A Arquitetura Mineral do Encontro: Alquimia, Cognição e o Protocolo Poético de "Engano"
Como a neurodivergência autista, a psicologia alquímica e os marcadores somáticos ressignificam a engenharia do flerte e da limerência.

Engano
À boca o paladar prende teu gosto
O calor do teu contato dança na pele
Não há água que lave tuas marcas
Ou fogo que ensinei teus vestígios
Da eteridade de minha alma
A eternidade que te dei em pensamentos
Talvez tenha feito indelével, teus instantes
E errado a dimensão dos teus fragmentos
O Poema como Trabalho de Bancada
Escrever poesia sempre foi, para mim, uma operação de bancada. Longe de ser um mero transbordamento, a forma do poema é o microscópio com o qual isolo, disseco e reorganizo os tecidos mais densos da experiência humana. No labirinto da cognição autista, onde o tecido social implicitado se apresenta inicialmente como uma massa confusa — um bombardeio caótico de microexpressões, duplos sentidos e ruídos —, a criação poética surge como um imperativo de sobrevivência e uma ciência intuitiva. O poema “Engano” é o registro protocolar desta ciência.
Como muitos outros no calhamaço impresso chamado Retrato das Sombras”O poema está blocado. E contar os oito versos trouxe a epifania do dia: um espalhafato de ideias arborecendo para todos os lados. Estética. Forma. Escansão. Neurociência. Alquimia. Limerência. Metacognição!
Se escrevê-lo, no passado, foi uma dissecação operacionalizada de forma rudimentar e intuitiva, analisá-lo hoje é uma operação muito sofisticada melhor supridaor. Tanto que sua própria anatomia revela, quase de imediato, não só os métodos de investigação, mas as muitas camadas de significado que o tempo agregou a este protocolo.
O Veredito Sensorial e a Cristalização do Fragmento
Diante do meu aparato cognitivo atual, o poema estrutura-se claramente em uma métrica de oito versos, dividida rigorosamente em duas fases: um bloco inicial de cinco versos e um desfecho de três. Os primeiros cinco versos operam como o levantamento de dados e o veredito sensorial. É o registro do auge do estado limerente, conforme conceituado por Dorothy Tennov: a fixação absoluta do pensamento, a imantação dopaminérgica do paladar e do calor que “dança na pele”.
Nesse território do flerte e do cortejo amoroso, o cérebro opera sob uma lente hiperfocalizada. Um gesto sutil, um fragmento de segundo que passaria despercebido por metade de uma sala socialmente típica, é capturado pela minha percepção e submetido ao que Stendhal chamou de cristalização. Na ótica de Stendhal, a mente do amante age como um galho seco lançado nas minas de sal de Salzburg: após um período de recolhimento, o galho emerge recoberto por infinitos cristais cintilantes. O objeto original — a pessoa real — desaparece sob a joia monumental esculpida pela imaginação. Eu herdo o fragmento e devolvo um universo em forma de cinco versos.
A Economia do Sistema e a Engenharia do Cortejo
A importância de “Engano” reside na razão pela qual essa informação específica é retida pela minha psique em forma de poesia. Meu sistema nervoso, ao longo da vida, aprendeu a ser um administrador espartano de energia. Em períodos de grande tensão emocional ou sobrecarga traumática, meu cérebro simplesmente desliga a gravação dos dados não essenciais; daí decorrem os meus densos gaps de memória, o apagamento de fases inteiras da infância. Se o sistema operava no limite, o supérfluo era incinerado.
Mas o aprendizado do flerte não era supérfluo; era a chave para a minha autonomia. Para navegar em um mundo cujos códigos não me foram dados por instinto, eu precisei decifrar a engenharia do encontro. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida”. E a adolescência é a fase na qual aprender a dinâmica do encontro amoroso é um ritual de passagem. Por isso, essa memória não pôde ser apagada. Ela precisou passar por uma transmutação que James Hillman detalha em sua Psicologia Alquímica.
A Calcinação do Ruído e a Fixação pelo Sal
Para Hillman, os processos da alma se valem de substâncias e fogos invisíveis. Mesmo sem saber sobre alquimia na época, evoquei intuitivamente os conceitos hillmanianos de Calcinação e Salificação. O fogo místico da minha atenção queimou o ruído mundano daquela interação para extrair sua estrutura mineral mais pura. Em seguida, o Sal agiu como o princípio da Fixatio (Fixação): ele conferiu densidade, peso e perenidade àquele instante volátil. Ao fixar o fragmento através do sal alquímico, transformei o evento bruto em um saber arquetípico, um código ancestral passível de se integrar à minha base de dados biológica e cultural. Compreender a mecânica do flerte foi o que me permitiu ler o mundo, conquistar autoconfiança e ocupar o meu lugar de direito na vida .
É preciso esclarecer que este poema é fruto de uma experiência real. O amor limerente era minha salvaguarda, e o encontro amoroso era um empreendimento prático, no sentido de suprir necessidades muito básicas, como a segurança em um mundo hostil para com as mulheres. Portanto, “Engano” é um registro do jogo amoroso no campo prático. Ele aborda um processamento cognitivo amparado em fatos reais, e não em meras sensações dopaminérgicas causadas pela limerência no ambiente controlado da imaginação.
Suponho que isso revele, sim, uma precedência da razão em relação à emoção, como sempre presumi em minha jovem percepção dualista. Mas esta precedência da razão também revela um traço cognitivo típico de quem precisa operacionalizar todo o seu processamento sensorial e cerebral de forma consciente.
O Recálculo Homeostático e a Auditoria dos Marcadores Somáticos
É o estresse do organismo em um esforço descomunal que resulta nos três versos finais do poema. No terceto final, eis a interferência daquilo que convencionei chamar de razão, mas que a neurociência hoje chama de metacognição. A experiência vivida é submetida ao escrutínio de um outro tipo de pensamento — uma consciência à parte que analisa o sentir e o pensar, e o narra, às vezes em prosa, às vezes em verso.
O eu-lírico afasta-se da bancada, limpa as lentes do microscópio e lança uma dúvida razoável sobre a sua própria análise comovida e afetada (ou, como diriam hoje os navegantes da web, “emocionada”). O “talvez” final é o córtex pré-frontal avaliando o erro de predição gerado pelo sistema límbico. O terceto final é um recálculo. E é também uma epifania: o momento em que a consciência percebe que a eternidade não pertencia ao outro, mas foi um dote real conferido por ela mesma.
Na neurociência de António Damásio, compreendemos como os marcadores somáticos — as respostas corporais como o gosto na boca e o calor na pele — guiam as nossas tomadas de decisão e as nossas percepções de valor. Nos três versos finais, o poema encena uma auditoria desses marcadores. Eu não sou mais a vítima passiva do feitiço dopaminérgico; sou a cientista que compreende que o feitiço foi fabricado em meu próprio laboratório.
Arribar à dúvida, portanto, não é uma fraqueza cognitiva; na neurodivergência autista, a dúvida é o ápice da sofisticação mental. Significa que o vaso alquímico foi fechado com sucesso, a experiência foi destilada, e o “engano” já não é um erro, mas a matéria-prima transmutada em autoconhecimento, arte e, acima de tudo, liberdade.
Mas falaremos mais disso no texto de quinta-feira.


