<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Oryanna Borges: Poesia para ler]]></title><description><![CDATA[Mais de trinta e dois anos de poesia em um só espaço. Antologia ou mistifório? Leia e decida. ]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/s/poesia</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png</url><title>Oryanna Borges: Poesia para ler</title><link>https://www.oryannaborges.com/s/poesia</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sun, 05 Jul 2026 09:22:56 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.oryannaborges.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Oryanna Borges]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Um Soneto Interrompido aos 20 Anos]]></title><description><![CDATA[Nos anexos de Retrato das Sombras, a arqueologia de um fragmento salvo sobre o masking e o burnout autista na terceira d&#233;cada de vida.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/um-soneto-interrompido-aos-20-anos</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/um-soneto-interrompido-aos-20-anos</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 23:00:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gWiH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcb60844a-d44c-41f1-92f9-58f2126ebe02_1536x2752.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cb60844a-d44c-41f1-92f9-58f2126ebe02_1536x2752.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cb60844a-d44c-41f1-92f9-58f2126ebe02_1536x2752.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Soneto Interrompido
</strong>
Ent&#227;o resolvi desafiar convic&#231;&#245;es 
E ensaiei um festivo traje novo 
Para disfar&#231;ar velhas afli&#231;&#245;es 
E revoltosos valores que louvo

Pintei o que eu sabia ser saudade 
De uma beleza eficaz mas fict&#237;cia 
E insinuei por simples vaidade 
Uma dose inexistente de mal&#237;cia

E lamentei minha pr&#243;pria condi&#231;&#227;o
</pre></div><h3><strong><span>Perspectiva Neurodivergente: A Arquitetura R&#237;gida do Masking e o Burnout</span></strong></h3><p><span>Tenho a impress&#227;o de que este poema interrompido deveria ser um soneto. E talvez uma tentativa de sacramentar uma nova postura perante a exist&#234;ncia. Nos meus vinte anos eu sentia essa cobran&#231;a externa de parecer mais articulada e sedutora. Recordo que, por volta dos 23 anos, um namorado relatou, em uma das minhas poucas sa&#237;das &#224; noite com seu grupo de amigos, que fora aconselhado a me deixar de lado pois eu era &#8220;muito parada&#8221;. &#201; dif&#237;cil explicar hoje em dia, para quem me escuta t&#227;o verbal e articulada, esse embate que eu julgava ser com a timidez, h&#225; mais de 20 anos.</span></p><p><span>Mas eu lembro claramente deste evento espec&#237;fico, que n&#227;o tem rela&#231;&#227;o nenhuma com a escrita do poema e sim com a aparente necessidade de escrev&#234;-lo. Lembro da dificuldade de administrar pessoas estranhas em um lugar muito cheio de gente &#8212; um bar &#8212; e ainda um relacionamento nascendo, tudo ao mesmo tempo. Muita novidade e muita cobran&#231;a concomitante. E o coment&#225;rio vinha como confirma&#231;&#227;o de minha inadequa&#231;&#227;o e reiterada exig&#234;ncia de mudan&#231;a. N&#227;o &#224; toa, neurodivergentes, em especial autistas sem diagn&#243;stico, vivem em estado de hipervigil&#226;ncia.</span></p><p><span>Para mim, a tentativa de emular a forma cl&#225;ssica do soneto funciona como um correlato est&#233;tico perfeito para o </span><em><span>masking</span></em><span> &#8212; a camuflagem social consciente utilizada por indiv&#237;duos neurodivergentes para performar uma neurotipicidade esperada. O vocabul&#225;rio &#233; explicitamente c&#234;nico: &#8220;ensaiei &#8221;, &#8220;disfar&#231;ar&#8221;, &#8220;pintei&#8221;, &#8220;insinuei&#8221;. O eu l&#237;rico est&#225; consciente da inadequa&#231;&#227;o de suas rea&#231;&#245;es naturais e, por isso, projeta uma persona artificial, dotada de uma &#8220;mal&#237;cia&#8221; e de uma vivacidade que n&#227;o possui organicamente.</span></p><p><span>Eu era um trist&#237;ssimo palha&#231;o nessa &#233;poca.</span></p><p><span>A escolha das duas quadras com rimas cruzadas (</span><em><span>convic&#231;&#245;es/afli&#231;&#245;es</span></em><span>, </span><em><span>saudade/vaidade</span></em><span>) pode facilmente ser lida como uma tentativa da mente de se ancorar em regras r&#237;gidas e estruturas l&#243;gicas para conter sua inadequa&#231;&#227;o. No entanto, o processo de </span><em><span>masking</span></em><span> &#233; metabolicamente exaustivo. O surgimento do nono verso isolado, </span><em><span>&#8220;E lamentei minha pr&#243;pria condi&#231;&#227;o&#8221;</span></em><span>, marca o colapso abrupto desse esfor&#231;o. E isso me comove profundamente, pois embora eu n&#227;o lembre particularmente da escrita deste poema, eu sinto a sua dor como se meu corpo a tivesse guardado.  A energia dedicada &#224; sustenta&#231;&#227;o da simetria e da performance social simplesmente se esgota. A mente desiste de buscar a rima e a m&#233;trica dos tercetos; a crueza da exaust&#227;o dissolve a estrutura reguladora.</span></p><h2><strong><span>O Traje do Masking e o Esgotamento Rec&#237;proco</span></strong></h2><p><span>Ou talvez a tentativa de me encaixar tenha falhado em alguma esquete mental e o poema registre essa contrariedade interna que conhe&#231;o bem, na qual uma irrita&#231;&#227;o profunda assume meu humor diante do fazimento de algo que n&#227;o quero absolutamente fazer. Esse "festivo traje novo&#8221; &#233; a persona neurot&#237;pica manufaturada para o ambiente social &#8212; uma indument&#225;ria comportamental brilhante, desenhada especificamente para &#8220;disfar&#231;ar velhas afli&#231;&#245;es&#8221;. Estas mesmas que me acometiam em um lugar novo, barulhento e cheio de gente me medindo da cabe&#231;a aos p&#233;s.</span></p><p><span>O conflito mais doloroso da neurodiverg&#234;ncia surge no fechamento da primeira quadra: </span><em><span>&#8220;E revoltosos valores que louvo&#8221;</span></em><span>. H&#225; uma disson&#226;ncia cognitiva excruciante aqui. O eu l&#237;rico possui uma l&#243;gica interna estruturada em valores intensos, profundos e &#8220;revoltosos&#8221;. Eu lembro da revolta de ter um c&#243;digo interno que parecia me impedir e me misturar. E o poema reconhece que o mundo exige o sepultamento dessa identidade sob o manto da conven&#231;&#227;o social. Eu queria ser mais leve, e este poema prova isso. Mas eu nunca consegui parar de auscultar o abismo e transcrev&#234;-lo em versos.</span></p><p><span>A segunda quadra descreve a sofistica&#231;&#227;o dessa camuflagem: a pintura de sentimentos artificiais (&#8221;beleza eficaz mas fict&#237;cia&#8221;) e a clara tentativa de performar uma mal&#237;cia  inexistente, simulando uma leveza flertante para se misturar ao ambiente. No entanto, tecer e sustentar essa armadura social drena a energia ps&#237;quica, mesmo em uma esquete mental. O nono verso, isolado e destitu&#237;do da m&#233;trica par dos tercetos, surge como o colapso inevit&#225;vel. &#201; o registro est&#233;tico do burnout de camuflagem: quando o peso do traje se torna insuport&#225;vel, a costura formal do soneto se rompe e a mente desaba na exaust&#227;o da pr&#243;pria &#8220;condi&#231;&#227;o&#8221;. O poema termina abruptamente &#8212; fosse pelo esgotamento da autora ou do assunto, fato &#233; que ele se esgota. E finda dignamente.</span></p><p><span>Fingir nunca foi parte integrante dos revoltosos valores que louvo. E admiro aquela menina que sustentou a performance verdadeira e ainda registrou sua escolha.</span></p><p></p><p></p><p></p><p></p><h3>Para sustentar o abismo</h3><p>Se voc&#234; se identifica com essa arqueologia da mem&#243;ria e deseja apoiar ativamente a continuidade da minha produ&#231;&#227;o po&#233;tica e ensa&#237;stica independente, considere se tornar um <strong>assinante pago</strong>. &#201; esse gesto que sustenta e viabiliza a profundidade deste espa&#231;o. 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Conhe&#231;a as correntes dessa produ&#231;&#227;o liter&#225;ria e fortale&#231;a uma autora independente.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Clique aqui para adquirir o seu exemplar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Clique aqui para adquirir o seu exemplar</span></a></p><p></p><h3>Migra&#231;&#227;o de frequ&#234;ncia</h3><p>Quer migrar para uma outra frequ&#234;ncia? No meu canal do YouTube, expandimos essas investiga&#231;&#245;es est&#233;ticas, existenciais e autoetnogr&#225;ficas em formato audiovisual. 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</strong>
O amor &#224;s vezes traz essa melancolia suspirosa 
Esse sorriso envelhecido embriagado de saudade 
Mesmo resignado &#224; condi&#231;&#227;o de idolatria silenciosa 
Condenado &#224; mais singela e remota possibilidade

E sinto ao viv&#234;-lo por essa ang&#250;stia suport&#225;vel 
A rude avidez com que assimila sua suavidade
E a Ternura
A brutalidade do
</pre></div><p></p><p><span>E assim aparece o impresso em meio &#224;s folhas manchadas do meu volume mais desgastado de </span><em><span>Retrato das Sombras</span></em><span>. Escrito entre os 20 e 29 anos, este poema interrompido foi considerado digno de ser salvo. O papel macerado revela dobras, puimentos, furos e a ferrugem de grampos que n&#227;o resistiram ao manuseio.</span></p><p><span>Talvez &#8212; e este talvez n&#227;o est&#225; embasado na mem&#243;ria, mas na minha l&#243;gica interna &#8212; o que o tenha salvado sejam as duas palavras que hoje se tornaram seu t&#237;tulo: </span><strong><span>idolatria silenciosa</span></strong><span>. Sim, o objeto limerente era precioso demais para ser descartado, mesmo em versos interrompidos.</span></p><p><span>Hoje o poema faz sentido mesmo em sua incompletude. &#201; o resguardo fossilizado do meu bem mais precioso, esteio de minha exist&#234;ncia. Sinto que atualmente  desloquei esse esteio inteiramente para uma felina cinzenta de olhos amarelos. E isso me causa um riso estranho e tranquilo, como o sono dela ao meu lado enquanto escrevo. Seus tr&#234;s quilos de ternura pulsando suavemente, sempre comigo. Segura o bastante ppara depois de seis anos me permitir acariciar sua barriga .</span></p><p><span>Mas eu ainda consigo embarcar nesse poema e navegar a ang&#250;stia suport&#225;vel que ele revela.</span></p><p></p><h3><strong><span>A Perspectiva Neurodivergente: A Intensidade do Processamento</span></strong></h3><p><span>Sob a lente da neurodiverg&#234;ncia, este poema revela a crueza de um processamento emoional hiperintenso. O afeto n&#227;o &#233; apenas sentido; &#233; analisado, categorizado e suportado como uma sobrecarga  f&#237;sica. H&#225; uma tentativa de autorregula&#231;&#227;o emocional atrav&#233;s da escrita: a mente busca racionalizar o afeto transformando-o em &#8220;idolatria silenciosa&#8221; &#8212; um ref&#250;gio seguro e contemplativo que evita o caos do contato social imprevis&#237;vel. A &#8220;rude avidez&#8221; com que a mente &#8220;assimila sua suavidade&#8221; descreve perfeitamente o funcionamento de um sistema sensorial/emocional &#225;vido por calmaria, mas que processa tudo na voltagem m&#225;xima.</span></p><p></p><h3><strong><span>A Cristaliza&#231;&#227;o e o Choque da Realidade</span></strong></h3><p><span>A aplica&#231;&#227;o da teoria da limer&#234;ncia de Dorothy Tennov a este fragmento revela o fen&#244;meno da cristaliza&#231;&#227;o em seu estado mais puro. O &#8220;objeto limerente&#8221; n&#227;o &#233; percebido em sua alteridade real, mas sim como uma entidade idealizada, justificando a &#8220;idolatria&#8221;. Na limer&#234;ncia, a mente se alimenta obsessivamente da reciprocidade idealizada, mesmo que baseada na &#8220;mais singela e remota possibilidade&#8221;. O eu l&#237;rico encontra-se no est&#225;gio de submiss&#227;o volunt&#225;ria ao ciclo de desejo e incerteza, onde a pr&#243;pria dor &#233; romantizada para manter o objeto ativo no imagin&#225;rio.</span></p><p><span>A ruptura f&#237;sica do poema , que termina abruptamente com dois versos claramente interrompidos revela o esgotamento, talvez, da  fantasia limerente. A limer&#234;ncia exige um isolamento ass&#233;ptico para prosperar; a intrus&#227;o da &#8220;brutalidade&#8221; &#8212; seja a rejei&#231;&#227;o expl&#237;cita, a indiferen&#231;a do objeto ou a crueza do mundo real &#8212; quebra o feiti&#231;o. A interrup&#231;&#227;o do poema cristaliza o exato milissegundo em que a arquitetura idealizada da limer&#234;ncia colide com a fric&#231;&#227;o do real. Seja porque o real exigiu aten&#231;&#227;o, seja porque o real quebrou a magia do momento com sua nudez estrutural amparada pela minha racionalidade.</span></p><p></p><h2><strong>Gostou desta reflex&#227;o?</strong> </h2><p>Inscreva-se para receber os pr&#243;ximos ensaios e an&#225;lises diretamente no seu e-mail. A assinatura gratuita garante que voc&#234; n&#227;o perca nenhum texto desta jornada pelo <em>Retrato das Sombras</em>. 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Deixe-se conduzir pelas correntes dessa produ&#231;&#227;o po&#233;tica e apoie diretamente uma autora independente. </p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Clique aqui para adquirir Abyssalia&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Clique aqui para adquirir Abyssalia</span></a></p><p></p><h2></h2><h2><strong>Vamos para uma outra frequ&#234;ncia?</strong> </h2><p>Deixe a melancolia suspirosa da juventude e migre comigo para outro espa&#231;o de autocria&#231;&#227;o. No meu canal do YouTube, expandimos essas investiga&#231;&#245;es est&#233;ticas e existenciais em formato audiovisual. Te espero l&#225; para darmos vaz&#227;o a essa for&#231;a misteriosa que nos move. </p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@manifestecomoarte&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Mude de frequ&#234;ncia&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@manifestecomoarte"><span>Mude de frequ&#234;ncia</span></a></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cessar Repentino: O poema riscado e a dissecação da autofagia]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise profunda do poema "Cessar Repentino", abordando a hipervigil&#226;ncia neurodivergente, a hiperseletividade na limer&#234;ncia e o manuscrito riscado como autodefesa.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/cessar-repentino-o-poema-riscado</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/cessar-repentino-o-poema-riscado</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 26 Jun 2026 00:01:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kBvU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8a80a461-50bc-4c61-b1f5-dceeac44b760_2850x5000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8a80a461-50bc-4c61-b1f5-dceeac44b760_2850x5000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Inner Core_3&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8a80a461-50bc-4c61-b1f5-dceeac44b760_2850x5000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Cessar Repentino
</strong>
Vou embora agora
Enquanto partir &#233; op&#231;&#227;o
Quando pressinto o fim
J&#225; digo adeus a cada hora
E n&#227;o suporto essa consumi&#231;&#227;o
Melhor o cessar repentino
Como se eu n&#227;o soubesse a que vim
Nem me importasse o meu destino.</pre></div><p></p><h3>Autodefesa e Autofagia</h3><p>A jornada sobre os poemas limerentes em <em>Retrato das Sombras</em> acabou. Eu acho. N&#227;o tenho certeza, porque n&#227;o fiz anota&#231;&#245;es e j&#225; detectei poemas analisados duplamente. Mas, enfim, a an&#225;lise da cogni&#231;&#227;o autista e da limer&#234;ncia na minha poesia ainda n&#227;o terminou. Na verdade, um dos volumes de <em>Retrato das Sombras</em> &#8212; tr&#234;s encadernados em espiral, impressos em gr&#225;ficas em um tempo em que isso era caro &#8212; guarda algumas surpresas.</p><p>Tenho em m&#227;os um desses volumes. Ele est&#225; maltratado, entregue &#224; umidade de algum canto dos meus guardados, cheio de folhas manuscritas que fui grampeando ao longo dos anos. Ali coexistem vers&#245;es originais de poemas antigos, como o <em>Soneto de Infidelidade</em> e <em>Aus&#234;ncia</em>, e registros do come&#231;o de um novo ciclo em minha vida. Relendo essas p&#225;ginas, percebo um aprendizado muito mais pr&#225;tico e cru.</p><p>Aos 20 e poucos anos, eu era uma jovem que rec&#233;m havia escapado de um relacionamento de mais de quatro anos marcado por abusos financeiros, psicol&#243;gicos e sexuais. Aquela rela&#231;&#227;o, no fundo, tinha sido uma esp&#233;cie de blindagem social que criei para me proteger do mundo. Quando fugi dali, me vi subitamente livre, menos alvo dos apetites alheios, mas diante de um desafio in&#233;dito: viver os relacionamentos reais de forma pr&#225;tica, sem escudos, buscando a sa&#250;de e n&#227;o apenas a prote&#231;&#227;o.</p><p>Mas as defesas de quem sobreviveu ao abuso n&#227;o desaparecem da noite para o dia. Elas mudam de forma. Aprendendo a ler os c&#243;digos sociais do mundo, minhas linhas de fuga se refinaram atrav&#233;s de flertes e come&#231;os que quase nunca se concretizavam, barrados por uma antecipa&#231;&#227;o cr&#244;nica do fim. &#201; dessa &#233;poca de transi&#231;&#227;o que nasce este pequeno poema, sem data, mas com endere&#231;o certo na minha hist&#243;ria.</p><p>A vers&#227;o que acabou sendo publicada na era do Orkut terminava exatamente ali, no &#8220;meu destino&#8221;. Olhando para ele hoje, percebo que o poema opera em tr&#234;s camadas distintas de sobreviv&#234;ncia:</p><h4> A Vis&#227;o Liter&#225;ria: A Escrita da Autofagia</h4><p>Formalmente, &#8220;Cessar Repentino&#8221; &#233; um poema de acelera&#231;&#227;o. O ritmo dita o passo de quem j&#225; est&#225; de malas prontas. O eu l&#237;rico vive no futuro do pret&#233;rito da rejei&#231;&#227;o.</p><p>Ao rimar &#8220;op&#231;&#227;o&#8221; com &#8220;consumi&#231;&#227;o&#8221;, o texto estabelece o custo da perman&#234;ncia. E a palavra consumi&#231;&#227;o, aqui, ganha o seu sentido mais visceral: ela n&#227;o &#233; preda&#231;&#227;o, o outro n&#227;o est&#225; mais devorando. Trata-se de uma autofagia. &#201; o ato de consumir-se a si mesma na engrenagem de uma paix&#227;o, de uma aus&#234;ncia ou de uma dor. O &#8220;cessar repentino&#8221; &#233; o corte cir&#250;rgico necess&#225;rio para interromper esse processo de autodestrui&#231;&#227;o.</p><p>O pr&#243;prio poema declara certo autoconhecimento que evidencia ser uma medida conhecida. O cessar repentino &#233; uma extens&#227;o emocional das fugas reais j&#225; efetivadas: de casa aos 13 anos, do relacionamento aos 20. Um mecanismo de defesa j&#225; consolidado e &#237;ntimo.</p><p></p><h4>A Sombra do Objeto Limerente: A &#194;ncora do Poss&#237;vel</h4><p>O objeto limerente n&#227;o &#233; citado, mas a sua presen&#231;a invis&#237;vel dita as regras do jogo. Naquela faixa dos 20 anos, ele era uma constante muito viva, moldada a partir de uma pessoa real e jovem. Ele n&#227;o habitava o plano do imposs&#237;vel m&#237;stico, mas a categoria dos poss&#237;veis vi&#225;veis. Havia uma probabilidade matem&#225;tica de acontecer, e esse &#8220;quase&#8221; dava a ele uma for&#231;a brutal.</p><p>Esse ideal funcionava como uma &#226;ncora de abordagem racional e hiperseletividade. Diante de um flerte real no mundo &#8212; que dava trabalho, exigia negocia&#231;&#227;o e ativava gatilhos de trauma &#8212;, a mente calculava os riscos e recuava. Para que tolerar a autofagia e o desgaste de um in&#237;cio real se o mundo da imagina&#231;&#227;o oferecia um ref&#250;gio perfeitamente seguro, vi&#225;vel e sob controle? O objeto limerente justificava o adeus preventivo de &#8220;Cessar Repentino&#8221;, mantendo o padr&#227;o afetivo num patamar onde o mundo real n&#227;o podia machucar. N&#227;o muito, pelo menos.</p><h4>A Perspectiva Neurodivergente: A Hipervigil&#226;ncia Cognitiva</h4><p>Para uma mente neurodivergente, que processa est&#237;mulos e intera&#231;&#245;es com uma carga sensorial e emocional amplificada, o verso <em>&#8220;Quando pressinto o fim j&#225; digo adeus a cada hora&#8221;</em> &#233; a pura express&#227;o do mapeamento de padr&#245;es e da ansiedade de separa&#231;&#227;o. &#201; a hipervigil&#226;ncia ativada: a leitura obsessiva de micro-sinais de rejei&#231;&#227;o para n&#227;o ser pega desprevenida.</p><p>A evita&#231;&#227;o de demanda e a exaust&#227;o social fazem com que o t&#233;rmino lento seja insuport&#225;vel. Em vez de passar pelo desgaste neurot&#237;pico de discutir, ponderar ou ver o v&#237;nculo ruir aos poucos, a mente prefere o colapso controlado &#8212; o corte abrupto que preserva a integridade do sistema central.</p><h4>O que as rasuras escondem</h4><p>O que mais me fascina no texto original, contudo, s&#227;o as linhas que risquei e descartei na vers&#227;o final. Abaixo do ponto final, o l&#225;pis tentou continuar:</p><blockquote><p><em>fingir n&#227;o haver ressentimento</em> <em>tem bem mais dignidade</em> <em>do que fingir n&#227;o ver o abismo</em></p></blockquote><p>E, logo atr&#225;s, garranchos fortes e quase ileg&#237;veis tentavam desenhar uma explica&#231;&#227;o:</p><blockquote><p><em>&#8220;o fim tr&#225;gico se precipita. Meu Humor n&#227;o suporta...&#8221;</em></p></blockquote><p></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6b1e98f3-a7bf-4289-8814-93ad2fc621a5_900x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6b1e98f3-a7bf-4289-8814-93ad2fc621a5_900x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>Ali, a poesia havia terminado. O que estava escrito sob as rasuras com for&#231;a j&#225; n&#227;o era arte; era justificativa. Era a urg&#234;ncia da mulher real tentando sustentar a decis&#227;o de ir embora, envelopando o medo do abismo com a palavra dignidade.</p><p>A poesia limpa me deu a intui&#231;&#227;o de sair enquanto partir ainda era uma escolha. As linhas riscadas foram o rascunho da engenharia psicol&#243;gica que eu precisava criar para me convencer de que interromper a autofagia era a &#250;nica forma de continuar inteira.</p><p></p><h4>Fa&#231;a parte do ecossistema (Assinaturas Gratuitas e Pagas)</h4><p>Se este exerc&#237;cio de arqueologia mental, autismo e poesia faz sentido para voc&#234;, que tal acompanhar os pr&#243;ximos passos de perto?</p><ul><li><p><strong>Para novos leitores:</strong> Cadastre o seu e-mail gratuitamente para receber os ensaios e poemas semanais direto na sua caixa de entrada, sem o filtro ou a interfer&#234;ncia dos algoritmos.</p></li><li><p><strong>Para quem deseja ir al&#233;m:</strong> Este post &#233; aberto a todos, mas a manuten&#231;&#227;o deste ref&#250;gio, o tempo de escrita e a pesquisa dependem dos <strong>assinantes pagos</strong>. 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Se voc&#234; deseja apoiar o meu trabalho de forma direta e mergulhar na materializa&#231;&#227;o dessas tecnologias de sobreviv&#234;ncia, conhe&#231;a o meu livro de poemas.</p><p><strong>Abyssalia</strong> &#233; o registro f&#237;sico dos abismos que organizei em palavras. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Adquira Abyssalia&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Adquira Abyssalia</span></a></p><p></p><h4>O Outro Vi&#233;s: Heteron&#237;mia e Sombra </h4><p>A escrita que habita esta p&#225;gina &#233; apenas uma das minhas faces. Existe um outro lado, um outro aspecto onde a palavra veste uma nova m&#225;scara e assume a sua pr&#243;pria heteron&#237;mia atrav&#233;s da imagem, do som e da autocria&#231;&#227;o.</p><p>Se voc&#234; tem coragem de olhar para o vi&#233;s oculto da cria&#231;&#227;o e quer descobrir o que acontece quando a arte deixa de ser apenas texto e se torna presen&#231;a viva...</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@manifestecomoarte&quot;,&quot;text&quot;:&quot;O Manifesto Oculto&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@manifestecomoarte"><span>O Manifesto Oculto</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Profundidade: Limerência, recortes de revista e o medo do real]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise autoetnogr&#225;fica sobre como a poesia e um objeto limerente se tornaram uma engenharia sofisticada de sobreviv&#234;ncia nos anos 90]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/profundidade-limerencia-recortes</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/profundidade-limerencia-recortes</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Jun 2026 10:04:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1iyX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae1d02a8-5bbd-4626-a3f8-e1f063d41823_2850x5000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ae1d02a8-5bbd-4626-a3f8-e1f063d41823_2850x5000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Inner Core&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ae1d02a8-5bbd-4626-a3f8-e1f063d41823_2850x5000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Profundidade</strong>
Essa dor que obscuresce teu Olhar
&#201; sem d&#250;vida semelhante &#224; minha
&#201; por onde minha alma caminha
Quando me esque&#231;o a te admirar

