Alquimia e o Decreto da Vontade: Neurodivergência, Amor Limerente e Autocriação
Explore a relação entre amor limerente, urgência dopaminérgica e manifestação através do poema "Alquimia". Uma análise abissal sobre neurodivergência e o poder do decreto.

Alquimia
Em alguma página do tempo foi escrito
e a vontade do coração deve ser cumprida.
A verdade dos olhares não pode ser contida.
Também o tempo já cobrou o seu tributo.
Entre as tantas marcas que a alma carrega,
espalhou-se a poeira dourada dessa paixão,
misturada à essência do amor e combustão.
E então, alquimia, meu ser se embriaga.
Contexto e Análise
Eu nasci em um ambiente de extrema escassez. Em uma camada basal de minha psique, acredito que fui gestada em um ambiente de profunda escassez emocional, multiplicando infinitas vezes a escassez material reinante. Durante muito tempo de minha existência, lidei com o que me era dado e me conformei em nunca pedir o que desejava, por parecer completamente fora do escopo da minha realidade. Assim, enterrei meu sonho de dançar, que encontrava vazão em cenas de filmes como Flashdance, Dirty Dancing e no cinema de Carlos Saura. Quando penso em minha primeira infância, tudo o que me ocorre reflete falta e perplexidade. Absorvia a vida num susto infinito. Mas nunca enterrei completamente minha verdadeira natureza, e a menina perguntadeira surgiu de um silêncio que me ensurdecia para o mundo.
Dado esse contexto, preciso dizer que o poema “Alquimia” é um instrumento de vontade. Não se trata de um registro passivo de um sentimento obsessivo pelo objeto limerente, mas de uma investida consciente na alquimia da palavra. Claramente, o embate entre razão e emoção se revela na necessidade de argumentar com o universo. O que hoje é chamado de manifestação pela web, alavanca “coaches da prosperidade” e coleciona views, antes era entendido como o poder do subconsciente. E, assim como meu livro de socialização, aos 12 anos, foi Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, um outro livro incutiu em minha mente essa esperança de poder dobrar a realidade: O Poder do Subconsciente.
Contudo, é difícil sair de uma forma de existência que reforça, desde o líquido amniótico, a sua limitação. Desenvolvo em “Alquimia” uma argumentação para a manifestação, que nada mais é do que uma ferramenta de focalização de energia. O poema explora o drama da relação paradoxal com o objeto limerente em um limiar entre o contrato e o decreto. A vontade do coração “deve ser cumprida” não é um desejo poético; é um decreto. Na perspectiva da autocriação, a palavra é o “logos” que ordena o caos. Ao dizer que a verdade dos olhares “não pode ser contida”, estou negociando com a realidade física, exigindo que o mundo externo se curve à pressão da verdade interna. Como sei disso? Eu me lembro. A poesia tem essa vantagem de gravar memórias sinestésicas de sua criação. E o poema, além de abordar o que aprendi no livro de Joseph Murphy, é a recusa deliberada do “escoamento” da energia que o amor limerente significa. Sim, o amor limerente, apesar de seus benefícios, sempre manteve a fricção aflitiva ao alcance do olho. No ponto de desgaste, o amor limerente se tornava também um ponto de ruptura.
A Negociação com o Tempo
“O tempo já cobrou o seu tributo” funciona aqui como um recibo de pagamento, mas também como uma declaração de urgência. Nesta argumentação com o universo, estou dizendo: “Eu já paguei o preço em sofrimento, espera e marcas na alma. Agora, a realidade me deve a materialização”. É uma lógica de investimento de energia. A razão diz que o tempo é linear e o resultado é incerto, mas a negociação tenta elevar a fé a força maior.
A Limerência como “Célula de Energia”
Enquanto tenta dobrar a realidade, o poema também reafirma o valor do amor limerente. Ao ancorar o amor limerente na fé, a dispersão de energia é contida. O poema serve para conter a combustão. Em vez de deixar a energia queimar e se apagar, a canalização viabiliza o reencantamento. A fé na própria capacidade de dobrar a realidade cria uma autossuficiência mágica, articulando a própria urgência dopaminérgica para manter a chama acesa até que a realidade não tenha outra escolha a não ser se manifestar.
