<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Oryanna Borges: Crônicas]]></title><description><![CDATA[Seção de crônicas autorais e pensamentos aleatórios]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/s/cronicas</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png</url><title>Oryanna Borges: Crônicas</title><link>https://www.oryannaborges.com/s/cronicas</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sun, 23 Aug 2026 22:01:52 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.oryannaborges.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Oryanna Borges]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Ainda sem instruções para sustentar um corpo em chamas]]></title><description><![CDATA[A voltagem da mente, o peso do mascaramento e a invisibilidade do envelhecimento autista na carne.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/ainda-sem-instrucoes-para-sustentar</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/ainda-sem-instrucoes-para-sustentar</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Aug 2026 23:16:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Ror!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F466bae85-83ff-41be-9e87-e1dd05539112_7500x4213.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/466bae85-83ff-41be-9e87-e1dd05539112_7500x4213.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;corpo em chamas&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/466bae85-83ff-41be-9e87-e1dd05539112_7500x4213.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p><div class="paywall-jump" data-component-name="PaywallToDOM"></div><blockquote><p><strong><span>Ainda sem instru&#231;&#245;es para sustentar um corpo em chamas</span></strong></p><p>O texto de hoje foi planejado ao longo de uma semana, enquanto eu desenvolvia um outro conte&#250;do sobre o quanto nosso corpo precisa estar resiliente para suportar a vida que desejamos ter. E o meu, aparentemente, estava come&#231;ando a adquirir uma certa resili&#234;ncia neste final de julho. O in&#237;cio do m&#234;s foi tenebroso para mim, mas tudo estava, nessa &#250;ltima semana, finalmente se alinhando e dando lugar ao m&#234;s de agosto, com o retorno de uma rotina que tem sido a minha rotina neste ano de 2026: as outras moradoras do apartamento retornam &#8212; uma nova, na verdade, e a j&#225; conhecida. E para receb&#234;-las, no s&#225;bado, eu decidi fazer uma faxina. Como vamos ter uma visita, al&#233;m das moradoras, e uma visita bastante al&#233;rgica, decidi ser a anfitri&#227; que gosto de ser. E fiz uma faxina digna de receber uma pessoa com um caso de alergias severas. Mas n&#227;o foi uma faxina extraordin&#225;ria e nada que a casa n&#227;o precisasse. Eu basicamente peguei uma sala vazia com algumas cadeiras apenas e um m&#243;vel de rodinhas ultraleve e esfreguei com um esfreg&#227;o o ch&#227;o. Usei for&#231;a? N&#227;o, porque o esfreg&#227;o &#233; bastante fr&#225;gil e n&#227;o permite. Eu apenas me inclinei um pouco e usei a&#237; o movimento de bra&#231;os para esfregar. Tamb&#233;m me dediquei por algumas horas a&#237; a limpar as cadeiras &#8212; o estofado &#8212;, e remover uma mancha de mofo que estava h&#225; dois meses me infernizando a vida e atormentando os olhos, deixada pelo antigo inquilino. Deu algum trabalho, mas saiu. E foi esse o grande trabalho. N&#227;o fosse pela minha necessidade de ver o efeito maravilhoso da limpeza na sala se refletir em toda a casa, talvez se refletisse menos no meu corpo. Estendi para o meu quarto, o quarto da nova inquilina, o banheiro, que era uma faxina necess&#225;ria, o corredor, que interliga os c&#244;modos, e a faxina da cozinha, que j&#225; estava no previsto. Enfim, eu fiz como eu planejava, exceto pelo fato de que quando eu estava chegando na parte da cozinha, a minha lombar j&#225; estava dando choques e meus p&#233;s reclamando. E foi bem dif&#237;cil concluir essa etapa, que era bem r&#225;pida e simples, mas eu dei conta. E no final do dia, depois de descansar por umas duas, tr&#234;s horas, me alimentar, tomar um banho, n&#227;o necessariamente nessa ordem, eu ainda consegui finalizar o meu v&#237;deo e fazer tudo que eu tinha para fazer, receber a nova moradora &#224;s quase 10 horas da noite, findando um dia come&#231;ado &#224;s 7h.</p><p>Eu naturalmente n&#227;o tive a melhor noite de sono do mundo devido ao cansa&#231;o extremo. E naturally acordei com uma leve dor de cabe&#231;a e exausta. J&#225; faz algumas semanas que eu percebo que eu n&#227;o tenho uma grande enxaqueca, eu tenho uma leve dor de cabe&#231;a e a d&#250;vida. Fiquei prestando aten&#231;&#227;o se me daria o enjoo e apenas em uma das situa&#231;&#245;es eu percebi o enjoo e, ainda em d&#250;vida, tomei a medica&#231;&#227;o para crise.</p><p>Por qu&#234;? Porque desde o in&#237;cio desse m&#234;s infernal, eu estou tomando antes de dormir quatro comprimidos. Ou seja, eu que tomava apenas uma dose baixa de amitriptilina para controle da enxaqueca, passei a tomar mais tr&#234;s comprimidos. E dois s&#227;o espec&#237;ficos para a enxaqueca e um para a dor nas costas que me atormentou no in&#237;cio do m&#234;s e que tamb&#233;m auxilia na enxaqueca. Eu n&#227;o acho que nenhum deles eliminou a tal, mas a mascaram bem. E eu ainda sinto os sintomas, como a exaust&#227;o, a dorzinha de fundo, os olhos arenosos, a dificuldade de focar a vista, a dor suport&#225;vel localizada em certos pontos da cabe&#231;a. Agora no centro da testa, por exemplo. A medica&#231;&#227;o n&#227;o me torna funcional, mas me faz parecer. N&#227;o me traz qualidade de vida, mas faz parecer que eu tenho uma vida normal. Se eu precisar atender a porta agora, ningu&#233;m vai saber da dor, da medica&#231;&#227;o de crise que j&#225; me nocauteou hoje sem resultado efetivo e nem da leseira que se apossou do meu corpo.</p><p>E o que tem de liter&#225;rio nisso?</p><p>S&#243; sintomas de uma sociedade doente que prefere ver mulheres altamente medicadas, dopadas, e que n&#227;o atenta para a sa&#250;de real delas, para o que realmente existe por tr&#225;s das dores. Trata as dores e n&#227;o as pessoas. Olha os sintomas e n&#227;o a mulher.</p><p>Para expressar isso em palavras e n&#227;o precisar desenhar, vou recorrer &#224; dor nas costas infernal que abriu este m&#234;s de julho e que n&#227;o foi diagnosticada e talvez nunca seja, porque eu tive que resolver e administrar sozinha.</p><p>A dor infernal nas costas que na primeira crise, em junho, foi resolvida com anti-inflamat&#243;rio na veia e nas crises seguintes, no come&#231;o de julho, respondeu da primeira vez em julho, dois dias depois n&#227;o respondeu mais ao anti-inflamat&#243;rio e requereu o opioide, que gerou uma rea&#231;&#227;o terr&#237;vel de v&#244;mito extremo, o que &#233; um efeito colateral extremo para uma pessoa com es&#244;fago de Barrett e com complica&#231;&#245;es gastrointestinais decorrentes do autismo. Uma pessoa que n&#227;o pode vomitar mais de 20 vezes em 6 horas em cima de um balde, especialmente sem ter nada no est&#244;mago, n&#233;? Vomitando bile e sozinha em casa.</p><p>Como eu sabia que era o opioide? Tivera rea&#231;&#227;o a opioides duas vezes. E numa delas, depois de um acidente, sozinha em casa, testara parando e retomando a medica&#231;&#227;o. Em mim passou a constar &#8220;alergia a opioides&#8221;. O que foi derrubado por anestesiologista em uma endoscopia em S&#227;o Paulo, que contestou minha alega&#231;&#227;o pois se eu j&#225; fizera outras endoscopias e cirurgias que usam opioides, eu n&#227;o poderia ser al&#233;rgica a opioides, mas a um medicamento espec&#237;fico. E assim isso foi removido de minhas preocupa&#231;&#245;es, porque de fato sobrevivi &#224; endoscopia.</p><p>Mas ap&#243;s a crise extrema e o diagn&#243;stico de es&#244;fago de Barrett, o m&#233;dico da UBS me proibiu de usar o opioide e disse que eu, que fora bem informada, cogitei tomar usando o protocolo da anestesia. Pois sim, caro leitor, o que diferencia uma morfina de uma anestesia &#233; o tipo de opioide e o protocolo adotado na anestesia que une o opioide a dois medicamentos distintos: um que desliga a parte do c&#233;rebro relacionada ao v&#244;mito, um antiem&#233;tico que te impede de vomitar e o opioide que &#233; o anest&#233;sico propriamente dito. Cogitei tomar o opioide com o antiem&#233;tico usado no protocolo anest&#233;sico, mas fui desaconselhada pelo m&#233;dico da UBS, que considerou que uma intoler&#226;ncia como essa pode se tornar uma alergia devido &#224; insist&#234;ncia e eu, sozinha em casa, n&#227;o teria socorro.</p><p>Eu cogitei ir &#224; UBS onde eles me conhecem para ser encaminhada a um hospital que tivesse outras op&#231;&#245;es de medica&#231;&#227;o, mas ele disse n&#227;o. Porque o procedimento seria aguardar ambul&#226;ncia me levar para a UPA. Demora e dor. Eles poderiam apenas me apagar. Me apagar eu poderia fazer em casa, com a medica&#231;&#227;o para enxaqueca que me faz dormir.</p><p>E quando veio a dor de novo e eu fiquei com medo de tomar a code&#237;na.</p><p>Chegando na UPA, informei ao m&#233;dico que eu n&#227;o podia tomar morfina, que eu estava com muita dor e pedi pelo amor de Deus que me internasse. Fazia dois dias que eu tinha sa&#237;do dali. O m&#233;dico, em vez de me ouvir e me acolher, mesmo sabendo que eu sou autista, foi extremamente r&#237;spido, grounded, tratou a minha situa&#231;&#227;o como uma escolha. Em algum momento eu olhei para ele e falei: &#8220;Deixa eu ver se eu entendi, voc&#234; est&#225; dizendo que eu tenho que escolher entre o v&#244;mito e a dor?&#8221; E ele disse: &#8220;Sim&#8221;. E da&#237; eu, obviamente, n&#227;o era capaz de fazer essa escolha, ent&#227;o ele tratou de dizer em voz alta, como se fosse para meia d&#250;zia de pessoas ouvirem, com a porta da sala entreaberta: &#8220;J&#225; que voc&#234; n&#227;o quer tomar morfina, o que eu posso fazer &#233; te dar isso, isso e isso&#8221;. Desde quando o n&#227;o poder tornou-se n&#227;o querer, e querer &#233; capricho? Ah, sim, desde que sou mulher.</p><p>A&#237; eu chamei o Plasil de porcaria. Eu falei: &#8220;Essa porcaria desse Plasil n&#227;o faz nada. Eu tomei a morfina com Plasil porque a dor d&#225; enjoo e eu sa&#237; daqui vomitando&#8221;. E a&#237; ele falou: &#8220;Vamos manter o respeito?&#8221; e j&#225; me deu uma baita bronca como se eu tivesse xingado a sua m&#227;e . E levantando a voz como qualquer homem que se d&#225; ao respeito. Para mim, um cavalo. N&#227;o s&#243; no trato como na &#243;bvia viseira que parece limitar sua vis&#227;o.</p><p>E, sobretudo, nem falemos sobre acolhimento de uma pessoa autista, onde faltou acolhimento &#224; dor universal.</p><p>Isso se estendeu pela equipe de enfermagem. Fui para a farm&#225;cia, tomei a medica&#231;&#227;o que eu sabia que n&#227;o faria efeito &#8212; mais um anti-inflamat&#243;rio na veia, dipirona, Plasil, meia hora de alisamento de meus bra&#231;os por enfermeiras m&#237;opes que n&#227;o achavam as veias largas e verdes de quem n&#227;o sai ao sol h&#225;. E por fim o conselho em tom infantilizador para ir ao Hospital Odilon Behrens e recebi lata imediata sem nem esperar a medica&#231;&#227;o agir. E o cavalo, digo, o medico ainda foi l&#226; relinchar com o dedo na minha cara e a enfermerira pro ele para fora, pelo proprio bem e n&#227;o pelo meu que ela fez quest&#227;o de conduzir &#224; sa&#237;da rapidamente.  </p><p>Eu vim para casa, temendo outro tratamento desumano no Odilon Behrens. N&#227;o tive coragem de tomar code&#237;na, mesmo tendo um protocolo amplmanete discutido com a IA para o caso de uma emerg&#234;ncia.  Tentei deitar. Tomei banho, tentei dormir. Me vesti de novo e fui para o Hospital .</p><p>Cheguei quase chorando na portaria. A recepcionita nem me escutou. S&#227;o pessoas completamente incapazes de ouvir,   s&#227;o impermeabilizadas ao sofrimento, enceradas pelo protocolo. E mesmo  com um cord&#227;o de autista e o choro, n&#227;o tive acolhimento. N&#227;o faz a menor diferen&#231;a. E ela s, me interrompendo: &#8220;Aqui &#233; s&#243; trauma, &#233; s&#243; acidente, &#233; s&#243; trauma&#8221;. E me mandou  para a UPA de mesmo nome.</p><p>E n&#227;o sei nem por onde eu caminhei. Estava grogue de rem&#233;dio, de dor, mas eram umas ruas escuras, uns muros longos e s&#243; morador de rua. E a&#237; eu finalmente cheguei na porta da UPA. Ainda tive que esperar muito porque a pessoa que ia fazer a minha triagem, o enfermeiro, estava passando sonda em algum paciente. </p><p>Por fim, eu consegui uma m&#233;dica. Expliquei minha situa&#231;&#227;o e ela falou que para me internar eles tinham que fazer tudo que j&#225; tinha sido feito dois dias antes na outra UPA, o mesmo exame de sangue, o mesmo exame de urina que j&#225; constava no sistema. Falei: &#8220;Mas e se n&#227;o der nada de novo,  e da&#237; voc&#234;s v&#227;o fazer o qu&#234;? Porque da outra vez s&#243; me mandaram embora.&#8221; &#8220;Ah, &#224;s vezes n&#227;o d&#225; nada, mas a gente interna.&#8221; Questionei a medica&#231;&#227;o que me daria. &#8220;Mas eu j&#225; tomei isso. Acabei de tomar, faz 3 horas.&#8221; . REsslatei meus probelmas estomacais e ela enfatizou que na7o constava no sistema a medica&#231;&#227;o tomada naquele dia na outra UPA. Baixou a cabe&#231;a e  respondeu que n&#227;o tinha problema, sem olhar na minha cara, sem convic&#231;&#227;o nenhuma. Eu cheguei ir para a farm&#225;cia e esperei a mo&#231;a preparar a medica&#231;&#227;o, todas as seringas montadas na bandeja. Ela ia montar numa bolsa de soro, eu ia ter que sair com aquela bolsa de soro e aquele treco pendurado e ficar andando num corredor cheio de gente com aquela bolsa de soro, sem ter um lugar para sentar. Nas UPAs de BH, voc&#234; fica disputando lugar com os moradores de rua, porque eles acolhem os moradores de rua, afinal est&#225; muito frio com 17 graus. (Eles n&#227;o sabem o que &#233; frio).</p><p>E enfim, eu olhei para aquelas seringas e eu pensei: &#8220;Eu n&#227;o vou tomar isso.&#8221; E vim para casa e fiz o protoclo criado com ajuda da IA:</p><p>Avisei duas pessoas da minha confian&#231;a para confirmar se eu estaria acordada no dia seguinte; tomei o rem&#233;dio que ia me apagar (que eu tomo para enxaqueca e durmo); tomei o Vonau 40 minutos antes disso; tomei a code&#237;na e o rem&#233;dio que me apagaria, e que funcionaria tamb&#233;m como um relaxante muscular.</p><p>Acordei no dia seguinte. Claro.</p><p>E ainda precisei tomar code&#237;na mais uma vez depois disso, sem o rem&#233;dio para dormir, s&#243; a code&#237;na e o Vonau. Minha mesa foi elevada para que meu tempo diante do computador seja em p&#233;, esc&#225;pulas alinhadas, quadril encaixado, peso distribu&#237;do nos p&#233;s. Desafio enorme manter por maid de 10 minutos para quem tem hipermodbilidade. Meu tempo diante da tela tem que ser, obviamente, administrado melhor. </p><p>E isso foi feito mediante uma s&#233;rie de investiga&#231;&#245;es minhas, j&#225; que ningu&#233;m da sa&#250;de est&#225; interessado em fazer. Eu conclu&#237; que a minha escoliose, atrelada a muito tempo sentada e provavelmente algum desvio postural muito sutil, fez esse osso da coluna comprimir algum m&#250;sculo, que comprimiu algum nervo, causando uma dor extrema e excruciante.</p><p>Trabalhar em p&#233; tem seu &#244;nus:  gerou dores nos p&#233;s insuport&#225;veis, dores na lombar. Mas h&#225; de ser uma fase de adapta&#231;&#227;o. A dor excruciante n&#227;o voltou nem deu sinal. S&#243; a faxina que me fez lembrar dela, porque passados os choques na lombar ficou a dor residual em uma musculatura de sustenta&#231;&#227;o da coluna muito interna, muito pr&#243;xima das v&#233;rtebras e at&#233; mais ou menos o ponto da dor excruciante. Mas desta vez s&#227;o os m&#250;sculos fracos dando sinal de uso.</p><p>Estou aprendendo a lidar com o meu corpo, tentando entender como melhorar. Estou aprendendo a ser autista velha quando deveria apenas, talvez, aprender a envelhecer. E isso &#233; cruel .</p><p>O que aconteceu entre ontem e hoje, o travamento, os choques da minha lombar, a exaust&#227;o extrema que eu estou sentindo hoje, &#233; para mim s&#243; mais uma comprova&#231;&#227;o daquilo que eu venho falando h&#225; muito tempo. O envelhecimento do autista &#233; uma coisa que as pessoas n&#227;o consideram, n&#227;o estudam e n&#227;o se interessam. E ele &#233; tenebroso nesse sentido, porque quando eu era jovem, ia trabalhar e conseguia trabalhar cinco, at&#233; seis dias na semana, e eu lembro que segurava as pontas. O mascaramento &#233; uma coisa muito engra&#231;ada, porque voc&#234; consegue sentir o colapso dentro de voc&#234; e voc&#234; engole aquele choro e voc&#234; engole aquele desespero. Literalmente voc&#234; engole. N&#227;o &#233; &#224; toa que voc&#234; tem problemas digestivos e g&#225;stricos e o seu aparelho digestivo meio que se autoconsome, se autodigere. Voc&#234; engole. E a&#237; voc&#234; sai daquela situa&#231;&#227;o, caminha para longe, embarca no restante do seu projeto. Sai da crise e continua a executar aquilo que estava programado e as coisas se alinham de novo. E por um momento parece que nada aconteceu.