<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Oryanna Borges: TEA Menina]]></title><description><![CDATA[Ouça uma história sobre comunicação escrita por uma mulher com um déficit comunicacional e entenda o ônus da deficiência invisível para as meninas perguntadeiras.  ]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/s/tea-menina</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png</url><title>Oryanna Borges: TEA Menina</title><link>https://www.oryannaborges.com/s/tea-menina</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 21 May 2026 06:20:48 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.oryannaborges.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Oryanna Borges]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[TEA Menina: O Feiticeiro Mestiço que retornou do inferno]]></title><description><![CDATA[O Cap&#237;tulo 16 de TEA Menina, para voc&#234; leitor que acompanha essa jornada sobre o neurodiverg&#234;ncia e a viol&#234;ncia estrutural que atravessa vida mulher autista.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-o-feiticeiro-mestico-que</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-o-feiticeiro-mestico-que</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:34:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O5Sb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O Feiticeiro Mesti&#231;o&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;lustra&#231;&#227;o de um homem negro de silhueta solene, vestindo um palet&#243; azul cl&#225;ssico e chap&#233;u fedora. Ele est&#225; em p&#233; diante de um fundo de chamas laranjas e azuis, segurando mantos de penas azuis. A arte representa Izaltino, o curandeiro mesti&#231;o do livro TEA Menina.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3>16. O curandeiro mesti&#231;o</h3><p></p><p>&#201; evidente que h&#225; alguns padr&#245;es nos arranca-rabos e plot twists dessa hist&#243;ria, ainda que o mosaico da mem&#243;ria n&#227;o permita uma flu&#234;ncia linear. E isso n&#227;o est&#225; especificamente na caracter&#237;stica predat&#243;ria dos homens que aqui se insinuam e se esgueiram pelo desamparo das meninas. O padr&#227;o mais estarrecedor &#233; o de que h&#225; meninas de uma mesma fam&#237;lia expostas a esses predadores e at&#233; mesmo entregues de bom grado a eles. O outro, que a mim j&#225; n&#227;o consterna, mas que algumas mentes arraigadas a certos princ&#237;pios custar&#227;o a ver &#8212; e quando essa possibilidade lhes for apontada dir&#227;o: &#8220;Tem algo errado aqui. Maria n&#227;o abandona seus filhos&#8221; &#8212;, deixando escapar &#224; percep&#231;&#227;o o fato de que se trata de filhas. Essa Maria nunca abandonou seu filho. Mas as regras que ela aprendeu e reproduziu sobre as filhas s&#227;o outras. E s&#227;o r&#237;gidas como ela pr&#243;pria.</p><p>Essa Maria n&#227;o &#233; uma Maria como outra qualquer. Em vez do filho, ela &#233; a m&#225;rtir a carregar uma cruz sempre renovada pelas pessoas que n&#227;o seguem &#224; risca sua concep&#231;&#227;o austera de funcionamento do mundo. Ela padece as dores do casamento e da maternidade, e sofre sempre mais do que qualquer um que tenha ofendido ou abandonado durante seu calv&#225;rio. E &#233; assim, nesse papel, que ela vira o jogo quando confrontada ou amea&#231;ada.</p><p>Maria pouco fala da sua pr&#243;pria m&#227;e, e a hist&#243;ria sempre repetida &#233; que Dona Generosa &#8212; Osa, como era chamada &#8212; morreu aos 44 anos no meio da noite, ap&#243;s um grito agoniado. Quando Izaltino, o marido, achou o isqueiro para acender a lamparina, j&#225; n&#227;o havia nada a fazer. Descrita por Maria como uma mulher muito calma, silenciosa e dedicada aos afazeres dom&#233;sticos, a falta de entusiasmo na voz faz parecer que sua morte foi o momento mais marcante de sua vida. &#8220;Em compara&#231;&#227;o ao pai&#8221;, diz Maria, &#8220;ela n&#227;o deixou nada. Ele sim, sentava-se com os filhos, ensinava, educava.&#8221; E &#233; na rela&#231;&#227;o com essa figura paterna, visivelmente admirada, que Maria se revela.</p><p> Izaltino &#233; um t&#237;pico brasileiro do in&#237;cio do s&#233;culo XX, filho de um homem moreno de olhos verdes de proced&#234;ncia uruguaia &#8212; que alguns familiares insistem ser de origem italiana &#8212; e de uma ind&#237;gena que dizem ter sido &#8220;ca&#231;ada no mato&#8221;: Ger&#244;nimo e Ana. A genealogia controversa evoca, al&#233;m da ancestralidade ind&#237;gena, ra&#237;zes africanas e talvez ciganas, n&#227;o s&#243; pela cor, mas pelas pr&#225;ticas religiosas e pela cartomancia, um &#8220;dom&#8221; de todos os membros masculinos da fam&#237;lia de Ger&#244;nimo. E ainda h&#225; uma aura m&#237;stica em Izaltino, cujos dons de cura foram atribu&#237;dos ao fato de ele ter estado &#8220;morto&#8221; por 14 dias, per&#237;odo no qual disse ter ido ao inferno, onde aprendeu muitas coisas, inclusive a arte da cura. Antes de morrer, ou entrar em um estado de coma ou catalepsia, ele esteve doente por cerca de 40 dias, justamente os primeiros 40 dias de vida de Maria. Quando, no d&#233;cimo quarto dia de sua &#8220;morte&#8221;, decidiram banh&#225;-lo e preparar o corpo para o enterro, ele acordou com um grito, similar ao de Osa na hora da sua morte, anos mais tarde. </p><p>Ter adoecido logo que Maria nasceu e retornado &#224; vida no fim do puerp&#233;rio de Osa &#233; mais um dado al&#231;ado &#224; sobrenaturalidade do acontecido, depois do qual ele se tornou um conhecido curandeiro a dedicar seu tempo e bens para atender e alimentar pessoas que vinham de muito longe para receber a sua d&#225;diva na forma de benzimentos e rem&#233;dios naturais que n&#227;o se sabe onde aprendeu a fazer. Maria tinha sete anos quando ele parou de realizar essas curas, pois o numeroso p&#250;blico exigia todo o seu tempo e dinheiro, e ele disse estar em posi&#231;&#227;o de escolher entre atender essas pessoas e deixar seus filhos passarem fome, ou encerrar tudo e cuidar de sua fam&#237;lia.</p><p>Maria era a quinta de 13 filhos e claramente desenvolveu um v&#237;nculo especial com o pai, o qual muitas vezes acompanhava quando visita os doentes. E, mesmo assim, ela se descreve como uma crian&#231;a nervosa, brava e t&#237;mida, que se escondia n&#227;o s&#243; dos doentes como dos parentes, quando estes chegavam. No entanto, quando sua irm&#227; adotiva Maria da Luz se casou, xingava o homem que levou &#8220;Dal&#243;iz&#8221; embora, e ele achava gra&#231;a em provoc&#225;-la. Seu temperamento era creditado ao leite de Osa, uma m&#227;e com nervos em flor pela condi&#231;&#227;o do marido doente. Maria tamb&#233;m era muito inteligente e decidida, e certamente observadora. E, especialmente, tinha uma firmeza de car&#225;ter que a tornava temida pelos irm&#227;os e respeitada pelo pai. Seu senso de certo e errado recebia cr&#233;dito do pai, especialmente quando, com o casamento de Trindade, a irm&#227; mais velha, ela se tornou o bra&#231;o direito da m&#227;e. Quando Osa esteve acamada por um longo per&#237;odo ap&#243;s o nascimento do ca&#231;ula Roque, ela tornou-se uma figura de autoridade dentro de casa.</p><p> Maria era uma mulher brilhante e certamente teve mais respeito do que a maioria das mo&#231;as em sua &#233;poca. Por isso, quando o pai quis que se casasse com um homem cuja pele era mais escura do que a sua, ela recusou-se. Aos 18 anos, Maria j&#225; estava a ponto de ficar para &#8220;titia&#8221; de acordo com os padr&#245;es da &#233;poca e tratou de achar para si um par mais adequado. E, apesar de permitir o namoro com o escolhido, o pai foi contra o casamento e se recusou a vestir a noiva e preparar a festa. Maria orgulha-se de ter dito ao pai:</p><p>&#8212; Pois se o senhor acha que eu vou fugir, est&#225; muito enganado. Se o senhor n&#227;o quiser me aprontar para o casamento, me d&#234; um peda&#231;o de terra que eu mesma planto o feij&#227;o, colho e vendo para comprar o tecido para o vestido.</p><p>Nesse conto que envolve feij&#245;es, Maria casou-se com Jo&#227;o, tocador de gaita nos bailes da regi&#227;o, que trocou seu acorde&#227;o pela terra da qual alimentaria sua fam&#237;lia. A vers&#227;o do feij&#227;o nunca mudou, mas a vers&#227;o do homem de pele mais escura que a dela, que antecedeu seu Jo&#227;o no rol de seus amores, inverteu-se nos &#250;ltimos tempos: ela passou a gostar dele e foi proibida pelo pai. A firmeza de car&#225;ter que ela revela na hist&#243;ria do casamento nunca impediu que ela alterasse as narrativas quando fosse conveniente, o que torna imposs&#237;vel saber qual vers&#227;o &#233; verdadeira. E, apesar de ser uma mulher de pele escura, ela sempre se considerou branca, e mesmo sua cor ela credita &#224; hepatite B que teve aos 23 anos. Teria o m&#233;dico, depois de uma convalescen&#231;a prolongada, informado &#224; fam&#237;lia que ela estava bem, mas a cor da pele nunca mais seria a mesma. N&#227;o encontrei nada na hist&#243;ria da medicina que creditasse &#224; hepatite esse poder de mudar o tom de pele em definitivo, e especialmente para o preto. Talvez uma explica&#231;&#227;o tempor&#225;ria para uma cor mais escura e algum Melasma tenha se tornado uma express&#227;o da verdade permanente para ela. </p><p>Seu preconceito em rela&#231;&#227;o &#224; cor e sua cren&#231;a na pr&#243;pria brancura &#233; tal que seu primeiro neto foi rejeitado, assim como o seu primeiro genro Miro, ambos sempre relacionados &#224; sujidade, ao lado de Lena, a filha que teve essa ousadia de se juntar a um preto e parir outro. &#211;bvio que nada foi dito com essa viol&#234;ncia. Curiosamente, Rafael, o neto, ostenta a cor da pele do pai e os cabelos lisos da av&#243;, ainda que ambos seus pais tenham cabelos crespos em diferentes curvaturas. A cren&#231;a de dona Maria em ser branca &#233; t&#227;o certa e reiterada que me surpreendi ao constatar em fotos antigas que seu irm&#227;o, guarda-noturno que dormia o dia todo e s&#243; sa&#237;a &#224; rua de chap&#233;u, sentado lado a lado com Miro, tinha exatamente a mesma cor.