Esse teu sil&#234;ncio de estremecer
&#201; id&#234;ntico &#224; minha amargura
Entala na garganta tal a espessura
Mas desliza nos dedos ao escrever</pre></div><p></p><h3>O Espelho Oculto: Limer&#234;ncia, Recortes de Revista e o Medo do Real</h3><p>Nos anos 90, a proximidade com aquilo que nos fascinava tinha uma densidade material e secreta. N&#227;o havia algoritmos ou feeds infinitos; o objeto da nossa obsess&#227;o &#8212; ou, para usar um termo preciso, o nosso objeto limerente &#8212; precisava ser colecionado e arquivado manualmente.</p><p>Eu me lembro da urg&#234;ncia secreta de colecionar biografias, de recortar e salvar cada imagem poss&#237;vel, e at&#233; do descaramento t&#237;mido de arrancar p&#225;ginas de revistas em consult&#243;rios m&#233;dicos. Tudo era guardado em um espa&#231;o de quase-clandestinidade. Havia uma vergonha em ser flagrada naquele estado de paix&#227;o absoluta.</p><p>Na semana passada, quando analisamos o poema Dois, essa busca pela conex&#227;o com o real estava nas entrelinhas. Me conectar ao ser humano real que inspirou meu objeto limerente era uma forma de valida&#231;&#227;o do sentimento. Mas tamb&#233;m uma linha de fuga permanente: o medo terr&#237;vel de que a proximidade real desmanchasse o ancoradouro. E quanto mais real ele fosse, mais eu teria que lidar com os desfechos reais de uma vida que n&#227;o seguia paralela &#224; minha. Evitar o sujeito real passou a ser uma forma de controlar a ansiedade, o ci&#250;me e o medo. O que, a meu ver, comprova o quanto este objeto limerente se dissociava do mundo para me sustentar na voragem. Se a realidade tocasse o mito, o mundo secreto constru&#237;do em torno dele colapsaria, deixando-me sem suporte m&#237;nimo.</p><p>Neste poema, o outro n&#227;o &#233; um fim em si mesmo, mas um espelho de valida&#231;&#227;o. O eu l&#237;rico projeta no olhar e no sil&#234;ncio daquela figura distante a sua pr&#243;pria dor, a sua pr&#243;pria solitude e a sua amargura. Era de um espelho assim que eu precisava na &#233;poca: algu&#233;m que legitimasse o peso do que eu sentia por dentro, sem que eu precisasse verbalizar.</p><p>O sil&#234;ncio do outro &#8220;entalava na garganta&#8221;, ganhava a espessura de um n&#243; f&#237;sico. Mas o poema guarda uma esp&#233;cie de salva&#231;&#227;o pela metalinguagem. Quando a realidade se torna perigosa ou sufocante demais para ser habitada, a escrita surge como o &#250;nico territ&#243;rio seguro. A dor que paralisa o corpo &#233; a mesma que &#8220;desliza nos dedos ao escrever&#8221;.</p><p>Creio que o objeto limerente, como parte de uma engenharia sofisticada de sobreviv&#234;ncia, foi o primeiro tradutor, o primeiro a mediar a transcri&#231;&#227;o do sentimento bruto e brutal para a linguagem escrita. Ou seja, para a escrita se tornar minha tecnologia assistiva, eu precisava passar por ele. Se ele ainda me atravessa, mesmo que de maneira sutil, em parte &#233; porque embarca nessa imensa gratid&#227;o que sinto pelo tempo que estivemos juntos, mesmo que separados. A apenas uma mente de dist&#226;ncia.</p><p></p><p></p><h4>Se este espa&#231;o e essa &#8220;engenharia de sobreviv&#234;ncia&#8221; ressoam com voc&#234;, que tal dar o pr&#243;ximo passo?</h4><ul><li><p><strong>Se voc&#234; ainda n&#227;o &#233; inscrito:</strong> Deixe seu e-mail abaixo para receber os pr&#243;ximos poemas e ensaios direto na sua caixa de entrada, sem depender de algoritmos.</p></li><li><p><strong>Se voc&#234; j&#225; l&#234; gratuitamente e quer apoiar esta produ&#231;&#227;o independente:</strong> Considere se tornar um <strong>assinante pago</strong>. 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Uma jornada de autopreserva&#231;&#227;o e escrita.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/quando-a-mente-autista-nao-sustenta</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/quando-a-mente-autista-nao-sustenta</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 18 Jun 2026 10:04:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iw7M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F11ce4333-af7e-4d0c-8e3f-501e1672598e_2850x5000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>

Di&#225;logo</strong>

Teu olhar me fala na quietude 
Das emo&#231;&#245;es que desejo viver 
E eu no ensejo de me defender
Grito que teu olhar me ilude

Teu olhar me cala no tumulto 
Me enfrentando com ternura
E eu recuso toque de loucura 
Assustada afastando o teu vulto.

