A Libido como Práxis: Limerência, Autismo e a Poética do Decadentismo.
Uma análise profunda sobre como o amor limerente e o hiperfoco autista tornam-se ferramentas de sobrevivência e autonomia intelectual na poesia

ILUSÃO Noites nas quais não vi fantasmas ou lua Tão escuro era o olhar que me banhava Tão profundamente me envolvia que me extenua A mera lembrança de quando para si me tomava Noites nas quais não vi credos ou receios Possuída por algo mais ardente do que a luxúria Arrebatada por algo mais estimulante do que a fúria Sensações a que me entreguei sem quaisquer rodeios Essas noites que se transformaram em madrugadas Que possibilitaram às minhas ilusões serem beijadas Com ardor e ternura raramente imaginados E das quais tenho como recordação a doçura De que desfruto, languidamente, sem censura Na sensível superfície de meus lábios inchados
O Corpo como Lugar de Produção de Subjetividade
Ilusão declara, desde o título, que este poema não é sobre uma experiência real. No entanto, seu desenvolvimento e, em especial, o verso final, atribuíram-lhe leituras muito mais erotizadas do que o poema intentava. Quando uma mulher escreve sobre o desejo e suas marcas físicas, a crítica muitas vezes tenta rotulá-la como “apenas emocional” ou “deselegante” para desqualificar a profundidade do pensamento por trás dos versos.
Historicamente, espera-se que a poesia escrita por mulheres seja “delicada”, “sublime” ou “etérea”. Trazer o corpo para o poema evoca estereótipos e uma separação arbitrária entre o erótico e o intelectual, ignorando que o corpo é um lugar de produção de subjetividade — uma mídia por meio da qual se experimenta o sensível disposto pelo intelecto.
A Limerência como Hiperfoco e Autorregulação
Viver o sentimento real por um ser abstrato é um exercício de fé que exige muito de um corpo neurodivergente. Se considerarmos o afeto pelo objeto limerente como um hiperfoco, torna-se fácil deduzir que o sentimento, em termos físicos, deságua no que denomino “fricção aflitiva”. O poema ameniza essa fricção, mesmo que a leitura transmita o impacto absoluto de uma ilusão na alma.
A escrita de um poema é, muitas vezes, dolorosa e incômoda. Talvez só quem escreve compreenda que o famoso “poema vomitado” foi digerido lentamente no corpo e expelido de forma convulsiva e nauseante; o que sobra é um corpo aliviado e exausto. O poema vomitado é o avesso do orgasmo, mas provoca o mesmo relaxamento exaurido e satisfeito, operando o alívio da fricção aflitiva.
O “Decadentismo” como Resistência à Redução Feminina
A sexualidade bruta, usada para me desqualificar como poeta, considerou o último verso “chulo” e “decadente”. O termo foi usado como crítica destrutiva por um poeta que viu os lábios que habitavam sua própria mente, e não os que eu escrevi. Tentou-se encaixotar minha escrita em uma imagem preestabelecida de feminino.
Não houve, por parte dele, qualquer desdobramento técnico embasado no Decadentismo de Baudelaire; houve apenas a condenação da escrita libidinosa que não cabia em seus moldes. Contudo, Ilusão professa, sim, a estética decadentista ao trazer o amor para a carne, retratando a exaustão dos sentidos e a visceralidade dos sentimentos, possibilitando o relaxamento de uma mente sobrecarregada.
A Construção de uma Ética Amorosa Interna
Acessar poeticamente a libido — concebida aqui, conforme Jung, como força criadora — e canalizá-la através do objeto limerente (firmado como repositório de luz, bem e belo) salvaguardou a integridade da minha alma. Para mulheres autistas, vítimas contumazes de violência de gênero, o trato com o objeto limerente mostrou-se necessário: ele estabeleceu um parâmetro de merecimento. Tudo abaixo disso era posto sob julgamento. O objeto limerente trouxe os parâmetros para a construção de uma ética amorosa e serviu de abrigo quando o suporte externo era inexistente.
Mesmo em momentos de crise e rupturas profundas, a resiliência construída por meio dessa força criadora pôde ser elaborada poeticamente:
RESPOSTA AO POETA Narciso ao contrário repeles-me porque teu reflexo boia nos meus olhos d’água Perfeitamente otário tenta me reduzir ao sexo e medir minh'alma a régua Se me chama de meretriz e me trata feito cadela é porque paga amor com mágoa Cínico, me louva boa atriz porque — ironia singela — teu personagem não dá trégua Vagabundo e ordinário não te reconheces no grande poeta e transfere para mim a tua nódoa E constituíste teu calvário amar-me uma mulher completa e esfacelar-me com tua língua E constituíste meu calvário amar, numa felicidade que cresce num dia, e que no outro míngua.
A Ascensão para a Consciência: O Fim da Docilidade
Piece of resistance em um relacionamento abusivo, Resposta ao Poeta testemunha a construção dessa resiliência e o duro aprendizado de que o “decaimento”, muitas vezes, é apenas a perda da docilidade. O mesmo homem que me chamara decadente ao ler Ilusão torna-se alvo desta resposta cortante, que resgata o valor próprio dos escombros.
A Estética do Silêncio colide aqui com a Estética da Verdade. O silêncio antes requisitado sobre meu corpo agora se desloca para a honra e o prestígio público dele. Muitos críticos usam o argumento da “queda de qualidade” para evitar encarar o conteúdo ético de uma obra; é mais fácil dizer que um poema é “ruim” do que admitir que ele é verdadeiro e acusatório.
Escritoras como Sylvia Plath ou Anne Sexton ouviram críticas idênticas. Quando a poesia deixa de ser “bela” e passa a ser visceral, é acusada de ser “confessional demais”. No entanto, a poesia que nasce da degradação de um relacionamento não é um decaimento; é uma ascensão em direção à consciência. É uma poesia que amadureceu: saiu do campo da ilusão e entrou no campo da verdade, mantendo a capacidade de análise acurada que expõe a mediocridade do interlocutor.