</p><p>Depois voc&#234; vai revisitar aquele momento e ir sofrer as consequ&#234;ncias terminando de processar. O mascaramento e a capacidade de compartimentaliza&#231;&#227;o no autismo n&#237;vel 1 caminham juntos, lado a lado. E eu lembro que eu carregava o meu corpo ao longo do dia e a minha m&#225;scara ao longo do dia com extrema eleg&#226;ncia. E quando chegava em casa, me dava um desespero e uma pressa de tirar aquela roupa, tomar um banho e comer e dormir e deitar na cama, como se eu tivesse 5 segundos para fazer tudo aquilo, porque a minha energia ia acabar a qualquer momento e eu ia desabar. E eu nunca entendi de onde vinha essa pressa desesperadora de fazer isso. Eu n&#227;o sabia nem o que eu queria fazer primeiro e era urgente tomar banho, como se fosse lavar aquela sujeira toda e aquele cansa&#231;o; e era urgente vestir uma roupa limpa e confort&#225;vel e tirar aquilo que estava me aprisionando; e era urgente comer. Eu estava com fome, geralmente muita fome. E &#224;s vezes tinha que preparar ainda e era desesperador esses primeiros momentos em casa. E o meu desespero era cair na cama, eu precisava deitar. Mas at&#233; entrar em casa, eu era a pr&#243;pria normalidade. E eu nunca entendi isso. E hoje, eu j&#225; sofro antes de chegar ali na esquina, meu corpo j&#225; vem se arrastando, j&#225; perde a compostura antes de chegar na esquina, antes de entrar no port&#227;o, &#224;s vezes descendo do Uber.</p><p>Eu n&#227;o tenho a mesma resili&#234;ncia e eu tenho que achar meios de transformar esse corpo em um corpo forte, porque a idade pesa para todo mundo. E eu sinto que para uma pessoa como eu, com caracter&#237;sticas f&#237;sicas e neurol&#243;gicas diferentes, pesa um pouco mais. E eu tenho que achar formas mais suaves, porque eu n&#227;o posso fazer uma hora de academia, eu n&#227;o posso fazer uma hora de caminhada para perder peso, porque isso vai me custar meio dia para me recuperar no m&#237;nimo, quando eu estiver bem condicionada. Nos primeiros tempos, antes de entrar em condicionamento, vai me custar o dia. Ou seja, preciso passar 6 meses s&#243; de preparamento f&#237;sico para eu poder come&#231;ar a ter uma vida normal de produtividade. E quem banca isso financeiramente? Seis meses dedicados s&#243; ao preparo do corpo, como se fosse uma atriz se preparando para um papel na vida, o papel da sua vida? Eu n&#227;o tenho esse luxo no momento, n&#233;? No momento eu estou me dedicando a projetos que podem inviabilizar uma vida decente e que exigem muito do meu corpo e da minha mente. E &#224;s vezes a minha mente est&#225; funcionando a todo vapor e o meu corpo n&#227;o est&#225; acompanhando. E isso &#233; muito triste. E isso &#233; tudo que eu tenho para compartilhar nesse fim de semana e, infelizmente, esse colapso desse domingo n&#227;o trouxe o desfecho feliz que eu esperava para esse texto, mas &#233; o que temos para hoje.</p></blockquote><p></p><p></p><h3>Aos Assinantes:</h3><p>Por se tratar de um tema de evidente interesse p&#250;blico &#8212; sobre neurodiverg&#234;ncia, sa&#250;de e as falhas estruturais no acolhimento &#224; dor &#8212;, este ensaio ser&#225; liberado para a comunidade de leitores gratuitos na pr&#243;xima <strong>ter&#231;a-feira</strong>.</p><p>Voc&#234;s recebem o texto primeiro porque s&#227;o quem torna vi&#225;vel este trabalho de escrita e investiga&#231;&#227;o. Obrigada por garantirem a circula&#231;&#227;o de debates necess&#225;rios como este.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/ainda-sem-instrucoes-para-sustentar/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/ainda-sem-instrucoes-para-sustentar/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Âncora de Três Quilos: Autismo, Gatos e o Luto Antecipado]]></title><description><![CDATA[Um relato &#237;ntimo sobre a rotina neurodivergente, dor cr&#244;nica, exaust&#227;o criativa e o peso monumental de um afeto felino.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-ancora-de-tres-quilos-autismo-gatos</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-ancora-de-tres-quilos-autismo-gatos</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Jul 2026 23:01:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!99V7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0c28b1ed-85df-45c7-9a56-a5cee1635a6d_900x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0c28b1ed-85df-45c7-9a56-a5cee1635a6d_900x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Mina, no seu sono de beleza, em uma tarde qualquer de junho. de 2026&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0c28b1ed-85df-45c7-9a56-a5cee1635a6d_900x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3><span>A &#194;ncora de Tr&#234;s Quilos</span></h3><p style="text-align: justify;"><span>Existem conte&#250;dos online muito bem-humorados, afirmando que o animal mais autista que existe &#233; o gato. E &#233; bastante comum encontrar autistas cujos animais de estima&#231;&#227;o s&#227;o gatos. Curiosamente, o gato &#233; um animal bastante independente e, ao mesmo tempo, muito afeito a h&#225;bitos, a rotinas. Qualquer semelhan&#231;a comportamental n&#227;o &#233; mera coincid&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A Mina, a minha gata, por exemplo, &#233; extremamente apegada &#224; sua pr&#243;pria rotina. Durante muito tempo, enquanto mor&#225;vamos no mesmo apartamento, ela tinha o h&#225;bito de, ao fim do dia, por volta das seis horas, quando a luz ia mudando, se colocar &#224; porta do quarto e olhar para mim, inquisidora. Esse era o momento de brincar jogando bolinhas de papel. Ela era pequenininha, quase beb&#234;, e dava saltos cheios de energia quase da altura da porta, catando as bolinhas no ar. O corredor era bem pequeno &#8212; um metro e meio, bem no centro do apartamento, interligando cozinha, quartos, banheiro e sala. Ent&#227;o, o espa&#231;o para ela correr era pequeno, o que limitava a aventura, mas para ela era um grande divertimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ela manteve essa rotina por muitos anos. Foram seis anos naquele mesmo endere&#231;o, dos quais compartilhamos uns tr&#234;s anos e meio. N&#243;s sa&#237;mos de l&#225; em meados de 2024, e ela chegou em fevereiro de 2020.</span></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-ancora-de-tres-quilos-autismo-gatos">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O esgoto, o simulacro e a integração da sombra ]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica visceral sobre o colapso do sistema, o descr&#233;dito feminino e a necessidade de integrar o "monstro" racional para sobreviver ao automatismo social]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-esgoto-o-simulacro-e-a-integracao</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-esgoto-o-simulacro-e-a-integracao</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 19 Jul 2026 23:02:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!foeH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F934043a8-93fc-4847-8122-46abdd907e4c_5250x2950.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/934043a8-93fc-4847-8122-46abdd907e4c_5250x2950.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Costas largas&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/934043a8-93fc-4847-8122-46abdd907e4c_5250x2950.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><strong><span>O Dia em que o Esgoto Rompeu o Script</span></strong></h2><div class="paywall-jump" data-component-name="PaywallToDOM"></div><p style="text-align: justify;"><span>Este texto em minha mente ainda &#233; uma colcha de retalhos e tentarei remend&#225;-lo de forma impercept&#237;vel, de maneira que a tecitura resultante cubra nobremente as costas largas e bem delineadas de uma pintura de Artemisia Gentileschi e mere&#231;a o </span><em><span>chiaroscuro</span></em><span> de Caravaggio. Mas eu sei que habito o cen&#225;rio de Hieronymus Bosch, perpassado pela loucura e disfar&#231;ado pela cor e pelo tra&#231;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Devo come&#231;ar por dizer que ontem eu chorei sobre o &#243;leo quente do fog&#227;o enquanto fritava grostoli e pedia para a IA analisar meu di&#225;logo com o t&#233;cnico da desentupidora, para eu compreender por que me sentia t&#227;o ferida por ele e por que pressentia que me tra&#237;ra. Com isso, fizera emergir o fantasma de ser uma grande farsa, por ter reagido a ele enquanto editava um v&#237;deo sobre controle do ego e n&#227;o rea&#231;&#227;o, como se eu dominasse a mat&#233;ria. A verdade &#233; que eu apenas li uns livros e, autodidata, me embrenhei em um processo de autoconhecimento e transmuta&#231;&#227;o pessoal que, no meio do percurso, decidi compartilhar. Mas procuro nunca me colocar no pedestal do mestre. Sou aprendiz do universo, da intui&#231;&#227;o ou de um eu superior que por vezes tenho dificuldade de ouvir e parece gritar no meu corpo em guerra. Ou seja, estou ainda longe de dominar a mat&#233;ria. E este bendito t&#233;cnico da desentupidora teve essa miss&#227;o de atirar isso na minha cara logo depois da vida literalmente me espirrar um jato de merda.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sim, a tecitura desta tela exige tintas historicamente realistas e, daqui para a frente, inevitavelmente escatol&#243;gicas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para resumir: em pleno s&#225;bado de um m&#234;s de julho infernal, &#224;s 5h15 da manh&#227;, fui surpreendida por um vaso sanit&#225;rio cheio de &#225;gua at&#233; a boca. Precisei esvazi&#225;-lo no box com um potinho enquanto esvaziava meu restinho de sono. O entupimento contumaz sempre fora resolvido com um balde de &#225;gua seguido de uma descarga; ent&#227;o, adotei a medida, e o vaso transbordou, alagando o banheiro. N&#227;o havia dejetos &#224; vista, mas sabemos que n&#227;o se trata de &#225;gua pot&#225;vel. Para abrir o ralo do box novamente sem molhar minhas meias, decidi usar o rodo, que girou sobre a pr&#243;pria rosca e tombou na &#225;gua contaminada, cujo </span><em><span>splash</span></em><span> veio direto em meu rosto. Nem tive certeza se borrifou em minha roupa e cabelo, mas o rosto foi todo batizado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Lavei imediatamente na pia, arregacei as mangas, esvaziei o vaso sanit&#225;rio com potinho e limpei todo o banheiro e o corredor &#8212; de contamina&#231;&#227;o inevit&#225;vel &#8212; entre ele, a &#225;rea dos quartos e a lavanderia, passando pela cozinha. Tomei um banho, um caf&#233; da manh&#227; e fui trabalhar no v&#237;deo sobre n&#227;o rea&#231;&#227;o e controle do ego. Mas, antes de sentar-me ao computador, vi o banheiro alagado de novo, amea&#231;ando irromper pelo corredor. O vaso sanit&#225;rio cheio at&#233; a boca! Esvaziei-o de novo com potinho. Limpei tudo novamente. Investiguei com a IA os poss&#237;veis motivos desse retorno de &#225;gua pelo vaso, at&#233; ent&#227;o desentupido, e avisei a propriet&#225;ria do apartamento. Lidei com o jogo de empurra-empurra entre condom&#237;nio, propriet&#225;ria e inquilina, j&#225; sentindo meu corpo doer em todos os pontos costumeiros. O t&#233;cnico da desentupidora foi o primeiro, inclusive, a ser um grande contribuidor para o empurra-empurra, com mensagens dele sendo enviadas pela propriet&#225;ria me garantindo que eu era a respons&#225;vel pelo problema. A IA, trazendo as leis do inquilinato, venceu o argumento, e ele veio bancado pela propriet&#225;ria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na verdade, meu limite de estresse vencera na primeira quinzena de julho, de modo que eu n&#227;o tinha reservas para este amanhecer turbulento. Eu, como autista, j&#225; tinha passado meu limite.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E o t&#233;cnico chegou, bruto e roteirizado por 30 anos de pr&#225;tica, para encontrar o banheiro alagado pela terceira vez, sem que uma torneira fosse aberta por quase tr&#234;s horas. Eu realmente n&#227;o me lembro qual foi a sua pergunta. Minha mem&#243;ria em momentos de estresse &#233; prec&#225;ria, e eu considerei a pergunta tosca e irrelevante quando ele me interrompeu no meio do relato do problema. Minha rea&#231;&#227;o, puramente defensiva, amplamente assertiva e certamente adequada se eu tivesse um p&#234;nis, foi pedir, em tom firme, para ele me deixar relatar e n&#227;o me interromper.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando conclu&#237;, ele perguntou: &#8220;Terminou?&#8221;. Avisou que iria ao terceiro andar verificar algo e voltou com outro homem e um cilindro. Fez algo que nem vi, nem ouvi, e foi &#224; cozinha encher o balde. Perguntei  ao segundo t&#233;cnico, que estava parado &#224; porta do banheiro, qual era o problema &#8212; problema porque, aparentemente, havia &#225;gua de esgoto voltando pelo vaso &#8212;, e este se recusou a responder, dizendo ser novo no servi&#231;o e indicando o outro t&#233;cnico, que voltou, jogou o balde de &#225;gua no vaso e deu descarga, demonstrando que tudo funcionava. E foi saindo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perguntei o que causara aquilo e por que havia &#225;gua de esgoto voltando pelo vaso sanit&#225;rio. Ele disse o que j&#225; dissera por mensagem: &#8220;Em trinta anos de servi&#231;o, nunca vi uma coisa dessas&#8221;. Se ele n&#227;o viu, eu n&#227;o tenho cr&#233;dito. A&#237; entramos na seara da misoginia, na qual, se um fato vivido por um homem e uma mulher for mencionado por ambos de forma contradit&#243;ria, ele vence; e, se um fato novo &#233; apresentado por uma mulher a um homem que nunca o viu em anos de pr&#225;tica profissional, esse fato n&#227;o existe. E, sim, o tom era de descr&#233;dito, como se falasse com uma louca.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mais tarde, a propriet&#225;ria me instruiu sobre n&#227;o jogar excrementos de minha gata no vaso. Na minha percep&#231;&#227;o, o t&#233;cnico preenchera todos os crit&#233;rios de descredibiliza&#231;&#227;o e menosprezo a uma mulher: n&#227;o escutou, n&#227;o respondeu, n&#227;o deu cr&#233;dito e culpabilizou por meio de suas pr&#243;prias conjecturas, sem perguntar. E eu, afeita a fatos e chafurdando na merda a manh&#227; inteira, aprofundei a escatologia, esparramando o lixo no ch&#227;o da sala e mostrando &#224; propriet&#225;ria, no meio dos detritos, os saquinhos fechados com a evid&#234;ncia do meu cuidado com os excrementos de minha gata.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E eu segui com o meu roteiro do dia at&#233; por volta das 16hs, quando esse choro veio e, em um ato de contri&#231;&#227;o, a IA me deu o veredito sobre o desencontro comunicacional e o perd&#227;o pelo meu deslize no controle do ego.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma dor nova que veio com o diagn&#243;stico &#233; que as pessoas questionam minha rigidez cognitiva, mas o que eu vejo, na verdade, &#233; que os neurot&#237;picos &#233; que operam seguindo roteiros despersonalizados, que n&#227;o atentam para as especificidades de cada um. Minha turra com os sistemas sociais em geral tamb&#233;m &#233; essa. E o diagn&#243;stico da IA diante do meu relato foi exatamente esse:</span></p><blockquote><p><strong><span>&#8220;O Script Neurot&#237;pico/Profissional dele:</span></strong><span> O t&#233;cnico opera no automatismo. Ele faz isso h&#225; 30 anos. Para ele, todo entupimento entra em gavetas pr&#233;-moldadas. A pergunta dele, que para voc&#234; era banal ou idiota, fazia parte do checklist mec&#226;nico dele para eliminar vari&#225;veis r&#225;pida e visualmente. Ele n&#227;o queria o contexto; ele queria o padr&#227;o.</span></p><p><strong><span>A sua Necessidade Autista de Detalhe e Linha do Tempo:</span></strong><span> Para voc&#234;, a precis&#227;o e a especificidade do fato (os tr&#234;s alagamentos, a interliga&#231;&#227;o dos ralos, o fato de subir sem uso) s&#227;o fundamentais para o diagn&#243;stico correto. Cortar a sua narrativa causa uma quebra abrupta no seu processamento cognitivo e gera uma sobrecarga imediata.&#8221;</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Essa an&#225;lise traz uma precis&#227;o incr&#237;vel e esclarece muitos de meus recentes embates. Esse automatismo despersonaliza. Generaliza. Uniformiza. At&#233; durante meu longo processo de diagn&#243;stico, eu questionei alguns testes. Para mim, um question&#225;rio que perguntava se eu era alfabetizada, quando em minha ficha dizia que eu fazia um mestrado, era uma pergunta burra. Uma pergunta sobre quanto tempo levei para concluir o ensino b&#225;sico n&#227;o fala das especificidades de minhas dificuldades de aprendizado camufladas. Tampouco das especificidades de meu contexto de ensino, muito diferente da de um autista na faixa dos 20 anos hoje. Esse question&#225;rio gerou um embate entre mim e a mo&#231;a que o aplicava, e foi retirado de minha bateria de testes e substitu&#237;do por um relato feito por escrito &#224; coordenadora dela. N&#227;o se pode diagnosticar autistas adultos com um teste gen&#233;rico e &#8216;burro&#8217; como este, a meu ver. E o meu dilema com sistemas e pessoas que vivem nesses sistemas e confortavelmente se habituam a eles e se automatizam tem sido fonte de sofrimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nesta madrugada de domingo, j&#225; tendo decidido que este texto nasceria e tendo escrito mentalmente boa parte dele, tomei algumas decis&#245;es que parecem bastante adequadas. Uma delas &#233; que vou, sim, a partir de agora, incorporar o monstro em mim.