Teu olhar me guia na incerteza 
Me oferece alegria de ter rumo 
E eu toda tua d&#225;diva consumo 
Na chama fria da fraqueza.
</pre></div><h1><strong>Quando a M</strong></h1><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/11ce4333-af7e-4d0c-8e3f-501e1672598e_2850x5000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;A chama fria   &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/11ce4333-af7e-4d0c-8e3f-501e1672598e_2850x5000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h1><strong>Quando a Mente Autista N&#227;o Sustenta a Voltagem: O Medo do Real e &#8220;Esse Desconhecido, o Amor&#8221;</strong></h1><p>Se o poema <a href="https://open.substack.com/pub/oryannaborges/p/versos-barbaros-a-limerencia-e-a?r=52ey5n&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=web">&#8220;Dois&#8221;</a> documenta o mart&#237;rio da fragmenta&#231;&#227;o e o desejo qu&#237;mico de fus&#227;o absoluta, o poema &#8220;Di&#225;logo&#8221; &#8212; resgatado do mesmo caderno de juventude &#8212; funciona como o seu avesso psicol&#243;gico. Estamos diante de uma contradi&#231;&#227;o : a mesma jovem que sofria por <em>&#8220;seguirmos como dois&#8221;</em> &#233; a que agora recua, ergue os escudos e decreta: <em>&#8220;recuso o toque de loucura / assustada afastando o teu vulto&#8221;</em>. Sob o teto da neurodiverg&#234;ncia, esse recuo n&#227;o &#233; covardia; &#233; uma estrat&#233;gia rigorosa de preserva&#231;&#227;o de estruturas.</p><h3><strong>O Embate entre a Blindagem Social e o Santu&#225;rio Limerente</strong></h3><p>Naquela janela entre os 14 e os 20 anos, a vida exigia pragmatismo. Como mecanismo de mascaramento e blindagem social, relacionamentos reais e pr&#225;ticos foram constru&#237;dos. Havia afeto neles &#8212; afinal, a porosa hiperempatia autista jamais permitiria o oposto &#8212;, mas havia tamb&#233;m um fantasma permanente. Viver o afeto tang&#237;vel da terra firme carregava um gosto amargo de trai&#231;&#227;o latente contra o objeto limerente, aquele esteio imagin&#225;rio fundado na crise dos 14 anos.</p><p>&#8220;Di&#225;logo&#8221; encena exatamente esse tribunal interno entre a raz&#227;o e a emo&#231;&#227;o. O &#8220;olhar&#8221; do objeto limerente convida &#224; entrega, mas a raz&#227;o imediatamente o repele, carimbando-o como farsa (<em>&#8220;grito que teu olhar me ilude&#8221;</em>). Havia uma r&#233;gua cruel operando na surdina: a autocr&#237;tica impiedosa que me rotulava como &#8220;fraca&#8221; por n&#227;o ter a coragem de cruzar a linha e vivenciar aquele amor de fato. O que a jovem poeta n&#227;o entendia &#233; que aquela suposta fraqueza, na verdade, era o instinto de sobreviv&#234;ncia do seu pr&#243;prio ecossistema mental.</p><h3><strong>O Outro Mutante e a Insufici&#234;ncia de Dados</strong></h3><p>&#201; aqui que a fia&#231;&#227;o autista se choca com a m&#237;stica do romance. Para uma mente que necessita de previsibilidade, ordem e mapas cognitivos est&#225;veis para mitigar a sobrecarga do mundo, o ser humano real &#233; um terreno perigoso. N&#243;s somos seres mutantes; mudamos de pele, de humor e de inten&#231;&#227;o a cada amanhecer. Lidar com o Outro na materialidade exige uma dan&#231;a de decodifica&#231;&#227;o social exaustiva.</p><p>Esta ang&#250;stia central ecoa perfeitamente nos versos da can&#231;&#227;o de Paulo Ricardo e Marcos Valle que assombravam aquele per&#237;odo:</p><blockquote><p><em>&#8220;Talvez se n&#243;s tiv&#233;ssemos fugido / E ouvido a voz desse desconhecido, o amor...&#8221;</em></p></blockquote><p>O amor, no mundo concreto, &#233; o grande desconhecido. Ele exige apostar alto sem ter dados suficientes. Exige o risco da rejei&#231;&#227;o e, pior, o risco da desilus&#227;o. A ideia de me aproximar da figura real que encarnava o meu mito limerente sempre me causou p&#226;nico. Se eu chegasse perto e descobrisse que aquela fisionomia  mais uma pintura minha imitando os maneirismos de Caravaggio do que uma realidade palat&#225;vel, toda a minha arquitetura interna desmoronaria. Eu precisava daquele farol aceso no escuro para continuar caminhando. N&#227;o se destr&#243;i o pr&#243;prio abrigo em nome de uma curiosidade terrena. E eu tinha uma tendencia inata para o auto aniquilamento da mat&#233;ria, mas nunca das ideias</p><h3><strong>A Especialista no Sofrimento e o Mito do Amor Tranquilo</strong></h3><p>H&#225;, no desfecho de &#8220;Di&#225;logo&#8221;, uma capitula&#231;&#227;o dolorosa: <em>&#8220;toda tua d&#225;diva consumo / na chama fria da fraqueza&#8221;</em>. A escolha deliberada por manter o afeto no plano et&#233;reo, intocado pelo caos da mat&#233;ria, revela uma fia&#231;&#227;o neurol&#243;gica que aprendeu a frui&#231;&#227;o do sofrimento, mas permanecia analfabeta na frui&#231;&#227;o da paz e do prazer de viver.</p><p>A can&#231;&#227;o de Cazuza me denuncia enquanto escrevo, na voz de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=m1ny5enknAc">C&#225;ssia Eller</a>  :</p><blockquote><p><em>&#8220;Eu quero a sorte de um amor tranquilo / Com sabor de fruta mordida...&#8221;</em></p></blockquote><p>Mas nunca tive a coragem de busc&#225;-lo. A calmaria, para quem cresceu regulando crises em sil&#234;ncio e sob o sobressalto da hipervigil&#226;ncia, parece um territ&#243;rio estrangeiro, quase suspeito. O sofrimento &#233; previs&#237;vel; a dor tem uma voltagem que eu sei manejar. Mas a tranquilidade de um afeto seguro exige baixar as armas &#8212; e baixar as armas para o autista, muitas vezes, parece um convite ao aniquilamento.</p><p>Ao preferir a &#8220;chama fria&#8221; do imagin&#225;rio &#224; imprevisibilidade do corpo vivo, a jovem poeta garantiu que o seu santu&#225;rio permanecesse intacto. O amor permaneceu desconhecido, sim, mas salvo da degrada&#231;&#227;o do tempo e da realidade. O poema termina, portanto, n&#227;o em fus&#227;o ou paz, mas em uma capitula&#231;&#227;o vulner&#225;vel, onde a d&#225;diva do outro &#233; queimada em uma paix&#227;o que n&#227;o aquece, apenas consome a si mesma. &#201; o registro l&#237;rico de quem, naquele momento da vida, n&#227;o conseguia sustentar a voltagem do pr&#243;prio desejo.</p><p>Sair daquele lugar seguro &#8212; tanto do isolamento interno quanto da blindagem social externa &#8212; para se arriscar no ch&#227;o ca&#243;tico do real atr&#225;s de um amor desconhecido era uma pane insuport&#225;vel no sistema. Simplesmente n&#227;o tinha como.</p><p>O paradoxo definitivo, contudo, surge d&#233;cadas depois: o que acontece quando o abrigo imagin&#225;rio come&#231;a a cobrar o seu aluguel em exaust&#227;o, e a mente &#233; finalmente for&#231;ada a recalibrar a pr&#243;pria fia&#231;&#227;o para n&#227;o submeter a realidade ao eterno fantasma do que poderia ter sido?</p><p>Ora, acontece um livro. Acontece <em>Pers&#233;fone em Hades</em>. Foi ali que decidi encerrar o ciclo de idas e vindas nessa minha academia sentimental imagin&#225;ria, recusando-me a ser ref&#233;m da ilus&#227;o e pavimentando o terreno para o nascimento de <em>Senhora dos Opostos</em>. Mas a transi&#231;&#227;o entre essas duas escolas e a mudan&#231;a dr&#225;stica no processo criativo &#233; uma travessia que exige o seu pr&#243;prio espa&#231;o. E retomaremos isso em breve. </p><p></p><h2><strong>Sustentar a Voltagem</strong></h2><p>Esta newsletter &#233; um espa&#231;o de autonomia, onde o olhar estrangeiro e a escrita dissidente mant&#234;m sua voltagem sem pedir licen&#231;a ou desculpas aos burocratas de plant&#227;o. Para continuar acompanhando essa arqueologia po&#233;tica e ter acesso aos pr&#243;ximos ensaios e poemas in&#233;ditos, convido voc&#234; a fazer parte desta comunidade.</p><p>Com a <strong>assinatura gratuita</strong>, voc&#234; garante seu lugar neste manancial de ideias. Com a <strong>assinatura paga</strong>, voc&#234; financia diretamente a independ&#234;ncia desta escritora e apoia a continuidade de um pensamento sem amarras.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><h2><strong>Do Papel &#224; Mat&#233;ria</strong></h2><p>A autocria&#231;&#227;o liter&#225;ria &#233; o frasco onde contenho a intensidade, mas existe um portal onde essa for&#231;a transborda do papel para a manifesta&#231;&#227;o direta da realidade. </p><p>Se voc&#234; deseja decifrar o que acontece quando essa fia&#231;&#227;o oculta se manifesta na pr&#225;tica, clique abaixo e descubra por si mesmo.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@manifestecomoarte&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Manifestar Agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@manifestecomoarte"><span>Manifestar Agora</span></a></p><p></p><h2><strong>A Escrita das Mulheres e o Abismo</strong></h2><p>A poesia produzida por mulheres n&#227;o cabe nos r&#243;tulos f&#225;ceis do lirismo rom&#226;ntico ou menor; ela &#233; existencial, dura, neutra e humana. <strong>Abyssalia</strong> (2026), publicado pela Editora Donizela, &#233; a materializa&#231;&#227;o f&#237;sica dessa travessia &#8212; a arquitetura final de um sentir que sobreviveu &#224; margem.</p><p>Adquirir o livro &#233; mais do que acessar essa po&#233;tica; &#233; apoiar diretamente uma autora independente e fortalecer pequenas editoras dedicadas a publicar e divulgar a escrita das mulheres com a seriedade que ela exige.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/livros-1/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Adquirir Abyssalia na Editora Donizela&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/livros-1/abyssalia"><span>Adquirir Abyssalia na Editora Donizela</span></a></p><p></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/be695c51-bd78-433c-b9c6-f59dff92b997_4000x3000.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;BORGES, Oryanna. Abyssalia. 1&#170; ed. Curitiba: Editora Donizela, 2026. (Da esquerda para Andr&#233;ia Carvalho Gavita , Deisi Jaguatirica, Poeta e apresentadora do livro, que me representou no lan&#231;amento, e Artista que fez a capa do livro, Maristela Ono) &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/be695c51-bd78-433c-b9c6-f59dff92b997_4000x3000.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p><em>.)</em></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Versos Bárbaros: A Limerência e a Cisão Neurodivergente no poema "Dois"]]></title><description><![CDATA[Este ensaio autoetnogr&#225;fico disseca o poema "Dois", escrito na juventude, sob as lentes da limer&#234;ncia e da neurodiverg&#234;ncia. Dualidade, Mascaramento, busca por ref&#250;gio, trasnformados em identidade.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/versos-barbaros-a-limerencia-e-a</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/versos-barbaros-a-limerencia-e-a</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 16 Jun 2026 10:03:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!JR15!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d806b88-ec70-4f57-af1c-0ada9aab5490_3240x4320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9d806b88-ec70-4f57-af1c-0ada9aab5490_3240x4320.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;18 anos&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9d806b88-ec70-4f57-af1c-0ada9aab5490_3240x4320.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Dois
</strong>
Quando ou&#231;o o murm&#250;rio da tua solid&#227;o 
me toma uma angustiada e louca &#224; vontade 
de ultrapassar as barreiras da sanidade 
e gritar com todo o clamor dessa emo&#231;&#227;o.

Estou aqui,  meu perfeito e doce amor. 
Estou te procurando na mesma agonia 
envolta nessa mesma solid&#227;o sombria 
sabendo que &#233;s a cura para minha dor. 

E tamb&#233;m resisto com todas as for&#231;as, 
fa&#231;o tudo visando encurtar as dist&#226;ncias 
que a vida impiedosamente nos imp&#244;s 

E n&#227;o sei se d&#243;i mais minha dor ou a tua.
Fervorosamente rezo a Deus,  ao sol,  &#224; lua, 
pois &#233; penoso demais seguirmos como dois.

</pre></div><p></p><p>Reler um texto antigo &#233; reler a si mesmo de uma outra perspectiva. &#201; o &#8220;olhar estrangeiro&#8221; promulgado por Claude L&#233;vi-Strauss como pr&#233;-requisito para o estudo antropol&#243;gico &#8212; e o qual me custou a vaga no doutorado na UFMG. Sim, eu fui reprovada na entrevista por causa de uma  nota m&#237;nima advinda de um dos membros da banca,  do qual eu ri quando ele apresentou esse aparato te&#243;rico para questionar meu projeto de pesquisa autoetnogr&#225;fico. O riso, decorrente de saber que o olhar autista &#233; sempre um olhar estrangeiro, n&#227;o caiu bem nos ouvidos do burrocrata da educa&#231;&#227;o. (Caso esteja vendo erro na grafia de alguma palavra desta frase, pe&#231;o a gentileza de ignorar. E se voc&#234; n&#227;o entendeu por que n&#227;o viu erro, bem-vindo ao senso de humor autista que me custou, talvez, o t&#237;tulo de doutora em neuroci&#234;ncias).</p><p></p><h3>Arqueologia Po&#233;tica e o Manancial Criativo</h3><p>Mas fato &#233;, caros leitores, que quando revisitamos escritos e versos guardados h&#225; d&#233;cadas &#8212; versos especialmente, por sua carga imag&#233;tica e propriedades de s&#237;ntese &#8212; frequentemente encontramos neles o fio de Ariadne que inevitavelmente nos conduziria a quem somos hoje. &#201; como se a intui&#231;&#227;o art&#237;stica operasse fora do tempo cronol&#243;gico. O poema <strong>&#8220;</strong>dois<strong>&#8221;</strong> &#233; um documento zero dessa natureza.</p><p>Embora a mem&#243;ria o ancore afetivamente no ano de 1997 &#8212; utilizando a can&#231;&#227;o hom&#244;nima de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tYSDXRcI07Y">Paulo Ricardo e Marcos Valle </a>como um carbono-14 biogr&#225;fico &#8212;, a sensa&#231;&#227;o persistente de que os versos foram escritos antes da melodia revela um fen&#244;meno fascinante de sincronicidade. Trata-se do acesso direto &#224;quela &#8220;nuvem criativa&#8221; onde ideias e arqu&#233;tipos flutuam no &#233;ter antes de se materializarem no mundo real.</p><p>Para a jovem que aos 19 anos havia enterrado o sonho do desenho de moda diante de realidades financeiras inconcili&#225;veis, lidar com a frustra&#231;&#227;o de ver algu&#233;m aplicando ideias que considerava minhas, antes que eu pudesse materializ&#225;-las no universo fashion, me obrigou a fixar a rela&#231;&#227;o entre poema e can&#231;&#227;o. Quando a m&#250;sica <em>&#8220;Dois&#8221;</em> surgiu, me senti roubada. N&#227;o pelos compositores, mas por um mundo que deu a eles acesso ao mesmo manancial criativo e melhores condi&#231;&#245;es de exercer essa criatividade. Antes que a &#8220;nuvem&#8221; fosse um conceito de armazenamento virtual de dados, eu j&#225; me digladiava com ela como manancial de ideias.</p><p></p><h3>A G&#234;nese do Abrigo: O Tranco Neuroqu&#237;mico aos 14 Anos</h3><p>Apesar de escrito em 1997, a g&#234;nese desse processo recua ainda mais no tempo, fixando-se aos 14 anos de idade, no epicentro de uma crise autista camuflada. O nascimento do v&#237;nculo com o objeto limerente que este poema aborda ocorre no exato instante subsequente a um choro que hoje sei ser terap&#234;utico e regulador: o choro sem som, que distensiona e desperta m&#250;sculos do rosto ainda desconhecidos pela ci&#234;ncia em uma carranca de desespero. O colapso f&#237;sico no qual o grito fica preso na garganta &#233; tamb&#233;m um gargalo de autorregula&#231;&#227;o, e isso me fascina. Pois o poema tamb&#233;m  disp&#245;e dessa ambiguidade, pr&#243;pria da limer&#234;ncia, na qual o objeto limerente &#233; a cura para a dor, mas tamb&#233;m a sua causa. Para mim, considero o saldo positivo, pois, no fim das contas, o objeto limerente foi &#8212; como j&#225; dito tantas vezes nesta newsletter &#8212; minha &#226;ncora, meu esteio, meu farol, minha academia sentimental imagin&#225;ria.</p><p>Mas, no dia desta carranca, o encontro com uma imagem fotogr&#225;fica em um <em>chiaroscuro</em> que faria inveja a Caravaggio resultou em um tranco neuroqu&#237;mico de alto impacto. Diante de uma fisionomia artisticamente irreconhec&#237;vel na revista, os olhos funcionaram como um portal, e eu estive em outras dimens&#245;es, atravessei almas desavisadas e voltei para meu corpo como um fantasma de mim mesma, atormentada de susto e &#234;xtase. Naquele momento, o c&#233;rebro neurodivergente n&#227;o encontrou apenas um afeto rom&#226;ntico plat&#244;nico, mas edificou um abrigo seguro. O objeto limerente nasceu como um esteio imagin&#225;rio necess&#225;rio para organizar o caos de um mundo que se apresentava hostil e incompreens&#237;vel.</p><p></p><h3>A Dualidade como Norma e o Pujante Monstro em Mim</h3><p>Sob a lente da neurodiverg&#234;ncia, o primeiro verso &#8212; <em>&#8220;quando ou&#231;o o murm&#250;rio da tua solid&#227;o&#8221;</em> &#8212; deixa de ser um artif&#237;cio l&#237;rico e passa a documentar uma profunda hiperempatia e cont&#225;gio emocional. Minha mente porosa n&#227;o apenas compreendia o sofrimento; ela o absorvia somaticamente. O &#8220;murm&#250;rio&#8221; do objeto limerente gerava um eco f&#237;sico imediato, e eu mimetizava a experi&#234;ncia real de corporificar dores alheias at&#233; o limite do travamento f&#237;sico.</p><p>Essa intensidade gera uma inevit&#225;vel cis&#227;o existencial. Mas &#233; o di&#225;logo com o poema &#8220;Dualismo&#8221;, de Olavo Bilac, que ecoa essa mesma percep&#231;&#227;o de descompasso de forma mais esclarecedora. A sensa&#231;&#227;o de carregar no peito <em>&#8220;um dem&#244;nio que ruge e um Deus que chora&#8221;</em> denunciava o desenvolvimento pujante do &#8220;monstro em mim&#8221;. Para a crian&#231;a e a adolescente autista, na qual a dualidade era a norma seguida como mascaramento contumaz das pr&#243;prias dificuldades, escapar dos r&#243;tulos que definiam o seu sentir profundo como mero &#8220;drama&#8221; ou &#8220;confus&#227;o&#8221; era o prop&#243;sito maior para aprofundar a dualidade. Para essa jovem poeta, isso aprofundava a necessidade de um amor que representasse fus&#227;o absoluta, como contraponto.</p><p></p><h3>Versos B&#225;rbaros: A Geometria Org&#226;nica do Transbordamento</h3><p>O poema &#8220;Dois&#8221; traduz geometricamente a ang&#250;stia do isolamento atrav&#233;s de sua pr&#243;pria estrutura. Escrito intuitivamente com 14 versos &#8212; a anatomia exata de um soneto &#8212;, o texto dita seu ritmo atrav&#233;s do peso das palavras. O &#225;pice dessa tens&#227;o se manifesta no que a po&#233;tica classifica como versos b&#225;rbaros: as linhas finais, que rompem a m&#233;trica tradicional e se expandem para 13 s&#237;labas po&#233;ticas.</p><blockquote></blockquote><p>Esse transbordamento m&#233;trico ocorre precisamente quando a necessidade interna de extravasamento oblitera as regras. O verso se estica fisicamente no papel porque a dor n&#227;o cabe mais na margem. Isso, de certo modo, sanou minha revolta a respeito da nuvem criativa, o manancial que Paulo Ricardo e Marcos Valle acessaram ao mesmo tempo que eu. Minhas condi&#231;&#245;es talvez fossem desfavor&#225;veis, mas o produto final &#233; &#250;nico. Cada um usa o que absorve da nuvem criativa c&#243;smica &#224; sua maneira.</p><p></p><h3>Soberania da Intensidade e o Mart&#237;rio de Ser Dois</h3><p>O fecho do poema justifica o t&#237;tulo escrito por extenso. Ser &#8220;Dois&#8221; &#233; o mart&#237;rio da fragmenta&#231;&#227;o. Na perspectiva da limer&#234;ncia, busca-se a fus&#227;o absoluta para aplacar a abstin&#234;ncia qu&#237;mica; na perspectiva neurodivergente, busca-se o colapso do espa&#231;o entre as individualidades para finalmente descansar do esfor&#231;o monumental de existir e simular normalidade.</p><p>Hoje, mesmo que a figura real que deu origem a esse ser tenha sido desubstanciada e racionalmente afastada h&#225; d&#233;cadas, o instinto de buscar esse esteio antigo ainda permanece na fia&#231;&#227;o neurol&#243;gica como um mecanismo de fuga ativado em momentos de exaust&#227;o e viol&#234;ncia psicol&#243;gica externa. No entanto, o paradoxo atual &#233; definitivo. E como percebi isso? Outra ecolalia musical e um poema cuspido na semana passada. Mas isso &#233; assunto para outro dia. Aqui n&#227;o cabem dois poemas.</p><p>S&#243; o saber que a escrita, que outrora foi um frasco para conter a dor da separa&#231;&#227;o, permanece agora como o testemunho soberano de uma intensidade que n&#227;o precisa mais se desculpar por existir.</p><p>Viver plenamente exige aceitar a voltagem dos pr&#243;prios versos b&#225;rbaros.</p><p></p><p></p><p></p><h3>Para Sustentar a Voltagem</h3><p></p><p>O paradoxo do &#8220;objeto limerente&#8221; na fia&#231;&#227;o neurol&#243;gica ainda n&#227;o foi totalmente esgotado. H&#225; outra ecolalia musical ressoando e um novo &#8220;poema cuspido&#8221; aguardando o momento de transbordar a margem.</p><p>Para n&#227;o perder o pr&#243;ximo cap&#237;tulo desta arqueologia existencial, inscreva-se gratuitamente. Para acessar o que ainda n&#227;o cabe em dois poemas e mergulhar nas profundezas deste &#8220;monstro em mim&#8221;, considere a assinatura paga.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><h1>Do Papel &#224; Mat&#233;ria</h1><p>A auto-cria&#231;&#227;o liter&#225;ria que voc&#234; leu aqui foi apenas o in&#237;cio da travessia. Aceitar a voltagem exige transbordar da escrita para a manifesta&#231;&#227;o da realidade.</p><p>Existe uma outra vers&#227;o minha, n&#227;o impressa em papel, operando em um manancial mais profundo </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@manifestecomoarte&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Manifestar Agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@manifestecomoarte"><span>Manifestar Agora</span></a></p><p>. Toque no bot&#227;o abaixo e descubra por si mesmo.</p><p></p><p></p><h2>O Gabarito do Abismo</h2><p>Se este ensaio revelou os andaimes de uma juventude neurodivergente e limerente, <strong>Abyssalia</strong> &#233; a arquitetura final da maturidade desse sentir. O livro guarda as respostas que a jovem de dezenove anos n&#227;o tinha, mas traz consigo um mist&#233;rio ainda maior: qual foi o pre&#231;o real para dar forma ao abismo</p><p>Para apoiar diretamente a autonomia desta autora e ter acesso ao gabarito desta intensidade materializado em literatura, convido voc&#234; a conhecer e adquirir a obra na Editora.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Decifrar Abyssalia&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Decifrar Abyssalia</span></a></p><p>]</p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/avif&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3994d795-5e80-408f-9630-2dbb146a7f19_498x680.avif&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Adentre o abismo: Abyssalia (2026), de Oryanna Borges. Dispon&#237;vel pela Editora Donizela. Apoie a literatura independente clicando abaixo&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/avif&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3994d795-5e80-408f-9630-2dbb146a7f19_498x680.avif&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Arte do Fingimento: Diálogos com Vinicius de Moraes e Augusto dos Anjos no "Soneto de Infidelidade"]]></title><description><![CDATA[Um ensaio &#237;ntimo sobre o processo criativo do "Soneto de infidelidade", o amor limerente e a poesia como blindagem de sobreviv&#234;ncia. Leia os poemas.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-arte-do-fingimento-dialogos-com</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-arte-do-fingimento-dialogos-com</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 09 Jun 2026 10:04:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qQUX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8c4e7f20-e513-4e65-9449-a8024f7cb10e_2800x5000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8c4e7f20-e513-4e65-9449-a8024f7cb10e_2800x5000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O monumento da sobreviv&#234;ncia: soneto de infidelidade&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Fotografia conceitual em estilo claro-escuro de uma est&#225;tua cl&#225;ssica de m&#225;rmore branco no centro de uma monumental catedral g&#243;tica. Um feixe de luz azulada e dram&#225;tica desce verticalmente de um alto vitral iluminando a escultura na penumbra. Est&#233;tica po&#233;tica e melanc&#243;lica. Assinatura Oryanna Borges no canto inferior.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8c4e7f20-e513-4e65-9449-a8024f7cb10e_2800x5000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Conhecer \&quot;Abyssalia\&quot; na Editora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Conhecer "Abyssalia" na Editora</span></a></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Soneto de infidelidade</strong>