A Perspectiva Neurodivergente: A Fé contra a Razão
Para uma mente neurodivergente, a dissonância entre o que a razão aponta e o que o sistema nervoso “sabe” ser verdade é uma constante. O poema torna-se o escudo contra a lógica externa avassaladora: meu objeto limerente estava muito distante da realidade para atravessar meu caminho por força do meu subconsciente. O poema, portanto, é bem-sucedido apenas em seu intento maior, que é mitigar a fricção aflitiva entre razão e emoção. A mente neurodivergente usou a intensidade que outros chamariam de “excesso” como o combustível necessário para romper a barreira entre o pensamento e a matéria e criar um novo momento de paz.
O Efeito do Observador
Na física quântica real, o Efeito do Observador descreve como o ato de medir ou observar um sistema quântico altera o seu estado. O exemplo mais famoso é o Experimento da Dupla Fenda. Partículas (como elétrons) se comportam como ondas de probabilidade até que sejam “observadas” (interajam com um aparelho de medição). Nesse momento, a “função de onda” colapsa e a partícula escolhe uma posição única. Na “Manifestação”, os seus defensores argumentam que a consciência humana é o observador final. Assim, ao focar a atenção em uma realidade específica, o eu lírico estaria “colapsando a função de onda” do universo para que aquela probabilidade se materialize.
Superposição e Infinitas Possibilidades
O princípio da Superposição diz que uma partícula existe em todos os estados possíveis simultaneamente até ser observada (o famoso Gato de Schrödinger). Se a física diz que a realidade é um campo de probabilidades, a manifestação seria o ato de “sintonizar” a frequência da versão da realidade onde seu desejo já é fato. Partículas entrelaçadas permanecem conectadas, de modo que a ação em uma afeta a outra instantaneamente, não importa a distância. Nesse sentido, o desejo e a realidade desejada estão “conectados”. Quando o poema decreta que “a vontade do coração deve ser cumprida”, de acordo com a ideia de “manifestação”, o eu lírico estaria ativando esse entrelaçamento, movendo as peças do mundo para que elas correspondessem ao estado interno.
Infelizmente, não posso testemunhar o sucesso nessa empreitada de colapsar a função de onda e mudar de realidade. Talvez tenha me faltado fé. Talvez houvesse muito resíduo de escassez e falta no subconsciente. Talvez eu fosse racional demais para me entregar a essa fé por tempo suficiente, de modo que a mantive por tempo o bastante para me autorregular, e isso foi o que bastou. Com isso, o objeto limerente cumpriu seu papel.
A “Verdade” Científica vs. A Realidade da Criadora
É importante ressaltar que a maioria dos físicos diria que as leis quânticas não se aplicam a objetos grandes (macroscópicos) como pessoas ou eventos da vida, devido à decoerência: o ruído do ambiente destrói o estado quântico antes que possamos “manifestar” algo.
No entanto, a urgência dopaminérgica encontra um respaldo muito sólido na Neurociência:
SAR (Sistema de Ativação Reticular): É o filtro do cérebro. O foco intenso programa seu SAR para ignorar o que é irrelevante e notar apenas as oportunidades que levam ao objetivo. O SAR é como o “Navegador” da Manifestação. Ele é o porteiro de um clube exclusivo: o cérebro recebe milhões de estímulos, mas o SAR só deixa entrar o que foi definido como importante. Ao escrever “Alquimia”, a jovem autora dos anos 90 estava dando ao seu porteiro (SAR) uma foto da realidade desejada, que pode ser vista em todo lugar nessa imaginação ativa. Não é mágica; é o cérebro ignorando o “ruído” e focando obsessivamente naquilo que alimenta o hiperfoco.
Custo de Oportunidade Energética: Para um cérebro neurodivergente, o objeto limerente funciona como uma estrela ao redor da qual todo o sistema solar interno orbita. É o repositório do “belo e da luz”, mas, por ser uma força gravitacional tão intensa, gera a fricção aflitiva. O poema funciona como um “stimming” cognitivo e regulador. A fricção aflitiva gera um excesso de voltagem no sistema nervoso. O poema funciona como um fio terra. Ao colocar a urgência dopaminérgica em palavras, a tensão é descarregada o que organiza o caos. A fé e o decreto, nesse caso, agem como um comando de software que diz ao cérebro: “O conflito acabou, a decisão foi tomada”. Isso reduz o cortisol e estabiliza a dopamina.
Para uma mente neurodivergente e criativa, a física quântica funciona menos como uma prova matemática e mais como uma mitologia moderna. O que importa é que o poema é o ponto de equilíbrio entre a urgência biológica (dopamina) e a vontade soberana (criação de mundos). Ele transforma a aflitiva fricção em uma ferramenta de pressão para moldar o destino. E eis-me aqui. Ainda.