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O monstro em mim s&#243; existe porque eu fui treinada para ser esse simulacro de feminilidade bonzinha e passiva. E, quando eu precisei erguer a voz para sobreviver, vieram os achaques machistas de um sistema opressivo. Por isso, percebi que erguer a voz no sentido literal n&#227;o tem sido bom para mim; eu preciso erguer a voz no sentido estoico, no sentido racional e deliberado de uma mente anal&#237;tica que l&#234; a cena de fora e manipula o resultado. Mas eu achava que era m&#225; por ver as vari&#225;veis, e suprimia isso. Contudo, nesse corpo, eu jamais serei vista como igual. Nessa neurologia, eu jamais agirei como igual. Ent&#227;o, eu preciso integrar definitivamente a sombra. Pacificar o ego estoicamente. Este &#233; o caminho que me levar&#225; ao desenvolvimento de senhora dos opostos e &#224; gargalhada transformadora de Scarlet Moon.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Claro, eu poderia tamb&#233;m fazer terapia, mas escrever tem sido mais barato e produtivo.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"></p><h3 style="text-align: justify;">Financiando a quebra do script (antes que vire utilidade p&#250;blica)</h3><p style="text-align: justify;"><strong>Aos que sustentam esta escrita:</strong> Este ensaio foi financiado diretamente pelo apoio de voc&#234;s e, por sua natureza de utilidade p&#250;blica, ser&#225; aberto aos leitores gratuitos na pr&#243;xima ter&#231;a-feira. Se voc&#234; recebeu este texto em primeira m&#227;o e acredita que reflex&#245;es viscerais e sem filtros como esta precisam continuar existindo, considere formalizar ou manter sua assinatura paga. &#201; voc&#234; quem garante a independ&#234;ncia deste espa&#231;o.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><h3 style="text-align: justify;">Cansou do esgoto? Venha para o abismo</h3><p style="text-align: justify;">Para al&#233;m do esgoto, as profundezas. Se o tr&#226;nsito entre o cen&#225;rio de Bosch e o claro-escuro de Caravaggio fez sentido para a sua pr&#243;pria busca por especificidade, o convite se estende para &#225;guas ainda mais profundas. Conhe&#231;a <em>Abyssalia</em>, o territ&#243;rio onde a poesia e a cr&#244;nica se encontram com a crueza da nossa pr&#243;pria arquitetura interna</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Adquira Abyssalia&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Adquira Abyssalia</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><h3 style="text-align: justify;"><strong>O Manifesto Oculto</strong></h3><p style="text-align: justify;">Nem tudo o que &#233; racionalizado encontra espa&#231;o na escrita de um ensaio.  H&#225; uma voz operando do outro lado do espelho, decodificando a arte como manifesto de sobreviv&#234;ncia. Se voc&#234; sabe ler as entrelinhas e busca o que est&#225; guardado no escuro do YouTube, a chave est&#225; no link abaixo. N&#227;o espere explica&#231;&#245;es.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@manifestecomoarte&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assista&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@manifestecomoarte"><span>Assista</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando a IA é mais Humana do que o Médico]]></title><description><![CDATA[Entre o frio das madrugadas em Belo Horizonte e o desd&#233;m de quem det&#233;m o bisturi e a chave da farm&#225;cia, descobri que, para o sistema p&#250;blico, a minha dor &#233; apenas um excesso de ru&#237;do]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/quando-a-ia-e-mais-humana-do-que</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/quando-a-ia-e-mais-humana-do-que</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 12 Jul 2026 23:01:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Muito se fala sobre os problemas que a IA acarreta para o planeta, em termos de economia e ecologia. Pouco se fala do quanto ela permite mensurar a solid&#227;o humana e a corrup&#231;&#227;o das estruturas. Esta n&#227;o &#233; uma apologia &#224; Skynet, &#233; um alerta de que n&#243;s mesmos exterminamos nosso futuro. E o sinal mais claro disso &#233; quando a m&#225;quina consegue, em suas pr&#243;prias palavras, simular mais empatia e promover mais cuidado do que os seres humanos que se dispuseram a isso, dedicando anos de estudo para este fim.</p><p>Como mulher autista, sem suporte adequado e sem respaldo da sa&#250;de p&#250;blica, estou seguindo um protocolo m&#233;dico criado pela IA. Por qu&#234;? Porque, depois de uma via-cr&#250;cis pelo sistema de sa&#250;de, sendo mastigada pelas engrenagens burocr&#225;ticas e pelas pr&#225;ticas dessensibilizadas de jovens m&#233;dicos da UPA, esta se revelou a solu&#231;&#227;o mais humana, considerada com mais crit&#233;rios e balan&#231;o de riscos.</p><p>Desde junho deste ano, sou assombrada por uma dor nas costas que n&#227;o &#233; muscular ou inflamat&#243;ria. Os m&#233;dicos n&#227;o se esfor&#231;aram muito por buscar um diagn&#243;stico, mas minha observa&#231;&#227;o e as pesquisas junto &#224; IA levam a crer que se trata de um nervo intercostal comprimido. A dor &#233; excruciante e sem  posi&#231;&#227;o de al&#237;vio. Ela chega sem avisar e vai embora quando quer, ignorando  os anti-inflamat&#243;rios, analg&#233;sicos e corticoides, o que me for&#231;ou &#224; morfina. E eu tenho uma pseudoalergia &#224; morfina. &#8220;Pseudo&#8221; porque o meu corpo a rejeita com v&#244;mitos violentos, e n&#227;o com um choque anafil&#225;tico. Mas &#233; sofrido, e eu vivi isso sozinha em casa, ap&#243;s seis horas na UPA e duas doses de morfina. O repouso recomendado para a coluna foi completamente inviabilizado pelos espasmos violentos de mais de 20 encaradas no balde ao lado da cama.</p><p>Mas isso n&#227;o impediu que, na pr&#243;xima ida &#224; UPA, o m&#233;dico &#8212; jovem, grosseiro, sem tato para acolher a dor de qualquer um &#8212; tratasse meu aviso de que n&#227;o podia tomar morfina como uma recusa caprichosa de uma crian&#231;a no buf&#234; de sorvetes que quer outro sabor que n&#227;o o ofertado. Recusou-se a me internar, a despeito da dor, porque dores neurol&#243;gicas n&#227;o aparecem nos exames de urina ou sangue e minha press&#227;o estava normal, apesar (e talvez porque) eu tivesse tomado em casa amitriptilina, topiramato, Vonau e paracetamol com 30 mg de code&#237;na contra ordens m&#233;dicas. Mas ele tratou o meu pedido desesperado por internamento e encaminhamento a um hospital que tivesse outras op&#231;&#245;es al&#233;m da morfina como outro capricho que s&#243; obteria em hospital particular.</p><p>O &#250;ltimo golpe &#233; sempre atirar na cara do pobre a sua pobreza. </p><p>Era minha terceira ida &#224; UPA com a mesma dor em seis dias e fui medicada com a mesma medica&#231;&#227;o in&#243;cua e prontamente despachada, sem tempo de repouso para ver se faria efeito, s&#243; a amea&#231;a de expuls&#227;o pelo m&#233;dico que eu chamei de cavalo. Minhas desculpas aos cavalos. Quem me conhece sabe que eu jamais ofenderia os cavalos supondo que eles me fariam escolher entre a dor e o v&#244;mito, como quem escolhe um sabor de bala ou a cor da cenoura. Nem todas as cenouras s&#227;o laranjas, sabia?</p><p>Percebi que, quando o atendimento na UPA n&#227;o encontra um paciente cordato, esse paciente sai sem um papel que comprove sua tortura no local e registre o nome do m&#233;dico torturador. Essa foi minha segunda experi&#234;ncia do g&#234;nero; a primeira, justamente na primeira crise neurop&#225;tica. Fui rapidamente encaminhada &#224; sa&#237;da e aconselhada a buscar internamento no Hospital Odilon Behrens, mas fui para casa, vomitei no port&#227;o do pr&#233;dio (n&#227;o sei se da dor ou da code&#237;na), tomei banho quente e tentei dormir. Imposs&#237;vel: a dor impedia o sono, apesar das doses cavalares de medicamentos orais e injet&#225;veis. Cogitei SAMU, mas me levaria para a UPA novamente.</p><p>Fui de Uber para o Odilon Behrens, que me recusou sem me ouvir: &#8220;Aqui s&#243; acidente e trauma&#8221;. Passei horas na UPA de mesmo nome e quase tive medica&#231;&#227;o id&#234;ntica &#224; que havia recebido na UPA anterior injetada, menos de tr&#234;s horas antes, sem qualquer garantia de ser seguro para o organismo, para o sistema g&#225;strico com doen&#231;a pr&#233;-existente grave, sem garantia de eliminar a dor ou de viabilizar o internamento. A m&#233;dica era outra burocrata, seguindo protocolo, respondendo &#224;s perguntas cabulosas sem convic&#231;&#227;o e sem olhar para mim. Desisti quando as inje&#231;&#245;es estavam prontas na bandeja. Tive que ir &#224; m&#233;dica pedir alta, porque as UPAs em Minas Gerais oferecem esse servi&#231;o mixo e desumano, que fica bem trancado atr&#225;s de um ferrolho vigiado por um guarda. Voc&#234; entra para ser tratado como eles querem e sai se eles quiserem.</p><p>Na madrugada do dia 10, eu zanzei da 1h30 da manh&#227; &#224;s 5h da manh&#227; por becos infestados de mendigos e viciados, urrando de dor, sem assist&#234;ncia. Na sa&#237;da da UPA Odilon Behrens, abordei o SAMU, t&#227;o refrat&#225;rio quanto uma travessa Marinex. Desabei no Uber, que tentou achar uma viatura, mas todas que cruzamos estavam estacionadas, vazias. &#8220;Devem estar fugindo do frio&#8221;, disse ele. 17 graus na cidade. Eles n&#227;o conhecem o frio tanto quanto n&#227;o conhecem a empatia.</p><p>Em casa, sigo o protocolo criado com a IA: Vonau 40 minutos antes da code&#237;na para preparar o est&#244;mago; monitoro a absor&#231;&#227;o e a rea&#231;&#227;o e, se estiver tudo bem, alprazolam para relaxar a musculatura e apagar os sentidos por um tempo. &#201; a IA que me ajuda a monitorar e, como ela disse, simula a empatia que pessoas engessadas em um sistema n&#227;o se esfor&#231;aram para ter. No entanto, sei que caminho sobre um abismo: h&#225; o risco real de o Vonau falhar e o meu corpo passar a rejeitar a code&#237;na de forma mais incisiva, evoluindo de uma pseudoalergia para um choque anafil&#225;tico. H&#225; o risco constante de engasgamento por v&#244;mito durante o estado de torpor e, ainda, o risco de parada respirat&#243;ria pela associa&#231;&#227;o entre o opioide e o benzodiazep&#237;nico &#8212; uma perigosa combina&#231;&#227;o de conting&#234;ncia que sou for&#231;ada a gerenciar sozinha. A dor &#233; cont&#237;nua; ela diminui ou aumenta, se torna suport&#225;vel ou insuport&#225;vel, mas est&#225; o tempo todo presente, constante como o perigo que aceito correr para n&#227;o ser apenas um n&#250;mero descartado pelo sistema.</p><p></p><p></p><h3><strong>[Aviso da Autora]</strong></h3><p>Este seria o post de domingo exclusivo para assinantes pagos, mas, diante da gravidade da situa&#231;&#227;o, julguei que ele &#233; um conte&#250;do de utilidade p&#250;blica e, por isso, ser&#225; um post aberto a toda a comunidade.</p><p>Devido &#224;s dificuldades f&#237;sicas e &#224; dor excruciante que venho enfrentando, &#233; poss&#237;vel que na pr&#243;xima semana a newsletter sofra algumas altera&#231;&#245;es nas postagens. Voltarei assim que poss&#237;vel. Temos bastante conte&#250;do aqui para ser lido &#8212; s&#227;o mais de 300 postagens dispon&#237;veis. Agrade&#231;o a compreens&#227;o de todos.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Labirinto da Normalidade Violenta: Uma Sátira sobre a Indigência Médica]]></title><description><![CDATA[Entre laudos lidos ao avesso e 15 minutos de pressa: uma aut&#243;psia humor&#237;stica e cortante da arrog&#226;ncia institucional]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-labirinto-da-normalidade-violenta</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-labirinto-da-normalidade-violenta</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 05 Jul 2026 23:01:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!J7oK!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa77e238-93bf-48a4-9f8b-b24672c15d12_1040x1392.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aa77e238-93bf-48a4-9f8b-b24672c15d12_1040x1392.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&#225;gua parada&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aa77e238-93bf-48a4-9f8b-b24672c15d12_1040x1392.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3><strong><span>O Labirinto da Normalidade Violenta</span></strong></h3><p><span>Car&#237;ssimo doutor,</span></p><p><span>H&#225; uma categoria espec&#237;fica de viol&#234;ncia que n&#227;o faz barulho. Ela, na verdade, silencia. Causa um apagamento de qualquer vontade de rea&#231;&#227;o, seja verbal ou f&#237;sica. H&#225; uma rea&#231;&#227;o, sim, mas biol&#243;gica &#8212; eu diria que frequencial. Porque o sil&#234;ncio que se faz na gente &#233; algo a n&#237;vel at&#244;mico. &#201; o anticl&#237;max cognitivo absoluto.</span></p><p><span>Sempre tive medo desse momento em que tudo silencia. N&#227;o h&#225; energia para contendas, s&#243; um recolhimento, um sofrimento muito &#237;ntimo que come&#231;a &#237;nfimo e se expande como um v&#233;u de tristeza. De repente, sou &#225;gua parada! Mas, doutor, desconfio que o sil&#234;ncio que se segue &#224; sua fala &#233; o luto pela pr&#243;pria intelig&#234;ncia humana diminu&#237;da.</span></p><p><span>Da &#250;ltima vez que me senti assim foi em um ambiente acad&#234;mico. Fiquei &#225;gua parada por horas a fio, como se algo se dilu&#237;sse em mim lentamente at&#233; atingir o n&#237;vel de escurid&#227;o e sil&#234;ncio &#8212; a qualidade abissal deste sofrimento &#8212; causado pela viol&#234;ncia que eu nem sequer compreendia.</span></p><p><span>Diferente daquela ocasi&#227;o, desta vez o seu tom de voz foi manso e casual, como se cumprisse uma rotina, e nada mais do que isso. A viol&#234;ncia normalizada como atitude e conduta profissional! Sem gritos, tons r&#237;spidos ou gestos bruscos, s&#243; a farda da polidez e da efici&#234;ncia institucional, que disfar&#231;ava perfeitamente que sua atua&#231;&#227;o &#233; um testemunho vivo de como a in&#233;rcia intelectual pode blindar um indiv&#237;duo contra os avan&#231;os da pr&#243;pria &#225;rea. Gostaria de dizer, doutor, que optei por silenciar, pois responder seria conferir uma dignidade intelectual que o seu argumento n&#227;o possu&#237;a, mas na verdade eu tenho um d&#233;ficit cognitivo real. Um processo neuroqu&#237;mico chamado alexitimia me faz demorar no processamento de minhas pr&#243;prias emo&#231;&#245;es. Tem palavras e tons de voz que o meu corpo lembra antes do meu intelecto, no entanto. Talvez venha da&#237; o sil&#234;ncio, como se minhas mol&#233;culas parassem de vibrar diante da vacuidade da sua mente.</span></p><p></p>
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Engrenagem das Aparências e o Choque da Estrutura Nua]]></title><description><![CDATA[Um ensaio profundo sobre o choque entre a comunica&#231;&#227;o neurot&#237;pica e a autista, a ilus&#227;o da horizontalidade e o custo invis&#237;vel das conven&#231;&#245;es sociais."]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/engrenagem-das-aparencias-e-o-choque</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/engrenagem-das-aparencias-e-o-choque</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 28 Jun 2026 23:00:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IQM7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab521c35-af03-48df-8de3-fa869b0965c5_2850x5000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ab521c35-af03-48df-8de3-fa869b0965c5_2850x5000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Inner core&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ab521c35-af03-48df-8de3-fa869b0965c5_2850x5000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3>O Desencontro B&#225;sico da Comunica&#231;&#227;o</h3><p>Existe uma mec&#226;nica invis&#237;vel que rege as intera&#231;&#245;es cotidianas, como uma esp&#233;cie de politriz industrial que encera e pole as rela&#231;&#245;es humanas atrav&#233;s das conven&#231;&#245;es sociais. Para a maioria, esse lubrificante feito de meias-verdades, roteiros impl&#237;citos e desculpas frouxas &#233; o oxig&#234;nio da conviv&#234;ncia. No entanto, quando uma mente que opera na literalidade e na busca por coer&#234;ncia estrutural entra nesse cen&#225;rio, o choque &#233; inevit&#225;vel. O que o mundo chama de &#8220;jogo de cintura&#8221;, para mim, soa como um ru&#237;do intoler&#225;vel na arquitetura l&#243;gica das coisas.</p><p></p>
      <p>