</p><p>Esse preconceito arrefeceu lentamente com o passar dos anos. E Lena contribuiu parindo uma neta 16 anos depois do primeiro filho, quando dona Maria encarava o ninho vazio. Ela acolheu a neta com mais afeto e louvor aos seus cabelos lisos, pois de sua ascend&#234;ncia ind&#237;gena existe certo orgulho. Maria de fato n&#227;o balan&#231;a os estandartes de uma branquitude eugenista. Parece mais uma criatura burilada em um tempo no qual ser preto era ainda mais dif&#237;cil do que hoje em dia, e repete sistematicamente as cren&#231;as que lhe foram incutidas. As ra&#237;zes m&#237;sticas da religiosidade de meu av&#244;, praticada de forma velada ou sincretizada, evidenciam que a necessidade de se imiscuir aos costumes brancos, parecer branco e embranquecer os filhos era um dado veladamente cultivado na fam&#237;lia. E </p><p>N&#227;o &#233; poss&#237;vel afirmar com certeza que o racismo de seu tempo foi o que deu in&#237;cio &#224; necessidade de Maria recriar verdades para esconder uma profunda vergonha ou uma verdade desagrad&#225;vel. Demorei muito a perceber essa autopercep&#231;&#227;o dela em rela&#231;&#227;o &#224; pr&#243;pria cor. Seu Jo&#227;o sempre fez piadas racistas nas quais dona Maria era objeto da tro&#231;a. Certa ocasi&#227;o, por exemplo, fiz um caf&#233;, e ela, que n&#227;o tomava por ordens m&#233;dicas desde que eu era crian&#231;a, pediu uma x&#237;cara. E de caf&#233; puro. Ele riu e advertiu que, se ela tomasse o caf&#233; puro, ficaria preta. Antes que eu assimilasse esse espanto, Jo, com todo o charme escorrendo da voz, disse:</p><p>&#8212; Mas ent&#227;o vai ficar negona, porque preta ela j&#225; &#233;.</p><p>Todos riram, menos Maria, que lembrou com voz magoada de um acontecimento vexat&#243;rio no qual o pastor a usou como exemplo de peles escuras mais resistentes ao c&#226;ncer.</p><p>&#8212; Um absurdo! A mulher dele &#233; muito mais escura do que eu. Por que n&#227;o usou ela de exemplo?</p><p>A brincadeira certamente mexeu em uma dor. E esse ocorrido me levou a outro no qual eu fui a piada em um momento aleat&#243;rio em que fal&#225;vamos sobre as muitas facetas de nossa m&#227;e. Jo, no meio do assunto, falou:</p><p>&#8212; Voc&#234; lembra quando a gente era crian&#231;a e a m&#227;e decidia sair para resolver algo &#8220;na cidade&#8221; e, se visse um preto na esquina, ela entendia como sinal de azar e voltava para casa?</p><p>Em minha cabe&#231;a s&#243; havia um preto vinculado &#224; ideia de azar e questionei:</p><p>&#8212; S&#233;rio, um gato?!</p><p>A surpresa em minha voz devia-se ao fato de n&#227;o ver dona Maria como uma mulher supersticiosa. Jo riu e respondeu:</p><p>&#8212; N&#227;o. Um preto.</p><p>E eu, ainda mais surpresa com o riso e a &#234;nfase, me repeti, arrancando dela gargalhadas. Nunca me ocorreu que minha m&#227;e pudesse ser  racista, quando era de meu pai que ouvia as piadas. N&#227;o que eu seja de todo inocente. Como uma pessoa de apar&#234;ncia branca, provavelmente incorro em erros grosseiros de conduta racial. Por&#233;m, nunca tive, por exemplo, a marca que a diferen&#231;a de cor deixa em pessoas como Jo, a filha morena de cabelos cacheados e olhos castanhos em uma prole branca de olhos claros e cabelos loiros, pelo menos em alguma parte da vida.</p><p>No caso de Maria, pude ver seus breves relatos do passado com outros olhos, como um fato protagonizado por Seu Jo&#227;o, quando Ika, a &#250;nica da fam&#237;lia com olhos azuis &#8212; os demais t&#234;m olhos verdes &#8212; foi carregada por ele em uma viagem de visita aos seus pais. Mesmo nunca tendo sido afeito aos cuidados com os filhos, segundo dona Maria, carregou e cuidou dela visando ostentar a beb&#234; de olhos azuis e penugem loira na cabe&#231;a para seu pai de ascend&#234;ncia alem&#227;, como quem ostenta um trof&#233;u. Maria n&#227;o incute um tom que me permita deduzir seu real sentimento a respeito, apenas repete a hist&#243;ria como se fosse uma constata&#231;&#227;o do orgulho paterno.</p><p>Mas talvez n&#227;o seja uma quest&#227;o de cor o que fez Maria se livrar das filhas sempre t&#227;o jovens. Ela parece muito vaidosa de seu car&#225;ter e de sua autoridade. Talvez o afeto do pai tenha lhe dado uma impress&#227;o de autonomia que a vida lhe negou, justamente pelo fato de ela tamb&#233;m ser mulher. O casamento com um homem da sua idade a colocou em uma posi&#231;&#227;o de obedi&#234;ncia ao marido. Contudo, esse marido nunca se equiparou a seu pai em autoridade. O temperamento dele se assemelha mais ao de sua m&#227;e, Osa. Seu Jo&#227;o &#233; um homem calmo, inteligente, mas de racioc&#237;nio e a&#231;&#227;o lentas. O oposto de Maria, que na posi&#231;&#227;o de mulher se deparou com mais desafios do que supunha em um casamento. Entre eles, a pobreza e a subservi&#234;ncia de sua mente sagaz a um homem, para seus padr&#245;es, lerdo. Ou melhor, a um casamento. Seu compromisso era com o casamento e tudo o que ele sancionava socialmente.</p><p>Meu pai n&#227;o parece ter sido muito bom nos neg&#243;cios boa parte da vida. Ou talvez ele tenha sido v&#237;tima da ideia de progresso que a cidade grande representava na d&#233;cada de 70. Os primeiros anos de casamento no interior do Paran&#225; revelam muita escassez e sofrimento na zona rural, quando a sa&#250;de dos filhos requisitava recursos n&#227;o s&#243; m&#233;dicos como financeiros. Se a vida no campo lhes dava autonomia alimentar, ela n&#227;o necessariamente significava dinheiro. Em algum ponto, a terra &#224; qual se dava pouco valor, a ponto de se poder compr&#225;-la a pre&#231;o de um acorde&#227;o usado, perdeu-se. E, em 1970, Lena, a segunda filha do casal, ainda beb&#234;, adoeceu. Sempre com uma sa&#250;de muito fr&#225;gil, a menina esteve &#224; beira da morte mais de uma vez. E foi em um de seus internamentos que seu Jo&#227;o resgata  uma hist&#243;ria que bem ilustra a precariedade de sua situa&#231;&#227;o. Sem dinheiro para pagar o hospital em uma &#233;poca sem SUS ele precisava pagar o sindicato dos trabalhadores rurais para que este arcasse com metade das despesas. Mas s&#243; tinha uma parte do valor da taxa quando chegou ao sindicato.</p><p> A vida, &#224;s vezes, n&#227;o &#233; sutil em apresentar oportunidades de resolu&#231;&#227;o, e desta vez a oportunidade se chamava Ant&#244;nio Sutil, um conhecido que encontrou na cidade e que, ao ver um fazendeiro da regi&#227;o entrar em um restaurante, sugeriu que fossem cumpriment&#225;-lo na expectativa de que o velho lhes pagasse o almo&#231;o. O fazendeiro era parente de sua mulher, de modo que essa gentileza de fato era poss&#237;vel. Isto feito E assim, ambos entraram no restaurante onde o fazendeiro mandou servirem aos dois o mesmo que ele consumiria: um &#8220;sortido&#8221; e um copo de vinho. Alimentado, Ant&#244;nio Sutil saiu apressado e deu a seu Jo&#227;o a oportunidade de pedir ao fazendeiro um empr&#233;stimo. Compadecido da situa&#231;&#227;o do rapaz de pouco mais de vinte anos, ele deu uma quantia maior do que a solicitada e o eximiu da d&#237;vida. Com o valor que sobrou da taxa sindical, seu Jo&#227;o p&#244;de colocar comida na mesa, o que tamb&#233;m j&#225; n&#227;o havia mais.</p><p>A sa&#250;de de Lena foi t&#227;o prec&#225;ria durante seus primeiros anos de vida que at&#233; mesmo poliomielite ela contraiu, apesar de n&#227;o apresentar graves sequelas, tendo ficado apenas com um andar suavemente arrastado em uma das pernas. Os cuidados com sua sa&#250;de fariam o papel de um contraceptivo natural em uma cultura na qual os sint&#233;ticos n&#227;o estavam dispon&#237;veis. O longo per&#237;odo sem mais rebentos seria findado sete anos depois do nascimento de Lena, quando Maria deu &#224; luz Ika, a branquela de olhos azuis que nunca perdeu o loiro acinzentado de seus cabelos. Ika trouxe orgulho, sa&#250;de e certamente algumas alegrias, que tr&#234;s anos depois eu n&#227;o traria. Pouco se fala do nascimento de Ika, sendo a &#250;nica hist&#243;ria aquela de sua viagem ainda beb&#234;, nos bra&#231;os do pai orgulhoso. J&#225; a hist&#243;ria do meu nascimento sempre foi bem conhecida.