A Cultura como Gabarito da minha Academia Imaginária no poema "Promessa"
Como a limerência e o "mito do par perfeito" serviram como estratégia de sobrevivência e academia de socialização para uma mente neurodivergente.

Promessa
Que longo caminho percorri até você
Dos becos da vida aos becos da alma
Do alto da inocência aà mais baixa estima
Busquei liberdade para lhe pertencer
Então o sonho vazio cedeu a sua imagem
Você vive, mas minha fé quase fenece
É a promessa em seu olhar que me fortalece
E pelo meu espírito repreendo viagem
“Promessa” e a Limerência como Estratégia de Sobrevivência
Ao analisar o poema “Promessa” sob a perspectiva de uma jornada que atravessou três décadas, percebo que ele não é apenas um registro de afeto, mas o documento de fundação de uma arquitetura psíquica complexa. O verso “então o sonho vazio cedeu a sua imagem” é conduz pelo entendimento de como o roteiro cultural — os contos de fadas, o cinema e o mito do “par perfeito” — foi transmutado em uma ferramenta de sobrevivência neurodivergente.
O “Sonho Vazio”: O Treinamento Cultural
A cultura nos incute a ideia de que existe um par ideal. O cinema projeta em nossa imaginação a imagem de que a cerimônia mais importante da vida de uma mulher é o seu casamento. Muitas meninas, em tenra idade, sonham em ser conduzidas ao altar pelo pai e entregues ao “amor de sua vida”, em uma ritualística perfeita que, como uma dança, requer até ensaio.
Cinderela nos traz a ideia da ascensão social por meio do enlace amoroso; Branca de Neve e A Bela Adormecida trazem o mito do despertar com um “beijo de amor verdadeiro”; e A Bela e a Fera nos leva a crer que podemos domar a “fera” no outro. O que acontece, então, quando uma menina neurodivergente, alimentada com essas fantasias genéricas, tem a oportunidade de preencher um sonho também genérico — um “sonho vazio” — com uma imagem específica?
Consideremos um dos pressupostos mais básicos sobre a perspectiva de gênero no autismo: meninas autistas frequentemente passam despercebidas porque aprendem a imitar. Como imitadoras, elas treinam, experimentam papéis e preenchem “sonhos vazios” como se lhes tivessem dado um template; sobre este arcabouço, criam histórias. Estas histórias funcionam como academias imaginárias de socialização. A progressão é simples e óbvia para mim. Como isso ressoa em você, que me lê neste momento?
Dorothy Tennov, a criadora do conceito de limerência — definida como uma devoção obsessiva a um objeto de afeto (o objeto limerente) —, diferencia-a da paixão comum por ser uma experiência primordialmente mental. Para ela, a “paixão” que conhecemos é uma representação cultural, enquanto a limerência é a experiência biológica e cognitiva real por trás dessa representação.
Pessoas que sentem uma necessidade intensa de “estar apaixonadas” ou de encontrar um “par ideal” são muito mais propensas à limerência assim que encontram um alvo minimamente adequado. Eu adicionaria a esta equação pessoas oriundas da extrema escassez afetiva determinada pela neurodivergência e que sentem uma necessidade vital de conexão. Pois é isso o que a limerência, em conclusão, representa: uma busca por uma conexão profunda, uma fusão que extrapola o que entendemos por paixão ou amor, aproximando-se, por isso mesmo, do êxtase religioso e da espiritualidade.
O amor limerente pode, sim, ter desfechos desastrosos, como apontado por Tennov: o ímpeto suicida, o desejo de evitar o declínio ou a desconexão por meio da morte no clímax da reciprocidade. Como prova de que a limerência não é apenas socialmente construída, temos o Shinju, o suicídio duplo japonês que visava escapar no auge do amor, impedindo que o mundo corrompesse ou separasse os amantes. É outra cultura, outra espiritualidade, mas a mesma crença obsessiva nessa conexão de almas.
No entanto, mesmo nessa digressão negativa pelas veredas do “amor obsessivo” na qual podemos incluir manifestações criativas como Madame Bovary e a ópera Carmem, a limerência traz um convite à individualidade. O amor intenso é visto como como uma ameaça à ordem social porque retira o indivíduo do grupo. O amor limerente, quando incubado, pede reclusão e entrega ao mundo da imaginação; quando reciprocado, pede a separação de tudo o que represente um obstáculo — inclusive do mundo dos vivos, em última instância.
Mas o que ocorre quando esse estado é incubado em uma mente neurodivergente, afeita ao detalhe, ao criacionismo primoroso de mundos secretos e com um pé aterrado na racionalidade? Esta alma diligente faz do objeto limerente uma espécie de divindade para ser adorada em silêncio; uma religião particular na qual o corpo imaterial é consumido ritualisticamente netecomo uma hóstia para alimentar o espírito, lembrando de tudo o que há de bom e belo no mundo e enchendo de luz os olhos escurecidos pelo “mundo cão”.
A Limerência de Três Décadas como Prótese e Alerta
Enquanto a ciência descreve a paixão biológica como um ciclo curto de 18 meses a 3 anos, minha limerência perdurou por décadas porque foi elevada ao nível da espiritualidade. Acredito piamente na teoria da prótese emocional: um repositório de tudo o que eu continha de bom, mas que me era negado pela “inculcação da perfídia” que acossa meninas perguntadeiras e racionais. Meninas que desejam apenas um pouco de coerência e encontram expectativas de gênero que não entendem, envolvidas que estão pela leitura das camadas mais superficiais do trato humano.
Como uma boa divindade, meu objeto limerente me alertava sempre para que eu não aceitasse menos do que merecia, impulsionando-me a escolher a mim mesma quando tudo parecia incerto. Como primeira versão da minha academia imaginária de socialização, ele me guiou pelas veredas inóspitas por onde caminham as mulheres. Antes que eu compreendesse a responsabilidade de habitar este corpo feminino, o objeto limerente era a régua pela qual eu media a dignidade dos meus afetos.
O Mundo Secreto e a Autonomia Neurodivergente
A característica “antissocial” da limerência descrita por Tennov foi, na verdade, minha maior aliada. O recolhimento na imaginação é o habitat natural da mente neurodivergente, onde a exposição é menos ruidosa e cansativa. O que para muitos seria um desvio do curso natural da vida, para mim era refúgio e regulação.
Este Deus Particular não me impediu de buscar a vida real. Pelo contrário, ele me deu a estabilidade interna necessária para traçar estratégias de sobrevivência, que incluíam relacionamentos e planos de família. Eu conseguia deixar o objeto limernete de lado, “no meu lado mais secreto” para atuar no mundo, mantendo meu laboratório secreto sempre ativo para os momentos em que a vida desandava.
Sei que buscar a liberdade para “pertencer” a esse ideal muitas vezes precipitou rompimentos e fugas. Eu nutria esperanças de uma realização que só a conexão real com o objeto limerente me traria, e laços terrenos pareciam me impedir. Por isso, o poema “Promessa” tem esse peso em minha história: eu me prometi a um afeto além da minha realidade e mantive essa promessa o melhor que pude, até perceber que ela não tinha mais razão de ser.
Pouco tempo depois dessa percepção, tive meu diagnóstico e um mundo novo se abriu. Não preciso mais da prótese; posso caminhar sozinha agora. “E pelo meu espírito empreendo viagem”.
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Se interessou pela Limerência? Deixo as informações sobre o texto da Dorothy Tennov aqui:
TENNOV, Dorothy. Love and limerence: the experience of being in love. 2. ed. Lanham: Scarborough House, 1999. 649 p.