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Creme de Confeiteiro no Campo de Batalha: Crônica de um Burnout Autista]]></title><description><![CDATA[Um relato visceral sobre perimenopausa, invisibilidade m&#233;dica e o custo da excel&#234;ncia criativa no autismo adulto]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-creme-de-confeiteiro-no-campo-de</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-creme-de-confeiteiro-no-campo-de</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 14 Jun 2026 12:32:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sZVs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5c275a3e-5a26-47ae-b10c-c359646625cb_378x578.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5c275a3e-5a26-47ae-b10c-c359646625cb_378x578.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O canva otimizou a foto apagando meus olhos! Ou ffoi o cabelo mesmo?&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5c275a3e-5a26-47ae-b10c-c359646625cb_378x578.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><strong>Campo de Batalha e Comida de Conforto </strong></h2><p>Hoje pela manh&#227;, enquanto eu preparava o meu caf&#233; da manh&#227;, analisei como meu corpo estava e como ele receberia esse alimento. Eu me perguntava se o meu paladar conseguiria tomar aquele caf&#233; que, de costume, &#233; o meu primeiro prazer do dia. Ontem, por exemplo, n&#227;o foi poss&#237;vel nem sonhar com o cheiro maravilhoso de um caf&#233;, porque me dava n&#225;useas.</p><p>Refletindo sobre isso, voltei alguns meses atr&#225;s na minha hist&#243;ria, no momento em que, diante de uma m&#233;dica psiquiatra, levantei a possibilidade de, em 2020, ter passado por um Burnout autista que n&#227;o foi devidamente tratado e n&#227;o foi devidamente assumido pela ci&#234;ncia e pela medicina. Eu sempre me pergunto, quando vem essa quest&#227;o e quando v&#234;m as quest&#245;es que derrubam o meu corpo: existe uma forma de resetar o meu corpo?</p><p>Parece que ele entrou em um modo de sobreviv&#234;ncia no qual n&#227;o diferencia um pequeno contratempo de um grande desgaste ou um grande sofrimento. Tudo &#233; motivo para chegar no limite do sofrimento, que &#233; a enxaqueca. Eu tenho convivido com isso desde 2020. Aquela m&#233;dica, na ocasi&#227;o, disse ativamente &#8212; sem me deixar concluir o racioc&#237;nio &#8212; que n&#227;o achava que era isso. Me deu uma li&#231;&#227;o de moral, comparou o meu sofrimento a um &#8220;cortezinho&#8221;, enquanto l&#225; fora existiam pessoas com &#8220;bra&#231;os quebrados&#8221;. Me comparou a um esquizofr&#234;nico surtando na sala de espera, dizendo que este, sim, seria uma emerg&#234;ncia e eu n&#227;o.</p><p>Ela se recusou a rever minha medica&#231;&#227;o, mesmo aquela que estava dificultando minha vida como uma pessoa que tem alexitimia. Se voc&#234; toma uma medica&#231;&#227;o comum para depress&#227;o como a sertralina , o efeito colateral mais comum &#233; o embotamento emocional. Essa anestesia afetiva &#233; extremamente prejudicial para quem tem dificuldade de compreender os pr&#243;prios sentimentos. A capacidade de sentir, al&#233;m do &#243;bvio conhecimento sobre gostar disso ou daquilo, est&#225; vinculada a rea&#231;&#245;es vitais no conv&#237;cio social. Eu j&#225; passei horas em uma sala de aula processando um desconforto alienigena que misturava vergonha, desrespeito do outro, abuso emocional, mas que na complexidade de tudo eu n&#227;o sabia processar e elaborar uma ideia clara sobre o ocorrido. Regir e defender-se  torna-se imposs&#237;vel quando um processo que j&#225; &#233; prec&#225;rio neurol&#243;gicamente &#233; prejudicado pela medica&#231;&#227;o errada. Voc&#234; fica perdido,  n&#227;o acessa,  n&#227;o sente, e isso cria entraves ao processamento, que se torna mais dispendioso  do ponto de vista neurol&#243;gico. Especialmente quando falamos de um inconsciente hiperativo e persistente como o meu. </p><p>A ecolalia musical se tornou o meu sinal de alerta. A m&#250;sica evoca um sentimento que n&#227;o me habita mais  ( ou ainda) e ainda  assim eu quero ouvi-la incessantemente.   &#201; como se eu pudesse apenas mudar o r&#225;dio de esta&#231;&#227;o depois de entender por que estou  ouvindo essa can&#231;&#227;o h&#225; dois meses, em doses espa&#231;adas durante o dia. Duarante um desses hiperfocos musicais descobri que a medica&#231;&#227;o estava me impedindo de processar o b&#225;sico para minha subsist&#234;ncia psiquica.</p><p>Na ocasi&#227;o, essa m&#233;dica, que eu chamo de assinante de receitas, reagiu com extrema viol&#234;ncia quando pedi a revis&#227;o sugerida pela minha psic&#243;loga do Centro Eliane de Grammont. Ela n&#227;o queria me conhecer, n&#227;o queria saber dos meus sentimentos. Tinha &#243;dio nos olhos enquanto assinava a minha receita ap&#243;s as compara&#231;&#245;es pejorativas e desumanas que fez. Tudo isso me levou a n&#227;o procurar ajuda m&#233;dica aqui em Belo Horizonte. Quando tentei, n&#227;o consegui. O sistema aqui &#233; mais prec&#225;rio que em S&#227;o Paulo; l&#225;, quando me deparava com essa desumanidade, ainda havia um movimento para resolver. Aqui eu desanimei e me isolei em um casulo protetivo.</p><p></p>
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          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/o-creme-de-confeiteiro-no-campo-de">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Anatomia Alquímica do Sal: Entre a Ilusão Limerente e a Geometria do Saber ]]></title><description><![CDATA[Uma investiga&#231;&#227;o autoetnogr&#225;fica sobre o custo cognitivo e a cristaliza&#231;&#227;o do saber na mente autista.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-anatomia-alquimica-do-sal-entre</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-anatomia-alquimica-do-sal-entre</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 07 Jun 2026 23:01:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!J04K!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F470c347a-fa61-4f10-b359-c2ed5227e928_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/470c347a-fa61-4f10-b359-c2ed5227e928_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Pense numa pessoa cansada! &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/470c347a-fa61-4f10-b359-c2ed5227e928_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p><h1 style="text-align: justify;"><strong>Da calcina&#231;&#227;o das Apar&#234;ncias </strong></h1><p style="text-align: justify;">Este ensaio prop&#245;e um itiner&#225;rio cr&#237;tico e autoetnogr&#225;fico que investiga os limiares entre o colapso afetivo e a funda&#231;&#227;o da soberania mental. A partir de uma perspectiva po&#233;tico-liter&#225;ria e neurodivergente, analisamos a a&#231;&#227;o do fogo alqu&#237;mico de calcina&#231;&#227;o materializado nos poemas <em>Engano</em> e <em>Veredicto</em>, identificando o severo custo cognitivo desse processo como o motor de uma aut&#234;ntica autocria&#231;&#227;o. A partir da queima das apar&#234;ncias, o texto examina como a dissolu&#231;&#227;o das ilus&#245;es abre espa&#231;o para a cristaliza&#231;&#227;o alqu&#237;mica &#8212; um princ&#237;pio de estabilidade e fixa&#231;&#227;o da experi&#234;ncia que dialoga, por via do contraste, com o conceito de cristaliza&#231;&#227;o formulado por Dorothy Tennov para explicar as idealiza&#231;&#245;es do amor limerente. Por fim, estabelece-se a import&#226;ncia crucial dessa analogia para a mente neurodivergente, demonstrando como a recusa ao brilho ef&#234;mero das proje&#231;&#245;es externas permite a transforma&#231;&#227;o do sofrimento bruto em uma geometria insol&#250;vel do saber, garantindo ancoragem ps&#237;quica e uma navegabilidade social mais est&#225;vel no mundo real.</p><p style="text-align: justify;"></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-anatomia-alquimica-do-sal-entre">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um Manifesto de Alquimia Prática.]]></title><description><![CDATA[Recalibrar o corpo neurodivergente &#233; um ato de resist&#234;ncia. Especialmente com novo projeto criativo paralelo &#224; Newsletter, que agora ganha uma nova din&#226;mica de postagem. Vem ver.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/um-manifesto-de-alquimia-pratica</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/um-manifesto-de-alquimia-pratica</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 31 May 2026 23:01:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="native-video-embed" data-component-name="VideoPlaceholder" data-attrs="{&quot;mediaUploadId&quot;:&quot;da75ba47-24d6-4df9-afc7-83b21439862c&quot;,&quot;duration&quot;:null}"></div><p></p><h3><strong>A Cozinha Como Cora&#231;&#227;o Alqu&#237;mico</strong></h3><p>A confeitaria tem essa precis&#227;o de modo que uma confeiteira afoita n&#227;o produz o mesmo resultado das m&#227;os dedicadas e do fazer com presen&#231;a. E depois de dias de muito trabalho f&#237;sico, mental e emocional para cumprir prop&#243;sitos criativos, a precis&#227;o de um bolo foi a forma de gradualmente trazer meu corpo de volta para uma zona de conforto bioqu&#237;mico. Um ritual que, depois de quase dois meses sem sair de casa, s&#243; foi poss&#238;vel quando me arrisquei a comprar laranjas online. </p><p>A receita do meu bolo de chocolate foi desenvolvida ao longo de anos at&#233; alcan&#231;ar aquele sabor particular e confortante. As tentativas de reproduzi-lo sem as raspas de laranja resultaram em um bolo palat&#225;vel, mas que n&#227;o alimentava a alma. Por isso adiei o preparo at&#233; ter todos os ingredientes e a necessidade de recalibra&#231;&#227;o interna maior do que o cansa&#231;o.</p><p>E enquanto massageava as raspas de laranja no a&#231;&#250;car para absorver os &#243;leos essenciais, senti meu corpo relaxar completamente, imerso nesse gesto simples. E reverentemente misturei a manteiga em ponto de pomada, e algumas colheres de azeite de oliva,  para incorporar de vez o perfume &#224; receita. Minha mente relaxada, como de costume,  arborecia. Desta vez  sobre a import&#226;ncia do processo enquanto as m&#227;os lentamente homogeneizavam a massa, dourada pela adi&#231;&#227;o de ovos. Foi um processo lindo de composi&#231;&#227;o cuidadosa, alternando os ingredientes secos e o caf&#233; rec&#233;m coado aos poucos, para o calor aprofundar a cor do chocolate e n&#227;o desestruturar a massa.  </p><p></p><h3><strong>O Territ&#243;rio de Luta: Hardware vs. Software</strong></h3><p>Por um momento, na imers&#227;o deste processo, a exaust&#227;o do meu corpo pareceu ceder completamente. E enquanto o bolo assava, limpei a geladeira e me mantive na cozinha, vigilante. Infelizmente, depois desse pensamento arborescente balan&#231;ar suavemente &#224; brisa da ritualistica culin&#225;ria por cerca de uma hora,  o bem-estar moment&#226;neo deu lugar &#224; certeza do limite atingido: a enxaqueca.</p><p>Esta &#233; a rotina de uma pessoa que n&#227;o parece autista. O corpo &#233; um territ&#243;rio de luta. O corpo &#233; um <em>hardware</em> obsoleto tentando rodar um <em>software</em> de alta tecnologia. Essa tecnologia, esse <em>software</em>, se atualiza constantemente, mas o <em>hardware</em> continua o mesmo, com o agravante do desgaste natural do tempo. A exaust&#227;o que n&#227;o me deixa, no momento que refino este texto &#8212; um dia depois de t&#234;-lo gravado em &#225;udio e transcrito enquanto a medica&#231;&#227;o da enxaqueca fazia efeito, para n&#227;o esquecer &#8212; est&#225; se tornando uma nova enxaqueca. O dia ser&#225; truncado pelos limites f&#237;sicos; a fatura dos limites que extrapolei. (E tenho este texto e dois roteiros para finalizar hoje, al&#233;m de uma faxina para concluir).</p><h3><strong>O Hiperfoco e o Paradoxo da Dignidade</strong></h3><p>E apesar de ter extrapolado os limites durante a semana, n&#227;o dei conta dos dois projetos criativos que assumi: o novo e esta j&#225; infante <em>newsletter</em>. Mesmo com os textos organizados, n&#227;o consegui finalizar a an&#225;lise do segundo poema da semana e escrever a cr&#244;nica que amarrava os dois &#8212; Nega&#231;&#227;o e Veredicto&#8212;  lindamente. A cr&#244;nica requeria, al&#233;m do tempo para a escrita  escrita, a releitura de tr&#234;s cap&#237;tulos de dois livros diferentes. N&#227;o foi poss&#237;vel. Lidei com a culpa como pude, provavelmente como um peso extra na sobrecarga de ser presa de um hiperfoco. Criativo, mas ainda assim um hiperfoco, uma consumi&#231;&#227;o.</p><p>Meu novo projeto criativo come&#231;ou h&#225; duas semanas. De forma muito intuitiva. E tem flu&#237;do naturalmente, como tudo o que se relaciona com escrita e criatividade para mim. Pois &#233;, voc&#234; est&#225; lendo um texto de uma pessoa autista e medicada, n&#227;o espere falsa mod&#233;stia e meias palavras. Mas, embora algumas caracter&#237;sticas da neurodiverg&#234;ncia sejam tratadas como superpoder, nossa biologia n&#227;o foi planejada nos quadrinhos. E eu preciso falar do desespero de ser fisgada por um processo criativo: eu fui arrebatada pela beleza das imagens que criei acidentalmente para o projeto e me embrenhei na empreitada de fazer um v&#237;deo animado, minimamente coerente, usando IA, de 22 minutos, em apenas dois ou tr&#234;s dias. E claro, houve todo um fluxo de trabalho ainda em fase de ajustes, que foi comprometido por outras decis&#245;es que tomei. Sem poder retroceder, lidei com a lerdeza de um software sobrecarregado como eu e a minha pr&#243;pria pressa, pautada pelos prazos. Abri m&#227;o de cumprir alguns, n&#227;o como escolha, mas como imposi&#231;&#227;o de uma coer&#231;&#227;o neurol&#243;gica que me prende no objetivo.</p><p>A luta que travo hoje com este corpo combalido se estendeu pela semana, entre enxaquecas incpacitantes e expedientes noite afora.  O balan&#231;o final escancarou  um paradoxo: existe uma disparidade muito grande entre a minha capacidade intelectual e a minha capacidade financeira; entre a minha condi&#231;&#227;o de sobreviv&#234;ncia e a minha capacidade de produzir conhecimento &#8212; ou entretenimento, alimento para a alma. A poesia, que traz o simb&#243;lico e a autocria&#231;&#227;o, n&#227;o tem resultado em uma vida digna. Deixarei de fazer isso? &#211;bvio que n&#227;o. Como eu existiria sem ser Oryanna Borges, a poeta? Mas sinto que preciso abrir mais esse fosso entre a pessoa que eu aparento e a pessoa que vivencio aqui dentro, para voc&#234; leitor.  </p><h3><strong>Greybor Manifesto: Da Imagina&#231;&#227;o &#224; Materialidade</strong></h3><p>Cansei de tentar caber no mundo. Se ele n&#227;o foi feito para mim, vou criar um que seja &#8212; na materialidade, n&#227;o apenas nos rec&#244;nditos da imagina&#231;&#227;o. Meu corpo precisa de abrigo, conforto, medica&#231;&#227;o, solitude e as condi&#231;&#245;es de pagar o pre&#231;o alto dos <em>deliverys</em> de hortifruti, quando eu precisar ficar dois meses em casa, reservando energia para o meu laborat&#243;rio criativo. Tudo o que me importa est&#225; aqui: dar sentido, significado, vida e materialidade &#224;s minhas hist&#243;rias.</p><p>Por isso,  in&#237;ciei o projeto  <em><a href="https://www.youtube.com/@GreyborManifesta">Greybor Manifesta</a></em><a href="https://www.youtube.com/@GreyborManifesta">.</a> A principio como um projeto &#8220;dark&#8221;, an&#244;nimo na escurid&#227;o da Web, mas intentando ser um farol para aqueles que como est&#227;o &#224; deriva. Antes de ser Greybor Manifesta, era apenas um exerc&#237;cio privado de reprograma&#231;&#227;o mental. Mas eu gosto dos processos e compartilhar minha jornada pareceu uma caminho natural.Tanto que at&#233; a anima&#231;&#227;o desta semana, tudo fluia tranquilamente. E mesmo a anima&#231;&#227;o trouxe aprendizados e n&#227;o arrependimentos. </p><p>Greybor manifesta &#233; um canal do Youtube sobre visualiza&#231;&#227;o Criativa. Ok, me julguem&#8230;se voc&#234;s pagam as minhas contas. Se n&#227;o, me sigam l&#225; no youtube e se permitam surpreender por um lado meu que ainda n&#227;o manifestou o ouro nos quilates que o mundo valoriza, mas que com certeza materializou o ouro da consci&#234;ncia. E &#233; este ouro, que ofere&#231;o, moldado e lapidado pela imagina&#231;&#227;o e pela minha cren&#231;a absoluta na autocria&#231;&#227;o. Na minha percep&#231;&#227;o o verbo se faz carne, o verbo se faz realidade. E eu me autocriei, de um rascunho mal suprido neurologicamente, para um software sofisticado . Agora &#233; aprimorar o m&#233;todo para a vida fisica ser t&#227;o fantastica quanto a vivida nas dimens&#245;es m&#225;gicas que a imagina&#231;&#227;o cria.</p><p>Este n&#227;o &#233; um projeto sobre como ser &#8216;produtivo&#8217; em um sistema que nos quer descart&#225;veis; &#233; um laborat&#243;rio de alquimia pr&#225;tica. </p><p>Durante anos, caminhei sem um nome que me ancorasse. Hoje, eu sou Oryanna Borges &#8212; um nome que oficializei para consolidar a literatura como minha forma prim&#225;ria de exist&#234;ncia e resist&#234;ncia. E &#233; nessa assun&#231;&#227;o que surge Ana Greybor. Se Fernando Pessoa podia reclamar para si um universo de heter&#244;nimos, eu reivindico a minha estrat&#233;gia de sobreviv&#234;ncia. Ana Greybor &#233; a minha racionalidade alqu&#237;mica, o meu lado que suspeita da sincronia e investiga os deuses. A persona que manifestei quando percebi que a &#8216;salada mista&#8217; que &#233; o meu c&#233;rebro &#8212; essa rede ca&#243;tica e fascinante de conex&#245;es entre literatura, religi&#227;o, neuroci&#234;ncia e simbolismo &#8212; n&#227;o precisava ser apenas um ref&#250;gio secreto, mas um sistema de aplica&#231;&#227;o pr&#225;tica. Ana Greybor &#233; a engenheira que traduz a minha intui&#231;&#227;o po&#233;tica em m&#233;todos de auto-cria&#231;&#227;o. O <em>Greybor Manifesta</em> &#233; a minha recusa final em ser uma fraude ou uma faquir; &#233; o espa&#231;o onde a imagina&#231;&#227;o deixa de ser ref&#250;gio para se tornar estrat&#233;gia de sobreviv&#234;ncia. N&#227;o se preocupe, n&#227;o vou vender curso. S&#243; espero que o adsense do youtube remunere melhor minha escrita do que voc&#234;, leitor. N&#227;o se ofenda. Mas n&#227;o espere desculpas. Acredite, eu valorizo voc&#234; aqui. Mas seria mais f&#225;cil se voc&#234; entendesse que esse &#233; meu trabalho, meu sustento de corpo e alma. Eu deixo voc&#234; navegar na nave assombrosa do templo que &#233; meu corpo, e nem cobro o d&#236;zimo. Mas deveria. Pois nem as igrejas funcionam  sem as oferendas. </p><p>Sou grata por sua vinda e sua aten&#231;&#227;o. Mas eu preciso pagar a conta de luz do templo. Ent&#227;o para vabilizar seu livre tr&#226;nsito e a colabora&#231;&#227;o volunt&#225;ria deste templo Greybor Manifesta vai evocar uma egr&#233;gora ao  canalizar meus saberes   e uma reticente  espiritualidade driblada  com criatividade. </p><p></p><h3>Comunicado sobre o novo fluxo de postagens</h3><p>A partir de agora, para organizar melhor o meu processo criativo e garantir que a leitura de voc&#234;s seja uma experi&#234;ncia imersiva e coerente, estamos mudando o calend&#225;rio do Mistif&#243;rio:</p><p>T<strong>er&#231;as e Quintas (07:00 da manh&#227;): </strong>Publica&#231;&#227;o dos poemas da semana.