A voc&#234;, por toda a minha lealdade,
estes beijos ardentes, mas fingidos,
este desejo que teme ser saciado
e minha triste e necess&#225;ria falsidade.

A voc&#234;, todos os carinhos delicados,
que cessam num amargo suspiro.
E este olhar embevecido, derramado,
e recolhido, por ser de amor, e puro.

E o que quase tenho e quase deixo.
E o prazer que n&#227;o me sacia e lamento.
E a alegria que n&#227;o conhe&#231;o, mas exijo.

E como prova de amor e fidelidade,
a minha ex&#237;mia arte do fingimento
executada sob atordoante saudade.</pre></div><h3>A arte do fingimento: di&#225;logos com Vinicius e as linhas de sobreviv&#234;ncia</h3><p>H&#225; textos que nos habitam antes mesmo que possamos compreender a extens&#227;o de suas fraturas. O <em>Soneto de Fidelidade</em>, de Vinicius de Moraes, foi um dos primeiros portos da minha mem&#243;ria afetiva. Aquela promessa de um amor pleno, vivido &#8220;em cada v&#227;o momento&#8221;, que se espalha em louvor, em riso e em pranto, sempre me pareceu um monumento luminoso. Uma catedral erguida sobre a certeza de que o afeto pode &#8212; e deve &#8212; ocupar todo o espa&#231;o vis&#237;vel do mundo.</p><p>Mas na vida real vivemos os amores poss&#237;veis. E , apesar de amar Vinicius, meu cora&#231;&#227;o sempre foi propenso &#224; verve sombria de Augusto dos Anjos. Ent&#227;o, se eu podia erigir monumentos luminosos e uma catedral de certeza e devo&#231;&#227;o absoluta, eu tamb&#233;m vivia o &#8220;desespero dos iconoclastas&#8221;. E para sobreviver: &#8220;Entrei um dia nessas catedrais [...] Quebrei a Imagem dos meus pr&#243;prios sonhos!&#8221;</p><p>Na verdade foram muitos dias. Volta e meia precisava entrar nesse espa&#231;o sagrado e vandaliz&#225;-lo com a descren&#231;a, destro&#231;&#225;-lo com os argumentos mais severos da raz&#227;o.</p><p>Meu &#8220;Soneto de infidelidade&#8221; chama-se originalmente &#8220;Fidelidade&#8221; e era, na minha vis&#227;o, a vers&#227;o sacr&#237;lega do de Vinicius.</p><p>Eu me sentia pecadora. Sem me saber neurodivergente, eu era Eva cuspida e escarrada, no sentido literal da express&#227;o. Mas hoje eu vejo o poema em ambas suas vers&#245;es como minha pr&#243;pria alma, esculpida a Carrara. Ambos monumentos que demarcam esse tempo no qual eu n&#227;o podia ser eu mesma e precisava aprender a circular por um mundo no qual o privil&#233;gio da transpar&#234;ncia nem sempre est&#225; dispon&#237;vel para quem precisa aprender a caminhar sozinha cedo demais.</p><p>Para uma adolescente encarando a crueza dos dias sem redes de prote&#231;&#227;o, a realidade exige estrat&#233;gias de guerra. O relacionamento real, palp&#225;vel, muitas vezes se faz necess&#225;rio n&#227;o como comunh&#227;o, mas como blindagem social, como um teto mundano e uma moeda de sobreviv&#234;ncia ps&#237;quica e f&#237;sica. Enquanto isso, o verdadeiro motor da autocria&#231;&#227;o permanece exilado no subsolo: o amor limerente. Aquele sentimento avassalador por um ser idealizado, secreto, que sustenta a sanidade por dentro enquanto o corpo performa a normalidade por fora.</p><p>&#201; dessa colis&#227;o que nasce o avesso da catedral de Vinicius. Nasce o meu <em>Soneto de infidelidade</em>. Um monumento &#224; minha sobreviv&#234;ncia, erigido dos vandalismos recorrentes e das viol&#234;ncias &#237;ntimas que talvez s&#243; as mulheres entendam.</p><p>A infidelidade aqui n&#227;o &#233; o desvio ordin&#225;rio da carne, mas a cis&#227;o dilacerante do eu. Uma dupla trai&#231;&#227;o silenciosa que se consome na mais absoluta solid&#227;o acompanhada: trair o pacto da realidade por habitar um desejo exilado, e trair a pureza do objeto limerente por dividir os dias com o mundo concreto. Uma solid&#227;o que, por acompanhada no cotidiano, estra&#231;alha a alma por dentro.</p><p>A saudade mais dolorosa n&#227;o &#233; daquilo que se consumou, mas do projeto interrompido, daquilo que se cogitou viver e que n&#227;o ser&#225; mais poss&#237;vel &#8212;, o poema se torna o registro desse purgat&#243;rio afetivo.</p><h3>O cinzel do tempo: do caderno ao livro</h3><p>Escrever &#233; tamb&#233;m o exerc&#237;cio de aprender a editar a pr&#243;pria dor. Na matriz deste soneto, registrada nos cadernos de <em>Retrato das Sombras</em>, as linhas eram longas, expressionistas, quase sem f&#244;lego. Havia um transbordo m&#237;stico, uma &#8220;Alma inflamada por preces&#8221; e &#8220;toques s&#244;fregos&#8221; que tentavam gritar a imensid&#227;o daquela injusti&#231;a existencial. Era o registro bruto do impacto.</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Soneto de infidelidade (Vers&#227;o Matriz de "Retrato das Sombras" )
</strong>

A voc&#234; com toda a minha lealdade
estes beijos ardentes, mas fingidos.
Este desejo que teme ser saciado
Minha triste e necess&#225;ria falsidade.

A voc&#234; os toques s&#244;fregos, doces
que terminam num amargo suspiro.
Este olhar carregado de amor puro
fluindo da Alma inflamada por preces.

E a felicidade que quase tenho e quase deixo
e o prazer que sinto transfigurado de lamento.
A alegria que de fato n&#227;o conhe&#231;o, mas exijo.

E como prova de amor e fidelidade
a minha ex&#237;mia arte do fingimento.
executada com atordoante saudade</pre></div><p>Anos mais tarde, ao depurar o poema para a estrutura definitiva que hoje habita o livro <em><a href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia">Abyssalia</a></em>, compreendi que a grande literatura opera por represamento, n&#227;o por transbordo.</p><p>O ritmo foi contido, os excessos adjetivos foram recolhidos e a imag&#233;tica sacra deu lugar &#224; precis&#227;o cir&#250;rgica do corte. Os carinhos s&#244;fregos tornaram-se &#8220;delicados&#8221; para acentuar a ironia da encena&#231;&#227;o; o olhar carregado passou a ser &#8220;recolhido&#8221;, guardado para dentro para preservar sua pureza. Ao encurtar os versos longos do primeiro terceto e dar ao soneto o rigor da sua forma, a dor n&#227;o diminuiu &#8212; ela ganhou a dignidade do sil&#234;ncio. A estrutura cl&#225;ssica tornou-se a pr&#243;pria blindagem que tenta conter o abismo.</p><p>Abaixo deixo os poemas de Vinicius e o de Augusto, meus mestres:</p><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Soneto de Fidelidade
</strong>
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.  

Quero viv&#234;-lo em cada v&#227;o momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.  

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, ang&#250;stia de quem vive
Quem sabe a solid&#227;o, fim de quem ama  

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que n&#227;o seja imortal, posto que &#233; chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, Estoril, outubro de 1939</pre></div><p></p><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Vandalismo
</strong>
Meu cora&#231;&#227;o tem catedrais imensas,
Templos de priscas e long&#237;nquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das cren&#231;as.

Na ogiva f&#250;lgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradia&#231;&#245;es intensas,
Cintila&#231;&#245;es de l&#226;mpadas suspensas,
E as ametistas e os flor&#245;es e as pratas.

Como os velhos Templ&#225;rios medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gl&#225;dios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus pr&#243;prios sonhos!



Augusto dos Anjos- Pau d'Arco, 1904
Publicado no livro Eu (1912)

</pre></div><p></p><h3><strong>Gostou deste ensaio?</strong></h3><p>O texto que voc&#234; acabou de ler &#233; um post aberto, fruto das minhas pesquisas independentes sobre narrativa, neuroci&#234;ncia e os bastidores dos meus livros. Toda ter&#231;a-feira, compartilho por aqui essas investiga&#231;&#245;es sobre as linhas de sobreviv&#234;ncia que costuram a nossa escrita e a nossa mente.</p><p>Se voc&#234; quer acompanhar esse processo de perto, apoiar a literatura independente e receber os pr&#243;ximos ensaios direto na sua caixa de entrada, convido voc&#234; a se inscrever:</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p>A assinatura gratuita garante o recebimento dos posts semanais. 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Convido voc&#234; a cruzar o limiar deste ensaio e conhecer o trabalho de um heter&#244;nimo; um projeto visual onde os roteiros e as ideias ganham uma nova dimens&#227;o.</p><p>Um convite para quem deseja ver o que corre em paralelo:</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.youtube.com/@GreyborManifesta&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Espiar o outro lado&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.youtube.com/@GreyborManifesta"><span>Espiar o outro lado</span></a></p><h3><strong>Apoie o trabalho da autora</strong></h3><p>Se este ensaio e a engenharia por tr&#225;s do poema ressoaram em voc&#234;, considere apoiar a literatura independente adquirindo um exemplar de <em><strong>Abyssalia</strong></em>. O livro re&#250;ne esta e outras cartografias da nossa sobreviv&#234;ncia &#237;ntima, editadas e impressas com o cuidado que a poesia exige.</p><p>Voc&#234; pode garantir o seu exemplar diretamente no site da editora clicando abaixo:</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Conhecer \&quot;Abyssalia\&quot;na Editora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Conhecer "Abyssalia"na Editora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Veredicto do Fogo: Da Incubação ao Tribunal da Fantasia.]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise sobre a transmuta&#231;&#227;o do afeto e a investidura da fantasia atrav&#233;s da psicologia alqu&#237;mica de James Hillman.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-veredicto-do-fogo-da-incubacao</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-veredicto-do-fogo-da-incubacao</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 04 Jun 2026 10:02:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xJ7Y!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf96f8da-ff9f-48b9-8bc8-c61f5fa83aad_5000x2800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/af96f8da-ff9f-48b9-8bc8-c61f5fa83aad_5000x2800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O Veredicto do Fogo&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Obra de arte conceitual de Oryanna Borges para o livro Abyssalia. Uma mulher de porcelana azul com Kintsugi dourado sustenta um n&#250;cleo de luz em uma sider&#250;rgica, com um tsunami ao fundo&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/af96f8da-ff9f-48b9-8bc8-c61f5fa83aad_5000x2800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Veredicto
</strong>
Tua presen&#231;a n&#227;o proporciona inspira&#231;&#227;o.
 Apenas doce agonia e noites de ins&#244;nia, 
estupor de d&#250;vida e certeza err&#244;nea, 
medo expansivo e alma febril em retra&#231;&#227;o.

Sequer despertas a verdadeira paix&#227;o. 
S&#243; incitas a voracidade dos sentidos, 
suscitas desejos antes n&#227;o consentidos, 
inventas uns impulsos que calco ao n&#227;o.

Nenhuma inst&#226;ncia do meu conhecimento 
Acompanha-te, elege-te ou te reverencia. 
&#201;s hausto de desejo que ao passar inebria.