</p><p>Em 1978, seu Jo&#227;o foi para Foz do Igua&#231;u trabalhar com seu irm&#227;o Jos&#233; na constru&#231;&#227;o das vilas que abrigariam os funcion&#225;rios da Itaipu Binacional durante a constru&#231;&#227;o da hidrel&#233;trica. Isso deixaria dona Maria sozinha por quatro meses na cidade de Tr&#234;s Barras, com tr&#234;s filhos pequenos, sofrendo a humilha&#231;&#227;o de ter at&#233; o leite negado para seus filhos, pois a dona das vacas n&#227;o via motivo para vender fiado quando podia vender &#224; vista para outros fregueses. Ela se tornou lavadeira para sobreviver e se preparou para se tornar uma mulher abandonada. Como se n&#227;o bastasse o tormento de ver suas expectativas de vida frustradas e ainda enfrentar o destino que seu pai prognosticara para ela quando decidiu se casar com esse homem em particular, Maria descobriu-se gr&#225;vida. Na reconta&#231;&#227;o dessa fase de sua vida, ela sempre repetia:</p><p>&#8212; A gente era t&#227;o boba que estava gr&#225;vida e nem sabia.</p><p>Ao infort&#250;nio de uma mulher abandonada com tr&#234;s filhos, ela previa agregar o falat&#243;rio a respeito de sua barriga crescendo sem um marido por perto. E mais: temia que, se ele voltasse, n&#227;o acreditasse que o filho era seu. Em uma &#233;poca sem meios de comunica&#231;&#227;o eficientes e  sem o h&#225;bito de escrever cartas, ela se preparava para o pior em qualquer circunst&#226;ncia. Como uma mulher apegada &#224;s apar&#234;ncias e preocupada com o que os outros iriam pensar, sua vida nos primeiros dias de minha exist&#234;ncia pode ser apropriadamente nominada de inferno. Eu s&#243; compreenderia o peso dessa hist&#243;ria por volta dos 17 anos, quando pedisse para ela ler meus poemas e um em particular lhe chamasse a aten&#231;&#227;o:</p><p><strong>Senhora</strong></p><p>Teu ventre me acolheu e me nutriu</p><p>De emo&#231;&#245;es e for&#231;as antag&#244;nicas</p><p>E no teu ventre se formou o estranho elo</p><p>Que me ensinou a amar</p><p>Amar sem ser amada</p><p>Amar e perder</p><p>Amor como anest&#233;sico</p><p>E tomar do rem&#233;dio errado</p><p>Este mesmo elo me ensinou a cair</p><p>(Andar eu aprenderia de qualquer jeito)</p><p>Cair sob o peso da decep&#231;&#227;o</p><p>Cair sob o peso das palavras</p><p>Cair sob o peso do teu olhar</p><p>Cair na incerteza dos passos</p><p>Cair para sempre me levantar sozinha</p><p>Atrav&#233;s deste elo tamb&#233;m</p><p>Aprendi sobre justi&#231;a</p><p>Sem c&#243;digo de honra</p><p>Por isso, cega</p><p>E ent&#227;o aprendi a lutar</p><p>Porque morrer na batalha dignifica</p><p>E nossos dem&#244;nios</p><p>Precisam de prop&#243;sito</p><p>E nosso anjo precisa de trabalho</p><p>E s&#243; lutando se aprende</p><p>Sobre volume e espessura</p><p>A espessura da l&#226;mina que nos fere</p><p>E o volume correspondente</p><p>A cada m&#225;goa que carregamos</p><p>E veja, aprendi at&#233; sobre filosofia</p><p>Pois Deus faz poesia por linhas tortas</p><p>Com invej&#225;vel perfei&#231;&#227;o</p><p>Talvez para meu aprendizado deste-me a dor</p><p>E semeaste em meu esp&#237;rito sabedoria</p><p>Ateando fogo na tocha do conhecimento</p><p>Para em minha alma criar</p><p>O dom divino do perd&#227;o</p><p>E a maldi&#231;&#227;o humana da saudade.</p><p></p><p></p><p>A oitiva da hist&#243;ria de meu nascimento, com o retorno de meu pai e a mudan&#231;a da fam&#237;lia para Foz, onde eu nasceria alguns meses depois, estava presente na ossatura desses versos. Por&#233;m, jamais me ocorreu insinuar o que ela compreendeu ao ler. Dona Maria irrompeu do quarto com meu caderno na m&#227;o e o olhar de &#225;guia prestes a arrebatar uma presa desavisada:</p><p>&#8212; Eu nunca tentei te abortar! &#8212; esbravejou.</p><p>A viol&#234;ncia do surgimento e de suas fei&#231;&#245;es deformadas por uma revolta &#237;ntima que n&#227;o deveria ter sido desvelada me deixaram sem a&#231;&#227;o. N&#227;o neguei ter cogitado isso, at&#233; porque acabara de cogitar, e meu pensamento se digladiava em diversas dire&#231;&#245;es,  em uma velocidade que eu era incapaz de expressar, como nos sonhos nos quais a comunica&#231;&#227;o se d&#225; por ideias complexas e imagens. Era extremamente veross&#237;mil que a mulher que j&#225; tinha tr&#234;s filhos e se acreditava abandonada cogitasse o aborto em nome da sobreviv&#234;ncia dos tr&#234;s j&#225; existentes, caso o abandono se concretizasse. E, para endossar minhas suspeitas, ela sempre foi uma grande conhecedora de ervas e po&#231;&#245;es naturais; afinal, era filha de um curandeiro mesti&#231;o e neta de uma ind&#237;gena &#8220;ca&#231;ada no mato&#8221;.</p><p>O poss&#237;vel desfecho violento parece uma dramatiza&#231;&#227;o exagerada de uma mente perturbada pelo sofrimento, mas, na verdade, essa possibilidade apoiava-se em parte no comportamento de meu pai, bem como de sua fam&#237;lia. O motivo de seu Izaltino ter sido contra o casamento deles devia-se ao fato de meu pai proceder de uma fam&#237;lia desestruturada. Embora meus av&#243;s paternos fossem casados e assim tenham permanecido at&#233; o fim da vida, os filhos n&#227;o recebiam educa&#231;&#227;o, prote&#231;&#227;o e respeito. Meu pai, aos dez anos, vivia pelos alojamentos das fazendas e s&#237;tios da regi&#227;o, trabalhando muitas vezes por comida. Sua m&#227;e, Ermelinda, era mais submissa e silenciosa do que Osa. Maria conta que, em uma temporada passada com os sogros, questionou dona Ermelinda sobre o motivo de ela e do marido n&#227;o se falarem, pois ela n&#227;o podia conceber um casamento sem di&#225;logo. Dona Ermelinda argumentou que toda vez que falou levou patada e recebeu ordem para calar, ent&#227;o decidiu n&#227;o dizer mais nada. </p><p>&#201; imposs&#237;vel saber se a voz silenciada foi predecessora ou decorrente da completa ina&#231;&#227;o de dona Ermelinda, que n&#227;o conseguia estabelecer uma ordem ou rotina para sua fam&#237;lia. Era comum seus numerosos filhos dormirem sujos e com fome. As crian&#231;as famintas, se chegassem em uma casa que tivesse comida sendo preparada, s&#243; iam embora depois de alimentadas, como bons pedintes. Os meninos, especialmente, desapareciam sem hora para voltar, e quem chegasse primeiro comia a refei&#231;&#227;o pobre at&#233; se fartar, sem se preocupar com os demais ou mesmo com a m&#227;e. Um h&#225;bito herdado do pr&#243;prio pai que, eventualmente, esperava os filhos dormirem, alimentados com polenta e leite se tivessem sorte, para matar uma galinha e comer sozinho. O patriarca tamb&#233;m costumava receber o sal&#225;rio dos filhos que, ainda pequenos, se desgastavam nas terras vizinhas enquanto ele esperava em casa, tranquilo. Esse era um cen&#225;rio de horror para Maria, uma mulher apegada &#224; rotina, &#224; limpeza e &#224; ordem. E mais do que isso, uma mulher acostumada a ser ouvida e respeitada pela maior autoridade da casa, seu pai.</p><p>Embora meu pai fosse acostumado ao trabalho &#225;rduo, ser o provedor aos 18 anos &#233; uma responsabilidade muito grande para um rapaz que s&#243; conheceu a escassez e a brutalidade. E assim, entre os fragmentos de mem&#243;ria de Maria, est&#225; sua a&#231;&#227;o contumaz para moderar a brutalidade do marido, de cujas &#8220;botas&#8221; disse ter recolhido algumas vezes seu primog&#234;nito.</p><p>Segundo ela, os dois filhos mais velhos, Borges e Lena, sofreram muito nos primeiros anos de vida. Da&#237; que sua dedica&#231;&#227;o em silenciar os filhos quando o marido chegava do trabalho  poderia ter um senso de prote&#231;&#227;o somado &#224; sua pr&#243;pria necessidade de ordem e sil&#234;ncio. Al&#233;m da brutalidade, ela alega que ele n&#227;o demonstrava afeto pelos filhos e s&#243; teria dado colo e carinho &#224; ca&#231;ula, nascida quando ele tinha 34 anos. A viagem com Ika, ainda beb&#234;, contradiz a quest&#227;o do colo, mas n&#227;o necessariamente do afeto e carinho.  De algum modo, sempre acreditei que meu desconforto com manifesta&#231;&#245;es de afeto e toques f&#237;sicos, ou at&#233; mesmo proximidade f&#237;sica, se devia a essas caracter&#237;sticas paternas sempre ressaltadas por dona Maria. Embora o amor dela me faltasse a vida toda, eu acreditava em suas palavras e media minha capacidade de contato humano pela que entendia como a dele. E sua ascend&#234;ncia alem&#227; ratificava isso, em hist&#243;rias a respeito da frieza e distanciamento emocional dos alem&#227;es.</p><p>De qualquer modo, n&#227;o houve viol&#234;ncia. Seu Jo&#227;o trouxe dinheiro e compreens&#227;o consigo e levou a fam&#237;lia para Foz do Igua&#231;u, onde eu nasceria alguns meses depois. Ainda em uma casa alugada e prec&#225;ria, mas com a fam&#237;lia reunida. Nos anos seguintes, ele construiria uma casa confort&#225;vel com sala, cozinha, tr&#234;s quartos, banheiro e varanda, onde minhas primeiras lembran&#231;as foram criadas. E sim, sua figura era bastante ausente. S&#243; fixei seu cenho franzido que, emoldurado pela ordem de fazer sil&#234;ncio quando ele chegasse, interpretei como a de um homem bravo e de pavio curto. O barulho das crian&#231;as realmente o incomodava, e o tom raivoso exigindo sil&#234;ncio seria reconhecido quando a algazarra dos netos perturbasse sua sesta d&#233;cadas mais tarde.