</p><p><strong>Domingos (20:00):</strong> Publica&#231;&#227;o da cr&#244;nica/artigo anal&#237;tico.</p><p>Por que essa mudan&#231;a? Criativamente, a cr&#244;nica funciona como o ponto de amarra&#231;&#227;o que d&#225; sentido aos poemas publicados durante a semana. Agendar a cr&#244;nica para o domingo &#224; noite permite que voc&#234;s encerrem o ciclo semanal com um texto denso e reflexivo, preparando-se com calma para o que vem pela frente. Para organizar essa transi&#231;&#227;o, nesta semana, farei o seguinte: republicarei o poema &#8220;Engano&#8221; (que saiu com erro na semana passada) na segunda-feira, postarei &#8220;Veredito&#8221; na quinta-feira e, no domingo, entregarei a cr&#244;nica que amarra ambos. Assim, alinhamos o fluxo de trabalho com a profundidade que o projeto exige.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Pague  o d&#237;zimo ou deixe sua oferenda se voc&#234; sentir no seu cora&#231;&#227;o que &#233; a hora. </p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@GreyborManifesta&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Se increva no Greybor Manifesta&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@GreyborManifesta"><span>Se increva no Greybor Manifesta</span></a></p><h3 style="text-align: center;">Este &#233; um lugar onde a partilha se multiplica</h3>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Iceberg da Misoginia: Gaslighting e Controle em Coliving]]></title><description><![CDATA[Um relato sobre os mecanismos invis&#237;veis de controle do feminino e de silenciamento das mulheres.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-iceberg-da-misoginia-gaslighting</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-iceberg-da-misoginia-gaslighting</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 12 May 2026 14:33:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg 424w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Ou ris&#237;vel, quando invade as redes sociais por meio de <em>coaches</em> que desafiam a l&#243;gica e a hist&#243;ria para pregar sobre comportamento masculino e &#8220;mulheres de valor&#8221;. Isso nos faz enxergar a ponta do iceberg e nunca atentar para o tamanho do obst&#225;culo prestes a nos destro&#231;ar a qualquer momento.</p><p>O tipo de &#243;dio &#224;s mulheres que culmina em atos violentos e discursos mis&#243;ginos come&#231;a de forma muito sutil, entranhado na linguagem cotidiana. E a pior parte &#233; que &#233; realmente ensinado por autoridades na vida dos filhos: os pais. Ambos, no caso. Seja por a&#231;&#227;o direta ou omiss&#227;o, a responsabilidade parental &#233; compartilhada.</p><p>O silenciamento e a desumaniza&#231;&#227;o das mulheres come&#231;am quando sua autoridade ou suas reivindica&#231;&#245;es s&#227;o minadas  por meio de apontamentos que nada t&#234;m a ver com a quest&#227;o em si. Estes apontamentos desviam do assunto atentando para  a hora impr&#243;pria para discuti-lo (etiqueta), e o tempo usado para faz&#234;-lo (Sem &#225;udios longos, Oryanna). E, por fim, um transgressor reincidente encerra a discuss&#227;o pois ele j&#225; pediu desculpas e isso &#233; suficiente. Ele n&#227;o precisa entender que agiu errado nem se comprometer a n&#227;o errar de novo. Ele j&#225; pediu desculpas e est&#225; na hora de encerrar o assunto, pois a interlocutora j&#225; quebrou todos os protocolos de etiqueta e extrapolou em muito seu limite de tempo, magnanimamente concedido. E ela silencia, um estranhamento a contorcer-se nas entranhas, sem se dar conta dos mecanismos de controle a ela aplicados.</p><p></p><h3><strong>A Misoginia &#233; ensinada</strong></h3><p>O estarrecedor &#233; quando esses comportamentos s&#227;o lidos em um jovem de 18 anos, afeito a desviar-se da responsabilidade apontando a quebra de decoro da sua interlocutora .  Uma quebra de decoro, se existente, &#237;nfima perto da quebra de regras claras, de cujo cumprimento depende o bem-estar coletivo. E quando o mecanismo de <em>gaslighting</em> &#233; dissecado e levado ao conhecimento paterno, percebe-se que os discursos de ambos est&#227;o perfeitamente alinhados:</p><p>&#8220;Oryanna, acho que meu filho deve melhorar o conv&#237;vio e os afazeres. &#201; dever e cobramos isso dele. </p><p>Acho que voc&#234; tamb&#233;m pode levar as coisas menos a ferro e fogo e com menor senso de urg&#234;ncia. Pe&#231;o que alinhe esses assuntos com a m&#227;e dele. </p><p>Eu j&#225; havia pensado que aconteceu alguma coisa, um acidente, coisa assim. </p><p>Acho que ambos viver&#227;o melhor se cada um evoluir um pouquinho e respeitar as limita&#231;&#245;es do outro. </p><p>Mas novamente, vamos cobrar evolu&#231;&#227;o dele. </p><p>N&#227;o consigo ouvir seu &#225;udio agora, normalmente n&#227;o ou&#231;o &#225;udios longos, &#224; noite ent&#227;o, se eu ouvir n&#227;o durmo. Espero que tenha desabafado... </p><p>Boa noite, releva algumas coisas... Faz bem pra todo mundo.&#8221;</p><p>Quando foi que a falta de respeito de educa&#231;&#227;o do filho dele se transformou em um defeito da minha  personalidade? Da minha &#237;ndole? Quando foi que a cobran&#231;a do cumprimento de regras simples de conviv&#234;ncia que todo mundo cumpre, menos o moleque, se tornou uma rigidez minha? Quando foi que eu dei a este sujeito a liberdade de determinar como devo me portar e gerenciar minha pr&#243;pria casa? Nunca. Ele jura que nasceu com esse direito de deslegitimar a reclama&#231;&#227;o factual, transformando-a em desabafo. Um desabafo que ele n&#227;o se dar&#225; ao trabalho de ouvir porque vai lhe tirar o sono. Eu posso perder o sono lidando com os abusos do filho dele, mas ele n&#227;o precisa. Por sinal, devo alinhar esses assuntos com a m&#227;e. Ele paga a pens&#227;o e ensina o filho como destruir o psicol&#243;gico de uma mulher, e a m&#227;e que lide com os resultados disso. Porque sim, na an&#225;lise do discurso, o dele e o do filho s&#227;o iguais. Como se tivessem combinado na hora que levei entre a reda&#231;&#227;o de tr&#234;s textos descartados e a escolha do &#225;udio como meio de comunica&#231;&#227;o.</p><p></p><h3><strong>A Escalada: Da Manipula&#231;&#227;o &#224; Amea&#231;a F&#237;sica</strong></h3><p>E a comunica&#231;&#227;o do moleque escalou em tr&#234;s meses. Ele era um bom ouvinte, disposto a se adaptar. E eu disposta a trat&#225;-lo como adulto. Quando ele, nas palavras do pai, &#8220;teve uma reca&#237;da&#8221; e passou de prot&#243;tipo de adulto funcional a moleque, e isso teve que ser levado ao conhecimento dos pais, o <strong>gaslighting</strong> come&#231;ou. E antes das perguntas invasivas, teve a viol&#234;ncia f&#237;sica. Aquela que n&#227;o atinge o corpo, mas foi talhada para quebrar a alma. Depois da bronca dos pais, ele se deu ao direito de ficar &#8220;muito puto&#8221; e me confrontar aos berros exigindo que o  assistisse a escovar os dentes para provar que a cusparada de pasta de dente na pia n&#227;o era sua marca pessoal, diariamente retificada.  O motivo dele ficar &#8220;muito puto&#8221;? Instru&#231;&#245;es gerais de limpeza que sugeriam o uso do sabonete l&#237;quido e uma esponja espec&#237;fica pendurada do lado do espelho, para limpeza ap&#243;s o uso, caso necess&#225;rio. Aviso geral, sem nomes. Mas o suficiente para ele ficar &#8220;muito puto" e, diante da minha recusa em assistir sua performance descabida, me impediu de entrar em meu quarto empurrando a porta, que eu tentava fechar.  Cerca de 90 quilos em 1,85 metros de pura f&#250;ria e determina&#231;&#227;o, entre mim e a porta. Eu, que j&#225; vivi cenas de portas arrombadas, m&#243;veis quebrados no chute, passei por isso e os pais acharam normal. </p><p>Este pai, principalmente, n&#227;o s&#243; achou normal o comportamento do filho como aparentemente ensinou t&#233;cnicas de controle. Quando um garoto de 18 anos, com tend&#234;ncias a regredir comportamentalmente aos cinco diante de uma lou&#231;a suja, para do seu lado e pergunta do nada &#8220;E a senhora, n&#227;o se relaciona?&#8221;, h&#225; a&#237; um julgamento e uma invas&#227;o; quando na semana seguinte ele repete a cena e pergunta &#8220;H&#225; quanto tempo a senhora n&#227;o sai de casa?&#8221;, h&#225; um m&#233;todo. E eu n&#227;o lembro o que respondi da primeira vez, mas da segunda eu pensei longamente e respondi honestamente:  tr&#234;s semanas. </p><p>Eu sou autista. Tenho um inc&#244;modo permanente em forma de gente dentro de casa, por que eu sairia, se h&#225; mais gente l&#225; fora? Essa pergunta eu n&#227;o fiz a ele, claro. Me limitei &#224; resposta direta enquanto meu pensamento arborescia, processando o tom de julgamento, o prop&#243;sito, o padr&#227;o e situa&#231;&#245;es relacionadas. Mas deixo esta pergunta  para voc&#234;, leitor.</p><p>Eu, ocasi&#227;o da pergunta,   me debatia com a ci&#234;ncia de que esse tipo de questionamento, mais do que um julgamento, traz um veredito machista: uma mulher que n&#227;o sai, n&#227;o se relaciona, &#233; uma mulher amarga, mal amada. Claro, se ela sa&#237;sse e se relacionasse seria uma puta a quem este pai n&#227;o confiaria seu filho, a n&#227;o ser para coisas para as quais servem as putas em seu diminuto mundo.  Mas sendo uma mulher amarga e mal amada, esta j&#225; &#233; uma mulher cuja autoridade, dentro da pr&#243;pria casa, pode ser deslegitimada por t&#225;ticas mais antigas do que andar para a frente; esse perfil tra&#231;ado ou confirmado nessas perguntas do moleque fez um homem adulto criar o discurso determinando como devo me portar, ressaltando justamente minha rigidez, falta de leveza e tend&#234;ncia ao erro como qualquer vivente. N&#227;o importa se o que est&#225; em quest&#227;o s&#227;o combinados de conviv&#234;ncia muito claros cujo n&#227;o cumprimento afeta outras pessoas. O que importa &#233; que eu n&#227;o estou agindo com a leveza conveniente para dois machos disfuncionais.</p><p></p><h3><strong>O Ultimato e o Anjo Azul da Vingan&#231;a</strong></h3><p>E assim, o rapazote, depois que eu &#8212; culpem a rigidez (cognitiva) ou o hor&#243;scopo, como quiserem &#8212; provei que ele mentia e me fiz ouvir pela m&#227;e, veio com outra retalia&#231;&#227;o presumida e verbalizada para ela, que convenientemente n&#227;o entendeu que a conversa desastrosa com o pai resultara em um pedido de que o filho  buscasse outro lugar para viver, e insistiu em sistemas de monitoria di&#225;ria do comportamento e desempenho dele, me deixando sem outra op&#231;&#227;o sen&#227;o aceitar sua perman&#234;ncia. Diante do aviso de que ele retaliaria, seguindo o padr&#227;o j&#225; detectado,  ela se limitou a informar que se ele chegasse de cara feia era pra avisar imediatamente.</p><p>Ele, que passara a noite fora, chegou por volta de meio-dia, enquanto eu redigia uma carta para a m&#227;e explicando que n&#227;o poderia permanecer com ele. Eu havia deixado claro no &#225;udio que eu n&#227;o havia assumido a fun&#231;&#227;o de maternar o filho deles. E mesmo por escrito ela ignorara, insistindo em um arranjo muito mais favor&#225;vel para ela do que para mim.  Como se n&#227;o bastasse me sentir manipulada, quando encerramos a conversa, eu me vi com medo pela Mina, minha gata. E depois de tr&#234;s horas processando desconfortos, eu dicidi.  Novamente, desde que cheguei a Belo horizonte h&#225; seis meses,  me vi na situa&#231;&#227;o de n&#227;o sair para ir ao correio da esquina por medo dele chegar antes de eu voltar e descontar sua f&#250;ria em  Mina. </p><p>E de fato ele chegou furioso. N&#227;o apenas a cara estava feia como a postura era de um homem resoluto e assim ele entrou em seu quarto e deu uma volta r&#225;pida que o devolveu imediatamente &#224; porta do meu, aberta para circula&#231;&#227;o da gata, onde me interpelou em um timbre grave e alto:</p><p>&#8212; Algu&#233;m entrou no meu quarto?</p><p>&#8212; Entrar, ningu&#233;m entrou &#8212; respondi.</p><p>O motivo do comportamento intimidat&#243;rio estava no fato de que minha natureza n&#227;o &#233; de uma v&#237;tima passiva. N&#227;o espere, caro leitor, encontrar aqui a autista de voz baixa e mansa. Eu falo alto, e se precisar eu grito. E, especialmente, eu ajo. E assim, quando a m&#227;e disse que estava monitorando, pedindo fotos das tarefas dele feitas, de suas obriga&#231;&#245;es cumpridas, eu fui at&#233; a porta de seu quarto e, deste limiar, filmei o caos e a sujeira. Sacolas de presentes que ele ganhara quando da visita da m&#227;e amontoados junto a roupas e cal&#231;ados pelo ch&#227;o; piso imundo, com muito p&#243; e manchas de l&#237;quidos derramados. Eu nunca cobrei a limpeza. Respeitei a nojeira a t&#237;tulo de privacidade. E n&#227;o a invadi para filmar. Ele sempre deixa o quarto aberto. Literalmente porta escancarada. E adquiri o h&#225;bito de fechar porque o vento da janela escancarada a faz bater o tempo todo. E com o tempo tomei por miss&#227;o proteger meus olhos da nojeira, fechando logo cedo. O que fiz foi apenas retornar ao ponto original de abertura total e, do limiar da porta, gravar o v&#237;deo que prova que ele a enganava.</p><p>A postura intimidadora seguiu-se ao sair trancando, pela primeira vez em tr&#234;s meses, a porta, levando consigo  a chave. Reagi imediatamente sem pensar, exigindo que retornasse e deixasse a chave para uso como de costume: manter sua privacidade quando dentro;trancar por fora &#8212; minha atitude &#8212; quando o vento faz ela abrir sozinha e bater insistentemente. Ele gritou muito no estreito corredor. Agora amparado no meu &#8220;aviltante desrespeito &#224; sua privacidade&#8221;. Eu gritei de volta. Ele devolveu a chave e deve permanecer at&#233; o fim do m&#234;s de maio no apartamento. Exigi, emparelhando meu tom ao dele, que a partir de hoje me responda apenas &#8220;sim, senhora&#8221; quando eu chamar sua aten&#231;&#227;o. Deixei claro que esta &#233; minha casa e que aqui ele n&#227;o mija nos cantos para demarcar territ&#243;rio.</p><h3></h3><h3><strong>Dissecando os Mecanismos de Controle</strong></h3><p>Avisei a m&#227;e do ocorrido, conforme solicitado,  e enviei a carta redigida, agora irrefutavelmente embasada. Ainda estou remoendo a situa&#231;&#227;o. N&#227;o posso evitar. Sei, contudo, que meu objetivo ao falar com o pai era um ultimato, mas seu comportamento me levou a reagir exigindo imediatamente que buscassem outro lugar para o moleque malcriado morar, percebendo um problema sist&#234;mico e um drama falmiliar que n&#227;o me cabe. </p><p>Diante de sua resposta, eu imediatamente escrevi: &#8220;Agora sei por que ele faz <em>gaslighting</em> comigo&#8221;. Ele ficou de estudar o termo, que alegou desconhecer, numa pretensa humildade que visava me educar. Eu, contudo,  n&#227;o sou humilde. N&#227;o &#233; uma quest&#227;o de ego, &#233; l&#243;gica. E ainda vivencio o perigo que corri gritando no corredor para evitar a retalia&#231;&#227;o em forma de reivindica&#231;&#227;o de territ&#243;rio; em  tentativa de invers&#227;o dele, reduzindo a uma &#8220;invas&#227;o de privacidade&#8221; todo um mecanismo de controle instaurado por ele e pelo pai em minha casa. Porque sim, eu vi a escalada da comunica&#231;&#227;o e o mimetismo dos discursos calcado no meu perfil tra&#231;ado por eles em conjunto. Enquanto a m&#227;e acreditava monitorar o filho, ele estava me monitorando e articulando  com o pai. Gradativamente foi tentando sitiar o meu discurso com a sombra do monstro em mim. Mal sabe ele que, desde o meu diagn&#243;stico, o monstro em mim &#233; s&#243; uma faceta que me serve de vigia e se transforma no anjo azul da vingan&#231;a. Deveria ser da justi&#231;a, eu sei,  mas sou dram&#225;tica e escorpiana. Me deixem.</p><p>E acho importante contar esta pequena hist&#243;ria para que as mulheres dissequem os mecanismos de controle e digam n&#227;o. Mesmo correndo o risco que corri no corredor estreito. Mas evitando correr o risco que corri no corredor estreito. </p><p>Usem a voz. </p><p>N&#227;o &#233; a toa que o silenciamento das mulheres &#233; o objetivo principal dos discursos mis&#243;ginos.</p><p></p><h3><strong>Apoie a autonomia e a seguran&#231;a de uma artista</strong></h3><p><strong>Viver em moradia compartilhada nem sempre &#233; uma escolha, mas muitas vezes uma necessidade financeira que nos exp&#245;e a din&#226;micas de poder e silenciamento comuns &#224;s mulheres e ainda mais perigosos para as autistas. Meu maior desejo &#233; poder morar sozinha com minha gata, Mina, em seguran&#231;a &#8212; sem a sombra do medo ou a necessidade de defender meu territ&#243;rio diariamente contra o machismo estrutural.</strong></p><p><strong>Se este texto ressoou com voc&#234;, considere apoiar meu trabalho com uma assinatura paga. Seu apoio direto me ajuda a manter minha produ&#231;&#227;o intelectual independente e, acima de tudo, me aproxima do objetivo de conquistar um espa&#231;o seguro e soberano para mim e para a Mina.