E tua const&#226;ncia nas abas do pensamento 
n&#227;o configura oferenda ou alus&#227;o &#224; poesia. 
&#201;s comburente nas labaredas da fantasia.
</pre></div><p></p><h3><strong>Do Retrato &#224; Abyssalia: O Resgate do Veredito</strong></h3><p>Embora este poema componha originalmente a obra <em>Retrato das Sombras</em> e tenha permanecido resguardado sob a penumbra da minha adolesc&#234;ncia por d&#233;cadas, ele sempre se imp&#244;s &#224; minha consci&#234;ncia como uma pe&#231;a de rigor ineg&#225;vel. Sempre tive a clareza de que se tratava de uma cria&#231;&#227;o que desafiava a imaturidade da &#233;poca com a sua precis&#227;o t&#233;cnica e tem&#225;tica. Por isso, ao realizar a curadoria para o meu primeiro livro, <strong><a href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia">Abyssalia</a></strong>, n&#227;o houve hesita&#231;&#227;o: &#8220;Veredicto&#8221; emergiu das sombras para ocupar seu lugar de direito como um mais densos momentos da obra. Ele &#233; o testemunho de uma ci&#234;ncia intuitiva que j&#225; operava na minha juventude e que agora, finalmente, entra em pleno exerc&#237;cio.</p><p></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3dc8082c-e2e6-4310-9343-b0e9a5626445_899x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Foto de meu amigos Alexandre de Paula, quando foi no MON buscar o seu.  &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3dc8082c-e2e6-4310-9343-b0e9a5626445_899x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3><strong>O Regime do Fogo: Do Chocar &#224; Calcina&#231;&#227;o</strong></h3><p>&#8220;Veredicto&#8221; &#233;, obviamente, uma senten&#231;a. E esta &#233; propalada pelo fogo &#8212; o juiz m&#225;ximo da alquimia que faz James Hillman, em sua <em>Psicologia Alqu&#237;mica</em>, recorrer a Her&#225;clito para sua investidura. O fogo &#233; o juiz supremo que tudo aproxima, julga e condena. Ao revisitar este soneto, percebo que ele n&#227;o &#233; apenas um desabafo; &#233; um protocolo de opera&#231;&#227;o t&#233;rmica onde a minha cogni&#231;&#227;o operacionaliza a desconstru&#231;&#227;o do objeto de afeto atrav&#233;s de quatro est&#225;gios de calor descritos na alquimia.</p><h4><strong>A Incuba&#231;&#227;o e as Cinzas (Versos 1 a 4)</strong></h4><p>O primeiro quarteto condensa os dois est&#225;gios iniciais do fogo alqu&#237;mico. O &#8220;medo expansivo e alma febril em retra&#231;&#227;o&#8221; &#233; o que Hillman chama de calor metab&#243;lico ou o est&#225;gio da <em>&#8220;galinha chocando&#8221;</em>: uma tepidez interna onde o problema &#233; incubado no sil&#234;ncio do organismo.</p><p>Logo em seguida, a &#8220;doce agonia&#8221; e o &#8220;estupor de d&#250;vida&#8221; revelam o &#8220;&#8220;<em>Calor das Cinzas.</em> &#201; uma temperatura asfixiante, seca, onde n&#227;o h&#225; &#8220;ar&#8221; (inspira&#231;&#227;o). O objeto n&#227;o me faz criar; ele apenas consome o oxig&#234;nio da minha mente em uma ins&#244;nia est&#225;tica.</p><p></p><h4><strong>O Ferro de Marte (Versos 5 a 8)</strong></h4><p>No segundo quarteto, a voltagem sobe para o terceiro grau: a <em>Areia Fervente</em>. Este &#233; o fogo que queima a m&#227;o e exige uma determina&#231;&#227;o do art&#237;fice. O alquimista, como um artista ou art&#237;fice, precisa manusear esse est&#225;gio com cuidado.</p><p>A &#8220;voracidade dos sentidos&#8221; e os &#8220;impulsos que calco ao n&#227;o&#8221; descrevem o estresse do meu organismo em esfor&#231;o descomunal para conter um desejo que amea&#231;a derreter a estrutura interna. &#201; o trabalho bra&#231;al da consci&#234;ncia, transmutada em um Hefesto menor, tentando dominar o calor. Nesse est&#225;gio da analogia, n&#227;o pude me esquivar da lembran&#231;a do sonho que deu origem a tr&#234;s poemas de <a href="https://www.oryannaborges.com/s/persefone-em-hades">Pers&#233;fone EM Hades</a> : <em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/a-flecha-do-despertar-o-poema-a-boa">A Boa Morte</a></em>, <em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/macaria-a-despedida-do-carretel-de">Meu Carretel de Sonhos </a>e <a href="https://www.oryannaborges.com/p/macaria">Mac&#225;ria.</a></em></p><p></p><h3><strong>O Protocolo do Fogo e da Ru&#237;na: Uma Narrativa On&#237;rica</strong></h3><p>Eu estava em um lugar alto, embora &#224; minha volta o que parecia ser o Largo da Ordem de Curitiba estivesse transmutado em uma &#8220;Cidade Branca&#8221;, totalmente caiada. De repente, o contraste absoluto: uma mulher surge vestida com a armadura negra de uma princesa guerreira no estilo Xena, com o rosto oculto por um capacete impenetr&#225;vel. Ela n&#227;o carregava uma espada, mas um arco, e come&#231;ou a disparar flechas para todos os lados.</p><p>Buscando um ponto de fuga, olhei para o horizonte. Onde a Rua S&#227;o Francisco culminaria na Avenida C&#226;ndido de Abreu, o asfalto havia sido devorado por uma dist&#226;ncia imensur&#225;vel que me dava a certeza de estar no alto. Muito abaixo da minha plan&#237;cie, que parecia se encerrar no ar, havia uma praia. Na linha dos meus olhos vinha uma onda gigante, que assisti a varrer a praia e elevar aos ares as casas brancas que nem enxergava do meu despenhadeiro.</p><p>O Tsunami &#8212; a <em>Solutio</em> em sua escala mais devastadora &#8212; avan&#231;ava levantando as casas brancas de dois andares, virando-as do avesso no meio da massa de &#225;gua. Era a ru&#237;na da estrutura dom&#233;stica, o fim da &#8220;casa&#8221; que n&#227;o podia mais conter a vida. Eu via as pessoas tombarem ao meu redor e, em vez de p&#226;nico, uma clareza terr&#237;vel me atingiu: eu entendi que aquilo era a <strong>&#8220;boa morte&#8221;</strong>. Ela as matava rapidamente para que n&#227;o sofressem o que estava por vir.</p><p>Fugi da inunda&#231;&#227;o e da arqueira, aparentemente nas asas do medo, pois, s&#250;bito, o cen&#225;rio branco e iluminado deu lugar a uma est&#233;tica de poeira e encardido, o mundo p&#243;s-apocal&#237;ptico das cinzas. Eu seguia os trilhos de um trem acompanhada por um grupo de sobreviventes. Em meus bra&#231;os, havia um beb&#234;; ele era meu, mas compartilhado. Em um lampejo de lucidez, lembrei-me da s&#233;rie <em>The Walking Dead</em>, mas a hist&#243;ria do sonho me puxou de volta: precis&#225;vamos chegar ao lugar seguro.</p><p>Chegamos a uma porta monumental de ferro. Por dentro, era uma Sider&#250;rgica, um recept&#225;culo de poder e seguran&#231;a mineral. L&#225; dentro, um homem de fisionomia s&#233;ria e decidida cuidava das fornalhas acesas no fogo de fundi&#231;&#227;o. Eu entreguei o beb&#234; a ele com um pesar imenso, mas uma certeza absoluta: ali, naquela estrutura de ferro, ele estaria seguro.</p><p>Ao acordar, a senten&#231;a estava dada: a vida como eu conhecia havia ru&#237;do, mas o essencial estava salvo no fogo. O que eu entregava a esta figura era meu sonho de maternidade. O sonho selou o fim do meu casamento, que inclu&#237;a casinhas brancas e paisagens id&#237;licas, mas que precisava ruir para que eu sobrevivesse. Assim que abri meus olhos, na dor profunda daquela entrega, disse em voz alta: <strong>&#8220;As coisas que precisamos matar dentro da gente para continuar sobrevivendo&#8221;</strong>. <strong>Mac&#225;ria &#233;, de certo modo, a encarna&#231;&#227;o po&#233;tica daquele beb&#234;.</strong></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7dbd2421-1d7d-428c-9678-836c694f3e3d_1024x1024.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7dbd2421-1d7d-428c-9678-836c694f3e3d_1024x1024.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3><strong>A Senten&#231;a e a Chama Viva (Tercetos Finais)</strong></h3><p>Voltando a &#8220;Veredicto&#8221;, no terceto final  o processo atinge a <em>Calcina&#231;&#227;o</em>. Aqui, o fogo deixa de ser algo que eu sofro e passa a ser a ferramenta com a qual eu julgo. E a este fogo eu dei o nome de fantasia.</p><p>A auditoria &#233; implac&#225;vel: &#8220;Nenhuma inst&#226;ncia do meu conhecimento / Acompanha-te, elege-te ou te reverencia&#8221;. O objeto &#233; despido de sua falsa transcend&#234;ncia. Ele n&#227;o &#233; &#8220;oferenda&#8221;, n&#227;o &#233; &#8220;poesia&#8221;, n&#227;o &#233; o ouro. Ele &#233; apenas o comburente &#8212; o material inflam&#225;vel necess&#225;rio para alimentar as labaredas da minha pr&#243;pria transforma&#231;&#227;o.</p><p></p><h4><strong>A Fantasia como Laborat&#243;rio de Decis&#227;o</strong></h4><p>Muitos acreditam que a fantasia &#233; um ref&#250;gio para quem n&#227;o sabe lidar com a realidade. Para mim, ela &#233; o lugar onde a realidade &#233; acelerada. Enquanto o mundo social processa desencontros lentamente, eu os submeto &#224; fornalha da minha imagina&#231;&#227;o para extrair, em dias, o veredito que outros levariam anos para compreender &#8212; er&#8230; ou que neurot&#237;picos levariam segundos, sejamos honestos.</p><p>O diagn&#243;stico de <strong>&#8220;Veredicto&#8221;</strong> &#233; soberano: o objeto de afeto, simulacro de amor limerente no mundo real, n&#227;o passou no teste do fogo. Ele foi reduzido a cinzas para que restasse apenas o meu saber essencial. O engano gerou a d&#250;vida;  a d&#250;vida abriu a porta da fornalha; o engano foi desfeito.</p><p></p><h3>Mantenha o Fogo Aceso </h3><p>Este espa&#231;o n&#227;o &#233; apenas um blog; &#233; um <strong>laborat&#243;rio de ci&#234;ncia intuitiva</strong> onde a poesia, a neurodiverg&#234;ncia e a alquimia se encontram para processar o que h&#225; de mais denso na experi&#234;ncia humana.</p><p>Se a anatomia deste <strong>Veredicto</strong> ressoou em sua pr&#243;pria fornalha, convido voc&#234; a fazer parte desta bancada:</p><ul><li><p><strong>Acesso Gratuito:</strong> Inscreva-se para receber as pr&#243;ximas escava&#231;&#245;es de <em>Abyssalia</em> e meus ensaios sobre a soberania da mente e o processo criativo diretamente em seu e-mail.</p></li></ul><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><ul><li><p><strong>Assinatura Paga:</strong> Ao escolher o apoio financeiro, voc&#234; se torna um mantenedor da nossa <strong>&#8220;Sider&#250;rgica&#8221;</strong>. Sua contribui&#231;&#227;o &#233; o que garante o oxig&#234;nio para a minha pesquisa independente e financia a produ&#231;&#227;o de obras que, como este poema, buscam extrair o ouro das sombras</p></li></ul><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><h3><strong>Leve Abyssalia para sua Estante</strong></h3><p>Al&#233;m de apoiar este laborat&#243;rio digital, voc&#234; tamb&#233;m pode mergulhar na materialidade da minha pesquisa. <strong>Abyssalia</strong> &#233; o meu primeiro livro de poemas, publicado no in&#237;cio de 2026. Ele re&#250;ne o resultado de anos de escava&#231;&#227;o po&#233;tica e an&#225;lise simb&#243;lica, sendo a morada definitiva de obras como <strong>&#8220;Veredicto&#8221;</strong>, que resgatei das sombras da minha juventude para compor esta cartografia abissal.</p><p>Adquirir o livro &#233; uma forma direta de sustentar minha produ&#231;&#227;o como artista multidisciplinar e pesquisadora independente, garantindo que o fogo desta sider&#250;rgica criativa permane&#231;a aceso.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.donizela.com/product-page/abyssalia&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Adquira o livro Abyssalia Aqui&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia"><span>Adquira o livro Abyssalia Aqui</span></a></p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Poema "Engano", Novamente]]></title><description><![CDATA[Para resetar nosso organograma de postagens e dialogar com o que vem a seguir]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-poema-engano-novamente</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-poema-engano-novamente</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 02 Jun 2026 10:02:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BiPG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9319ec75-91a7-45c6-9708-cf1d290ae9e9_5600x10000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9319ec75-91a7-45c6-9708-cf1d290ae9e9_5600x10000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9319ec75-91a7-45c6-9708-cf1d290ae9e9_5600x10000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Engano </strong>

&#192;  boca o paladar prende teu gosto
O  calor do teu contato dan&#231;a na pele
N&#227;o h&#225; &#225;gua que lave tuas marcas 
Ou fogo que ensinei teus vest&#237;gios 
Da eteridade de minha alma 

A  eternidade que te dei em pensamentos 
Talvez tenha feito indel&#233;vel, teus instantes
E errado a dimens&#227;o dos teus fragmentos</pre></div><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Leia o Texto complementar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro"><span>Leia o Texto complementar</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/um-manifesto-de-alquimia-pratica&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Entenda as mudan&#231;as&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/um-manifesto-de-alquimia-pratica"><span>Entenda as mudan&#231;as</span></a></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou com assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Arquitetura Mineral do Encontro: Alquimia, Cognição e o Protocolo Poético de "Engano"]]></title><description><![CDATA[Como a neurodiverg&#234;ncia autista, a psicologia alqu&#237;mica e os marcadores som&#225;ticos ressignificam a engenharia do flerte e da limer&#234;ncia.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 25 May 2026 22:44:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PEnP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O vaso&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Engano </strong>

&#192;  boca o paladar prende teu gosto
O  calor do teu contato dan&#231;a na pele
N&#227;o h&#225; &#225;gua que lave tuas marcas 
Ou fogo que ensinei teus vest&#237;gios 
Da eteridade de minha alma 

