A Tempestade em um Corpo Ruminante: Autismo, Menopausa e a Invisibilidade da Carne.
Um relato visceral sobre a intersecção entre o diagnóstico tardio de autismo, o envelhecimento e a 'tempestade perfeita' da menopausa.

A Decrepitude e o Diagnóstico
Um questionamento vez ou outra se infiltra em meu lide com este organismo combalido que aqui se articula. Seja pelo tempo ou pela decrepitude orgânica, meu corpo já não chora, apenas trava e, quando se move, o faz rangendo. Isso me exige atenção diária e táticas de manejo que evidenciam o desleixo de décadas e fazem emergir esse questionamento: o que sinto é o peso do diagnóstico tardio ou é o impacto inevitável do envelhecimento em um organismo neurodivergente?
A literatura científica recente chama o que vivo de “A Tempestade Perfeita” (Brady et al., 2024). Para a ciência, é a convergência catastrófica entre o autismo e a menopausa. Para mim, é a sensação de que a “vontade de ferro” que carregou meu corpo desde a adolescência finalmente cansou. Se antes eu arrastava esse corpo, hoje, se ele decide parar, para. Diferente da infância, quando eu desabava e vivia buscando escora, ele agora simplesmente desliga, muitas vezes de forma dolorosa.