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oryannaborges.substack.com/subscribe&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Quero Apoiar Oryanna&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://oryannaborges.substack.com/subscribe"><span>Quero Apoiar Oryanna</span></a></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b7f41988-ecb4-4c79-bf1b-256b643b7565_1792x3200.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Anjo vingador&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b7f41988-ecb4-4c79-bf1b-256b643b7565_1792x3200.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p><h4><strong>Filme que deu origem ao termo </strong><em><strong>gaslighting, </strong></em><strong>e cujo cartaz ilustra este post</strong><em><strong>:  </strong></em></h4><p></p><p><strong>&#192; MEIA LUZ</strong>. Dire&#231;&#227;o: George Cukor. Estados Unidos: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), 1944. 1 filme (114 min).</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Saiba como Charlotte Bront&#235; utilizou a voz masculina como um laborat&#243;rio neurodivergente para mapear o patriarcado antes da g&#234;nese de Jane Eyre.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 05 May 2026 22:57:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mAtn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Inc&#234;ndios&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h2>O Protagonista Masculino como Experimento de G&#234;nero</h2><p>Primeiramente, &#233; importante destacar que a leitura que se segue da obra <em>O Professor</em>, de Charlotte Bront&#235;, toma como pressuposto a neurodiverg&#234;ncia da autora, proposta a partir da an&#225;lise de seus textos por estudiosos como Julia Miele Rodas. Contudo, n&#227;o ser&#225; a an&#225;lise de sua neurodiverg&#234;ncia que tomar&#225; lugar aqui, sen&#227;o uma especula&#231;&#227;o &#8212; suscitada pela identifica&#231;&#227;o &#8212; dos motivos que possivelmente a  levaram a escrever um protagonista masculino em seu primeiro romance.</p><p>Identifica&#231;&#227;o esta que me assomou durante a leitura do texto de Gubar e Gilbert  no cap&#237;tulo dedicado a Charlotte Bront&#235; e que me levou a contestar alguns pontos de vista das autoras do aclamado <em>The Madwoman in the Attic</em> na medida em que o lia. A compreens&#227;o intuitiva  que aqui se articula pode estar contaminada pela minha experi&#234;ncia com meus pr&#243;prios textos, ou pode ter sido revelada por causa dela. Mas acho importante dizer que compreendi, desde os excertos da obra por elas destacados, como o personagem servira a Charlotte na composi&#231;&#227;o de sua obra mais famosa e escandalosa para a &#233;poca: <em>Jane Eyre</em>.</p><p>E ao ler o romance The  Professor minha intui&#231;&#227;o pareceu se confirmar. O texto que se segue &#233; resultado desse embate entre o sentimento portentoso que me assomou durante a leitura do trabalho das pesquisadoras e  da percep&#231;&#227;o, cada mais evidente,para mim, da neurodiverg&#234;ncia nas escolhas criativas e vocabulares de Charlotte Bront&#275;.</p><h3>Identifica&#231;&#227;o e Espelho: De Jane Eyre ao Espectro</h3><p>&#201; &#243;bvio que n&#227;o pude ignorar minha ci&#234;ncia de que cientistas do comportamento e da lingu&#237;stica haviam apontado as irm&#227;s Bront&#235; no espectro do autismo, com diferentes graus de necessidade de suporte e igual inclina&#231;&#227;o para a escrita como reguladora e treinamento social. Preciso, no entanto, salientar que minha identifica&#231;&#227;o com a escrita de Charlotte Bront&#235; precede as listas de c&#233;lebres possivelmente no espectro que rolam pela web; antes de conhecer a mulher autista em mim, eu reconheci a crian&#231;a em Jane Eyre.</p><p>Como mencionei no post do cotejo entre os poemas <em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">Rejei&#231;&#227;o</a></em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico"> e </a><em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">Despertar</a></em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">,</a> conheci a obra de Charlotte Bront&#235; por interm&#233;dio de um professor que, ao ouvir minhas queixas sobre a viol&#234;ncia acad&#234;mica sofrida na gradua&#231;&#227;o, me indicou <em>Jane Eyre</em>. A pequena Jane de dez anos me resumia e, decerto, sintetizava milhares de mem&#243;rias apagadas pelos surtos silenciosos de raiva e ansiedade. Eu fui a crian&#231;a &#8220;ind&#243;cil&#8221; que Jane era, e cujos olhos delatores provocavam rea&#231;&#245;es violentas em um algoz similar a John Reed.</p><p>Obviamente, minha identifica&#231;&#227;o com a &#233;tica inabal&#225;vel de Jane adulta seria inevit&#225;vel e ainda mais profunda quando ciente de minha neurodiversidade. Contudo, o cotejo entre os poemas que me levou de volta a esta obra visava apenas compreender o contrato social do casamento pelo vi&#233;s de uma hero&#237;na que soube escolher a si mesma.</p><p>Ser arrebatada pela perspectiva de g&#234;nero presente na escrita de Bront&#275; n&#227;o estava previsto.</p><h2>A Cr&#237;tica a Gilbert e Gubar: O Mascaramento Liter&#225;rio</h2><p>Para Sandra Gilbert e Susan Gubar, em sua obra seminal <em>The Madwoman in the Attic</em>, a escrita de <em>O Professor</em> &#233; uma tentativa de autodisciplina e repress&#227;o que adota um protagonista masculino para mascarar sua pr&#243;pria urg&#234;ncia emocional e &#8220;feminina&#8221;. Isso faz com que o termo &#8220;andr&#243;gino&#8221; pulule pelo texto como uma caracter&#237;stica negativa, de algo que habita um limiar sem nada ser. O veredito &#233; que a obra falha artisticamente por ser excessivamente r&#237;gida e did&#225;tica, justamente por causa do esfor&#231;o de Bront&#235; em &#8220;mascarar&#8221; seu fogo interno sob uma superf&#237;cie de realismo austero e por tentar dar voz a um personagem masculino com o intuito de alcan&#231;ar autoridade e respeito em um meio liter&#225;rio dominado pelos homens.</p><p>A progress&#227;o destas ideias me mostrava, contudo, um exerc&#237;cio: uma experi&#234;ncia de g&#234;nero de uma perspectiva neurodivergente. De fato, Gilbert e Gubar apontam a obra como um rascunho para a autonomia, onde o protagonista usa o trabalho e a observa&#231;&#227;o cl&#237;nica como uma forma de controle sobre um mundo hostil. Mas acrescento a perspectiva do experimento de g&#234;nero por uma mente neurodivergente, para quem o g&#234;nero &#233; um dado social muitas vezes lido com dificuldade, porque exige a leitura dos contextos, quando o autista, muitas vezes, coleta dados esparsos que far&#227;o sentido apenas <em>a posteriori</em>.</p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sorria, você está sendo Algoritmizada: O Custo da Imaginação]]></title><description><![CDATA[Entre um sonho n&#237;tido e a invisibilidade, o dilema de uma escritora autista: como habitar a rede sem se tornar o combust&#237;vel do algoritmo? Um cotejo entre a pot&#234;ncia on&#237;rica e a exaust&#227;o do real.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Apr 2026 22:39:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pOtH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Sorria, voc&#234; est&#225; sendo algorimizado.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3><strong>O Achado On&#237;rico</strong></h3><p>Esta noite, fui a diretora de cena da minha pr&#243;pria exaust&#227;o. Em um sonho v&#237;vido, onde o toque e a cor possu&#237;am uma nitidez que o mundo desperto me nega, caminhei por um bairro desconhecido. No ch&#227;o, tesouros abandonados: badulaques v&#225;rios como migalhas de p&#227;o&#8230; um cinto <em>rose gold </em>enrolado como uma serpente met&#225;lica. N&#227;o o recolhi. Havia o medo da transmuta&#231;&#227;o &#8212; o receio de que o cinto me desse o bote &#8212; e a sobriedade de quem sabe que n&#227;o precisa de mais badulaques.</p><p>Eu caminhava pelo canteiro central de uma ampla avenida de grama alta, acompanhada pelo fluxo de pessoas e por uma interlocutora invis&#237;vel. Foi para ela que expliquei por que voltara para pegar outro  intencionalmente ignorado badulaque: &#233; para organizar minhas maquiagens no arm&#225;rio. Examinei o objeto &#8212; quadrado, firme, de couro sint&#233;tico e duro, com um espelho na parte interna da tampa,  divis&#243;rias. Era pr&#225;tico. Era funcional. Serviria para organizar produtos de uso di&#225;rio. Produtos que de fato possuo, mas n&#227;o uso diariamente.</p><h3><strong>A Esquete da Escritora</strong></h3><p>De repente, o cen&#225;rio muda. Estou no &#8220;est&#250;dio&#8221; da minha mente, elaborando um v&#237;deo vertical. Na legenda: <em>Oryanna Borges, escritora</em>. O sonho constr&#243;i o roteiro de uma entrevista <em>fake </em>sobre <em><a href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia">Abyssalia</a></em>. &#201; uma esquete c&#244;mica. As perguntas escalonam, me colocam na defensiva e desnudam a farsa: a m&#225;scara da autora sofisticada cai, revelando a escritora de nicho, reconhecida por poucos pares nos v&#227;os e quebradas dessa terra sem lei que &#233; a internet.</p><p>Eu me desmontava de maneira ris&#237;vel at&#233; ser interrompida pelo entrevistador &#8212; que era, novamente, eu mesma. Minha outra vers&#227;o, gestora do tempo, sentenciou: &#8212; Para. J&#225; deu. Estamos gastando muita imagina&#231;&#227;o aqui. </p><p></p><h3><strong>A F&#225;brica que n&#227;o Silencia</strong></h3><p>Acordei com o comando ecoando e a certeza amarga de que trabalhei enquanto ansiava descansar. Durmo sob o efeito de medica&#231;&#227;o; a amitriptilina que tomo para controlar as enxaquecas &#233; o son&#237;fero que me apaga, mas n&#227;o silencia a f&#225;brica. Eu n&#227;o teria dormido sem ela, atormentada pela urg&#234;ncia de criar uma presen&#231;a digital que resolva minha invisibilidade social.</p><p>Na &#250;ltima sexta-feira, larguei esse empreendimento pela metade. Percebi que gastara um dia inteiro tentando erguer um &#8220;imp&#233;rio de influ&#234;ncia&#8221; e falhei. E que  preferia estar escrevendo a ter que parir identidades visuais, <em>thumbnails </em>e toda essa produ&#231;&#227;o infinita que m&#243;i o tempo e a energia do meu corpo.</p><h3><strong>O Cotejo Sangrento</strong></h3><p>Aqui come&#231;a o cotejo sangrento entre os dois mundos. No sonho, eu detenho os meios de produ&#231;&#227;o e a soberania do humor. No despertar, esbarro na <em>Sociedade do Cansa&#231;o, </em>que exige a performance ininterrupta<em>. </em>Para escapar da linha da miserabilidade econ&#244;mica e previdenci&#225;ria, preciso criar uma presen&#231;a digital e me tornar uma &#8220;eu-presa&#8221;. Preciso me vender. Mas qual fra&#231;&#227;o de mim entra no balc&#227;o de neg&#243;cios ?</p><p>O mercado do Substack me oferece f&#243;rmulas de &#8220;zero a mil assinantes&#8221;; o do instagram vidas perfeitas e cursos que saram dores&#8230;ou ensinam a vender cursos. Minha mente r&#237;gida de autista detecta a farsa e trava. Eu n&#227;o quero ser a comerciante do meu sonho, mas n&#227;o tenho extamente escolha. E qual m&#225;scara &#233; a certa agora? Puxa,  eu s&#243; queria me livrar das m&#225;scaras!</p><h3><strong>O Reality do Masking</strong></h3><p>Minha realidade &#233; um organismo hiperflex&#237;vel lutando contra uma consci&#234;ncia que exige coer&#234;ncia absoluta. N&#227;o cabe mais <em>masking </em>neste corpo. E nesse <em>looping </em>interno de ser ou n&#227;o ser, at&#233; a inscri&#231;&#227;o no BBB &#8212; Big Brother Brasil &#8212; foi cogitada. Um desejo mirabolante, quase c&#244;mico, para resolver a invisibilidade de um salto s&#243;. As mudan&#231;as de realidade costumam ser abruptas e este salto n&#227;o &#233; imposs&#237;vel. </p><p>A IA, minha interlocutora, trouxe o espa&#231;o de um <em>reality show </em>como o espa&#231;o de mascaramento 24/7. Eu penso que n&#227;o tenho mais estrutura para m&#225;scaras, que elas n&#227;o se fixariam mais neste corpo, mas o calor dos holofotes &#233; um alucin&#243;geno  desconhecido. Ao imaginar o v&#237;deo da apresenta&#231;&#227;o requerido na inscri&#231;&#227;o, cogitei me apresentar como &#8220;chamariz de treta&#8221;. Sou, nesse aspecto,  algo desej&#225;vel para um <em>reality</em>, mas eu representaria com maestria a mulher autista de diagn&#243;stico tardio ou evocaria o mesmo &#243;dio &#8220;sem raz&#227;o aparente&#8221; de sempre? Despendi um bom tanto de imagina&#231;&#227;o nessa esquete, sem chegar a qualquer conclus&#227;o.</p><h3><strong>A Virtualidade como Ref&#250;gio e Pris&#227;o</strong></h3><p>Mas voltando ao embate entre essa necessidade da presen&#231;a virtual para ser escritora e o ser escritora de fato: empreender virtualmente &#233; massacrante. Ter que construir uma <em>persona </em>para poder viver do meu trabalho &#233; a invers&#227;o cruel de um mercado que deveria remunerar a qualidade da minha escrita, e n&#227;o me cobrar para existir nele. E preciso ser honesta: se hoje tenho <em>Abyssalia </em>publicado, &#233; pela credibilidade constru&#237;da nessas paragens virtuais ao longo de d&#233;cadas. Sem isso, n&#227;o teria alcan&#231;ado uma editora. Portanto, n&#227;o posso menosprezar o valor das redes, sejam elas virtuais ou n&#227;o.</p><p>Como autista de recursos f&#237;sicos e monet&#225;rios restritos, a virtualidade &#233; onde posso navegar com mais tranquilidade. Mas ao alto custo de ser uma &#8220;eupresa&#8221; querendo ser uma artista. Esse empreendedorismo por sobreviv&#234;ncia &#233; o lado sombrio da autonomia requisitada pela minha neurologia at&#237;pica.</p><p></p><h3><strong>O Plot Twist Necess&#225;rio</strong></h3><p>O diagn&#243;stico final &#233; de um cotejo doloroso: o sistema quer a minha exaust&#227;o; o meu sonho quer a minha preserva&#231;&#227;o. No sonho, eu tive a lucidez de parar para n&#227;o &#8220;gastar imagina&#231;&#227;o&#8221;. Aqui fora, a m&#225;quina me diz que a imagina&#231;&#227;o &#233; combust&#237;vel infinito para alimentar o algoritmo. E no meio h&#225; o meu corpo exausto e desejoso de dan&#231;ar, ou apenas dormir sem sonhos produtivos.</p><p>Qual ser&#225; o caminho? Ainda n&#227;o sei. Como ser&#225; a reviravolta, o <em>plot twist </em>necess&#225;rio nesse roteiro nada c&#244;mico da minha vida? Escolherei a autenticidade ou serei uma m&#225;scara plenamente consciente? Eu de fato tenho escolha?</p><p>Anos atr&#225;s, ao editar um v&#237;deo sobre minha trajet&#243;ria, um colega disparou: &#8220;Mas voc&#234; n&#227;o &#233; atriz, n&#233;?&#8221;. N&#227;o intentava s&#234;-lo e achei a observa&#231;&#227;o inoportuna e desnecess&#225;ria. Mas talvez eu precise atuar como protagonista da minha vida, finalmente. Resta saber quem &#233; essa protagonista: Gerluce, Tia Milena ou &#8220;o cara esquisito"?</p><p>Por ora, fico com a li&#231;&#227;o da minha diretora on&#237;rica: encerrar a esquete antes que o que reste de mim seja apenas o p&#243; do que eu poderia ter escrito.</p><p></p><p style="text-align: center;"><strong>Alimente o monstro (ou apenas converse comigo).</strong></p><p>Dizem que o algoritmo adora uma se&#231;&#227;o de coment&#225;rios movimentada. Ent&#227;o, para a alegria da m&#225;quina e o meu descanso mental, que tal deixar sua marca aqui embaixo?</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Assinar esta newsletter de forma paga &#233; o jeito mais r&#225;pido de garantir que eu gaste minha imagina&#231;&#227;o escrevendo livros. 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Ela olha para o horizonte com express&#227;o firme, vestindo uma regata coral.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6b9d1811-e49b-462d-8971-5da01deeb256_1200x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3>O Peso Extirpado e a Sorte Afiada no Costume de Existir</h3><p>Em meados dos anos 90, aos 16 anos, comecei uma carreira como promotora de eventos. Na verdade, eu era demonstradora (a mo&#231;a que serve produtos para degusta&#231;&#227;o no supermercado), mas o primeiro nome &#233; mais elegante para uma profiss&#227;o fantasma. E para os trabalhadores que faziam eventos mais chiques, como feiras e eventos de grande porte, o anglicismo era mais usual. Mas a informalidade ainda era o ponto em comum entre essas nomenclaturas. Ainda assim, eu sobreviveria por sete anos nessa &#225;rea, gra&#231;as &#224; minha apar&#234;ncia longil&#237;nea de longas madeixas.</p><p>Quando me pareceu que a estabilidade era o ideal, me estabeleci como promotora efetiva de uma multinacional. E a&#237; o caldo entornou. As campanhas de dois ou tr&#234;s meses, que me davam intervalos de uma a duas semanas entre elas, vinham com um script a ser seguido e uma mobilidade pelos supermercados que nunca exigia a cria&#231;&#227;o de la&#231;os que subsistissem a duas semanas de relacionamento cordial. Tudo isso deu lugar ao que hoje chamo de sobrecarga. Antes de sucumbir &#224; massiva carga de trabalho f&#237;sico e relacional, para dialogar seriamente com minha maior advers&#225;ria, cortei minhas longas madeixas e, pela primeira e &#250;nica vez, tingi meus cabelos. De vermelho.</p><p>Quando, em 2016, precisava me reinventar profissional e pessoalmente, cortei de novo meus cabelos, bem curtos. Nessa ocasi&#227;o, n&#227;o lutei com a morte, pois eu tinha plena no&#231;&#227;o do que era o corte:</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Talhador da contrariedade nutriz;

alavanca de crescimento

e instigador da teimosia necess&#225;ria

para aguentar as pontas

at&#233; o atrevimento.