A  eternidade que te dei em pensamentos 
Talvez tenha feito indel&#233;vel, teus instantes
E errado a dimens&#227;o dos teus fragmentos
</pre></div><p></p><h2>O Poema como Trabalho de Bancada</h2><p>Escrever poesia sempre foi, para mim, uma opera&#231;&#227;o de bancada. Longe de ser um mero transbordamento, a forma do poema &#233; o microsc&#243;pio com o qual isolo, disseco e reorganizo os tecidos mais densos da experi&#234;ncia humana. No labirinto da cogni&#231;&#227;o autista, onde o tecido social implicitado se apresenta inicialmente como uma massa confusa &#8212; um bombardeio ca&#243;tico de microexpress&#245;es, duplos sentidos e ru&#237;dos &#8212;, a cria&#231;&#227;o po&#233;tica surge como um imperativo de sobreviv&#234;ncia e uma ci&#234;ncia intuitiva. O poema &#8220;Engano&#8221; &#233; o registro protocolar desta ci&#234;ncia.</p><p>Como muitos outros no calhama&#231;o impresso chamado &#8220;Retrato das Sombras&#8221;  o poema est&#225; blocado. E contar os oito versos trouxe a epifania do dia: um espalhafato de ideias arborecendo para todos os lados. Est&#233;tica. Forma. Escans&#227;o. Neuroci&#234;ncia. Alquimia. Limer&#234;ncia. Metacogni&#231;&#227;o!</p><p>Se escrev&#234;-lo, no passado, foi uma disseca&#231;&#227;o operacionalizada de forma rudimentar e intuitiva, analis&#225;-lo hoje &#233; uma opera&#231;&#227;o muito sofisticada e melhor suprida. Tanto que sua pr&#243;pria anatomia revela, quase de imediato, n&#227;o s&#243; os m&#233;todos de investiga&#231;&#227;o, mas as muitas camadas de significado que o tempo agregou a este protocolo.</p><p></p><h3>O Veredito Sensorial e a Cristaliza&#231;&#227;o do Fragmento</h3><p>Diante do meu aparato cognitivo atual, o poema estrutura-se claramente em uma m&#233;trica de oito versos, dividida rigorosamente em duas fases: um bloco inicial de cinco versos e um desfecho de tr&#234;s. Os primeiros cinco versos operam como o levantamento de dados e o veredito sensorial. &#201; o registro do auge do estado limerente, conforme conceituado por Dorothy Tennov: a fixa&#231;&#227;o absoluta do pensamento, a imanta&#231;&#227;o dopamin&#233;rgica do paladar e do calor que &#8220;dan&#231;a na pele&#8221;.</p><p>Nesse territ&#243;rio do flerte e do cortejo amoroso, o c&#233;rebro opera sob uma lente hiperfocalizada. Um gesto sutil, um fragmento de segundo que passaria despercebido por metade de uma sala socialmente t&#237;pica, &#233; capturado pela minha percep&#231;&#227;o e submetido ao que Stendhal chamou de <em>cristaliza&#231;&#227;o</em>. Na &#243;tica de Stendhal, a mente do amante age como um galho seco lan&#231;ado nas minas de sal de Salzburg: ap&#243;s um per&#237;odo de recolhimento, o galho emerge recoberto por infinitos cristais cintilantes. O objeto original &#8212; a pessoa real &#8212; desaparece sob a joia monumental esculpida pela imagina&#231;&#227;o. Eu herdo o fragmento e devolvo um universo em forma de cinco versos.</p><p></p><h3>A Economia do Sistema e a Engenharia do Cortejo</h3><p>A import&#226;ncia de &#8220;Engano&#8221; reside na raz&#227;o pela qual essa informa&#231;&#227;o espec&#237;fica &#233; retida pela minha psique em forma de poesia. Meu sistema nervoso, ao longo da vida, aprendeu a ser um administrador espartano de energia. Em per&#237;odos de grande tens&#227;o emocional ou sobrecarga traum&#225;tica, meu c&#233;rebro simplesmente desliga a grava&#231;&#227;o dos dados n&#227;o essenciais; da&#237; decorrem os meus densos <em>gaps</em> de mem&#243;ria, o apagamento de fases inteiras da inf&#226;ncia. Se o sistema operava no limite, o sup&#233;rfluo era incinerado.</p><p>Mas o aprendizado do flerte n&#227;o era sup&#233;rfluo; era a chave para a minha autonomia. Para navegar em um mundo cujos c&#243;digos n&#227;o me foram dados por instinto, eu precisei decifrar a engenharia do encontro. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes: <em>&#8220;A vida &#233; a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida&#8221;</em>. E a adolesc&#234;ncia &#233; a fase na qual aprender a din&#226;mica do encontro amoroso &#233; um ritual de passagem. Por isso, essa mem&#243;ria n&#227;o p&#244;de ser apagada. Ela precisou passar por uma transmuta&#231;&#227;o que James Hillman detalha em sua <em>Psicologia Alqu&#237;mica</em>.</p><h3>A Calcina&#231;&#227;o do Ru&#237;do e a Fixa&#231;&#227;o pelo Sal</h3><p>Para Hillman, os processos da alma se valem de subst&#226;ncias e fogos invis&#237;veis. Mesmo sem saber sobre alquimia na &#233;poca, evoquei intuitivamente os conceitos hillmanianos de <em>Calcina&#231;&#227;o</em> e <em>Salifica&#231;&#227;o</em>. O fogo m&#237;stico da  aten&#231;&#227;o queimou o ru&#237;do mundano daquela intera&#231;&#227;o para extrair sua estrutura mineral mais pura. Em seguida, o Sal agiu como o princ&#237;pio da <em>Fixatio</em> (Fixa&#231;&#227;o): ele conferiu densidade, peso e perenidade &#224;quele instante vol&#225;til. Ao fixar o fragmento atrav&#233;s do sal alqu&#237;mico, transformei o evento bruto em um saber arquet&#237;pico, um c&#243;digo ancestral pass&#237;vel de se integrar &#224; minha base de dados biol&#243;gica e cultural. Compreender a mec&#226;nica do flerte foi o que me permitiu ler o mundo, conquistar autoconfian&#231;a e ocupar o meu lugar de direito na vida .</p><p>&#201; preciso esclarecer que este poema &#233; fruto de uma experi&#234;ncia real. O amor limerente era minha salvaguarda, e o encontro amoroso real  era um empreendimento pr&#225;tico, no sentido de suprir necessidades muito b&#225;sicas, como a seguran&#231;a em um mundo hostil para com as mulheres. Portanto, &#8220;Engano&#8221; &#233; um registro do jogo amoroso no campo pr&#225;tico. Ele aborda um processamento cognitivo amparado em fatos reais, e n&#227;o em meras sensa&#231;&#245;es dopamin&#233;rgicas causadas pela limer&#234;ncia no ambiente controlado da imagina&#231;&#227;o.</p><p>Suponho que isso revele, sim, uma preced&#234;ncia da raz&#227;o em rela&#231;&#227;o &#224; emo&#231;&#227;o, como sempre presumi em minha jovem percep&#231;&#227;o dualista. Mas esta preced&#234;ncia da raz&#227;o tamb&#233;m revela um tra&#231;o cognitivo t&#237;pico de quem precisa operacionalizar todo o seu processamento sensorial e cerebral de forma consciente.</p><h3>O Rec&#225;lculo Homeost&#225;tico e a Auditoria dos Marcadores Som&#225;ticos</h3><p>&#201; o estresse do organismo em um esfor&#231;o descomunal que resulta nos tr&#234;s versos finais do poema. No terceto final, eis a interfer&#234;ncia daquilo que convencionei chamar de raz&#227;o, mas que a neuroci&#234;ncia hoje chama de metacogni&#231;&#227;o. A experi&#234;ncia vivida &#233; submetida ao escrut&#237;nio de um outro tipo de pensamento &#8212; uma consci&#234;ncia &#224; parte que analisa o sentir e o pensar, e o narra, &#224;s vezes em prosa, &#224;s vezes em verso.</p><p>O eu-l&#237;rico afasta-se da bancada, limpa as lentes do microsc&#243;pio e lan&#231;a uma d&#250;vida razo&#225;vel sobre a sua pr&#243;pria an&#225;lise comovida e afetada (ou, como diriam hoje os navegantes da web, &#8220;emocionada&#8221;). O &#8220;talvez&#8221; final &#233; o c&#243;rtex pr&#233;-frontal avaliando o erro de predi&#231;&#227;o gerado pelo sistema l&#237;mbico. O terceto final &#233; um rec&#225;lculo. E &#233; tamb&#233;m uma epifania: o momento em que a consci&#234;ncia percebe que a eternidade n&#227;o pertencia ao outro, mas foi um dote real conferido por ela mesma.</p><p>Na neuroci&#234;ncia de Ant&#243;nio Dam&#225;sio, compreendemos como os marcadores som&#225;ticos &#8212; as respostas corporais como o gosto na boca e o calor na pele &#8212; guiam as nossas tomadas de decis&#227;o e as nossas percep&#231;&#245;es de valor. Nos tr&#234;s versos finais, o poema encena uma auditoria desses marcadores. Eu n&#227;o sou mais a v&#237;tima passiva do feiti&#231;o dopamin&#233;rgico; sou a cientista que compreende que o feiti&#231;o foi fabricado em meu pr&#243;prio laborat&#243;rio.</p><p>Arribar &#224; d&#250;vida, portanto, n&#227;o &#233; uma fraqueza cognitiva; na neurodiverg&#234;ncia autista, a d&#250;vida &#233; o &#225;pice da sofistica&#231;&#227;o mental. Significa que o vaso alqu&#237;mico foi fechado com sucesso, a experi&#234;ncia foi destilada, e o &#8220;engano&#8221; j&#225; n&#227;o &#233; um erro, mas a mat&#233;ria-prima transmutada em autoconhecimento, arte e, acima de tudo, liberdade.</p><p></p><p>Mas falaremos mais disso no texto de quinta-feira.</p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Seu apoio pago garante que eu possa continuar calcinando o ru&#237;do do mundo e transmutando-o em autoconhecimento, arte e liberdade.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Hiperfoco Emocional e Autismo: O Poema como Autodefesa]]></title><description><![CDATA[Uma investiga&#231;&#227;o profunda sobre o hiperfoco emocional na adolesc&#234;ncia autista, a din&#226;mica do amor limerente e a escrita como territ&#243;rio de sustenta&#231;&#227;o do eu]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/hiperfoco-emocional-e-autismo-o-poema</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/hiperfoco-emocional-e-autismo-o-poema</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 May 2026 14:33:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-lkg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Gastando as tintas para parecer menos cansada &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Retrato em close de Oryanna Borges olhando fixamente para a c&#226;mera. Ela tem cabelos pretos bem curtos e olhos verdes expressivos, ilustrando a presen&#231;a e a intensidade do ensaio liter&#225;rio&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h2>O Poema como Trincheira: Hiperfoco, Autismo e a Defesa do Sentir</h2><p></p><p>Ontem, o texto foi sobre o hiperfoco em processos criativos &#8212; aquela imers&#227;o absoluta que, embora produtiva, pode ser dolorosa e complexa. Hoje, ao revisitar um poema que escrevi entre os meus 14 e 20 anos, percebo que ele &#233; um registro f&#243;ssil desse mesmo mecanismo, mas aplicado ao campo minado do sentimento.</p><p>O poema se chama <strong>&#8220;Sentir&#8221;</strong>.</p><blockquote><p><em>Esse meu defeito de sentir intensamente</em> </p><p><em>fez de alguns beijos uma tortura</em> </p><p><em>de frouxos abra&#231;os, pris&#227;o permanente</em> </p><p><em>e de instantes, recorda&#231;&#227;o que perdura.</em></p><p></p><p><em>Esse meu defeito deu profundidade</em> </p><p><em>a gestos imprevistos ou premeditados </em></p><p><em>a atitudes de explicita vaidade;</em></p><p><em>deu verdade a discursos infundados.</em></p><p></p><p><em>Mas &#233; meu jeito de viver intensamente. </em></p><p><em>E posso afirmar, sentindo desse modo,</em> </p><p><em>que ningu&#233;m vive de fato o que n&#227;o sente.</em></p></blockquote><p></p><h3>A Escrita como Sustenta&#231;&#227;o do Eu</h3><p>Olhando para tr&#225;s, vejo esse poema como um documento de autodefesa. E um documento de processo criativo, pois claramente ele foi planejado como um soneto, mas o assunto se esgotou no &#250;ltimo terceto. Revisitar estes poemas sempre traz a surpresa da forma, pois boa parte est&#225; blocada na impress&#227;o. E a forma que se revela desvela um intento e uma pressa, ou uma efetividade de processamento; ou mesmo uma objetividade comunicativa que n&#227;o admite floreios.</p><p>O sentir e o sentimento abordados nessa forma, na adolesc&#234;ncia, especialmente para uma pessoa autista, n&#227;o s&#227;o uma &#8220;paixonite&#8221; ou uma atra&#231;&#227;o passageira; &#233; uma possess&#227;o. &#201; um arrebatamento que exige uma leitura simult&#226;nea e imposs&#237;vel: tentar decifrar o pr&#243;prio corpo, a ansiedade e as rea&#231;&#245;es sensoriais, ao mesmo tempo em que se tenta ler o outro e o mundo ao redor.</p><p>E h&#225; um agravante nesse sentir intensamente: minhas manifesta&#231;&#245;es de afeto, desde a inf&#226;ncia, raramente eram bem recebidas. Talvez por serem inoportunas ou por n&#227;o seguirem os protocolos sociais, eu n&#227;o sei precisar. Lembro de uma experi&#234;ncia que cravou o sentimento de rejei&#231;&#227;o no espectro rom&#226;ntico do sentir, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos. Sim, a empreitada rom&#226;ntica na vida das meninas come&#231;a cedo.</p><p>Lembro desses garotos na sala de aula passando entre as fileiras de carteiras e arrogantemente apontando para as meninas em uma vers&#227;o revisitada de bem-me-quer-mal-quer: <em>bonita-feia-feia-bonita-feia-bonita</em>. Estava quase me despetalando sozinha quando ouvi &#8220;bonita&#8221; na minha vez. N&#227;o olhei para o dedo apontando para mim, mas intimamente agradeci. Mais tarde naquele mesmo dia, os mesmos meninos me cercaram para zombar de um de seus colegas que me achava particularmente bonita. E, segundo eles, o garoto queria falar comigo. O meu admirador n&#227;o mais secreto parecia mais encabulado do que eu e n&#227;o me pareceu adequado falar com ele diante de seus colegas zombeteiros. Ent&#227;o, gaguejando, por&#233;m resoluta, disse:</p><p>&#8212; T&#225;. Podemos falar l&#225; fora, no port&#227;o, na hora da sa&#237;da.</p><p>Ele desconversou. Os meninos riram e ele se juntou aos amigos na zombaria, aliviado de ter sa&#237;do da condi&#231;&#227;o de objeto de tro&#231;a. Eu vesti a carapu&#231;a e sei que a usei por muito tempo.</p><p>Esse epis&#243;dio demarcou um momento traum&#225;tico para mim, que morria de vergonha de ser vista, especialmente vista como chacota. E o monstro em mim, j&#225; bem desenvolvido, sabia-se indigno de afeto, de modo que at&#233; ter sido considerada bonita por eles perdeu seu valor. Nessa &#233;poca, Ika, minha irm&#227; tr&#234;s anos mais velha, j&#225; trocava beijos molhados entre os muros da escola, &#224;s vezes sob aplausos de uma multid&#227;o, em uma esp&#233;cie de jogo que nunca compreendi. Nesse momento eu entendi que n&#227;o saberia nem seria considerada merecedora de jogar esse jogo. E cresci com o receio de que demonstrar o que sentia era a certeza de algo que incomodaria as pessoas ou se viraria contra mim.</p><p>A escrita surgiu, ent&#227;o, para sustentar a minha intensidade e o meu direito de sentir e expressar esse sentir.  O que o mundo lia do lado de fora como &#8220;inadequado&#8221; ou &#8220;excessivo&#8221;, minha poesia trabalhava para  validar como parte integrante de quem eu sou. Se o mundo tentava tornar esse aspecto sombrio e inaceit&#225;vel, eu me juntava aos aspecto sombrio e inaceit&#225;vel  atrav&#233;s das palavras, talvez por ter percebido que n&#227;o poderia vence-lo. Era minha natureza. </p><p></p><h3>O Real vs. O Limerente</h3><p>Durante mais de 40 anos, vivi duas vidas. No mundo real, busquei a racionalidade e a praticidade. Tive relacionamentos que atendiam a necessidades de valida&#231;&#227;o e blindagem social; la&#231;os constru&#237;dos sobre objetivos espec&#237;ficos para navegar em uma sociedade que eu n&#227;o compreendia plenamente.</p><p>Mas, paralelamente, exi<strong>stia o objeto limerente.</strong></p><p>Enquanto os relacionamentos reais eram terrenos de interpreta&#231;&#245;es err&#244;neas e respostas biol&#243;gicas confusas, o objeto limerente funcionava como meu farol na<strong> </strong>escurid&#227;o, meu porto seguro em uma deriva existencial. Se um hiperfoco em um projeto criativo pode nos consumir por semanas, imagine a magnitude de uma devo&#231;&#227;o que atravessa trinta anos de  uma vida.</p><h3>A Verdade da Intensidade</h3><p>Hoje, o diagn&#243;stico de autismo justifica o que eu n&#227;o conseguia controlar: essa voltagem extrema do sentir, do pensar e do perceber; ou do n&#227;o perceber. O poema &#8220;Sentir&#8221; foi meu primeiro passo para assumir que n&#227;o existe vida real sem a verdade do sentimento, por mais &#8220;defeituoso&#8221; que ele pare&#231;a aos olhos de quem prefere os abra&#231;os frouxos.</p><p>Ao final, se n&#227;o podemos conter a mar&#233; da nossa pr&#243;pria intensidade, que possamos ao menos aprender a nadar nela &#8212; e, de prefer&#234;ncia, transform&#225;-la em arte.</p><p></p><h4 style="text-align: center;">Gostou desta reflex&#227;o?</h4><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se este texto tocou em alguma mem&#243;ria sua sobre intensidade ou inadequa&#231;&#227;o, deixe seu coment&#225;rio abaixo. 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E isso quase comprometeu minha entrega de hoje para voc&#234;, caro leitor. Mas c&#225; estou, gra&#231;as &#224; indesej&#225;vel resist&#234;ncia aos benzodiazep&#237;nicos, que j&#225; n&#227;o me derrubam mais em horas de sono involunt&#225;rio.</p><p>Para quem me l&#234;, o que se segue agora talvez pare&#231;a apenas um texto, mas estas palavras foram ditadas no escuro, de olhos fechados, enquanto eu tentava negociar com uma enxaqueca que decidiu cobrar o pre&#231;o do meu entusiasmo. Ditei para a IA, cerca de tr&#234;s horas atr&#225;s, o que havia compreendido ser o post de hoje: uma invers&#227;o da nossa rotina. Desta vez, o texto precisa vir primeiro, pelo que tem a comunicar e pelo que &#233;: precursor de uma releitura cat&#225;rtica de um poema escrito aos vinte anos, que fala de amor, mas n&#227;o do tema de nossas recentes incurs&#245;es amorosas. Foi escrito para uma de minhas irm&#227;s quando moramos juntas, em meus exatos vinte anos de idade.</p><p>Hoje, o poema embalou o choro que trouxe al&#237;vio ao meu corpo paradoxal: uma m&#225;quina hiperm&#243;vel que, para conseguir se manter em p&#233; sob os desafios cognitivos do autismo e as tens&#245;es da vida, acaba se enrijecendo. O trap&#233;zio vira ferro, a cervical vira pedra, os discos intervertebrais inflamam. E mesmo quando o corpo faz exig&#234;ncias e chora de desespero e dor, a mente comemora. O hiperfoco &#233; um tipo de amor devoto que ignora o limite da carne para ver a obra nascer.</p><p>E a obra que est&#225; nascendo pode fazer nascer asas nesses trap&#233;zios castigados, como se uma horda de seres trevosos tivesse pousado sobre mim para me impedir. Mas eu tenho a palavra para transpor abismos. E diz alguma lenda antiga que pessoas com pintas do lado da boca n&#227;o falam: elas decretam. Acreditemos! &#201; necess&#225;rio para suportar o peso do mundo nas costas at&#233; daqui a pouco. Quando o rel&#243;gio bater meia-noite, Cinderela para sempre!</p><p>E assim, nesse esp&#237;rito de quem se agarra a sonhos e deuses desacreditados, fa&#231;o do poema de hoje o testemunho dessa resist&#234;ncia. &#201; dedicado a voc&#234;, leitor, mas tamb&#233;m &#224; Oryanna que aguentou o peso do mundo nas costas hoje, para que a Oryanna de amanh&#227; possa acordar relaxada, com o projeto pronto e a alma leve.</p><p>Fecho este ciclo com um lembrete de que, apesar da dor, a exist&#234;ncia &#233; uma celebra&#231;&#227;o cont&#237;nua:</p><p></p><p><strong>Comemora&#231;&#227;o</strong></p><p><br><br>Hoje n&#227;o &#233; o seu dia, pois todos os dias s&#227;o seus. <br><br>Se no fundo do seu ser t&#227;o imenso voc&#234; chora, <br><br>saiba que meu cora&#231;&#227;o, muito alegre, comemora, <br><br>pois voc&#234;, como os dias, &#233; uma gra&#231;a vinda de Deus.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Gostou do texto?</strong> Criar  exige alma, mas &#224;s vezes cobra no trap&#233;zio. Se este post te tocou, considere apoiar meu trabalho. Em vez do tradicional cafezinho  voc&#234; pode <strong>patrocinar a minha pr&#243;xima Naratriptana</strong>.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Investigação": A Decodificação Analítica do Olhar Neurotípico Por Meio da Poesia]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise fenomenol&#243;gica profunda sobre o esfor&#231;o cognitivo autista no processamento social.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 15 May 2026 22:22:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vzmz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Aos 20, com meu corte de cabelo coreano &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Investiga&#231;&#227;o</strong>

Teus olhos doces, envolventes, vivazes

&#192; natural ingenuidade dos meus

Fazem-se m&#225;gicos, penetrantes, audazes

E em instantes alternados dizem adeus.


Teus olhos r&#237;spidos, intranspon&#237;veis, opacos

&#192; natural curiosidade dos meus

Fazem-se distantes, indistintos, fora de foco

E em instantes alternados dizem-me adeus.


