Oryanna Borges

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Perséfone em Hades | A Doutrina dos Contrários

A Doutrina dos Contrários: Processo Poético e Autocriação e Poema Inédito

O processo criativo como tecnologia assistiva e o segundo poema inédito do novo livro, 'Senhora dos Opostos'. A decodificação de um canto que nasceu inteiro

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Oryanna Borges
jun 21, 2026
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Pintura a óleo em estilo barroco com iluminação dramática em chiaroscuro, inspirada em Rembrandt. Uma mulher enigmática, de olhar expressivo e profundo, veste um longo véu preto que cobre parcialmente seus cabelos e trajes opulentos de veludo carmim e negro. Suas mãos e punhos estão completamente cobertos por uma pasta fosca de carvão preto, que acentua as dobras, falanges e a textura anatômica da pele, terminando de forma orgânica e esfumaçada logo acima do pulso. Seus braços estão erguidos em uma postura imponente e teatral de dança.
A senhora dos opostos

Bastidores: A Doutrina dos Contrários, a Alquimia da Fênix e o Fazer a Alma

Queridos assinantes,

O texto que vocês lerão agora marca a estreia de uma nova fase nesta seção, que agora se expande e se consolida sob o título de A Senhora dos Opostos: A Doutrina dos Contrários, a segunda parte ou a continuação de Perséfone em Hades. Suponho que seja uma regalia, porque sou apaixonada pelos processos tanto quanto pelas obras e acredito que todos partilham do mesmo interesse pelo modo como as coisas se fazem, ou nos obrigam a fazê-las. Este será o segundo poema de uma obra imaginada há oito anos, quando Perséfone em Hades foi finalizado, e responde uma pergunta crucial sobre a jornada de Perséfone no submundo ( a minha Perséfone, claro): o que fazer na superfície tendo consciência plena de quem se é, da própria dualidade? Assim, a reflexāo que se segue sobre o processo de escrita do poema é também uma reflexão sobre a vida, sobre a autocriação e sobre a percepção neurodivergente do mundo.

Sempre encarei o processo criativo como uma tradução de códigos. Sempre senti o poema existindo dentro de mim em um estado não verbal; ele habita o corpo na forma de imagens, sensações e uma espécie de eletricidade que confundimos facilmente com excitação, euforia ou ansiedade. O meu trabalho como escritora é transcrever essa matéria bruta para o código da linguagem escrita e, como uma voraz leitora de dicionários, minha relação com a palavra é de infinita curiosidade.

É por meio dessa relação com as palavras que o nosso vocabulário não supre mas o nosso sentir exige a expressão , que este poema, postado ao fim do texto, acaba de me revelar que a intuição criativa opera por caminhos misteriosos, interconectados e altamente conscientes.

A Teia das Obras: Calcinação, Perséfone e o Voo Abissal

Curiosamente, ao olhar para este novo poema, percebi que a minha mente não estava inventando um território do zero; ela estava respondendo a um chamado antigo. Anos atrás, escrevi o poema Fênix, que já havia sido definido como uma parte contundente e um norte poético para a estrutura de Senhora dos Opostos há alguns dias. É dele o verso : “tenho unhas negras de entalhar sonhos no carvão”. O estudo da psicologia alquimica trouxe estes versos para o centro da construção da obra Senhora dos opostos, criando uma mítica própria para esta misteriosa dama.

Há uma alquimia profunda que une esse passado ao presente. O carvão das unhas negras pertence à fase da calcinação— aquele estágio alquímico onde o fogo reduz a matéria à sua essência purificada. É desse resíduo de fogo, desse carvão da dor, que Perséfone se esculpe e emerge soberana.

A figura mítica da Fênix ressurge de forma absolutamente natural neste poema inédito, “I Wish You Were Here”. Mas ela não vem sozinha: traz consigo uma imagética densa, um clima de espectros e ressonâncias que cria um elo imediato, uma ponte direta com o universo do meu livro Abyssalia, onde o poema fênix fez seu pouso definitivo. Isso me deu uma certeza arrebatadora: as obras poéticas não são ilhas isoladas. Elas se chamam, se buscam, se respondem e se complementam através do tempo. Elas narram, exatamente como Perséfone EM Hades se propõe: poemas que existem e expressam sozinhos e poemas que juntos narram uma metáfora existencial, uma história.

A Faca de Dois Gumes: Limerência, Neurodivergência e Território

I Wish you were here, o poema, nasceu de uma ecolalia musical. Não é de hoje que a heterofonia me suporta: percebo que meu canto pega carona no canto alheio para me dizer de sentimentos que a alexitimia não me permite detectar de imediato. E são semanas de um sentir alienígena , em doses homeopáticas, na forma de uma canção. I wish you were here, do Bee Gees, pela primeira vez desde a detecção desse meu padrão operacional, trouxe a infiltração do objeto limerente pelas brechas do sofrimento real. Literalmente pelas trincas. E o sentimento que geralmente me trancava num canto escuro no qual eu podia fugir para mundo da imaginação, desta vez me serviu de porta para o esclarecimento. Ler os padrões, decodificar os sinais e perceber para onde os meus passos caminhavam me permitiu escrever uma espécie de contra-ataque emocional: usei a poesia para retomar o controle do meu próprio território.

Essa busca por um esteio em um amor que, de fato, não existe na realidade é um mecanismo íntimo instaurado muito cedo. Essa fuga se dá justamente em momentos de grande crise e sofrimento severo. Funciona como um refúgio de autorregulação ou uma compensação neurológica pela dor, o que mostra a intensidade e a necessidade desse “farol” criado em torno do objeto limerente.

É aqui que a psicologia da mente neurodivergente se desvela: existe uma necessidade visceral de buscar uma “pessoa de conforto” no momento da crise. No entanto, essa mesma pessoa de conforto pode ser o estopim para uma crise ainda maior, uma deriva profunda em relação à própria vida se for um objeto limerente.

O sofrimento, portanto, é uma faca de dois gumes: ele pode abrir um alçapão para a fuga alienante da realidade ou pode se tornar um portal para um entendimento maior. E com o entendimento, vem a retomada do poder.

Daqui para frente, apenas a soberania do canto.

Até aqui, você testemunhou a arqueologia do processo. Para destravar o poema inédito “I Wish You Were Here” — o segundo canto da Doutrina dos Contrários — e ter acesso exclusivo à teia completa que une calcinação, Perséfone e o voo de Abyssalia no verso de um caderno histórico, mude para a assinatura paga agora.

Recupere seu território por meio da poesia.

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