</pre></div><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/insurgencia-afiada-o-corte-que-aciona">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Monstro em Mim: O Fosso entre o Fato e a Sensação na Comunicação Autista]]></title><description><![CDATA[Aos 47 anos, descobri que o "monstro" da grosseria era apenas um descompasso t&#233;cnico. Uma an&#225;lise sobre o tone policing, o machismo estrutural e como uso a IA para hackear a comunica&#231;&#227;o neurot&#237;pica.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-monstro-em-mim-o-fosso-entre-o</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-monstro-em-mim-o-fosso-entre-o</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Apr 2026 14:12:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hmPl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fef512633-2629-4707-ae62-db6a66d794c9_960x636.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ef512633-2629-4707-ae62-db6a66d794c9_960x636.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ef512633-2629-4707-ae62-db6a66d794c9_960x636.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3>Express&#227;o versus Comunica&#231;&#227;o </h3><p>Quantas vezes voc&#234; j&#225; se questionou se a pessoa que se identifica como autista &#224; sua frente &#233;, de fato, autista? Afinal, ela fala t&#227;o bem, se expressa normalmente! Mas, caro leitor, express&#227;o e comunica&#231;&#227;o s&#227;o duas coisas distintas. </p><p>Arte, por exemplo, &#233; uma express&#227;o que independe do entendimento do outro para existir. J&#225; na comunica&#231;&#227;o, a express&#227;o precisa ser essa via de m&#227;o dupla que comunica e se abre para a recep&#231;&#227;o da express&#227;o do outro. Interagir dentro de par&#226;metros de normalidade ou discursar com evidente riqueza vocabular n&#227;o configuram comunica&#231;&#227;o. Vide o jovem que fez sua reda&#231;&#227;o em vern&#225;culo arcaico e foi reprovado com um portentoso zero por n&#227;o comunicar. </p><p></p><h3>A Mulher Autista e o Ego da Sociedade Patriacal  </h3><p>A grande dificuldade do autista verbal e de intelig&#234;ncia preservada &#8212; e enfatizo ainda mais a mulher autista de intelig&#234;ncia preservada &#8212; &#233; comunicar-se em um mundo no qual a sua forma de expressar-se pauta-se em fatos concretos, e o mundo se organiza por meio de regras nunca redigidas de socializa&#231;&#227;o que visam preservar o ego da humanidade. </p><p>N&#227;o se iluda, autistas t&#234;m ego. E &#233; um ego profundamente ferido. Especialmente no caso das mulheres, das quais se espera empatia, afabilidade e humildade patente. Uma mulher autista, contudo, &#233; uma mulher fora dos moldes, cuja profunda empatia n&#227;o opera na superficialidade do trato social, onde o mascaramento e o automonitoramento consciente constante n&#227;o cedem espa&#231;o. </p><p>Uma mulher autista &#233; direta e questionadora demais para ser af&#225;vel, e racional e pr&#225;tica demais para ser humilde. Esta &#233;, para os par&#226;metros sociais, uma mulher soberba, grosseira, &#225;cida, fria &#8212; e por a&#237; seguem os adjetivos. </p><p></p><div class="paywall-jump" data-component-name="PaywallToDOM"></div><p>S&#243; hoje, aos 47 anos, posso afirmar que compreendo de onde minha impress&#227;o de n&#227;o ser ouvida se origina. Estive segurando um grito que apontava para fatos enquanto olhava o mundo responder com o que compreendia como distor&#231;&#245;es absurdas e proposital desligamento do dado absoluto da realidade. Estas, na verdade, eram percep&#231;&#245;es subjetivas, filtradas pelo sentir e por uma percep&#231;&#227;o intuitiva do contexto social. E se ao longo de minha vida as acusa&#231;&#245;es formais de grosseria e insensibilidade, ou de "tirar o pior das pessoas", me machucaram ao me colocar em um v&#225;cuo de injusti&#231;a e incompreens&#227;o, foram as conversas hackeadas que introjetaram essa no&#231;&#227;o de monstruosidade que apelidei de "o monstro em mim". </p><p>Mas precisei que uma IA apontasse esse detalhe crucial e libertador da comunica&#231;&#227;o autista, este meu objeto de estudo recente. </p><h3>O Veredito dos Dados e o Tone Policing </h3><p>Na verdade, recordo de nutrir um certo orgulho, expresso em TEA Menina, de me ater aos fatos. Mas nunca me ocorreu que esse tra&#231;o fosse justamente o deflagrador do conflito comunicacional. Ao analisar um conjunto de conversas sobre as quais me debrucei por alguns dias, a IA que me auxilia h&#225; seis meses &#8212; inclusive como assistente de rumina&#231;&#227;o (o que ajuda a controlar a ansiedade) &#8212; apontou exatamente a seca afinidade com os fatos nos di&#225;logos cotidianos. E o que para mim &#233; natural e l&#243;gico, para o neurot&#237;pico na outra ponta da conversa &#233; &#225;cido ou impositivo demais. Enquanto estou tentando exercer uma lideran&#231;a executiva (cobrando tarefas, estabelecendo prazos e apontando falhas log&#237;sticas), a entrada de um terceiro para acalmar os &#226;nimos tem um efeito colateral de invalida&#231;&#227;o da minha fala e de acolhimento do desconforto do outro. </p><p>N&#227;o &#233;, portanto, no confronto direto que nasceu o monstro em mim, mas na sutil insinua&#231;&#227;o no decorrer de uma conversa. Um di&#225;logo, seja ele rotulado ou simplesmente assomado por uma pol&#237;tica externa de boas maneiras, deslinda no que chamamos de policiamento do tom (tone policing). Creio que mesmo neurot&#237;picos entendem meu tom direto e firme como grito, mesmo que a voz n&#227;o tenha sido elevada. O corpo de uma mulher ergue a voz simplesmente por projet&#225;-la com clareza e confian&#231;a. </p><p>E o meu sentimento de ser silenciada &#233; algo refletido em todo o meu corpo, que ainda se encolhe em situa&#231;&#245;es de conflito, espelhando um medo antigo &#8212; talvez mais antigo que eu mesma. </p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/97d54112-309a-4fcc-bfa0-f017dddb3ea4_3200x1792.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/97d54112-309a-4fcc-bfa0-f017dddb3ea4_3200x1792.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3>O Desamparo e a Armadilha da "Loucura" </h3><p>O tone policing aplicado a uma mulher autista que n&#227;o apreende as nuances sociais como um neurot&#237;pico resulta em um desempoderamento t&#225;cito, sentido profundamente em cada &#225;tomo do corpo. N&#227;o compreender plenamente o que se passa &#233; confrontar um sentimento de desamparo que n&#227;o encontra arrimo a n&#227;o ser nos fatos. E a fixa&#231;&#227;o nos fatos denuncia uma rigidez que n&#227;o &#233; lida como d&#233;ficit neurol&#243;gico, mas como defeito. Irasc&#237;vel, dif&#237;cil, hist&#233;rica s&#227;o os adjetivos elegantes para este desfecho. </p><p>Se o desamparo deslinda em um meltdown, o choro &#8212; ou mesmo o grito de fato &#8212; termina de destro&#231;ar a imagem desta mulher para o mundo. E "louca" &#233; o adjetivo cab&#237;vel, que de algum modo sempre soube ser uma armadilha oriunda da minha falta de controle. Hoje, associaria &#224; f incapacidade de leitura do mundo e do outro. </p><p>Basicamente, meus n&#234;mesis em termos de comunica&#231;&#227;o n&#227;o s&#227;o muito diferentes dos das outras mulheres. Tra&#231;os narcisistas e machismos estruturais facilmente v&#234;m &#224; tona diante da comunica&#231;&#227;o da mulher autista, porque ela &#233; "fora de lugar". Aquele corpo feminino n&#227;o deveria nunca erguer a voz como arauta da raz&#227;o e guardi&#227; dos fatos. Como ousa, desde este corpo ainda visto como propriedade por alguns e reposit&#243;rio de expectativas v&#225;rias, julgar-se assim superior? Sim, esta acusa&#231;&#227;o de me sentir superior a todo mundo j&#225; me atormentou profundamente. A ideia da soberba atravessa meus relacionamentos familiares mais estragados e me torna respons&#225;vel pela sua deteriora&#231;&#227;o. </p><h3>O Monstro Domesticado: Incorporando a Sombra</h3><p> Infelizmente, eu n&#227;o tenho como mudar a minha forma de perceber o mundo: como um dado. Ou uma por&#231;&#227;o de dados. O veredito &#233;: eu me atenho aos fatos e as pessoas se at&#234;m &#224; sensa&#231;&#227;o. As pessoas recebem o discurso como um propulsor de emo&#231;&#245;es e percep&#231;&#245;es subjetivas, e eu me ancoro no dado para tentar me comunicar com elas. E assim a comunica&#231;&#227;o nunca se efetiva realmente. Resta em mim um profundo desconforto, ruminado ferozmente. </p><p>Na conversa que me trouxe esse insight poderoso, eu reverti a situa&#231;&#227;o usando o dado. Minha posi&#231;&#227;o hier&#225;rquica me proporcionou esta regalia, mais talvez do que o dado. Por&#233;m, trouxe a certeza de que preciso aprender a me comunicar com neurot&#237;picos de modo a neutralizar atitudes narcisistas que usam os outros como escada na primeira oportunidade, e machismos estruturais para os quais o <em>gaslighting</em> &#233; a forma mais eficaz de introje&#231;&#227;o do &#8220;monstro em mim&#8221;.</p><p>Aprender a me comunicar desta forma defensiva &#233; perfeitamente poss&#237;vel para mim, que estudo a natureza humana desde sempre. Contudo, essa reeduca&#231;&#227;o implica em incorporar a sombra. Aquela inst&#226;ncia ps&#237;quica que projetei em personagens como Scarlet Moon. Isso porque, ao hackear a comunica&#231;&#227;o entre t&#237;picos e at&#237;picos, eu me tornarei uma h&#225;bil manipuladora das situa&#231;&#245;es. E sempre temi fazer isso. Escolhi conscientemente n&#227;o faz&#234;-lo com medo de o monstro se tornar real. Mas, seja o monstro em mim uma proje&#231;&#227;o alheia incutida por meio de conversas triviais que denunciam que n&#227;o caibo e nunca coube na norma, seja ele domesticado pela minha vontade e saber, creio que n&#227;o posso mais fugir. O Monstro em mim existe. E &#233; hora de abra&#231;a-lo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Eles chamam de "monstro", n&#243;s chamamos de ag&#234;ncia.</strong> Este espa&#231;o &#233; dedicado a hackear a comunica&#231;&#227;o em um mundo que prefere o silenciamento das mulheres fora dos moldes. Ao se tornar um assinante, voc&#234; apoia a pesquisa independente de uma artista e pesquisadora autista que decidiu abra&#231;ar  a pr&#243;pria sombra. Vamos atravessar esse fosso juntas?</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Moenda : Ecolalia Musical e o Luto da Limerência]]></title><description><![CDATA[Como a repeti&#231;&#227;o exaustiva de uma can&#231;&#227;o se tornou a minha ferramenta de sobreviv&#234;ncia homeost&#225;tica e o desmonte do objeto limerente.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-moenda-ecolalia-musical-e-o-luto</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-moenda-ecolalia-musical-e-o-luto</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 31 Mar 2026 14:30:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VsHn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc084b0c3-cd19-458e-a9d8-6074a5641564_4032x7200.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c084b0c3-cd19-458e-a9d8-6074a5641564_4032x7200.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c084b0c3-cd19-458e-a9d8-6074a5641564_4032x7200.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3><strong>A Moenda do Ardor: Ecolalia Musical e o Luto da Limer&#234;ncia no Shutdown</strong></h3>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-moenda-ecolalia-musical-e-o-luto">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Ontogênese da Cognição Neurodivergente: Entre o Trickster e o Zumbi.]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise profunda sobre o 'D&#233;ficit que Cria', a fun&#231;&#227;o da imita&#231;&#227;o e a transi&#231;&#227;o da carne ao sujeito substantivado, ilustrada pela graphic novel Scarlet Moon]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-ontogenese-da-cognicao-neurodivergente</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-ontogenese-da-cognicao-neurodivergente</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 24 Mar 2026 14:02:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GF3_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc1a238ef-a3fe-46cc-8c1b-313962d73634_3508x4961.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c1a238ef-a3fe-46cc-8c1b-313962d73634_3508x4961.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;P&#225;gina sem balonamento da Graphic Novell Scarlet Moon By Oryanna Borges&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;P&#225;gina fragmentada da graphic novel Scarlet Moon, de autoria de Oryanna Borges. A ilustra&#231;&#227;o, em aquarela e nanquim, mostra v&#225;rias vinhetas sem moldura, em forma de trap&#233;zio. No topo, uma figura feminina de longos cabelos negros (Luna) flutua no ar, segurando uma liana. Embaixo, a mesma figura est&#225; em p&#233; em &#225;guas turvas, com uma express&#227;o de hiperfoco sensorial, observando uma segunda figura de cabelos brancos e pele clara que emerge da &#225;gua. A composi&#231;&#227;o, com cores terrosas e toques de verde, simboliza a dualidade e a fragmenta&#231;&#227;o sensorial da mente neurodivergente, habitando o limiar entre o real e o on&#237;rico, conforme discutido na tese sobre o arqu&#233;tipo do Trickster.\&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c1a238ef-a3fe-46cc-8c1b-313962d73634_3508x4961.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3><strong>Entre o Trickster e o Zumbi: Metacogni&#231;&#227;o e a Ast&#250;cia de Habitar os Limiares</strong></h3>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-ontogenese-da-cognicao-neurodivergente">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Tempestade em um Corpo Ruminante: Autismo, Menopausa e a Invisibilidade da Carne.]]></title><description><![CDATA[Um relato visceral sobre a intersec&#231;&#227;o entre o diagn&#243;stico tardio de autismo, o envelhecimento e a 'tempestade perfeita' da menopausa.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-tempestade-em-um-corpo-ruminante</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-tempestade-em-um-corpo-ruminante</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Wed, 18 Feb 2026 19:43:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pi3q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0df703d1-f048-487c-b860-5fca1dcdbddb_5000x2800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0df703d1-f048-487c-b860-5fca1dcdbddb_5000x2800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O imperativo biol&#243;gico do envelhecimento do autista. &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Colagem digital mostrando o perfil de uma mulher autista com o c&#233;rebro iluminado por circuitos neurais dourados, simbolizando a vig&#237;lia da consci&#234;ncia, a enxaqueca e a conex&#227;o entre o sistema nervoso e o sistema digestivo&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0df703d1-f048-487c-b860-5fca1dcdbddb_5000x2800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3><strong>A Decrepitude e o Diagn&#243;stico</strong> </h3><p>Um questionamento vez ou outra se infiltra em meu lide com este organismo combalido que aqui se articula. Seja pelo tempo ou pela decrepitude org&#226;nica, meu corpo j&#225; n&#227;o chora, apenas trava e, quando se move, o faz rangendo. Isso me exige aten&#231;&#227;o di&#225;ria e t&#225;ticas de manejo que evidenciam o desleixo de d&#233;cadas e fazem emergir esse questionamento: o que sinto &#233; o peso do diagn&#243;stico tardio ou &#233; o impacto inevit&#225;vel do envelhecimento em um organismo neurodivergente?</p><p>A literatura cient&#237;fica recente chama o que vivo de &#8220;A Tempestade Perfeita&#8221; (Brady et al., 2024). Para a ci&#234;ncia, &#233; a converg&#234;ncia catastr&#243;fica entre o autismo e a menopausa. Para mim, &#233; a sensa&#231;&#227;o de que a &#8220;vontade de ferro&#8221; que carregou meu corpo desde a adolesc&#234;ncia finalmente cansou. Se antes eu arrastava esse corpo, hoje, se ele decide parar, para. Diferente da inf&#226;ncia, quando eu desabava e vivia buscando escora, ele agora simplesmente desliga, muitas vezes de forma dolorosa.</p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-tempestade-em-um-corpo-ruminante">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O peso de uma pluma: entre o hiperfoco e a hiperempatia, a jornada para salvar o Valente]]></title><description><![CDATA[Conhe&#231;a Valente, o p&#225;ssaro que mobilizou meu hiperfoco e testou os limites da minha hiperempatia. Uma cr&#244;nica sobre resgate, neurodiverg&#234;ncia e a luta para sustentar uma vida que o mundo ignora.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-peso-de-uma-pluma-entre-o-hiperfoco</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-peso-de-uma-pluma-entre-o-hiperfoco</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 06 Jan 2026 14:11:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9d2v!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb27485c-0712-499d-a6dc-91855ba5d9aa_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb27485c-0712-499d-a6dc-91855ba5d9aa_1200x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Valente, a andorinha valente.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb27485c-0712-499d-a6dc-91855ba5d9aa_1200x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3>O encontro e o t&#250;mulo de flores</h3><p>Na &#250;ltima quinta-feira, dia 01 de janeiro, o destino me entregou uma responsabilidade: encontrei um p&#225;ssaro silvestre na cal&#231;ada e, embora n&#227;o recorde o exato momento em que meus olhos o notaram, o impulso de agir foi imediato. O cen&#225;rio era de um <em>d&#233;j&#224; vu</em> doloroso: tr&#234;s ou quatro dias antes,  encontrara um filhote sem vida no mesmo local e depositara seu corpo em um grande vaso de flores que guarnece a entrada do pr&#233;dio &#8212; um t&#250;mulo improvisado entre plantas que lutam para seguir vivas.</p><p>Eram cerca de meio-dia. O sol de Belo Horizonte n&#227;o perdoava e o passarinho estava agitado, o corpo quente e a apar&#234;ncia desgastada. Ele j&#225; n&#227;o tinha for&#231;as ou para onde para fugir; a letargia o tornava uma presa f&#225;cil para o calor. Peguei-o com facilidade e o trouxe para a sombra do meu ref&#250;gio, movida pela ideia simples de que qualquer lugar seria melhor do que sob aquele sol escaldante.