Teus olhos ferinos, embora mansos, mentem

Tento distinguir se tenho-os nos meus

Se a inj&#250;ria de iludir-me cometem

Quando em mim se esquecem ou dizem-me adeus.</pre></div><h1>A Decodifica&#231;&#227;o do Olhar Neurot&#237;pico</h1><p>Este poema parece apenas um poema de amor. Ou de flerte. Mas &#233; um registro fenomenol&#243;gico e semi&#243;tico do esfor&#231;o de processamento social para uma mente autista. Eu creio que j&#225; tinha uns 20 anos, se minha mem&#243;ria n&#227;o me trai. J&#225; havia tentado escapar do amor limerente pelo &#250;nico objeto de devo&#231;&#227;o da vida inteira. J&#225; tinha em meu curr&#237;culo um relacionamento real de 4 anos, finalizado. Este poema marca meu retorno ao mercado amoroso. Mas o esfor&#231;o que o poema relata n&#227;o era uma renova&#231;&#227;o de votos com a busca da felicidade. O que parece o lirismo amoroso tradicional, na verdade, &#233; um relat&#243;rio de campo. O eu l&#237;rico atua como um observador anal&#237;tico que tenta decodificar, de forma manual e consciente, as pistas visuais e comportamentais do interlocutor &#8212; elementos que, na popula&#231;&#227;o neurot&#237;pica, s&#227;o processados de modo intuitivo e automatizado.</p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Hiraeth: Limerência, Neurodivergência e o Poder da Visualização]]></title><description><![CDATA[Explore a "Arquitetura do Invis&#237;vel". Um mergulho na limer&#234;ncia e na imagina&#231;&#227;o neurodivergente como ferramentas de manifesta&#231;&#227;o atrav&#233;s do poema Hiraeth.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/hiraeth-limerencia-neurodivergencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/hiraeth-limerencia-neurodivergencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 May 2026 20:33:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-_6M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Cara de cansada, top do lado avesso ...mas visualizando coisas boas&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Hiraeth</strong>

E  o sonho j&#225; quase ganha forma. 
Sinto cheiro se aproximar e dispersar 
antes que meu olfato o possa alcan&#231;ar.
As no&#231;&#245;es de volume me perturbam 
a ponto de ati&#231;ar o instinto de tocar. 
E &#224; medida que o toque se aproxima 
sinto familiar e eminente calor. 
E quando eu desejo de sentir &#233; quase dor
vejo que n&#227;o passou de um sonho.
Que posso sonhar de olhos abertos 
Que posso perder nos pensamentos
e ainda assim perfeito ele voltar&#225;
com uma promessa de felicidade 
balan&#231;ando num fio de esperan&#231;a; 
Com os primitivos instintos do corpo 
agarrados &#224;s febres do Esp&#237;rito. 
Produzindo uma estranha saudade
T&#227;o grande que est&#225; al&#233;m do sonho, 
mas ainda n&#227;o alcan&#231;a a realidade.
</pre></div><p></p><h3><strong>A Arquitetura do Invis&#237;vel</strong></h3><p>Hiraeth j&#225; se chamou &#8220;&#8220; instinto e as notas  em meu cadernos  da adolesc&#234;ncia demonstram que j&#225; cogitei chama-lo &#8220;visualiza&#231;&#227;o&#8221;. O poema que voc&#234; acaba de ler n&#227;o &#233; um relato de desejo carnal, ou um registro po&#233;tico de masturba&#231;&#227;o feminina como um leitor definiu d&#233;cadas atr&#225;s, me causando mais espanto do rubor. Este &#233; um exerc&#237;cio de imers&#227;o em uma esquete mental tao v&#237;vida que hoje serve como um mapeamento da Limer&#234;ncia sob a lente da neurodiverg&#234;ncia. Para mentes com uma imagina&#231;&#227;o hiper-v&#237;vida e padr&#245;es de pensamento divergentes, o ato de visualizar n&#227;o &#233; um exerc&#237;cio passivo; &#233; uma experi&#234;ncia sensorial completa.</p><p>A entrega a esse &#8220;objeto limerente&#8221; &#8212; uma proje&#231;&#227;o idealizada que habita o esp&#237;rito &#8212; ocorre com tamanha intensidade que as fronteiras entre o corpo e a abstra&#231;&#227;o se dissolvem. Onde olhos desatentos enxergam erotismo, existe, na verdade, uma entrega espiritual e cognitiva. &#201; a febre do esp&#237;rito ditando o ritmo do corpo. A imagina&#231;&#227;o f&#233;rtil atua como um simulador de alta fidelidade: o cheiro, o calor e o volume s&#227;o reais para o sistema nervoso, criando uma ponte entre o que &#233; sonhado e o que est&#225; prestes a se manifestar.</p><h3><strong>Sou uma devota da logofilia:</strong></h3><p>Para aprofundar a compreens&#227;o sobre o t&#237;tulo e o estado emocional aqui descrito, recorremos ao termo gal&#234;s que define essa &#8220;estranha saudade&#8221;:</p><blockquote><p><strong>Hiraeth</strong> (subst. fem.)</p><p><strong>Acep&#231;&#227;o:</strong> Uma nostalgia profunda, um anseio ou saudade por um lugar, uma pessoa ou um estado de ser que talvez nunca tenha existido ou para o qual n&#227;o se pode retornar. &#201; a dor da aus&#234;ncia de algo que o esp&#237;rito reconhece como lar, mesmo que a realidade ainda n&#227;o o tenha materializado.</p></blockquote><ul><li><p><strong>Link de acesso:</strong><a href="http://welsh-dictionary.ac.uk/gpc/gpc.html"> welsh-dictionary.ac.uk</a> (Basta buscar pelo termo &#8220;Hiraeth&#8221;).</p></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se voc&#234; busca uma an&#225;lise profunda sobre as intersec&#231;&#245;es entre arte, neurodiverg&#234;ncia e os padr&#245;es invis&#237;veis da nossa consci&#234;ncia, inscreva-se na nossa newsletter. Vamos juntos mapear os contornos do que ainda n&#227;o alcan&#231;ou a realidade</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Divagação: Poesia como Resistência Estética e a Neurobiologia do Olhar]]></title><description><![CDATA[A resist&#234;ncia est&#233;tica do processamento neurodivergente. Uma an&#225;lise profunda sobre a 'Parte do Espectador' de Eric Kandel e a limer&#234;ncia de Dorothy Tennov.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/divagacao-poesia-como-resistencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/divagacao-poesia-como-resistencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 08 May 2026 20:33:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rzbx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;A tecel&#227; no espelho&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Imagem intitulada \&quot;A Tecel&#227;\&quot;, acompanhando o poema Divaga&#231;&#227;o. Uma mulher de costas observa um espelho barroco que reflete m&#250;ltiplas vers&#245;es de sua identidade em tons de azul. Sobre a mesa, refer&#234;ncias a Vel&#225;zquez, Eric Kandel e Dorothy Tennov. Representa&#231;&#227;o visual da neurodiverg&#234;ncia e da empatia est&#233;tica.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Divaga&#231;&#227;o

&#192;s vezes minha raz&#227;o interfere 
afirmando que n&#227;o te conhe&#231;o 
e n&#227;o h&#225; coer&#234;ncia no que pe&#231;o
nas preces que o cora&#231;&#227;o profere. 

Mas encontrei no teu olhar profundo 
mais do que mera familiaridade.
A lembran&#231;a do teu olhar transcende 
todo o tempo e mist&#233;rios do mundo.

Essa terna sensa&#231;&#227;o de t&#227;o aut&#234;ntica, 
Fez tudo o resto perder a import&#226;ncia 
e firmou-se na minha inconst&#226;ncia 
de forma urgente, surreal e po&#233;tica. 

Esse reconhecimento s&#250;bito, imediato 
n&#227;o me pede nenhuma racionaliza&#231;&#227;o. 
Eu sinto, eu sonho, eu vivo a liga&#231;&#227;o 
dos nossos olhos cansados e famintos. 

Fui despertada pelo reflexo do teu esp&#237;rito 
a iluminar os meus sonhos frios e opacos 
e senti pulsarem meus nervos secos. 
Deste vivacidade a tudo que sinto. 
</pre></div><h3><strong>A Experi&#234;ncia Est&#233;tica como Fen&#244;meno de Vivifica&#231;&#227;o</strong></h3><p>A raz&#227;o atropelada pela prece do cora&#231;&#227;o e a constata&#231;&#227;o final de uma vivifica&#231;&#227;o me obrigaram a ler este poema para al&#233;m de sua evidente rela&#231;&#227;o com o conceito de limer&#234;ncia de Dorothy Tennov. Talvez eu estivesse mais sens&#237;vel neste momento, no qual me pareceu necess&#225;rio desconectar um pouco desta an&#225;lise racionalizada do sentir para perceb&#234;-lo apenas como experi&#234;ncia est&#233;tica. Ou, talvez, seja isso o que o poema pede.</p><p>Neste di&#225;logo travado entre a observadora que hoje sou e a menina que um dia fui &#8212; e que escreveu estes versos &#8212;, cabe-me apenas seguir a intui&#231;&#227;o. Essa conex&#227;o entre os olhares famintos que o poema celebra, hoje, &#233; a conex&#227;o entre os nossos olhares. Vejo aquela menina com tanto carinho, mas com um rigor que s&#243; o tempo e a ci&#234;ncia de minha neurodiverg&#234;ncia poderiam me permitir.</p><h3><strong>A Parte do Espectador: O Processo </strong><em><strong>Bottom-Up</strong></em></h3><p>Amparar esta leitura em uma experi&#234;ncia est&#233;tica levou-me a Eric Kandel. &#8220;A Parte do Espectador&#8221; na aprecia&#231;&#227;o de uma obra de arte (<em>The Beholder&#8217;s Share</em>), conforme ele prop&#245;e, &#233; um exerc&#237;cio de empatia est&#233;tica que extrapola os processos cognitivos dominantes, ditos neurot&#237;picos. Isso ocorre porque a empatia est&#233;tica requer um processamento guiado por dados (<em>bottom-up</em>).</p><p>&#201; como um aficionado por uma pintura que se senta diante de uma obra em um museu e frui dela lentamente, detalhe por detalhe, decifrando os processos e camadas que resultam em cores, volumes e um jogo assombroso de luz e sombra. Uma mente neurot&#237;pica pode apreender o quadro como um todo; seu processamento &#233; tipicamente <em>top-down</em> &#8212; guiado por conceitos. Esse espectador ver&#225; um quadro geral; seu processamento intuitivo preencher&#225; as lacunas &#224; sua revelia, determinando o significado da pintura. Contudo, essa mente neurot&#237;pica tamb&#233;m pode sentar-se diante do quadro e vivenciar o exerc&#237;cio est&#233;tico <em>bottom-up</em>: partir do dado para o todo. Essa entrega possibilita a empatia est&#233;tica e, portanto, est&#225; acess&#237;vel a todos; basta querer.</p><h3><strong>A Intui&#231;&#227;o Autista e a Tecitura da Coer&#234;ncia</strong></h3><p>Contudo, a mente neurodivergente &#8212; e falo com &#234;nfase na mente autista, minha perspectiva &#8212; vive essa experi&#234;ncia est&#233;tica de forma quase constante. O mundo lhe assoma em imagens. O olho, um detector, &#233; invadido, e o processo cognitivo &#233; uma tecitura do dado coletado visualmente e da coer&#234;ncia buscada conscientemente.</p><p>Isso significa que a frui&#231;&#227;o est&#233;tica do autista n&#227;o &#233; intuitiva? Eu penso que &#233;. S&#243; que a intui&#231;&#227;o autista &#233; mais lenta, feita de dados aferidos um a um. Aquele processamento em segundo plano, que est&#225; sempre buscando padr&#245;es e coer&#234;ncia, nunca deixa de funcionar e faz digress&#245;es o tempo todo. Por isso, quando decidi abordar esse poema como uma resist&#234;ncia est&#233;tica, abri uma caixa misteriosa, cujo conte&#250;do me surpreendeu justamente por trazer conceitos conhecidos, como a autocria&#231;&#227;o, a autofic&#231;&#227;o, a autoetnografia e a metacogni&#231;&#227;o.</p><h3><strong>A Poesia como Sutura da Realidade</strong></h3><p>Tudo isso habita naturalmente o processo criativo de uma mente que resiste por meio da produ&#231;&#227;o. Criar um &#8220;Deus particular&#8221; e ador&#225;-lo em versos; defend&#234;-lo como quem faz uma prece; refutar a raz&#227;o em nome do afeto irracional sob a alcunha de amor &#8212; tudo isso &#233; resist&#234;ncia est&#233;tica. &#201; a &#250;nica for&#231;a capaz de suturar o tecido da realidade esfacelado pela incoer&#234;ncia, pelo dado concreto sem os vernizes da conven&#231;&#227;o. A sutura &#233; uma filigrana delicada que une as partes em uma <em>gestalt</em> suport&#225;vel.</p><p>Tanto creio na intui&#231;&#227;o neurodivergente que essas suturas me lembraram de um poema, desses perdidos em cadernos, largados como um projeto inacabado:</p><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Vedado ao sumo das p&#233;talas 
Aos teus poros: sal e hemoglobina 
N&#243;doas da fluidez escatol&#243;gica 
Nas suturas da menina

A poesia &#233; res&#237;duo acidental 
De decalcar m&#225;scaras em teu miolo 
E a ternura &#233; o histri&#244;nico arranhado 
A blasfemar meu nome no teu couro
</pre></div><h3><strong>O Espelho de Vel&#225;zquez: O Encontro do Tempo</strong></h3><p>Isso me traz &#224; men&#231;&#227;o de Kandel (2012) sobre o quadro <em>As Meninas</em>, de Vel&#225;zquez. Um marco na hist&#243;ria da arte, ele coloca o rei e a rainha no plano do espectador ao mostrar apenas seu reflexo no espelho. Hoje, eu sou a espectadora de minha pr&#243;pria obra. Meu rosto ocupa exatamente esse reflexo no espelho. Do centro de minha cria&#231;&#227;o, olha-me a menina pequena que fui, silenciosa e sobrecarregada em seus sentires; de cantos escuros da obra, emergem vers&#245;es minhas que parecem perfeitamente cientes do lugar que ocupo hoje, como se o tempo n&#227;o fosse, de fato, linear.</p><p>E uma adolescente, com os dedos sujos de tinta, encara-me e confirma:</p><p><em>&#8220;A lembran&#231;a do teu olhar transcende</em></p><p><em>todo o tempo e os mist&#233;rios do mundo&#8221;</em>.</p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Este ensaio &#233; apenas o come&#231;o da tecelagem.&#8221;</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Se a minha forma de &#8216;decalcar o mundo&#8217; ressoa com a sua busca por uma percep&#231;&#227;o mais honesta e profunda da arte e da mente, convido voc&#234; a se tornar um <strong>assinante pago </strong>.</p><p></p><h4><strong>Vem ler comigo sobre neuroci&#234;ncia? </strong></h4><p></p><p>KANDEL, Eric R. The Beholder&#8217;s Share: The Liberation of the Observer&#8217;s Eye. <em>In</em>: KANDEL, Eric R. <strong>The Age of Insight</strong>: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present. New York: Random House, 2012. cap. 11, p. 217-237.</p><p>TENNOV, Dorothy. <strong>Love and Limerence</strong>: The Experience of Being in Love. New York: Stein and Day, 1979.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Cultura como Gabarito da minha Academia Imaginária no poema "Promessa"]]></title><description><![CDATA[Como a limer&#234;ncia e o "mito do par perfeito" serviram como estrat&#233;gia de sobreviv&#234;ncia e academia de socializa&#231;&#227;o para uma mente neurodivergente.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-cultura-como-gabarito-da-minha</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-cultura-como-gabarito-da-minha</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 14:33:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GtYZ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Eu, no dia 3 de maio de 2026&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Retrato da artista e escritora Oryanna Borges com fundo art&#237;stico em tons de azul e laranja, representando o mundo secreto da imagina&#231;&#227;o.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Promessa 
</strong>
Que longo caminho percorri at&#233; voc&#234; 
Dos becos da vida aos becos da alma 
Do alto da inoc&#234;ncia a&#224; mais baixa estima 
Busquei liberdade para lhe pertencer 

