A Âncora de Três Quilos: Autismo, Gatos e o Luto Antecipado
Um relato íntimo sobre a rotina neurodivergente, dor crônica, exaustão criativa e o peso monumental de um afeto felino.

A Âncora de Três Quilos
Existem conteúdos online muito bem-humorados, afirmando que o animal mais autista que existe é o gato. E é bastante comum encontrar autistas cujos animais de estimação são gatos. Curiosamente, o gato é um animal bastante independente e, ao mesmo tempo, muito afeito a hábitos, a rotinas. Qualquer semelhança comportamental não é mera coincidência.
A Mina, a minha gata, por exemplo, é extremamente apegada à sua própria rotina. Durante muito tempo, enquanto morávamos no mesmo apartamento, ela tinha o hábito de, ao fim do dia, por volta das seis horas, quando a luz ia mudando, se colocar à porta do quarto e olhar para mim, inquisidora. Esse era o momento de brincar jogando bolinhas de papel. Ela era pequenininha, quase bebê, e dava saltos cheios de energia quase da altura da porta, catando as bolinhas no ar. O corredor era bem pequeno — um metro e meio, bem no centro do apartamento, interligando cozinha, quartos, banheiro e sala. Então, o espaço para ela correr era pequeno, o que limitava a aventura, mas para ela era um grande divertimento.
Ela manteve essa rotina por muitos anos. Foram seis anos naquele mesmo endereço, dos quais compartilhamos uns três anos e meio. Nós saímos de lá em meados de 2024, e ela chegou em fevereiro de 2020.



