A Divindade Particular: Limerência, Neurodivergência e Sobrevivência Poética
Uma reflexão sobre altares invisíveis, o poema "Sorte" e o diálogo entre a solidão e a idealização.

Sorte
Faço sinceros juros de amor eterno
Entre promessas de amor fraterno
Faço doloridos versos por prazer
Escrevo sentindo êxtase sem o viver.
Se a indisível plenitude que cega desejo
É apenas um fragmento, um lampejo
Da vida bela e serena que sonhei ter
Porque não me obrigo a lhe esquecer?
Se adormece no silêncio a sua imagem
a alma explode em sua homenagem
numa ansiedade de quase enlouquecer.
Não é demência pedir a triste morte
que leve-me roubando-me à sorte
ou permita minha vida lhe pertencer.
Entre o Altar de Papel e a Vida Real
“Não é demência pedir a triste morte que leve-me roubando minha sorte ou permita minha vida lhe pertencer.”
Escrevi esses versos na adolescência, em um período onde a minha realidade era marcada pela subserviência e pela ruptura com todas as instituições — a igreja, a família, o pertencimento. O que eu registrei ali não foi apenas um “amor de juventude”, mas a arquitetura de uma divindade particular.
O Ciclo do Silêncio e a Explosão
Ao reler este poema, percebo uma dinâmica que vai além do romantismo: é um registro de exaustão sensorial e emocional. O texto fala de um silêncio da alma quando a imagem do objeto amado adormece. Mas esse silêncio não é paz; é uma falta detectada pelo sistema nervoso.
Para aquela adolescente, esse objeto — o que a psicologia hoje chama de Objeto Limerante — era o único esteio de regulação. Quando ele sumia, a “alma explodia” em ansiedade. O desfecho do poema, que pede a morte, revela a busca pelo silêncio permanente. Não era um desejo de não existir, mas um clamor pelo fim do ruído exaustivo entre o êxtase da obsessão e a dor da ausência. Era o “tudo ou nada” de uma mente que precisava de um absoluto para não sucumbir ao vazio.
O Temor da Imitação: O Espelho no Mercadinho
Apesar da intensidade do que eu sentia, um temor racional me assombrava: eu estaria apenas imitando uma loucura alheia? Aos 11 anos, comecei a trabalhar em um mercadinho de bairro e me tornei confidente da minha patroa. Ela era uma mulher que eu admirava e de quem buscava o apreço. Ela vivia uma devoção absoluta por um artista internacional distante e, em uma época sem internet, fora convencida por uma charlatã de que aquele homem era, na verdade, um espírito que a acompanhava.
Ela mantinha um altar físico em casa — velas, discos, perfumes — para esse amor “de outro plano”. Eu ouvia suas confidências com uma crítica severa. Meu lado racional via a solidão oculta naquela mulher e a fantasia que a sustentava. Eu achava aquela história linda, mas profundamente fantasiosa. O meu maior medo era que o meu destino estivesse pregando uma peça irônica: eu, que tanto duvidei dela, agora construía meu próprio altar invisível para um objeto que eu mal podia tocar.
O Colapso dos Altares
Aos 14 anos, mandei uma carta para o meu objeto limerante. O silêncio da falta de resposta foi absoluto. Na época, doeu, mas hoje entendo que esse vácuo salvou minha divindade. Por não ter resposta, ele nunca se tornou humano; permaneceu um ideal intocado.
Aos 18 anos, já tentando buscar âncoras na realidade, visitei minha antiga patroa. Ao entrar em sua casa, o altar de discos e velas havia sumido. Quando perguntei o que houvera, ela me contou que descobrira que o artista estava vivo. O “espírito” era um homem de carne e osso. Para ela, o encanto se quebrara; a justificativa mística para aquele amor maior não resistira à realidade. Ela destruiu o altar para sobreviver à sua vida normal, como esposa e avó.
O Andaime da Sobrevivência
O meu altar, porém, resistiu por décadas. Ele não era feito de velas e discos, mas de palavras. Hoje, compreendo que aquela “imitação” da minha patroa foi, na verdade, o aprendizado de um mecanismo de defesa.
E a limerência foi o andaime que assegurou o existencia da minha estrutura enquanto o mundo era incerto. Ainda que atravessada pela ecolalia poética que me repetia como um aviso os versos de Vicente de Carvalho, me adomoestando a estar no mundo, no tempo presente, na vida presente, a limerência me susteve:
Velho Tema
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a ezistencia, rezumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ancioza e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Arvore milagroza que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Eziste, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
( Vicente de Carvalho)