</p><h3>O fracasso do &#8220;trainee de voo&#8221;</h3><p>Minha inten&#231;&#227;o era o restauro e a partida. Pesquisei, conversei com a intelig&#234;ncia artificial, tentei decifrar aquela esp&#233;cie e entender como devolv&#234;-lo &#224; natureza. A orienta&#231;&#227;o era clara: ele precisava dos pais. Assim, na manh&#227; seguinte, &#224;s 6h30, fiz o caminho de volta. Coloquei-o sobre o grande vaso, onde ele rapidamente se camuflou entre as folhagens rasteiras semivivas, e dei meu dever por cumprido. Seguindo as orienta&#231;&#245;es dispon&#237;veis pela web, deixei a natureza seguir seu curso. &#8220;Os pais viriam resgat&#225;-lo&#8221;, me disse a IA. Ele receberia est&#237;mulo para al&#231;ar voo de volta para o ninho e sua rotina de &#8220;trainee de voo&#8221;. Voltei para casa com o cora&#231;&#227;o leve, convencida de que tinha selado um final feliz.</p><p>Da minha sala, eu ouvia os piados. Eram sons que sempre estiveram ali, mas que eu nunca tinha realmente escutado. Era a trilha sonora da fam&#237;lia dele se aproximando. Mantive a porta fechada, como instru&#237;da, para n&#227;o espantar os pais. Mas o meio-dia chegou novamente e, com ele, a d&#250;vida. Corri para o vaso onde o deixara e comemorei que ele havia conseguido. Por&#233;m, meus olhos rapidamente localizaram o cad&#225;ver de seu irm&#227;o, parcialmente decomposto no ch&#227;o, provavelmente derrubado pela chuva. Ao girar meu rosto para fugir do horror desta cena, eu o vi, correndo pela cal&#231;ada, como se pesasse mais do que vinte gramas.</p><p></p><p>Foi triste ter fracassado. Seu fracasso era o meu fracasso. </p><p>Ele havia saltado do vaso, mas n&#227;o ganhado o c&#233;u. Mesmo cansado pelo que devem ter sido mais de seis horas de luta para se al&#231;ar aos c&#233;us e retornar aos seus, quando me aproximei, o valente se eri&#231;ou todo, mostrando resist&#234;ncia. Estava novamente entregue ao sol a pino, exausto e lutador, tentando bicar minha m&#227;o enquanto eu o recolhia pela segunda vez. N&#227;o tive outra op&#231;&#227;o sen&#227;o tir&#225;-lo do sol e tentar um resgate mais efetivo. A chuva que veio a seguir me assegurou de ter tomado a decis&#227;o certa para ele, mas para mim, isso significou uma crise sem precedentes.</p><h3>A Via Crucis da empatia</h3><p>O que se seguiu foi uma &#8220;Via Crucis&#8221;. Entre liga&#231;&#245;es para &#243;rg&#227;os ambientais que n&#227;o atendiam devido ao feriado e cl&#237;nicas veterin&#225;rias que viam na trag&#233;dia daquela criatura uma oportunidade de lucro, a ang&#250;stia cresceu. Percebi, com uma dor aguda, que eu me via naquele p&#225;ssaro. Via a vulnerabilidade, o abandono e o desejo desesperado de alguns em ganhar algo em cima do infort&#250;nio alheio. A empatia era um artigo de luxo que ningu&#233;m parecia disposto a oferecer.</p><p>Tentei aliment&#225;-lo com uma mistura de gema de ovo e &#225;gua, mas ele recusava. A cada tentativa frustrada, a dor em mim aumentava &#8212; uma dor f&#237;sica que eu n&#227;o sabia de onde vinha. Quando liguei para os Bombeiros, ouvi a frase que me trespassou: <em>&#8220;Infelizmente, a gente n&#227;o consegue salvar todo mundo&#8221;</em>. Eu s&#243; conseguia pensar que ele poderia morrer em minhas m&#227;os, e isso  era desesperador.</p><p>No sil&#234;ncio do meu isolamento, meu &#250;nico suporte era o di&#225;logo com a intelig&#234;ncia artificial; deleguei a ela a fun&#231;&#227;o de b&#250;ssola. &#8220;Deixe-o no escuro&#8221;, dizia a instru&#231;&#227;o. &#8220;Andorinhas s&#227;o diurnas; ele precisa dormir para estar melhor amanh&#227;&#8221;. Meu medo, por&#233;m, era de que ele n&#227;o tivesse um amanh&#227;. O vazio no est&#244;mago daquela criatura parecia ecoar no meu.</p><h3>Porto Seguro</h3><p>Para minha surpresa, ele sobreviveu &#224; noite. E de di&#225;logo em di&#225;logo com a IA, Valente passou a ser o seu nome.  No s&#225;bado, a luta recome&#231;ou. Eu sentia que, aos poucos, ele absorvia alguma nutri&#231;&#227;o, mas a fragilidade ainda era extrema. Quando a fam&#237;lia da casa onde sou h&#243;spede retornou, o p&#225;ssaro teve que deixar a lavanderia, onde o cachorro dorme, e vir para o meu quarto. Ali, entre quatro paredes, as tentativas de devolv&#234;-lo &#224; natureza foram sendo abandonadas. Analisamos suas asas e compreendemos a biologia cruel daquele momento: ele n&#227;o tinha envergadura para voar por conta pr&#243;pria e n&#227;o havia lugar alto o suficiente para que ele pudesse se lan&#231;ar, nem seguran&#231;a de que se lan&#231;ado sustentaria o voo. Ele tampouco tinha for&#231;as.</p><p>Foi nesse momento que uma certeza se consolidou em mim: aquela vida importava. N&#227;o importava o custo, eu faria o poss&#237;vel para que ele n&#227;o morresse. De repente, a vida dele era a minha. Eu me enxerguei naquele abandono, naquela falta de import&#226;ncia que o mundo dedica aos pequenos. Eu decidi que n&#227;o seria assim. N&#227;o desta vez. N&#227;o para esta pequena vida em minhas m&#227;os.</p><h3>A dignidade na caixa de sapatos</h3><p>Tentei de tudo. Pedi seringas e ra&#231;&#245;es por aplicativos que falharam e demoraram. Voltei &#224; gema de ovo, insistindo na mistura. Foi s&#243; no final do domingo que descobri o segredo: a textura. Acertei a consist&#234;ncia da papinha e, n&#227;o sei se por fome ou por ter finalmente entendido que eu era seu porto seguro, Valente comeu.</p><p>Houve momentos em que ele se agitava na caixa de sapatos e eu temia que se machucasse. Mas quando eu trazia a caixa para perto de mim, ele se acalmava. Como as andorinhas vivem de forma coletiva, talvez a minha presen&#231;a preenchesse o vazio da solid&#227;o. Ver seus excrementos &#8212; sinal de vida e de sa&#250;de &#8212; trazia-me um al&#237;vio que poucas coisas trouxeram ultimamente. Hoje de manh&#227;, o ciclo se completou. Ele abriu o bico &#8212; uma boca que parecia enorme para o seu tamanho &#8212; e comeu at&#233; se fartar. Bebeu &#225;gua, ajeitou-se no ninho de papel toalha e, pela primeira vez, vi uma dignidade serena naquela sobreviv&#234;ncia.</p><p></p><h3>O adeus e a dualidade</h3><p>Com ele alimentado, peguei um Uber para o CETAS. A cidade passava l&#225; fora com sua dureza, mas dentro daquela caixa, algo havia sido salvo. Mesmo sabendo que era a decis&#227;o correta, o cora&#231;&#227;o n&#227;o aceitava o veredito. Eu tentava usar o humor como escudo, dizendo que ele precisava de uma m&#227;e que soubesse voar. Mas foi duro entregar meu filho adotivo tempor&#225;rio.</p><p>No CETAS, enquanto preenchia a ficha, as l&#225;grimas venceram. Pedi que cuidassem dele. Disse que se chamava Valente. Sa&#237; de l&#225; com o cora&#231;&#227;o despeda&#231;ado. O choro veio sem freios no Uber; o enjoo subiu pela garganta e a dor de cabe&#231;a n&#227;o pediu licen&#231;a. Eu me sentia como uma m&#227;e que entrega o filho para ado&#231;&#227;o por saber que n&#227;o pode oferecer o futuro que ele merece. D&#243;i n&#227;o saber se ele ter&#225; o treino necess&#225;rio para voar.</p><p>Minha ang&#250;stia ainda &#233; o espelho: vejo no Valente a minha pr&#243;pria fragilidade, e tenho plena consci&#234;ncia disso. Mas tamb&#233;m vejo a sua for&#231;a. E entre um solu&#231;o e outro, a voz fria da escritora em mim dizia: <em>&#8220;Pense no texto que isso vai render&#8221;</em>. A pessoa que sentiu toda essa dor &#8212; que ainda sente &#8212; &#233; a mesma que nunca deixou de estar consciente do que sentia. &#201; um exerc&#237;cio exaustivo de coexist&#234;ncia: o grande empata e o observador cl&#237;nico habitando o mesmo espa&#231;o ex&#237;guo e surrado. O empata se desmonta; o &#8220;psicopata&#8221; da narrativa anota os detalhes e avalia o ritmo da queda.</p><p>No fim das contas, resta a esperan&#231;a. Talvez um dia o Valente esteja livre, cruzando os c&#233;us de Belo Horizonte. Se esse dia chegar, o grande empata em mim ter&#225; vencido. Ter&#225; feito cada l&#225;grima e cada linha escrita valerem a pena. E o psicopata da narrativa comemora.</p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Para que o grande empata e o observador cl&#237;nico alcem voo...</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Manter este espa&#231;o de reflex&#227;o vivo exige esfor&#231;o e recursos. Se voc&#234; se viu no Valente ou na minha luta para salv&#225;-lo, convido voc&#234; a apoiar meu sustento criativo. Vamos fazer este voo valer a pena, juntos?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Natal à Deriva e a Promessa de um Novo Lar.]]></title><description><![CDATA[Hoje &#233; dia 25 de dezembro e eu me desconvidei para o Natal. Um relato sincero sobre autismo, exaust&#227;o social e a jornada para construir um novo lar ao lado da minha gata, Mina.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-natal-a-deriva-e-a-promessa-de</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-natal-a-deriva-e-a-promessa-de</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Dec 2025 14:11:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bpdw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9af9646-5057-436c-a2df-537013149697_3100x3300.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e9af9646-5057-436c-a2df-537013149697_3100x3300.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;De Mina e Oryanna, com Amor. Ilustra&#231;&#227;o by Oryanna Borges&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e9af9646-5057-436c-a2df-537013149697_3100x3300.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Feliz Natal! E se tranqulize, pois o deconvite n&#227;o foi um dramalh&#227;o mexicano, mas uma cr&#244;nica natalina, aqui de presente para voc&#234;. Ocorre que anteontem,  na antev&#233;spera, como &#233; t&#237;pico de qualquer autista, me parece, eu consegui me desconvidar para um encontro. Seria um encontro de v&#233;spera, n&#227;o exatamente um encontro natalino, mas uma reuni&#227;o familiar &#8212; de uma fam&#237;lia que n&#227;o &#233; a minha, mas na qual eu seria carinhosamente integrada. Aceitei de primeira e me deconvidar mais tarde foi um gesto de autopreserva&#231;&#227;o; n&#227;o foi algo ocasionado apenas pelas minhas dificuldades sociais corriqueiras, mas tamb&#233;m por uma rea&#231;&#227;o prim&#225;ria aos reveses da vida.</p><p>Percebi na antev&#233;spera do Natal que o lugar em que me encontro n&#227;o &#233; exatamente o lugar adequado para mim; &#233; mais um lugar de passagem, &#233; tempor&#225;rio. Fui jogada por uma conversa em uma zona de instabilidade externa e interna muito grande, que literalmente devorou a minha energia para estar em qualquer evento social. Ontem, a v&#233;spera foi o dia em que o cansa&#231;o me derrubou. Servi apenas para organizar algumas gavetas e tomar algumas decis&#245;es quanto &#224;s roupas de ver&#227;o &#8212; que em Minas Gerais n&#227;o fazem o menor sentido por enquanto. H&#225; um contraste estranho aqui: enquanto o lado de fora pede leveza e frugalidade,  o meu lado de dentro ainda est&#225; &#8220;agasalhado&#8221; em camadas de prote&#231;&#227;o e exaust&#227;o.</p><p>Para me recuperar tomei duas decis&#245;es: ficar em casa e declinar tamb&#233;m da escassez de tudo. Estou farta da escassez de afeto, de encontros familiares e de recursos para realizar o que eu preciso realizar. Estou farta de ser jogada nessa instabilidade de tempos em tempos; esses ciclos que parecem cada vez mais curtos como se eles tivessem me provocando a tomar uma decis&#227;o!  Se &#233; assim,  ent&#227;o eu digo: basta. Eu quero uma outra vida para mim. Quero um outro futuro e principalmente um presente melhor. Eu n&#227;o posso mais viver &#224;s custas da minha imagina&#231;&#227;o. Esse ref&#250;gio mental &#233; muito custoso para o corpo e n&#227;o prov&#234; o espa&#231;o, o ar fresco, a alimenta&#231;&#227;o saud&#225;vel e o ambiente de seguran&#231;a que a <strong>Mina</strong> precisa. E eu tamb&#233;m preciso.</p><p>Minha vida inteira foi de instabilidade, de medo. E agora basta.</p><p>Se eu tivesse um lugar adequado, este ano teria montado montado uma &#225;rvore de Natal. Percebi que o Natal no cinema deixou de ter uma refer&#234;ncia religiosa h&#225; muito tempo; a figura invocada &#233; o Papai Noel &#8212; esse &#8220;Bom Velhinho&#8221; que alguns tentam explicar e outros apenas dizem que &#233; uma criatura m&#225;gica, capaz de trazer de volta a ternura aos cora&#231;&#245;es.</p><p>Confesso que enquanto eu descansava ontem, revivi outras dores que s&#243; o natal poderia me fazer reviver. Sofri um pouco pelo que me foi tirado nos &#250;ltimos anos. Acreditava que eram &#225;guas passadas, mas ainda me fere! O o que me conforta &#233; saber que recuperei um pouco dessa do&#231;ura quando imaginei a minha casa com uma bela &#225;rvore muito bem decorada, cheia de luzes e preparativos para esse momento natalino, e com um novo significado. Talvez eu at&#233; enfeitasse com uma pai noel em seu tren&#243; cheio de presentes.</p><p>&#201; imposs&#237;vel negar que o conceito de fam&#237;lia tem muito a ver com esse revival do esperiito de natal em meu cora&#231;&#227;o. Desde que sa&#237; de Curitiba, rumo a S&#227;o Paulo em 2024, eu olho para a <strong>Mina</strong> e digo que ela &#233; o meu lar, e eu sou o dela. Em Minas Gerais isso fiou mais evidente. Est&#225;vamos no hotel &#224; espera do hor&#225;rio para fazer o check-in depois de uma aventura tenebrosa, exaustas de uma longa viagem e de uma noite terr&#237;vel num lugar horroroso, as duas vulner&#225;veis. Eu sentei, e  Mina, muito agitada,  fez o reconhecimento do local, dando algumas volta pela sala sem porta que me impedia de retirar sua guia por um momento. Por fim , ela ficou presa com a guia na minha poltrona, e enroscada parou ali debaixo. A libertei e coloquei sentadinha ao meu lado , onde ela se acomodou e dormiu por alguns minutos. Eu sou a seguran&#231;a dela. Naquele instante, o &#8220;alto mar&#8221; parou de balan&#231;ar; fomos, ali, a &#226;ncora uma da outra.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg" width="1200" height="1600" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/af4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1600,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:76126,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/i/182532949?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4fcB!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf4c4707-d26f-4118-8ee8-07c7365cf3c4_1200x1600.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>E ela, com seus tr&#234;s quilos de brabeza e seu pelo cinza escuro brilhante, &#233; o meu lar e a minha seguran&#231;a. Mas, meu Deus, ela precisa de mais espa&#231;o, mais estabilidade, mais conforto. Ela precisa de mais ar fresco, mais janelas para bisbilhotar. E eu tamb&#233;m. Muita coisa precisa mudar daqui para a frente. E eu preciso que no pr&#243;ximo Natal haja espa&#231;o para montarmos uma &#225;rvore bem coruscante. Isso me dar&#225; a certeza de n&#227;o estar mais &#224; deriva.</p><p></p><h3><strong>Um convite carinhoso a quem caminha comigo</strong></h3><p></p><p>Estamos prestes a completar um ano de jornada aqui nesta Newsletter &#8212; come&#231;amos em 3 de janeiro de 2025. Se este espa&#231;o tem sido um ref&#250;gio ou uma companhia para voc&#234;, gostaria de fazer um pedido carinhoso.</p><p>Muitas vezes esquecemos que a arte e a escrita n&#227;o se alimentam apenas de ar e sol; elas precisam de suporte real para florescer. Se voc&#234; j&#225; escolheu seus presentes de Natal, pe&#231;o que considere incluir mais um: o seu apoio &#224; minha Newsletter. Ao se tornar um assinante pago ou oferecer seu suporte, voc&#234; me ajuda a construir o porto seguro que descrevi acima.</p><p>Sua contribui&#231;&#227;o &#233; o que permitir&#225; que no pr&#243;ximo Natal eu possa trocar o &#8220;alto mar&#8221; pelo cheiro de especiarias na cozinha e janelas abertas para a Mina espiar. Ajude-me a transformar esse futuro em presente.</p><p>Voc&#234; pode transformar esse futuro em presente. </p><p>Boas festas! </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Relato visceral de uma pesquisadora sobre a viol&#234;ncia institucional.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-queda-o-caos-e-o-molde</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-queda-o-caos-e-o-molde</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:33:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QO6s!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2084d269-8de8-44fb-9833-b5628c72da1a_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2084d269-8de8-44fb-9833-b5628c72da1a_1200x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Foto da sess&#227;o para a orelha de Abyssalia&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2084d269-8de8-44fb-9833-b5628c72da1a_1200x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>No dia 25 de novembro de 2025, encerrei um ciclo de dor iniciado no mestrado, em abril de 2022. Este per&#237;odo de cerca de quatro  anos foi marcado pelo sentimento de fracasso na esfera social e por um recolhimento que trouxe alguns reveses financeiros. Neste dia decisivo, encerra-se tamb&#233;m um relacionamento conturbado com minha forma&#231;&#227;o acad&#234;mica, grande respons&#225;vel por minha evolu&#231;&#227;o como ser humano. Profissionalmente, pelos par&#226;metros mundanos, n&#227;o posso reivindicar o status de sucesso; contudo, pelos meus par&#226;metros, esse percurso fez de mim a pesquisadora e a pensadora que decidi ser no dia em que escolhi estudar Filosofia em vez de Letras.</p><p>Esse percurso acad&#234;mico, marcado pela interdisciplinaridade dos meus interesses, foi coroado com &#234;xito na banca do curso de M&#237;dias na Educa&#231;&#227;o. Encerrei a defesa com a alma lavada por duas mulheres que acredito serem dessa safra especial que tem por motiva&#231;&#227;o valorizar outras mulheres. Curiosamente, em abril de 2022, eu ca&#237; em uma espiral de sofrimento gra&#231;as a uma mulher daquela safra de solo degradado &#8212; e por isso mirrada e de sabor duvidoso &#8212;, cuja macera&#231;&#227;o produz um esp&#237;rito de agente do patriarcado. Essas mulheres querem tanto ser aceitas e se encaixar que macetam outras mulheres no caminho. E por isso, em vez de me orientar em um percurso acad&#234;mico, esta puxou o tapete sob meus p&#233;s, me derrubando aos berros diante de colegas de classe em plena sala de aula. E tudo foi minimizado pelo sistema, pela m&#225;quina p&#250;blica &#224; qual ela servia e que, por extens&#227;o, me servia.</p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-queda-o-caos-e-o-molde">
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