</p><p>Essa imagem do homem irasc&#237;vel que n&#227;o suportava os pr&#243;prios filhos e n&#227;o manifestava afeto seria amainada quando ele revelasse que, para garantir o conforto da casa pr&#243;pria e os luxos &#8212; para a &#233;poca &#8212; como geladeira e televis&#227;o, ele trabalhava cerca de 14 horas por dia como pedreiro. Muitas vezes com os p&#233;s inflamados e lacerados por frieiras, decorrentes da umidade das botas de borracha. Nos &#250;ltimos meses trabalhando na constru&#231;&#227;o da represa de Itaipu, pendurado a grandes alturas, enfrentava diariamente seu pr&#243;prio pavor, que venceu quando um colega caiu e, como era inevit&#225;vel, morreu.</p><p>Mas antes que esse dia chegasse, Maria teria um per&#237;odo de tranquilidade e fartura, refletido em uma gesta&#231;&#227;o feliz que talvez s&#243; se equipare emocionalmente ao nascimento do seu primog&#234;nito. Jo &#233; a quarta menina e a quinta de uma prole de seis. Ela sempre viu a hist&#243;ria de seu nascimento em casa como uma &#8220;pressa de nascer&#8221;. Sua vis&#227;o da espiritualidade a levou a conectar essa pressa uma vontade de vir ao mundo, e no meu demorado e agonizante parto, justamente o oposto. Quando juntas analisamos esses relatos, Jo, uma umbandista, concluiu que, al&#233;m de eu parecer n&#227;o querer vir ao mundo, minha m&#227;e n&#227;o queria que eu nascesse, pois, seu corpo n&#227;o parecia preparado para o parto, o que lhe acarretou 30 horas de sofrimento. Quando dona Maria relatou que mulheres iam e vinham do quarto da maternidade e ela continuava l&#225;, eu ri lembrando do parto de Rachel em Friends. Mas certamente n&#227;o foi nada risonho esse embate entre nossos corpos e vontades. Talvez eu soubesse que no &#250;tero seria a &#250;ltima vez que me sentiria conectada a algu&#233;m. Supondo que absorvesse parte do turbilh&#227;o emocional dessa Maria, talvez ainda preferisse o inferno familiar. </p><p>O olhar de Maria para mim muitas vezes foi detido, por&#233;m distante. Talvez ela reconhecesse um pouco de si.  O oposto do olhar para Jo, a quem sempre atribu&#237;a sorte e alegria. Mesmo quando as roupas doadas pelo japon&#234;s foram usadas como mat&#233;ria-prima para o bullying de Borges, Maria viu isso como uma prova de que ela nasceu &#8220;com a bunda virada para a lua&#8221;. A abund&#226;ncia sempre foi parte da vida dela e a escassez da minha. E essa cren&#231;a foi estabelecida pelas observa&#231;&#245;es de Maria, que me levava ao m&#233;dico e insistia que devia haver algo errado comigo, sempre apontando as olheiras profundas como dignas de investiga&#231;&#227;o, enquanto Jo era uma express&#227;o de sa&#250;de e vitalidade.</p><p>Eu n&#227;o fazia essa compara&#231;&#227;o na inf&#226;ncia. Simplesmente n&#227;o tinha repert&#243;rio para tal e me ocupava em processar o tumulto interno e a vontade de escapar do tumulto externo do qual Jo era uma das partes mais barulhentas. A imagina&#231;&#227;o me levava para longe, mundos similares &#224; Terra do Nunca com navios e castelos repletos de riquezas esperando pela minha explora&#231;&#227;o. E, depois de ler &#8220;A Ilha Perdida&#8221; de Maria Jos&#233; Dupr&#233;, meu lugar era uma ilha deserta, sozinha, em sil&#234;ncio. </p><p>Foi em algum momento da vida adulta, depois dos meus trinta anos, que comecei a assimilar lentamente a ideia de que a rela&#231;&#227;o de minha m&#227;e com as filhas poderia ter rela&#231;&#227;o direta com a qualidade de suas gesta&#231;&#245;es. Tive a certeza de que, quando ela olhava para mim e insistia que devia haver algo errado, poderia sim haver o medo de sequelas de alguma beberagem abortiva, ou poderia ser apenas uma manifesta&#231;&#227;o inconsciente da rejei&#231;&#227;o justificada da gesta&#231;&#227;o. E Jo era o oposto; logo, evocava o sentimento oposto. E essa discrep&#226;ncia entre os afetos de Maria se sustenta at&#233; hoje. Mesmo Jo tendo seguido caminhos desaprovados por ela em sua sexualidade e sua espiritualidade, ela &#233; a filha admirada e em quem a maior confian&#231;a &#233; depositada. Pelo menos essa era uma das possibilidades de interpreta&#231;&#227;o. H&#225; sempre uma margem para d&#250;vida. Se o afeto existe e &#233; verdadeiro, por que esse afeto n&#227;o impediu que Jo fosse a segunda maior v&#237;tima da m&#227;e? E por que ainda assim ela se tornou seu amparo na velhice?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este cap&#237;tulo &#233; parte de TEA Menina, uma investiga&#231;&#227;o autoetnogr&#225;fica sobre autismo, ancestralidade e resist&#234;ncia. Meu objetivo &#233; transformar sil&#234;ncios em narrativas potentes. 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Por isso a escrita &#233; poderosa.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/copy-capitulo-2-parte-2-de-2-passaros</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/copy-capitulo-2-parte-2-de-2-passaros</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Mar 2025 14:34:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-x_!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84ec6660-e84c-46d4-9492-7ddd286ab922_4640x3488.jpeg 1456w" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/copy-capitulo-2-parte-2-de-2-passaros">
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   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Capitulo 2. Parte 1 de 2 -Pássaros Estranhos e Velhas Raposas ]]></title><description><![CDATA[Segundo capitulo de TEA menina. Alguns nomes citados foram mudados, por seguran&#231;a. Estava usando todos os nomes reais ainda.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/capitulo-2-parte-1-de-2-passaros</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/capitulo-2-parte-1-de-2-passaros</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 18 Mar 2025 14:33:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!acgr!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa544e043-4391-4626-971b-fa0ab565eb73_3264x2448.jpeg 1456w" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Isso &#233; discriminado no contrato do banco de acordo com a renda comprovada. Ele apresentou uma declara&#231;&#227;o feita pelo meu contador de cerca de 600 reais, e meu aux&#237;lio-doen&#231;a estava estimado em mais ou menos o dobro desse valor. Mas essa declara&#231;&#227;o de renda foi a &#250;nica contribui&#231;&#227;o dele na compra do im&#243;vel, e mesmo no pagamento das parcelas. Ele n&#227;o morava mais comigo havia muito tempo. Ainda que eu n&#227;o saiba precisar quanto, depois que ele foi embora  aluguei o quarto para um colega da faculdade chamado Humberto, vivi outro relacionamento abusivo com um sujeito inomin&#225;vel, e aluguei o quarto para o pr&#243;prio Borges quando este se divorciou. Estranhamente, os dois inquilinos me procuraram. Nunca ofereci o quarto para alugar. Humberto ia ficar dois meses e ficou mais, at&#233; ir morar com o namorado. Borges eu n&#227;o sei quanto tempo, mas quando ele saiu n&#227;o ofertei o quarto para outra pessoa, perman&#8230;</pre></div>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/capitulo-2-parte-1-de-2-passaros">
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      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA Menina-Capitulo I]]></title><description><![CDATA[Parte 2 de 2: eis a segunda parte. TEA Menina &#233; um livro de mem&#243;rias e entrela&#231;a passado e presente na revela&#231;&#227;o de uma s&#233;rie de viol&#234;ncias a que qualquer mulher est&#225; sujeita. E a autista ainda mais.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-capitulo-i-52a</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-capitulo-i-52a</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 04 Mar 2025 14:33:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AtA6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa61d0230-2a5a-427b-88d0-e87d1b5d8953_1024x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AtA6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa61d0230-2a5a-427b-88d0-e87d1b5d8953_1024x1280.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-capitulo-i-52a">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA Menina- Capitulo I]]></title><description><![CDATA[Parte I de 2. Este excerto de TEA menina &#233; um presente para assinantes, enquanto o livro est&#225; sendo revisado.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-capitulo-i</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-capitulo-i</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 28 Feb 2025 22:34:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CyW9!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9593e588-3d2e-4546-a324-e1ef666737df_2048x2048.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CyW9!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9593e588-3d2e-4546-a324-e1ef666737df_2048x2048.jpeg" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Ele j&#225; n&#227;o atendia minhas chamadas havia tempo, ent&#227;o ela ligava do telefone fixo e pedia que ele conversasse comigo. Desta vez, assim que atendi, ele disse em tom firme:</p><p>-Pare de gritar.</p><p>-Mas n&#227;o estou gritando- respondi.</p><p>-Com voc&#234; gritando desse jeito n&#227;o vou conversar- ele continuou</p><p>-Como assim? Pare com isso. -disse eu, tentando n&#227;o alterar a voz.</p><p>-Olha, eu vou desligar, porque com voc&#234; xingando assim n&#227;o d&#225;- o tom era firme, pleno de autoridade.</p><p>-Pare com isso, e me pague- a garganta tensionada amarrando um grito.