A Bússola Inventada: Autismo Nível 1 e a "Viagem pelo Mar Noturno"
A criação poética que articula Jung, Bachelard e a invenção da arte que permite sobreviver ao ventre da baleia e à deriva nas águas do inconsciente.

Viagem pelo mar noturno
Me diga, amor, minha vida, meu porto:
Como atravessar mares obscuros
Para ancorar no teu corpo
Como em teus olhos escuros?
Ah, eu preciso saber a maneira
de te mergulhar nos meus dias,
e com os sonhos da vida inteira
preencher estas horas vazias.
Então me diga, amor: Como,
sem todo o trajeto que traço
Percebo não ser o meu rumo?
E sinto-me prendendo algum laço...
Apenas sinto que amo,
Sem motivo e sem certeza.
Mas é tão puro e tão insano,
por isso mesmo tão pleno de beleza.
Arqueologia de um Naufrágio: O Papel Grampeado
Viagem pelo mar noturno está manuscrito e grampeado em um dos originais impressos de Retrato das Sombras, minha obra da adolescência. Sem data ou título, apenas o amassado amarelecido do papel recupera um pouco de sua história e reivindica o pertencimento a esta obra. O nome ‘Viagem pelo mar noturno’ veio depois de sua digitalização evocar uma necessidade de compreensão maior dessa temática da água. ‘Naufrágio’ e ‘Teu olhar’ são poemas que navegaram por esses mares inconscientes. E é exatamente isso: o inconsciente é o mar escuro e profundo no qual a jovem autora está à deriva. Bússola não há. O olhos que eram farol e repouso nos poemas anteriores agora já não bastam. A direção foi dada, mas o eu lírico deseja aportar e ancorar na materialidade de um corpo e não na abstração marchetada pela luz de uma possibilidade de existir. O eu lírico, que já não posso incorporar — não há fiapo de memória que o conduza até mim — deseja viver integralmente, suponho.
No Ventre da Besta: A Nekyia e o Espectro
A viagem noturna pelo mar é um tema abordado por Jung. Enquanto Clarissa Pinkóla Estés cunha o vagar pelo deserto como um confronto inevitável entre a mulher domesticada e sua natureza selvagem, Jung traz a viagem noturna pelo mar, também chamada de Nekyia, como uma descida para as profundezas da alma, rumo à individuação. O mar noturno é mais do que o inconsciente, é o insconciente coletivo, cuja travessia nos conduz à integração da personalidade por meio de uma simbologia ancestral. É o equivalente à barriga da baleia na jornada do Herói, em cujo estômago surge a necessidade de sermos heróis de nós mesmos. E esta travessia do mar noturno é comumente empreendida por autistas nível um de suporte, com variados graus de sucesso. O autismo é um espectro, logo os resultados variam conforme as propensões naturais de cada um, certo? Mas creio que todos se vêem, com mais frequência do que gostariam, presos na barriga da baleia, ansiando ser regurgitados em alguma praia paradisíaca, ou em muitos casos, apenas sucumbir, sendo lentamente diluidos pelos sucos gástricos da besta abissal. Não me surpreenderia se todos os autistas nível um de suporte, em algum momento, tivessem desejado a completa diluição no estômago da adversidade, ao menos uma vez na vida.
O Veneno da Ruminação
É consenso entre os estudiosos que os autistas nível um de suporte enfrentam um sofrimento indizível e menosprezado, especialmente se do sexo feminino. Vitimismo, dirão aqueles que não compreendem o conceito de uma deficiência invisível. Mas a meu ver, a temática da água, do mar noturno e bravio, da deriva, são símbolos que espelham um profundo sofrimento psíquico. E o alarmante não é sua existência, comum a todo vivente, e sim sua existência na mais tenra idade. Retrato das sombras foi escrito entre os 14 e os 20 anos e, portanto, concentra um registro de um esforço massivo para estar no mundo. Há um desequilibrio entre a expansão vocabular, a adição de conhecimento e a maturidade emocional. E há — outro fato comumente trazido pela ciência — uma constante necessidade de autoanálise e busca de autoconhecimento, que sem guia se torna o veneno do pensamento ruminativo. Este é um traço neurodivergente mais relacionado à superdotação, cuja periculosidade é subestimada quando se trata de saúde mental.
Limerência: O Farol Inventado na Escuridão
Esta jornada de análise de meus escritos da juventude à luz da neurodivergência me traz a certeza de que a invenção foi talvez a minha maior arma de sobrevivência. O Amor limerente se revela, sobretudo, a principal forma de travessia do mar noturno. A invenção do amor cria o farol onde a escuridão predomina, e depois anseia a materialização do porto, e ao fazê-lo, enfuna as velas de uma nau à deriva rumo à autorrealização.
O Embate das Imaginações: O Barco e a Água que Engole
Transposta para a psicologia essa travessia revela a estrutura do sofrimento e da tentativa de cura, decodificada como o pensamento dirigido de Jung e imaginação formal de Bachelard. O pensamento dirigido é o pensamento lógico, verbal e orientado para a realidade externa, que busca organizar o caos e encontra eco na imaginação formal de Bachelard, que busca o contorno, a luz do farol e a organização das formas. No autista nível 1, há frequentemente uma hipertrofia desse modo: uma “expansão vocabular” massiva que tenta, desesperadamente, construir um barco de lógica para navegar o caos. É a tentativa de criar uma “possibilidade de existir” por meio da forma. Mas quando à deriva no mar noturno, ou deglutido pela besta e a mercê de seus humores digestivos, só o pensamento de fantasia (Jung) e a imaginação material (Bachelard) podem acessar os símbolos de transformação universais ao inconciente coletivo. É o pensamento espontâneo, arcaico e imagético fluindo quando a lógica falha que possibilita atravessar o mar noturno. Para a jovem autora, o inconsciente coletivo não é uma abstração, mas uma matéria densa e opressiva. Para a Imaginação Material de Bachelard a água não é apenas superfície, mas substância que engole, “suco gástrico” que dissolve. E há um embate evidente entre imaginação formal e material, ou pensamento dirigido e de fantasia, no processo de escrever o sofrimento.
O “sofrimento indizível” surge do desequilíbrio: o neurodivergente possui o vocabulário da imaginação formal (o barco), mas ele é constantemente inundado pela imaginação material (o mar bravio) de uma sensibilidade que a maturidade emocional ainda não consegue processar. Sem um guia, o pensamento dirigido torna-se o “veneno da ruminação”, pois tenta usar a lógica para esgotar um oceano que só pode ser atravessado pelo símbolo.
O Vaso Alquímico e a Invenção de Si
Ao criar o outro que acolhe, o objeto limerente, a autora cria mais do que um porto visado: cria a possibilidade do poema como vaso alquímico. Ele é o lugar onde a forma tenta conter a matéria para que a diluição nos sucos gástricos da baleia não seja o fim, mas o início da integração da personalidade.
Bússolas de Amor Próprio: O Porto Fictício
E isso nos leva ao que diferencia os poemas de amor dos demais poemas de ‘Retrato das Sombras’. Enquanto estes documentam o colapso e o auto-exame, os poemas de amor inventam bússolas, portos, faróis, canais e vias de amor próprio, mesmo que espelhados no outro fictício.
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