A Arte do Fingimento: Diálogos com Vinicius de Moraes e Augusto dos Anjos no "Soneto de Infidelidade"
Um ensaio íntimo sobre o processo criativo do "Soneto de infidelidade", o amor limerente e a poesia como blindagem de sobrevivência. Leia os poemas.

Soneto de infidelidade
A você, por toda a minha lealdade,
estes beijos ardentes, mas fingidos,
este desejo que teme ser saciado
e minha triste e necessária falsidade.
A você, todos os carinhos delicados,
que cessam num amargo suspiro.
E este olhar embevecido, derramado,
e recolhido, por ser de amor, e puro.
E o que quase tenho e quase deixo.
E o prazer que não me sacia e lamento.
E a alegria que não conheço, mas exijo.
E como prova de amor e fidelidade,
a minha exímia arte do fingimento
executada sob atordoante saudade.A arte do fingimento: diálogos com Vinicius e as linhas de sobrevivência
Há textos que nos habitam antes mesmo que possamos compreender a extensão de suas fraturas. O Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes, foi um dos primeiros portos da minha memória afetiva. Aquela promessa de um amor pleno, vivido “em cada vão momento”, que se espalha em louvor, em riso e em pranto, sempre me pareceu um monumento luminoso. Uma catedral erguida sobre a certeza de que o afeto pode — e deve — ocupar todo o espaço visível do mundo.
Mas na vida real vivemos os amores possíveis. E , apesar de amar Vinicius, meu coração sempre foi propenso à verve sombria de Augusto dos Anjos. Então, se eu podia erigir monumentos luminosos e uma catedral de certeza e devoção absoluta, eu também vivia o “desespero dos iconoclastas”. E para sobreviver: “Entrei um dia nessas catedrais [...] Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!”
Na verdade foram muitos dias. Volta e meia precisava entrar nesse espaço sagrado e vandalizá-lo com a descrença, destroçá-lo com os argumentos mais severos da razão.
Meu “Soneto de infidelidade” chama-se originalmente “Fidelidade” e era, na minha visão, a versão sacrílega do de Vinicius.
Eu me sentia pecadora. Sem me saber neurodivergente, eu era Eva cuspida e escarrada, no sentido literal da expressão. Mas hoje eu vejo o poema em ambas suas versões como minha própria alma, esculpida a Carrara. Ambos monumentos que demarcam esse tempo no qual eu não podia ser eu mesma e precisava aprender a circular por um mundo no qual o privilégio da transparência nem sempre está disponível para quem precisa aprender a caminhar sozinha cedo demais.
Para uma adolescente encarando a crueza dos dias sem redes de proteção, a realidade exige estratégias de guerra. O relacionamento real, palpável, muitas vezes se faz necessário não como comunhão, mas como blindagem social, como um teto mundano e uma moeda de sobrevivência psíquica e física. Enquanto isso, o verdadeiro motor da autocriação permanece exilado no subsolo: o amor limerente. Aquele sentimento avassalador por um ser idealizado, secreto, que sustenta a sanidade por dentro enquanto o corpo performa a normalidade por fora.
É dessa colisão que nasce o avesso da catedral de Vinicius. Nasce o meu Soneto de infidelidade. Um monumento à minha sobrevivência, erigido dos vandalismos recorrentes e das violências íntimas que talvez só as mulheres entendam.
A infidelidade aqui não é o desvio ordinário da carne, mas a cisão dilacerante do eu. Uma dupla traição silenciosa que se consome na mais absoluta solidão acompanhada: trair o pacto da realidade por habitar um desejo exilado, e trair a pureza do objeto limerente por dividir os dias com o mundo concreto. Uma solidão que, por acompanhada no cotidiano, estraçalha a alma por dentro.
A saudade mais dolorosa não é daquilo que se consumou, mas do projeto interrompido, daquilo que se cogitou viver e que não será mais possível —, o poema se torna o registro desse purgatório afetivo.
O cinzel do tempo: do caderno ao livro
Escrever é também o exercício de aprender a editar a própria dor. Na matriz deste soneto, registrada nos cadernos de Retrato das Sombras, as linhas eram longas, expressionistas, quase sem fôlego. Havia um transbordo místico, uma “Alma inflamada por preces” e “toques sôfregos” que tentavam gritar a imensidão daquela injustiça existencial. Era o registro bruto do impacto.
Soneto de infidelidade (Versão Matriz de "Retrato das Sombras" )
A você com toda a minha lealdade
estes beijos ardentes, mas fingidos.
Este desejo que teme ser saciado
Minha triste e necessária falsidade.
A você os toques sôfregos, doces
que terminam num amargo suspiro.
Este olhar carregado de amor puro
fluindo da Alma inflamada por preces.
E a felicidade que quase tenho e quase deixo
e o prazer que sinto transfigurado de lamento.
A alegria que de fato não conheço, mas exijo.
E como prova de amor e fidelidade
a minha exímia arte do fingimento.
executada com atordoante saudadeAnos mais tarde, ao depurar o poema para a estrutura definitiva que hoje habita o livro Abyssalia, compreendi que a grande literatura opera por represamento, não por transbordo.
O ritmo foi contido, os excessos adjetivos foram recolhidos e a imagética sacra deu lugar à precisão cirúrgica do corte. Os carinhos sôfregos tornaram-se “delicados” para acentuar a ironia da encenação; o olhar carregado passou a ser “recolhido”, guardado para dentro para preservar sua pureza. Ao encurtar os versos longos do primeiro terceto e dar ao soneto o rigor da sua forma, a dor não diminuiu — ela ganhou a dignidade do silêncio. A estrutura clássica tornou-se a própria blindagem que tenta conter o abismo.
Abaixo deixo os poemas de Vinicius e o de Augusto, meus mestres:
Soneto de Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes, Estoril, outubro de 1939Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!
Augusto dos Anjos- Pau d'Arco, 1904
Publicado no livro Eu (1912)
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