</p><p>-Olha, quando voc&#234; estiver em condi&#231;&#245;es a gente a conversa, nesse n&#237;vel n&#227;o tem como- insistia ele</p><p>-Do que que voc&#234; t&#225; falando? ...para com isso- minha voz j&#225; alterada n&#227;o parecia expressar o meu crescente desespero.</p><p>Houve outras conversas parecidas. N&#227;o sei por que me lembro dessa especificamente. Talvez tenha sido nesse dia que ele falou para minha m&#227;e que havia vendido o apartamento. Ou talvez eu tenha ficado muito tempo analisando a conversa. Ele estava encenando para algu&#233;m? Ou estava me provocando apenas? Nunca entendi. Assim como nunca entendi como minha mem&#243;ria funciona. Tem coisas extremamente chocantes que apago, e coisas extremamente chocantes que lembro com nitidez, e n&#227;o me &#233; claro o crit&#233;rio de memoriza&#231;&#227;o. S&#243; sei que se algu&#233;m estivesse com ele, veria um homem sensato falando com uma louca que gritava e xingava do outro lado da linha. E havia de fato um grito em mim. Mas a garganta do&#237;a em um espasmo que n&#227;o permitia que ele sa&#237;sse. N&#227;o sei precisar h&#225; quanto tempo essa tortura vinha acontecendo. Tampouco posso garantir de mem&#243;ria a reconstitui&#231;&#227;o precisa da ordem dos fatos. Por isso sempre recorro aos registros.</p><p>Fechamos o neg&#243;cio em outubro de 2009. O valor de 15 mil reais, mais a compra de dois eletrodom&#233;sticos novos quando eu me estabelecesse em Foz do Igua&#231;u foi a minha contraproposta ao que quer que ele tenha oferecido. De manh&#227; ele apareceu de surpresa, quando na verdade eu havia pedido que ele viesse &#224; noite no e-mail da contraproposta, que nunca foi respondido. Me pegar de surpresa foi acaso, conveni&#234;ncia, ou parte de um plano? &#201; dif&#237;cil saber como as pessoas pensam diante de tantas vari&#225;veis e discursos n&#227;o ancorados em uma conduta &#233;tica.</p><p>Ele comprou um apartamento mobiliado e meu futuro estava em suas m&#227;os, minha vida no porta-malas. E me deixou na casa dos meus pais. Al&#233;m de me levar, se n&#227;o me falha a mem&#243;ria, iria pegar minha irm&#227; Joce, que seria uma esp&#233;cie de testa de ferro em seu neg&#243;cio, pertencente &#224; franquia para a qual ele trabalhava e na qual ele mesmo n&#227;o podia ser um franqueado. Essa empresa fornecia servi&#231;os de an&#225;lise de cr&#233;dito e sua equipe de vendedores vendia esse servi&#231;o a pequenos lojistas, de porta em porta, enquanto um empres&#225;rio enriquecia &#224;s custas das solas de seus sapatos. No entanto, os progn&#243;sticos de crescimento eram grandes e a ambi&#231;&#227;o dele era chegar aos cinquenta anos com um milh&#227;o no banco quando decidiu abrir a pr&#243;pria franquia em Ribeir&#227;o Preto, tendo Joce &#224; frente do empreendimento. Para isso ela renunciou a um emprego, devolveu o im&#243;vel alugado, vendeu m&#243;veis, e deixou o filho para tr&#225;s com a av&#243;, at&#233; se arranjar na cidade nova. Vendedores s&#227;o muito bons em vender uma ideia, mesmo que vazia, e ela comprou essa, crente que finalmente teria sua grande chance na vida. O emprego que ela tinha em vista em Foz foi passado para mim e eu come&#231;aria em janeiro. Por&#233;m, a experi&#234;ncia em Ribeir&#227;o Preto n&#227;o saiu como planejado. N&#227;o conhe&#231;o os pormenores, mas para todos os efeitos a saudade do filho foi determinante para que ela voltasse para Foz do Igua&#231;u. Teve um grande preju&#237;zo com isso. Borges, como se apresenta meu irm&#227;o, ficou devendo algo a ela e a d&#237;vida envolvia uma televis&#227;o. Quando ela voltou, creio que coisa de uma semana ou dez dias depois, fiquei com pena e devolvi o emprego, o qual ela aceitou de bom grado. Um acerto do cora&#231;&#227;o, mas um erro de c&#225;lculo, j&#225; que eu n&#227;o estava apta a conseguir um emprego sozinha. O longo per&#237;odo no qual estive doente havia quebrado algo dentro de mim, e de alguma forma eu n&#227;o conseguia sequer procurar com afinco, muito menos passar em uma entrevista. Mas ela tinha um curr&#237;culo capaz de garantir o mesmo emprego em outra loja de materiais de constru&#231;&#227;o com uma grande facilidade. Contudo, Joce &#233; uma pessoa que n&#227;o desperdi&#231;a uma oportunidade, e eu s&#243; aprenderia isso no futuro. E esta minha decis&#227;o determinou que eu n&#227;o conseguisse trabalho e renda durante os onze meses nos quais morei em Foz. Por isso, quando n&#227;o recebi mais os pagamentos das parcelas restantes do neg&#243;cio, a vida desmoronou.</p><p>Creio que os pagamentos come&#231;aram a n&#227;o acontecer a partir de fevereiro. H&#225; um e-mail muito sutil no dia 06 de fevereiro de 2010, no qual apenas envio os dados da conta para dep&#243;sito. E em 1&#176; de mar&#231;o h&#225; uma infinidade de e-mails aferindo que j&#225; est&#225;vamos em guerra. Em 20 de mar&#231;o, especificamente, h&#225; um boletim de ocorr&#234;ncia contra ele, lavrado em Curitiba. Isso por que me registrei no programa de treinamento para novos franqueados da empresa na qual ele trabalhava, o que me rendeu passagens e hospedagem em Curitiba e a &#250;nica oportunidade de cobr&#225;-lo pessoalmente. O que fiz acompanhada de uma amiga da faculdade chamada Lili. N&#227;o sei se ele me deixou entrar ou eu tinha a chave da entrada do pr&#233;dio, mas de repente estava no apartamento, em p&#233; na sala, Lili do meu lado. N&#227;o lembro da conversa breve. Mas cometi um ato falho ao sair: girei a chave para abrir e a tirei da fechadura. Era um h&#225;bito. Se a tetra chave estivesse na fechadura quem chegasse n&#227;o conseguiria abrir do lado de fora. Por isso sempre tirava a chave se estivesse entrando, meu corpo naquela mesma posi&#231;&#227;o no estreito corredor. E antes que eu pudesse racionalizar o gesto, fui agarrada por tr&#225;s em um t&#237;pico mata le&#227;o, arrastada do corredor para o centro da sala, derrubada e repetidamente arremessada contra o ch&#227;o cada vez que tentava me levantar em um reflexo defensivo. Ao contr&#225;rio da atitude brutal, a voz era mansa:</p><p>-Fica calma! Fica calma! To fazendo isso pra voc&#234; n&#227;o se machucar.</p><p>N&#227;o sei da Lili nesse momento. N&#227;o lembro como me libertei ou me ergui do ch&#227;o. Tampouco como sa&#237; do pr&#233;dio. Fui &#224; delegacia, ao hospital e ao Passeio P&#250;blico, mas n&#227;o sei em qual ordem e se no mesmo dia. E chorava sem parar quando fui atendida na emerg&#234;ncia do hospital que suponho ter sido o evang&#233;lico. Em algum momento teve um exame de corpo delito. A agress&#227;o n&#227;o deixou marcas f&#237;sicas. As marcas invis&#237;veis e profundas me levaram ao Passeio P&#250;blico, onde sentada sob um pl&#225;tano, caneta e papel na m&#227;o, travei uma das maiores batalhas com uma velha oponente: a morte. Levei o conflito existente desde os 12 anos para um terreno no qual eu tinha chance de vencer: a poesia.</p><p>Eros e T&#226;natos</p><p>N&#225;ufrago em mim mesmo, a procuro</p><p>Entre suas pernas o afogamento</p><p>Esvazio aos arremessos</p><p>que a vida n&#227;o se desprega num s&#243; rasgo,</p><p>n&#227;o se desentranha na descarga</p><p>de um &#250;nico orgasmo</p><p>H&#225; sempre um &#250;ltimo deleite a ser tragado</p><p>E ela sabe</p><p>Me recebe</p><p>Me insere na arg&#250;cia estrutural da prosa,</p><p>na poesia cadenciada dos encaixes</p><p>Adere dos &#237;mpetos at&#233; os ossos,</p><p>seus feixes tecidos de n&#233;voa e mucosa</p><p>E eu apenas falo, falo e falo</p><p>at&#233; desaparecer</p><p>&#201; quando ela se constringe</p><p>fecha ao meu redor e secreta</p><p>o silencio absoluto.</p><p>Mas finge</p><p>Sei de cor o repert&#243;rio dos ardis</p><p>que enleia o embuste feminino</p><p>quando goza menos do que quis</p><p>Dissimulada desabrocha devagar,</p><p>desarvora aflitivos perfumes,</p><p>entreabre o corol&#225;rio dos poss&#237;veis</p><p>e impregnado dos unguentos do ci&#250;me</p><p>sou assaltado novamente</p><p>por tudo que ansiava abdicar</p><p>Resvalo para fora</p><p>Ela n&#227;o chora</p><p>Ao afago oferta o calo, nunca o &#226;mago</p><p>Cumpre ocultar o desamparo, me visto,</p><p>guardo o estilete no bolso</p><p>Retr&#225;til acendo um cigarro, degusto,</p><p>e ainda tenho o pulso de ostentar a marra</p><p>de quem s&#243; tirou um sarro</p><p>Sem palavra avan&#231;o</p><p>Ela &#233; como as outras</p><p>quer tudo, e n&#227;o me alcan&#231;o.</p><p>Nunca fez muito sentido a agress&#227;o. Ele estava encenando para quem? Havia algu&#233;m nos quartos? Que usos faria dessa encena&#231;&#227;o? Ser agarrada pelo pesco&#231;o de forma t&#227;o trai&#231;oeira me atormentou por muito tempo. &#201; dif&#237;cil descrever o sentimento. Me culpei muito por ter tirado a chave da fechadura. Mas nem combina com Borges supor que eu levaria a chave. Ele &#233; mais do tipo que debocharia da situa&#231;&#227;o, afinal bastava trocar o segredo. A chave por si s&#243; n&#227;o tinha serventia. Muitas vezes me pareceu uma manifesta&#231;&#227;o de for&#231;a gratuita. Ou um &#243;dio antigo represado. Revivi esse momento por muitos anos em minha mente sem chegar a uma conclus&#227;o. Nessa sequ&#234;ncia de fatos que n&#227;o sei se aconteceu no mesmo dia, s&#243; o pl&#225;tano do Passeio P&#250;blico acolheu minhas rumina&#231;&#245;es e o desejo de acabar.