental e a Materialização do Ser
Ascensão é um poema que incorpora um erotismo acidental, nascido de uma necessidade visceral de contato com a realidade. Não se trata de uma construção estética deliberada, mas de uma urgência de materialização da existência. Por meio da linguagem, o erotismo aflora no momento em que o corpo é colocado na equação. O “corpo dormente” que busca e prevê a ardência sugere uma demanda por estímulos proprioceptivos intensos, em que o erotismo funciona como um mecanismo de autorregulação sensorial.
Aqui, o toque, o cheiro e o calor do outro são âncoras para tirar a mente do isolamento e trazê-la para a matéria. Esse movimento dialoga com a teoria de Georges Bataille em O Erotismo (1957). Para Bataille, somos seres “descontínuos”, ilhas de consciência isoladas. O erotismo seria a tentativa de alcançar a continuidade, rompendo as fronteiras do “eu” para se fundir ao outro. No poema, essa busca de pertencimento manifesta-se como uma comunhão molecular: um anseio de que a barreira da pele — o limite da descontinuidade — deixe de existir para que a alma possa, finalmente, ser vista. A jovem poeta não busca o prazer sexual clássico, mas a transgressão do isolamento sensorial.
Contudo, esse ímpeto esbarra na natureza do objeto limerente: um ídolo criado para habitar a imaginação, sem um portal que o viabilize na realidade concreta. Mesmo quando esse objeto se torna o sol que aquece o corpo frio, o resultado é o torpor e, anos depois, uma certa vergonha — o temor de que o poema seja lido como um erotismo raso. Mas Audre Lorde, em seu ensaio Usos do Erótico: O Erótico como Poder (1978), nos socorre; compreendemos que esse erotismo é, na verdade, uma fonte de conhecimento profundo. Lorde define o erótico não como o que fazemos, mas como a medida de quão plenamente podemos sentir no momento da experiência.
Tanto Lorde quanto Bataille dialogam, com maior ou menor fluência, com o conceito de libido tal qual proposto por Jung e Freud. A libido — que para Freud é a articulação de Eros como força vital e que para Jung se torna força criativa, fonte de toda a criatividade — consolida-se no erotismo, mesmo no acidental apresentado em Ascensão. O poema é resultado de uma força criativa passada pelo filtro da consciência, da cultura e do símbolo. E, se tomarmos novamente Bataille como interlocutor, o erotismo de Ascensão canaliza a libido para romper a solidão e burlar a descontinuidade de uma mente que tende a se esconder em si mesma.
A Materialização no Objeto Limerente
Para aquela adolescente autista, a libido se manifesta como uma necessidade de “estímulo proprioceptivo”. Sentir o corpo para saber que ele existe! Enquanto isso, o erotismo acidental é a forma como a sua mente tenta transformar esse impulso bruto em uma ponte para o mundo. A libido é a “ardência” que o seu corpo sente; o erotismo é o “poema” que tenta materializar essa ardência para que ela não seja apenas um choque elétrico, mas uma conexão.
Em Símbolos da Transformação, Jung estabelece o Sol como o símbolo natural da libido e, simultaneamente, do divino. Ao fazê-lo, ele dialoga com Nietzsche ao situar a divindade como uma projeção da força vital e da vontade humana. Ao compreender a divindade como uma manifestação da economia psíquica e o Sol como a imagem arquetípica dessa força — que, em termos biológicos, possibilita a vida para além de distinções morais —, Jung professa o surgimento de uma potência que transcende as amarras mundanas e os interditos da civilidade.
O Sol, enquanto símbolo da libido e do divino, surge no texto vinculado ao objeto limerente como parte de sua própria descrição e consumação; ele pode ser percebido como uma criação da própria libido. Desse modo, o poema professa mais do que devoção: ele registra um processo de autocriação por meio da arregimentação das forças psíquicas. É essa mobilização que possibilita a autopreservação e a transformação necessária à sobrevivência.