</p><p>Sem saber o que fazer ou ter para onde ir, voltei para Foz onde, realmente, Joce e eu, tentamos fazer funcionar a tal franquia. Mas eu n&#227;o tinha mais f&#244;lego para vender nada. Bater metas, ver a perf&#237;dia ganhar corpo em pessoas que considerava amigas, tudo isso havia me destru&#237;do aos poucos durante os tr&#234;s anos nos quais fui vendedora. A persona que criei para habitar esse mundo em particular escoou pelos meus olhos no dia que me sentei na cama, prestes a ir trabalhar e ca&#237; no choro para n&#227;o me levantar por dois anos e meio. E enquanto a luta para ser produtiva e para receber as parcelas do apartamento continuava, perdi o meu bem mais precioso: Teodora. Uma misturinha fofa de cocker e poodle, de pelo abric&#243;. A vida era t&#227;o tensa que s&#243; percebi seu sofrimento quando ela n&#227;o quis mais passear e ficou esmorecida em um canto da sala. Disseram que ela tinha erlichiose, a doen&#231;a do carrapato. O rem&#233;dio custava 10 reais, e eu n&#227;o tinha um centavo. Pedi emprestado &#224; minha m&#227;e e ela disse que s&#243; tinha o dinheiro da igreja, o qual meu pai administrava. N&#227;o sei se era o d&#237;zimo deles ou de toda a igreja, ou ainda dinheiro de alguma outra atividade da comunidade evang&#233;lica. Ele recusou o empr&#233;stimo. Odiava bichos e ainda mais Teodora, que vivia dentro de casa. De algum modo consegui o dinheiro para lev&#225;-la a uma cl&#237;nica alguns dias depois. Sei que foram 150 reais. Joce nos levou na garupa da Honda Bizz gen&#233;rica de placa paraguaia. Teodora foi no meu colo, enleada em um cobertor, orelhinhas ao vento. Ela recebeu transfus&#227;o de sangue e precisou ficar &#224; noite em observa&#231;&#227;o. Quando cheguei &#224; cl&#237;nica no dia seguinte se levantou cambaleante para me receber. N&#227;o havia mais nada a fazer. Em casa coloquei fraldas nela e forrei a cama com pl&#225;stico para dormirmos juntas. Teve um momento no qual rezei para ela morrer logo. Eu n&#227;o queria ver aquela luta in&#250;til por mais tempo. Ela morreu no meu colo na manh&#227; seguinte, em um uivo desesperado que jamais esquecerei. Ela n&#227;o queria ir, eu sei. E enquanto a depositava na cova aberta em um terreno no qual meu pai fazia sua horta, jurei sobreviver. Nunca a morte esteve t&#227;o perto e t&#227;o distante de mim ao mesmo tempo. Rodava em minha mente como um filme- ou um mantra- a hist&#243;ria do cavalo que o dono decide enterrar vivo, mas ele sacode a terra atirada em seu lombo e a pisoteia, at&#233; estar em condi&#231;&#245;es de sair sozinho do buraco.</p><p>N&#227;o sei quanto tempo depois da partida de Teodora decidi voltar para Curitiba. Pedi &#224; Zilda, minha irm&#227; que morava em S&#227;o Jos&#233; dos Pinhais, que me recebesse por uns dias. Sem um tost&#227;o, vendi para outra irm&#227; de Foz, Marlene, minha m&#225;quina de costura, minhas formas de bolo, <em>fouet</em> e quaisquer outros utens&#237;lios de confeitaria que havia levado comigo e fui &#224; rodovi&#225;ria comprar passagem. Ao chegar em casa com o bilhete na m&#227;o recebi um telefonema de Zilda:</p><p>-Sinto muito, mas n&#227;o posso te receber na minha casa-ela disse assim que atendi.</p><p>Pedi por favor, expliquei que n&#227;o tinha para onde ir. Na minha cabe&#231;a n&#227;o havia como devolver a passagem, e n&#227;o havia como retroceder. Eu s&#243; podia voltar para Curitiba. Chorei. E tudo o que ela dizia era:</p><p>- Sinto muito, eu n&#227;o posso te receber na minha casa.</p><p>Assim que me recompus, arrumei as malas e comecei uma luta para conseguir um lugar para ficar. Lili, disse em e-mail um dia antes disso que sua m&#227;e se ofereceu para me pegar na rodovi&#225;ria e me levar at&#233; minha irm&#227;. Expliquei que chegaria de madrugadinha e que minha irm&#227; morava em S&#227;o Jos&#233;, mas fiquei comovida com a oferta. Dois dias depois, quando avisei que minha irm&#227; n&#227;o poderia mais me receber e pedi para deixar minha bagagem na casa dela enquanto procurava um lugar para ficar, a oferta de me pegar na rodovi&#225;ria foi removida. Uma prima da av&#243; que estava no hospital e um tio de outra cidade estariam hospedados em sua casa nesse exato dia, de modo que n&#227;o havia mais como me pegar na rodovi&#225;ria, muito menos guardar minha bagagem, para a qual ela sugeriu o guarda volumes da rodovi&#225;ria. N&#227;o consegui explicar que n&#227;o tinha dinheiro para o guarda-volumes e resmunguei por e-mail algo sobre como as portas se fecham quando a gente mais precisa e segui em frente. N&#227;o tinha condi&#231;&#245;es de processar nada que n&#227;o fosse relacionado &#224; urg&#234;ncia de resolver o problema da hospedagem. Talvez por essa urg&#234;ncia eu n&#227;o consiga lembrar como Alessandra, outra colega da faculdade, aceitou me ajudar. Nem &#233;ramos muito pr&#243;ximas! Em alguma conversa ocorrida meses depois, eu disse:</p><p>- Minha sorte &#233; que voc&#234; se ofereceu para me ajudar.</p><p>- N&#227;o. Foi voc&#234; que pediu!- Ela me corrigiu</p><p>Que vergonha senti nesse momento. S&#243; lembro de ter ligado para ela assim que cheguei, e a voz de sono me atendeu como combinado por volta das 6hs da manh&#227;. Devo ter ficado em sua casa entre uma semana e dez dias. Em algum momento tive uma das primeiras enxaquecas que consigo lembrar, com n&#225;usea e v&#244;mito a ponto de passar um tempo deitada no ch&#227;o do banheiro. Fiquei bastante dependente da sua carona por uns dias, pois precisava economizar o dinheiro do &#244;nibus, e um dia, enquanto assist&#237;amos Bebel, sua filha de 7 anos, nadar, o marido dela, Ronaldo, olhou meu contrato e disse que n&#227;o tinha qualquer valor legal naquele documento. Me aconselhou a procurar a defensoria p&#250;blica e pedir ajuda. O que fiz com os parcos recursos que tinha, recebidos de meu cunhado Valdomiro que, na hora mais escura, quando eu embarcava no carro do meu pai para Joce me deixar na rodovi&#225;ria, ciente de que eu n&#227;o tinha dinheiro algum, enfiou trinta reais na minha m&#227;o dizendo que eu precisaria de um trocado para comer algo durante a viagem.</p><p>Na defensoria p&#250;blica fui encaminhada para a advogada cujo nome n&#227;o tenho certeza se era Ver&#244;nica ou Valk&#237;ria, a qual reiterou a opini&#227;o de Ronaldo. Eu queria processar meu irm&#227;o e o comprador para reaver meu apartamento, uma vez que o contrato de venda, na cl&#225;usula 3.1, previa que se ele n&#227;o pagasse, o mesmo estaria rescindido imediatamente. Deste modo, ele n&#227;o poderia vender algo que n&#227;o era seu. Mas ele tinha uma procura&#231;&#227;o de plenos poderes e o contrato n&#227;o tinha reconhecimento de firma de ningu&#233;m, ou mesmo assinatura dele. J&#225; a procura&#231;&#227;o que assinei dava a ele poder para fazer o que quisesse com o im&#243;vel. Ent&#227;o disse &#224; advogada que estava doente quando dei essa procura&#231;&#227;o a ele, e contei parte da minha hist&#243;ria. Ela saiu da sala em busca de aconselhamento de um colega chamado C&#233;zar e voltou afirmando que o apartamento era meu. Se estivesse vazio, bastava chamar o chaveiro e entrar. Ela me deu um documento para ir ao cart&#243;rio revogar a procura&#231;&#227;o dada ao Borges e expediu v&#225;rias cartas para os endere&#231;os conhecidos dele em S&#227;o Paulo.</p><p>Da casa de Alessandra fui direto para a minha. Agora vazia. Ele havia vendido minha mob&#237;lia. A &#250;ltima parcela que me enviou foi no valor de 950 reais. Creio que foi em julho e da venda da mob&#237;lia, porque foi quando disse j&#225; ter vendido o apartamento e deu a entender que tinha acabado de tirar &#8220;suas&#8221; coisas de l&#225;. Mas Alessandra se mudou para a Bahia e me deu alguns m&#243;veis. Meu ex-namorado, dono da locadora de v&#237;deo na qual fui trabalhar para ter o que comer, me deu alguns arm&#225;rios de cozinha, e creio que um sof&#225;. Meu guarda-roupa ainda estava no quarto, e acho que a cama tamb&#233;m. Em pouco tempo o apartamento estava mais bonito do que antes. Fiz um novo vestibular e passei em primeiro lugar no curso de gravura da Escola de M&#250;sica e Belas Artes do Paran&#225;, ofertado &#224; noite. O curso de Pintura era &#224; tarde e conclu&#237; que eu se quisesse ter uma vida digna teria que trabalhar o dia todo e estudar &#224; noite, como era antes de adoecer. Passei em primeiro lugar nesse vestibular, e entrei no curso confiante, j&#225; no terceiro ano, devido ao aproveitamento do curso anterior. Trabalhava na Dinamarca V&#237;deo que foi uma das &#250;ltimas locadoras a fechar em Curitiba. Recebia por hora, o que dava cerca de 20 reais por tarde trabalhada, pagas diariamente junto com o dinheiro do &#244;nibus, que eu n&#227;o usava. Costumava ir e voltar a p&#233; da Rua Nilo Cairo at&#233; as Merc&#234;s, para economizar.</p><p>Uma noite o comprador do apartamento apareceu na minha porta. Tentou abrir e n&#227;o conseguiu. N&#227;o tenho certeza se abri a porta ou vi pelo olho m&#225;gico. Sei que houve uma breve conversa, na qual relatei o paradeiro de meu irm&#227;o e disse que ele tinha voltado de S&#227;o Paulo contando muitas hist&#243;rias.</p><p>-&#201; tudo, mentira. Ele &#233; um mentiroso - repetiu enf&#225;tico o comprador, como se para si mesmo, visivelmente furioso.</p><p>Lembro claramente dele indo embora, a figura magra, o sotaque parecido com o carioca, e a amea&#231;a:</p><p>- Por 25 mil reais eu mato seu irm&#227;o, fique sabendo.</p><p>Se disse algo mais n&#227;o fa&#231;o ideia. Existem momentos nos quais travo e fico observando a situa&#231;&#227;o como se estivesse de fora dela, em uma esp&#233;cie de estupor. Ele virou as costas e saiu, para me mandar uma notifica&#231;&#227;o de despejo extrajudicial algum tempo depois. Apavorada fui &#224; defensoria. A advogada, que tenho quase certeza chamar-se Virg&#237;nia- ou seria Ver&#244;nica?- me disse para n&#227;o me preocupar. Ele entraria com uma a&#231;&#227;o e n&#243;s nos defender&#237;amos. N&#227;o havia nada que n&#243;s pud&#233;ssemos fazer antes disso. N&#227;o achei que isso estava certo, mas n&#227;o sabia o que fazer e precisava me preocupar com meu sustento.</p><p>As aulas na faculdade j&#225; haviam come&#231;ado e eu j&#225; tinha superado os subempregos dando aula pelo PSS do Estado quando recebi a ordem judicial de despejo. Conforme o documento eu tinha 24 horas para sair ou seria removida pela pol&#237;cia. Retornei &#224; defensoria e inteirei a advogada sobre o que havia acontecido. Ela pediu meu cart&#227;o de atendimento onde constava seu nome e todos os meus atendimentos naquela defensoria p&#250;blica at&#233; ent&#227;o. N&#227;o dei a ela. Assim que o tirei do bolso o papel foi arrancado da minha m&#227;o, rasgado e jogado na lixeira &#224; minha frente. Isto feito ela confirmou que eu precisava sair do apartamento naquele prazo estipulado. N&#227;o fa&#231;o ideia da minha rea&#231;&#227;o nesse momento ou como sa&#237; da defensoria. Eu n&#227;o era do confronto. Eu implodia.</p><p>No entanto, a ideia de ser escorra&#231;ada como um bandido daquela que considerava minha casa me deixou absolutamente apavorada e determinada a sair antes que isso acontecesse. Tinha certeza de que colapsaria de novo se chegasse a esse ponto. E eu n&#227;o podia perder o controle sobre mim que havia adquirido a duras penas e grandes perdas no &#250;ltimo ano. No mesmo dia deixei o apartamento. Minhas coisas foram para a cl&#237;nica onde eu dava aula, no bairro S&#227;o Francisco, e fui hospedada l&#225; temporariamente, pois a casa ficava vazia &#224; noite e nos fins de semana. Alguns amigos da faculdade vieram ajudar a empacotar e carregar a mudan&#231;a. N&#227;o lembro exatamente quantos e quais. Mas Ta&#237;ssa, olhou em volta e disse:</p><p>-&#201; uma pena. Este apartamento nunca esteve t&#227;o bonito.</p><p>Eu n&#227;o podia processar este pesar neste momento. Precisava estar de p&#233;. Antes de adoecer, e principalmente durante, eu n&#227;o teria essa resili&#234;ncia. Mas creio que o foco de n&#227;o sair escoltada pela pol&#237;cia me sustentou. Esta nem era a primeira vez que minhas coisas sa&#237;ram do apartamento como se fossem lixo. Em 22 de mar&#231;o de 2010, as coisas que ficaram guardadas no que era um antigo quarto de empregada foram despejadas de l&#225;, enquanto eu lutava para receber as parcelas do im&#243;vel, nos seguintes termos:</p><p><em>From: <a href="mailto:borges_system@hotmail.com">borges_system@hotmail.com</a></em></p><p><em>To: <a href="mailto:vozdeeco@hotmail.com">vozdeeco@hotmail.com</a></em></p><p><em>Subject: pagto<a href="#sdfootnote1sym"><sup>1</sup></a></em></p><p><em>Date: Mon, 22 Mar 2010 10:02:39 +0000</em></p><p><em>Me mande a conta novamente.Vou fazer o dep&#243;sito na sua conta de R$1000,00 assim que voc&#234; me passar os dados da mesma.</em></p><p><em>Seguindo orienta&#231;&#227;o do meu advogado a partir de hoje voc&#234; s&#243; entra no apartamento com uma ordem judicial para retirar suas coisas pessoais. Se est&#225; se sentindo prejudicada procure a justi&#231;a e terei o maior prazer em te pagar se a justi&#231;a assim determinar. Recomendo a voc&#234; ler o contrato que assinou. L&#225; est&#225; escrito que voc&#234; me vendeu um apto mobiliado por R$15000,00 sendo que R$2000,00 foram pagos no ato do neg&#243;cio e o restante parcelado em R$1000,00 por m&#234;s sendo que te paguei sempre em dia at&#233; este m&#234;s de mar&#231;o. Sempre honrei meus neg&#243;cios e sempre honrarei. Farei o &#250;ltimo pagamento em 10/12/2010. Fora a isso existe um acordo verbal entre eu e voc&#234; sobre a maquina de lavar e mais um item que n&#227;o me lembro agora qual &#233;, vou te dar + R$1000,00 por estes itens e diga se de passagem est&#227;o bem pagos pois est&#227;o usados. Este R$1000,00 vou te dar em 10/01/2011. Este ser&#225; o &#250;ltimo dep&#243;sito que farei pra vc. Quanto &#224;s suas coisa que est&#227;o na dispensa te dou 6 meses pra mandar algu&#233;m com uma ordem por escrito, assinado e reconhecido firma em cart&#243;rio do seu nome autorizando tal pessoa e retirar o microondas e as caixas que est&#227;o na minha dispensa. Se em 6 meses a contar de hoje 22/03/2010 voc&#234; n&#227;o retirar vou ter que jogar no lixo tudo, pois vou reformar o apartamento e n&#227;o tenho onde por. Fora a isso minha querida n&#227;o te devo mais nada. Vou repetir: est&#225; se sentindo prejudicada procure a justi&#231;a. E la veremos quem est&#225; com a raz&#227;o. Foi por isso que assinamos um contrato particular de compra e venda. N&#227;o vou mais responder seus emails, N&#227;o quero mais brigas. N&#227;o quero nem falar contigo neste momento. Portanto se voc&#234; n&#227;o for a justi&#231;a considerarei que vc concorda com que est&#225; escrito neste email. Mas vc tem todo o direito de procurar seus direitos se est&#225; se sentindo prejudicada.</em></p><p><em>Que Deus aben&#231;oe seu caminho e sua vida</em></p><p><em>Borges</em></p><p>Este e-mail foi um golpe t&#227;o brutal quanto a agress&#227;o f&#237;sica. E foi recebido dois dias depois, pois o boletim de ocorr&#234;ncia data de 20 de mar&#231;o de 2010 &#224;s 18h28. Al&#233;m da hora consta que eu n&#227;o queria realizar a queixa crime, quando na verdade na o policial que me atendeu disse que eu precisaria de um advogado para realizar a queixa crime e que eu tinha seis meses para faz&#234;-lo ou mudar de ideia. N&#227;o houve acolhida apesar de eu estar em prantos. O atendimento foi blas&#233; e desencorajador, e n&#227;o houve uma orienta&#231;&#227;o sobre como eu poderia conseguir esse advogado. Borges, por outro lado, aparentemente tinha a assessoria de um advogado, e estava me encorajando a buscar meus direitos. Por&#233;m, n&#227;o com o intuito de fazer justi&#231;a e sim de me desestabilizar diante de tr&#226;mites legais custosos com os quais eu n&#227;o poderia arcar. Na verdade, eu n&#227;o poderia arcar com a burocracia em si. Foi essa mesma burocracia da exist&#234;ncia que me fez chegar ao ponto de vender o apartamento. E parece que ele sabia disso.</p><p>N&#227;o fiz qualquer documento ou procura&#231;&#227;o, mas minhas coisas foram retiradas do apartamento de alguma forma. Eram cerca de dez caixas com utens&#237;lios de cozinha, e algumas roupas. Quando retornei para o apartamento, autorizada pela defensoria personificada na virg&#237;niaver&#244;nicavalk&#237;ria, fui busc&#225;-las na casa da Zilda em S&#227;o Jos&#233;. Estavam armazenadas do lado de fora, sob o beiral da casa, quase ao relento, o papel&#227;o visivelmente carcomido pela intemp&#233;rie. Empilhadas como estavam, &#224; vista da rua, poderiam ter sido saqueadas por ladr&#245;es de galinha. Felizmente s&#243; dei falta de alguns cachec&#243;is. Havia me tornado uma ex&#237;mia crocheteira durante o internamento e tinha v&#225;rias pe&#231;as &#250;nicas, as quais muitas vezes n&#227;o usava por causa da textura da l&#227;, mas me orgulhava do trabalho e da facilidade de entender gr&#225;ficos que a maioria das pessoas, inclusive as que me ensinaram croch&#234; e tric&#244; no hospital, n&#227;o conseguia. Foi uma perda. Muito maior era o desconforto pelo tratamento dado &#224;s minhas coisas e o risco que minhas panelas de inox correram.</p><p>Na cl&#237;nica, ap&#243;s me ver sem casa novamente, n&#227;o foi muito diferente em rela&#231;&#227;o aos meus pertences. Lembro de ter vendido alguns, como os arm&#225;rios da cozinha, que foram para uma colega de trabalho. Outras simplesmente sumiram, como uma cortina azul de tecido forte e encorpado que eu tinha desde a quitinete na qual morava quando adoeci. N&#227;o lembro se vendi ou simplesmente abandonei na cl&#237;nica quando precisei mudar meu trabalho como professora- hoje sei que por problemas de comunica&#231;&#227;o- para outras duas escolas e aluguei um quarto mais perto da faculdade. Enquanto essas mudan&#231;as ocorriam tentei manter o foco em terminar a gradua&#231;&#227;o. Era meu terceiro curso, meu quarto vestibular, e se eu terminasse seriam oito anos para concluir uma gradua&#231;&#227;o. Estava decidida a dar conta desta vez.