A evidência do poema como um artefato decorrente desse processo de autocriação reside em “Escândalo”. Diferente de “Ascensão”, este texto é intencionalmente erótico e relata uma conjunção carnal com o astro-rei. A incursão solar sobre um corpo derribado é claramente erotizada: o sol possui “dedos” que esgarçam a gola, um toque “morno e macio” que provoca o desnudamento diante do “clarão ardido”. No contexto da neurodivergência, o escândalo não reside na nudez em si, mas na audácia de trocar a frieza do isolamento social pela ardência de uma comunhão cósmica. O poema sela a transvaloração: a adolescente, antes dormente, agora se abre extasiada, transformando a carência sensorial em soberania poética.
Escândalo
Outra rede dissolve
ossos tortuosos de ver
Ah, olhos compridos
mas não o bastante
pra alcançar!
A tarde me revolve
na varanda a derreter
noite que à meio dia
ainda não coube dissipar.
O sol maior me toca
morno macio esparrame
que preciso deixo
espreguiço, descubro
sem pesar
Poupa-me a boca
Talvez porque eu te ame!
Esquivo ao beijo
perfaz o contorno.
Tão teu este lugar!
Mais nenhuma cortesia.
Quem olhar da rua
será surpreendido
por dedos de sol
esgarçando minha gola.
Que eu me abria
extasiada e seminua,
ao clarão ardido
do inverno a cinco graus,
dirá alguma carola.
Ascensão Vou sentir o meu dormente corpo arder Sob o Sol Vermelho de olhos olhos orientais E sentirá a alma leve e segura ascender Absorvendo de ti desejadas por suas vitais. Vou tocar com desejo tua pele branca Inspirar com o máxima volúpia teu cheiro Tocar em tua mente para mim tão Franca E sensível e cálida descobrir-te inteiro. Solta aprender mentir os cabelos negros Em teus poros soprar antigo segredos E esquecer-me em também negro olhar Penetrar suave em tua alma obscura Mostrar em minha alma o que procuras É da arte o místico prazer de me amar
Mas, além da correlação entre os poemas e do embasamento teórico fornecido pela filosofia e pela psicologia, há um novo desfecho deixado pela arguta anotação de meu amigo Max, que redefine o sentido da jornada: “É da arte o místico prazer de me amar”, escrito a lápis pelo amigo ocasional. Ao adotar este verso, a obra deixa de ser um relato de busca por validação externa para se tornar um manifesto de soberania psíquica.
Ao situar o prazer de amar a mim mesma no domínio da “Arte”, o poema opera a transvaloração definitiva sugerida por Nietzsche: a vida não precisa de uma justificativa metafísica externa quando se torna, ela própria, uma obra de arte. Sob a ótica de Jung em Símbolos da Transformação, esse “místico prazer” é a integração da libido que, após viajar pelas projeções solares e pelo objeto limerente, retorna ao centro do Ser. O erotismo, antes uma ferramenta de urgência sensorial para “saber que o corpo existe”, transmuta-se em plenitude numinosa. Não se trata mais de um choque elétrico para despertar os sentidos, mas de uma luz que emana de dentro. Ao “dar-me” esse prazer, a voz poética não se oferece como objeto, mas como uma divindade generosa que compartilha a sua própria completude. A “adolescente autista”, que antes buscava âncoras na matéria, encontra, finalmente, a sua morada na estética do espírito: o corpo não apenas existe; ele é o altar onde a arte celebra o místico prazer de ser quem se é.
BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Antoni Vicens e Marie Paule Sarazin. Barcelona: Tusquets Editores, 2020. (E-book).
LORDE, Audre. Usos do erótico: o erótico como poder. In: LORDE, Audre. Irmã outsider: ensaios e conferências. Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 59-66.
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Tradução de Evaett S. Mansur. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras completas de C. G. Jung, v. 5).