</p><p>Voltei para Curitiba com o claro objetivo de ser uma pessoa diferente e de nunca mais me colocar nas m&#227;os de outra pessoa, como me coloquei nas m&#227;os de Borges. De algum modo passei a gostar um pouco mais de mim. Estava mais magra e me sentindo bonita. Decidi que, pela primeira vez, iria namorar quem eu quisesse ao inv&#233;s de me contentar com quem me queria. E assim fiz. Quando fui despejada j&#225; me relacionava com um colega da faculdade. Me sentia parte do mundo de novo. E por isso procurei uma professora que era advogada e cujo marido e filho eram propriet&#225;rios de um escrit&#243;rio de advocacia, segundo a pr&#243;pria. Do teor da conversa lembro apenas de uma fala dela:</p><p>-E quem precisa de um apartamento para viver?</p><p>Provavelmente depois dessa pergunta n&#227;o registrei mais nada al&#233;m da minha pr&#243;pria digress&#227;o tentando entender o tom da fala e o lugar de onde essa mulher extremamente bem-vestida e claramente privilegiada falava. Ela n&#227;o assumiu o caso como eu esperava, e sim me recomendou para uma colega chamada Cleusa, e fui ao escrit&#243;rio dela no Batel. Era antiquado, com m&#243;veis robustos planejados, em madeira escura. Certamente uma marcenaria cara, mas que naquele momento parecia um tanto fora do tom. Dra Cleusa foi muito educada, me ouviu, e quando eu disse que queria processar meu irm&#227;o ela respondeu:</p><p>-N&#227;o fa&#231;a isso. &#201; fam&#237;lia. Depois voc&#234; acaba se arrependendo.</p><p>Ela tamb&#233;m trabalhava na defensoria p&#250;blica e foi para l&#225; que me encaminhou, onde me defenderia como o que eu era: r&#233;. S&#243; daria conta disso anos mais tarde. Ele n&#227;o s&#243; me tirou tudo como como me colocou na posi&#231;&#227;o de r&#233;.</p><p>Segui com a vida e outros dramas no trabalho e na faculdade, decorrentes do que eu passei a considerar uma falta de socializa&#231;&#227;o adequada na inf&#226;ncia. Havia me tornado outra pessoa, mais verbal, mais segura e mais expressiva, e aparentemente com mais problemas de relacionamento do que antes. Fui morar com o namorado, e em parte queria esquecer o passado. A hist&#243;ria do apartamento me fazia sentir muito burra e volta e meia precisava dissipar, desviar, despistar com afinco da pergunta &#8220;como uma pessoa t&#227;o inteligente pode ser t&#227;o burra?&#8221; que parecia surgir do nada em minha cabe&#231;a. Essa pergunta trazia uma renca de sentimentos que nem sempre eu conseguia distinguir. Uma am&#225;lgama de vergonha, raiva e outras viol&#234;ncias voltadas contra mim mesma. At&#233; que um dia, n&#227;o sei como nem porque o agora legalmente marido me alertou sobre uma audi&#234;ncia relativa ao processo.</p><p>A advogada que n&#227;o sabia de nada por fim me pediu que a encontrasse na audi&#234;ncia. Dra. Cleusa chegou em cima da hora, e quando entramos e nos sentamos diante do Juiz, o novo propriet&#225;rio do apartamento foi convidado a falar. N&#227;o pude prestar aten&#231;&#227;o porque estava extremamente ansiosa e Dra. Cleusa ainda cochichou ao meu ouvido:</p><p>- O que eu falo para o juiz?</p><p>-N&#227;o sei - respondi perplexa!</p><p>E o juiz, no tom que usa um pai furioso na derradeira reprimenda, aquela precursora da puni&#231;&#227;o f&#237;sica, me advertiu. Esta n&#227;o era minha vez de falar e eu n&#227;o deveria falar de novo. N&#227;o sei se me desestruturou mais o tom de voz ou o fato dele se dirigir a mim e n&#227;o &#224; advogada que claramente iniciou o di&#225;logo. E eu ainda estava tentando compreender o fato de minha advogada n&#227;o saber o que dizer para o juiz! Meu oponente estava falando e eu n&#227;o conseguia prestar aten&#231;&#227;o nele e no meu pr&#243;prio racioc&#237;nio. E de repente Dra. Cleusa cochicha de novo em meu ouvido. O qu&#234;? N&#227;o fa&#231;o ideia. N&#227;o tive tempo de entender ou responder, pois o juiz mais uma vez se dirigiu a mim gritando que se eu abrisse a boca novamente mandaria me retirarem da sala e me prender por desacato. Exasperada pelo grito, pela injusti&#231;a, pela amea&#231;a, pelo despreparo da minha defensora, levantei-me e respondi ao juiz:</p><p>- Pode deixar que eu mesma me retiro.</p><p>Ao sair bati a porta com for&#231;a. Enquanto caminhava pelo corredor me ocorreu que agora sim ele poderia me prender por desacato. A audi&#234;ncia foi no Centro C&#237;vico, ao lado da Prefeitura. E quando alcancei a rua decidi n&#227;o facilitar caso ele mandasse a pol&#237;cia atr&#225;s de mim. Em vez de caminhar em linha reta pela C&#226;ndido de Abreu, optei por fazer um zigue zague, exatamente como fiz quando fugi de casa aos treze anos. Se meu pai n&#227;o me achou naquela &#233;poca, a pol&#237;cia n&#227;o teria mais sorte desta vez.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA menina. Audiolivro. ]]></title><description><![CDATA[Capitulo 1- parte 1]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-audiolivro</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-audiolivro</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Jan 2025 22:31:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/155785782/8b456ee1b3eb6b2d42d6ebd9042de7fe.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nesse primeiro cap&#237;tulo a viol&#234;ncia patrimonial contra uma mulher autista se torna o fio condutor de uma narrativa que desvela n&#227;o s&#243; o rol de viol&#234;ncias  a que uma pessoa autista sem suporte est&#225; sujeita, mas talvez a maior delas  que &#233; justamente a aus&#234;ncia de suporte, que decorre do abandono, a come&#231;ar pelo familiar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cShY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa7d29cca-83ca-4160-bd3f-74274c95a28f_4640x3488.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cShY!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa7d29cca-83ca-4160-bd3f-74274c95a28f_4640x3488.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cShY!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa7d29cca-83ca-4160-bd3f-74274c95a28f_4640x3488.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cShY!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa7d29cca-83ca-4160-bd3f-74274c95a28f_4640x3488.jpeg 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y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><h6>Arte: Oryanna Borges.  </h6><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Oryanna Borges is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA menina]]></title><description><![CDATA[Ou&#231;a agora (4 minutos) | Ou&#231;a o pr&#243;logo de TEA menina, um livro no qual a viol&#234;ncia vivida pelas mulheres &#233; ampliada pelo Transtorno do Espectro Autista.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-da2</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-da2</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sun, 12 Jan 2025 19:22:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/154682390/8cc572057cbd38d8e34f78603d6742a1.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Embora haja resist&#234;ncia em aceitar que a viol&#234;ncia f&#237;sica e psicol&#243;gica integra cotidianamente a vida das mulheres, este &#233; um dado metrificado pelos &#237;ndices de feminic&#237;dio. Quando a mulher faz parte do espectro autista, especialmente se o diagn&#243;stico &#233; tardio,  as viol&#234;ncias se ampliam e outras podem ser  nominadas,  como a viol&#234;ncia patrimonial e judici&#225;ria, o abandono familiar, o bullying e o estigma da loucura. &#201; dessa amplia&#231;&#227;o da viol&#234;ncia que trata o livro TEA menina, que agora voc&#234; pode ouvir a caminho de casa, ou do trabalho.   </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Oryanna Borges is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA menina]]></title><description><![CDATA[Revisando antes de escrever o &#250;ltimo cap&#237;tulo, decidi compartilhar o pr&#243;logo. Os pr&#243;ximos posts ser&#227;o na forma de &#225;udio. A imagem ser&#225; a contracapa. Obra de Taissa Brevilheri.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Jan 2025 14:33:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CYd5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F95d426cd-b09e-4e8a-b02f-3f8b7ae8f802_605x549.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CYd5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F95d426cd-b09e-4e8a-b02f-3f8b7ae8f802_605x549.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>Pr&#243;logo</p><p>Pelo olho m&#225;gico vi meu irm&#227;o. Ele n&#227;o interfonou. Decerto ainda tinha a chave, pois havia morado comigo por alguns meses. Meu primeiro impulso era n&#227;o abrir a porta, como j&#225; havia feito para outras pessoas. Mas eu precisava. Ele entrou e logo atr&#225;s de sua figura corpulenta, surgiu o casal. Me senti acuada. Eu n&#227;o esperava que houvesse outras pessoas e n&#227;o estava apresent&#225;vel. Provavelmente estava descabelada como qualquer criatura que fica desabada no sof&#225; por muito tempo. Usava um short de moletom cinza com o qual dormira, e n&#227;o conseguia abstrair o fato de que minhas pernas estavam sem depilar h&#225; semanas. N&#227;o &#233; assim que se recebe algu&#233;m em sua casa! Ali&#225;s, a casa provavelmente tamb&#233;m n&#227;o estava asseada. N&#227;o cumprir os requisitos b&#225;sicos da anfitri&#227; era uma vergonha. E minha mente se dividia em processar o que deveria ser e n&#227;o era e o que estava sendo.</p>
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