Ent&#227;o o sonho vazio cedeu a sua imagem 
Voc&#234; vive, mas minha f&#233; quase fenece 
&#201; a promessa em seu olhar que me fortalece
E pelo meu esp&#237;rito repreendo viagem
</pre></div><h2><strong>&#8220;Promessa&#8221; e a Limer&#234;ncia como Estrat&#233;gia de Sobreviv&#234;ncia</strong></h2><p>Ao analisar o poema <strong>&#8220;Promessa&#8221;</strong> sob a perspectiva de uma jornada que atravessou tr&#234;s d&#233;cadas, percebo que ele n&#227;o &#233; apenas um registro de afeto, mas o documento de funda&#231;&#227;o de uma arquitetura ps&#237;quica complexa. O verso <em>&#8220;ent&#227;o o sonho vazio cedeu a sua imagem&#8221;</em> &#233; conduz pelo entendimento de como o roteiro cultural &#8212; os contos de fadas, o cinema e o mito do &#8220;par perfeito&#8221; &#8212; foi transmutado em uma ferramenta de sobreviv&#234;ncia neurodivergente.</p><h3><strong>O &#8220;Sonho Vazio&#8221;: O Treinamento Cultural</strong></h3><p>A cultura nos incute a ideia de que existe um par ideal. O cinema projeta em nossa imagina&#231;&#227;o a imagem de que a cerim&#244;nia mais importante da vida de uma mulher &#233; o seu casamento. Muitas meninas, em tenra idade, sonham em ser conduzidas ao altar pelo pai e entregues ao &#8220;amor de sua vida&#8221;, em uma ritual&#237;stica perfeita que, como uma dan&#231;a, requer at&#233; ensaio.</p><p><em>Cinderela</em> nos traz a ideia da ascens&#227;o social por meio do enlace amoroso; <em>Branca de Neve</em> e <em>A Bela Adormecida</em> trazem o mito do despertar com um &#8220;beijo de amor verdadeiro&#8221;; e <em>A Bela e a Fera</em> nos leva a crer que podemos domar a &#8220;fera&#8221; no outro. O que acontece, ent&#227;o, quando uma menina neurodivergente, alimentada com essas fantasias gen&#233;ricas, tem a oportunidade de preencher um sonho tamb&#233;m gen&#233;rico &#8212; um <strong>&#8220;sonho vazio&#8221;</strong> &#8212; com uma imagem espec&#237;fica?</p><p>Consideremos um dos pressupostos mais b&#225;sicos sobre a perspectiva de g&#234;nero no autismo: meninas autistas frequentemente passam despercebidas porque aprendem a imitar. Como imitadoras, elas treinam, experimentam pap&#233;is e preenchem &#8220;sonhos vazios&#8221; como se lhes tivessem dado um <em>template</em>; sobre este arcabou&#231;o, criam hist&#243;rias. Estas hist&#243;rias funcionam como <strong>academias imagin&#225;rias de socializa&#231;&#227;o</strong>. A progress&#227;o &#233; simples e &#243;bvia para mim. Como isso ressoa em voc&#234;, que me l&#234; neste momento?</p><p>Dorothy Tennov, a criadora do conceito de <strong>limer&#234;ncia</strong> &#8212; definida como uma devo&#231;&#227;o obsessiva a um objeto de afeto (o objeto limerente) &#8212;, diferencia-a da paix&#227;o comum por ser uma experi&#234;ncia primordialmente mental. Para ela, a &#8220;paix&#227;o&#8221; que conhecemos &#233; uma representa&#231;&#227;o cultural, enquanto a limer&#234;ncia &#233; a experi&#234;ncia biol&#243;gica e cognitiva real por tr&#225;s dessa representa&#231;&#227;o.</p><p>Pessoas que sentem uma necessidade intensa de &#8220;estar apaixonadas&#8221; ou de encontrar um &#8220;par ideal&#8221; s&#227;o muito mais propensas &#224; limer&#234;ncia assim que encontram um alvo minimamente adequado. Eu adicionaria a esta equa&#231;&#227;o pessoas oriundas da extrema escassez afetiva determinada pela neurodiverg&#234;ncia e que sentem uma necessidade vital de conex&#227;o. Pois &#233; isso o que a limer&#234;ncia, em conclus&#227;o, representa: uma busca por uma conex&#227;o profunda, uma fus&#227;o que extrapola o que entendemos por paix&#227;o ou amor, aproximando-se, por isso mesmo, do &#234;xtase religioso e da espiritualidade.</p><p>O amor limerente pode, sim, ter desfechos desastrosos, como apontado por Tennov: o &#237;mpeto suicida, o desejo de evitar o decl&#237;nio ou a  desconex&#227;o por meio da morte no cl&#237;max da reciprocidade. Como prova de que a limer&#234;ncia n&#227;o &#233; apenas socialmente constru&#237;da, temos o <strong>Shinju</strong>, o suic&#237;dio duplo japon&#234;s que visava escapar no auge do amor, impedindo que o mundo corrompesse ou separasse os amantes. &#201; outra cultura, outra espiritualidade, mas a mesma cren&#231;a obsessiva nessa conex&#227;o de almas.</p><p>No entanto, mesmo nessa digress&#227;o negativa pelas veredas do &#8220;amor obsessivo&#8221; na qual podemos incluir manifesta&#231;&#245;es criativas como Madame Bovary e a &#243;pera Carmem, a limer&#234;ncia traz um convite &#224; individualidade. O amor intenso &#233; visto como como uma amea&#231;a &#224; ordem social porque retira o indiv&#237;duo do grupo. O amor limerente, quando incubado, pede reclus&#227;o e entrega ao mundo da imagina&#231;&#227;o; quando reciprocado, pede a separa&#231;&#227;o de tudo o que represente um obst&#225;culo &#8212; inclusive do mundo dos vivos, em &#250;ltima inst&#226;ncia.</p><p>Mas o que ocorre quando esse estado &#233; incubado em uma mente neurodivergente, afeita ao detalhe, ao criacionismo primoroso de mundos secretos e com um p&#233; aterrado na racionalidade? Esta alma diligente faz do objeto limerente uma esp&#233;cie de divindade para ser adorada em sil&#234;ncio; uma religi&#227;o particular na qual o corpo imaterial &#233; consumido ritualisticamente netecomo uma <a href="https://www.oryannaborges.com/p/hostia?utm_source=publication-search">h&#243;stia</a> para alimentar o esp&#237;rito, lembrando de tudo o que h&#225; de bom e belo no mundo e enchendo de luz os olhos escurecidos pelo &#8220;mundo c&#227;o&#8221;.</p><h3><strong>A Limer&#234;ncia de Tr&#234;s D&#233;cadas como Pr&#243;tese e Alerta</strong></h3><p>Enquanto a ci&#234;ncia descreve a paix&#227;o biol&#243;gica como um ciclo curto de 18 meses a 3 anos, minha limer&#234;ncia perdurou por d&#233;cadas porque foi elevada ao n&#237;vel da espiritualidade. Acredito piamente na teoria da <strong>pr&#243;tese emocional</strong>: um reposit&#243;rio de tudo o que eu continha de bom, mas que me era negado pela &#8220;inculca&#231;&#227;o da perf&#237;dia&#8221; que acossa meninas perguntadeiras e racionais. Meninas que desejam apenas um pouco de coer&#234;ncia e encontram expectativas de g&#234;nero que n&#227;o entendem, envolvidas que est&#227;o pela leitura das camadas mais superficiais do trato humano.</p><p>Como uma boa divindade, meu objeto limerente me alertava sempre para que eu n&#227;o aceitasse menos do que merecia, impulsionando-me a escolher a mim mesma quando tudo parecia incerto. Como primeira vers&#227;o da minha academia imagin&#225;ria de socializa&#231;&#227;o, ele me guiou pelas veredas in&#243;spitas por onde caminham as mulheres. Antes que eu compreendesse a responsabilidade de habitar este corpo feminino, o objeto limerente era a r&#233;gua pela qual eu media a dignidade dos meus afetos.</p><h3><strong>O Mundo Secreto e a Autonomia Neurodivergente</strong></h3><p>A caracter&#237;stica &#8220;antissocial&#8221; da limer&#234;ncia descrita por Tennov foi, na verdade, minha maior aliada. O recolhimento na imagina&#231;&#227;o &#233; o habitat natural da mente neurodivergente, onde a exposi&#231;&#227;o &#233; menos ruidosa e cansativa. O que para muitos seria um desvio do curso natural da vida, para mim era ref&#250;gio e regula&#231;&#227;o.</p><p>Este <strong>Deus Particular</strong> n&#227;o me impediu de buscar a vida real. Pelo contr&#225;rio, ele me deu a estabilidade interna necess&#225;ria para tra&#231;ar estrat&#233;gias de sobreviv&#234;ncia, que inclu&#237;am relacionamentos e planos de fam&#237;lia. Eu conseguia deixar o objeto limernete de lado, <a href="https://www.oryannaborges.com/p/hostia?utm_source=publication-search">&#8220;no meu lado mais secreto&#8221;</a> para atuar no mundo, mantendo meu laborat&#243;rio secreto sempre ativo para os momentos em que a vida desandava.</p><p>Sei que buscar a liberdade para &#8220;pertencer&#8221; a esse ideal muitas vezes precipitou rompimentos e fugas. Eu nutria esperan&#231;as de uma realiza&#231;&#227;o que s&#243; a conex&#227;o real com o objeto limerente me traria, e la&#231;os terrenos pareciam me impedir. Por isso, o poema <strong>&#8220;Promessa&#8221;</strong> tem esse peso em minha hist&#243;ria: eu me prometi a um afeto al&#233;m da minha realidade e mantive essa promessa o melhor que pude, at&#233; perceber que ela n&#227;o tinha mais raz&#227;o de ser.</p><p>Pouco tempo depois dessa percep&#231;&#227;o, tive meu diagn&#243;stico e um mundo novo se abriu. N&#227;o preciso mais da pr&#243;tese; posso caminhar sozinha agora. <em>&#8220;E pelo meu esp&#237;rito empreendo viagem&#8221;</em>. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Gostou desta travessia pelos bastidores da minha &#8220;Academia Imagin&#225;ria&#8221;?</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Como assinante pago, voc&#234; ter&#225; acesso exclusivo aos meus di&#225;rios de processo, an&#225;lises detalhadas de obras raras sobre neurodiverg&#234;ncia e cap&#237;tulos in&#233;ditos dos meus pr&#243;ximos projetos liter&#225;rios. Apoie esta pesquisa independente e ajude a manter este laborat&#243;rio vivo.</p><p></p><h4>Se interessou pela Limer&#234;ncia? Deixo as informa&#231;&#245;es  sobre o texto da Dorothy Tennov aqui: </h4><p></p><p>TENNOV, Dorothy. Love and limerence: the experience of being in love. 2. ed. Lanham: Scarborough House, 1999. 649 p.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Rejeição e Despertar: O Cotejo Poético]]></title><description><![CDATA[Analisamos o "lado obscuro" da limer&#234;ncia na mente neurodivergente atrav&#233;s do cotejo dos poemas Rejei&#231;&#227;o e Despertar. Uma jornada de Jane Eyre ao cinema das sess&#245;es da tarde.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 May 2026 10:48:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8rTz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Wardian Case&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Representa&#231;&#227;o visual do cotejo entre os poemas Rejei&#231;&#227;o e Despertar: uma mulher com coluna de vidro vitoriana e interior de samambaias e rom&#227;s.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Rejei&#231;&#227;o</strong>

N&#227;o sinto amor nesses beijos sufocantes. 
Que desprezo mais relutante permito.
Como castigo que n&#227;o mere&#231;o nem evito
Eu ofere&#231;o meus l&#225;bios suplicantes

E os recebo como estalo dos a&#231;oites
Me ausentaria por instantes dos sentidos 
Se meus instintos n&#227;o fossem reprimidos 
Pela pr&#243;pria concess&#227;o t&#227;o revoltante. 


<strong>
Despertar</strong>

Tirastes de meus olhos a luz e o desejo 
de viver al&#233;m de onde tua alma est&#225; 
pois a luz mais fulgurante que no mundo h&#225; 
na tua pl&#225;cida escurid&#227;o &#233; fa&#237;sca, lampejo

Meus olhos extasiados rejeitam a claridade 
e buscam em teus olhos  sossego da noite 
pois a frivolidade despertada pela luz &#233; a&#231;oite 
a flagelar minha principiante espiritualidade.
</pre></div><p></p><h2><strong>O Estalo do A&#231;oite: A Dial&#233;tica entre Beijos e Luz</strong></h2><p>Diferente de outras an&#225;lises acerca do amor limerente por um vi&#233;s neurodivergente, decidi promover uma analogia entre dois aspectos registrados nos poemas: a completa devo&#231;&#227;o a este objeto limerente al&#231;ado &#224; categoria de divindade particular, e a rejei&#231;&#227;o da vida real, orquestrada para suplantar minha condi&#231;&#227;o de adolescente sem suporte parental. Este cotejo proveio de uma necessidade de explicitar o lado obscuro da limer&#234;ncia para mentes neurodivergentes, e qui&#231;&#225; para neurot&#237;picas.</p><p>Como aqui parto de minha pr&#243;pria experi&#234;ncia e dos registros objetivos e subjetivos propiciados pela escrita, vamos supor que esta &#233; uma experi&#234;ncia neurodivergente e assumir que o que diferencia os sentires e o manejo dos recursos ps&#237;quicos &#233; a intensidade. Assim, uma pessoa neurodiversa, especialmente uma autista com altas habilidades, pode, sim, se deparar com o sofrimento incomensur&#225;vel que a limer&#234;ncia proporciona, negando a vida ou vivendo a vida como uma obriga&#231;&#227;o ou supl&#237;cio.</p><p>A escolha dos poemas pautou-se no uso de uma palavra espec&#237;fica: a&#231;oite. Enquanto em &#8220;Rejei&#231;&#227;o&#8221; o beijo e o contato s&#227;o descritos como um &#8220;a&#231;oite&#8221; que fere a dignidade, em &#8220;Despertar&#8221; o &#8220;a&#231;oite&#8221; vem da luz externa e do mundo, transformando a escurid&#227;o do objeto limerente em um ref&#250;gio espiritual. Cabe aqui, mais uma vez, refor&#231;ar essa percep&#231;&#227;o de que o amor limerente era uma forma de autorregula&#231;&#227;o. Pelo menos quando vivenciado at&#233; certa medida.</p><h2><strong>O Contrato de Sobreviv&#234;ncia: Casamento como Estrat&#233;gia de Masking</strong></h2><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Na &#250;ltima ter&#231;a-feira, compartilhei uma cr&#244;nica aberta a todos. No entanto, o texto que voc&#234; come&#231;a a ler agora &#8212; e que se aprofunda a partir deste ponto &#8212; &#233; um presente exclusivo para os meus assinantes pagos. Este ensaio n&#227;o nasceu de um &#237;mpeto, mas de tr&#234;s dias de imers&#227;o profunda em leituras, cotejos po&#233;ticos e na disseca&#231;&#227;o de mem&#243;rias que exigiram de mim o rigor da pesquisadora e a entrega da artista.</em></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><em>Ao fechar este post para os apoiadores, honro o tempo e o sil&#234;ncio necess&#225;rios para produzir um trabalho com esta densidade. Convido voc&#234; a cruzar este limiar comigo e acessar a anatomia completa dessa jornada entre o a&#231;oite e a soberania,</em></p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Altar da Única Crença: "Indiferença" e a Sacralização do Amor na Mente Neurodivergente]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise profunda de como o amor limerente pode funcionar como um mecanismo de sobreviv&#234;ncia ps&#237;quica e autocria&#231;&#227;o espiritual.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:34:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VgQV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O Altar da &#250;nica cren&#231;a&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Uma jovem neurodivergente ajoelhada beija os p&#233;s de uma est&#225;tua colossal em uma catedral steampunk. O ch&#227;o est&#225; cheio de pap&#233;is, tintas e penas.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Indiferen&#231;a </strong>

Desconsidero a dist&#226;ncia e as diferen&#231;as 
Lembro sempre que o amor nos faz iguais 
Se desejasse seguir regras, nem saberia quais
Ent&#227;o aceito voc&#234; como minha &#250;nica cren&#231;a 

E cultivo esse sentimento t&#227;o distinto 
Como princ&#237;pio e finalidade da minha vida
E s&#243; serei vista prostrada e arrependida
Se n&#227;o der vaz&#227;o ao que intensamente sinto
</pre></div><h3><strong>O Manifesto da Autocria&#231;&#227;o Espiritual: Limer&#234;ncia e Sobreviv&#234;ncia Neurodivergente</strong></h3><p>Esse poema singelo traz uma carga emocional muito forte, especialmente por tratar a indiferen&#231;a do t&#237;tulo n&#227;o como o tema central, mas como o obst&#225;culo ativamente ignorado ou desconsiderado. O t&#237;tulo sugere um distanciamento, mas o conte&#250;do &#233; de uma entrega absoluta. A indiferen&#231;a &#233; algo que vem de fora (ou das circunst&#226;ncias) e a escolha da jovem autora &#233; combat&#234;-la com a cren&#231;a. Contudo, esta jovem autora era uma questionadora nata, em franca querela com as cren&#231;as que lhe foram impostas desde a tenra idade. Esta era a menina que escrutinou a doutrina crist&#227; e os h&#225;bitos de uma comunidade para decretar &#8220;eles n&#227;o sabem o que fazem&#8221;, uma repulsa substituindo o perd&#227;o de Cristo na Cruz. Esta jovem, ao trazer a cren&#231;a para o fazer po&#233;tico, obriga a um olhar diferenciado para o objeto limerente, lentes pelas quais optamos analisar a obsess&#227;o rom&#226;ntica. Dorothy Tennov, ao cunhar o conceito de amor limerente, o traz como um estado de obsess&#227;o cognitiva involunt&#225;ria e pensamento intrusivo. Para ela, o objeto limerente n&#227;o tem uma fun&#231;&#227;o por suas qualidades reais, mas pelo que ele ativa no limerente (o apaixonado). A fun&#231;&#227;o do objeto limerente &#233; fornecer a mistura exata de esperan&#231;a (sinais de que a reciprocidade &#233; poss&#237;vel) e incerteza (medo de rejei&#231;&#227;o). &#201; essa instabilidade que mant&#233;m o estado limerente &#8220;vivo&#8221; e intenso. E tudo n&#227;o passa de idealiza&#231;&#227;o: o limerente responde a uma constru&#231;&#227;o mental do objeto, e n&#227;o &#224; pessoa real. O processo de &#8220;cristaliza&#231;&#227;o&#8221; (termo que ela toma de Stendhal) faz com que as virtudes do objeto sejam ampliadas e seus defeitos ignorados, transformando-o em um centro de significado absoluto.</p><p>E tudo isso corrobora com a leitura proposta na an&#225;lise de poemas desta safra amorosa de minha adolesc&#234;ncia, pois, embora a limer&#234;ncia possa ser devastadora, Tennov identifica na limer&#234;ncia fun&#231;&#245;es que resgatam o indiv&#237;duo de estados de apatia: autoaperfei&#231;oamento, energia e inspira&#231;&#227;o que incitam a criatividade e uma &#233;tica que o torna melhor,  um significado vital ao agregar sabor &#224; vida, sendo descrita como a experi&#234;ncia mais prazerosa que algu&#233;m pode ter, apesar da dor associada.</p><p>&#201; importante, contudo, ressaltar que a jovem autora era neurodivergente, sem diagn&#243;stico e sem suporte. E quando me refiro a suporte, preciso esclarecer que n&#227;o se trata apenas do suporte necess&#225;rio para uma pessoa autista, mas do suporte b&#225;sico para todo e qualquer vivente, especialmente em tenra idade. Como uma adolescente sem suporte familiar, provendo o pr&#243;prio sustento e lugar no mundo, esta jovem vivia no limiar da humanidade. Seu senso de ser era algo j&#225; prec&#225;rio, ainda mais precarizado pela neurodiverg&#234;ncia desconhecida, mas sentida. Se h&#225; uma coisa que n&#227;o posso dizer &#233; que nunca me senti diferente e estranha no mundo. E a an&#225;lise da trajet&#243;ria po&#233;tica e existencial aqui discutida revela que, para a mulher neurodivergente inserida em contextos de repress&#227;o e doutrina&#231;&#227;o, o fen&#244;meno da limer&#234;ncia, cunhado por Dorothy Tennov para descrever a obsess&#227;o cognitiva involunt&#225;ria por um objeto rom&#226;ntico, assume fun&#231;&#245;es que transcendem a biologia reprodutiva tal e qual ela cogita.</p><h3><strong> A Limer&#234;ncia como Hiperfoco de G&#234;nero</strong></h3><p>Diferente do objeto de fixa&#231;&#227;o comumente associado ao autismo masculino (focado em sistemas, <em>lore</em> ou colecionismo vis&#237;vel, como o Spock para o personagem Sheldon Cooper), a socializa&#231;&#227;o feminina frequentemente empurra o hiperfoco para o campo dos relacionamentos. O que surge &#233; uma Limer&#234;ncia de Hiperfoco, onde a energia mental &#233; canalizada para a constru&#231;&#227;o de um universo &#250;nico e interno. Enquanto o homem encontra tribos em conven&#231;&#245;es de quadrinhos e outras nerdices, a mulher constr&#243;i um santu&#225;rio clandestino, muitas vezes permeado pelo sentimento de vergonha e isolamento.</p><p>No poema <strong>Indiferen&#231;a</strong>, o objeto n&#227;o &#233; apenas um alvo de afeto, mas um reposit&#243;rio de bom, belo e luz. J&#225; propus aqui diversas vezes que, sendo uma menina perguntadeira macetada pelas conven&#231;&#245;es de como deve se portar e se calar uma menina, eu precisava projetar em algo esse bom, belo e luz que n&#227;o podia enxergar ou manter em mim. Assim, a teoria &#233; que, no caso do autismo feminino, diante de um sistema externo que busca domar, reprimir e invalidar a ess&#234;ncia da pessoa neurodivergente, a mente projeta sua pr&#243;pria bondade e dignidade no Objeto Limerente . Neste caso, ao considerar-se indigna, a autora usa o objeto para guardar o que tem de melhor. Amar o objeto torna-se a &#250;nica forma segura de amar a si mesma. As esquetes mentais e fantasias intrusivas funcionam como reguladores de um sistema nervoso sobrecarregado, gerando a dopamina necess&#225;ria para a manuten&#231;&#227;o da homeostase em um mundo ca&#243;tico.</p><h3><strong>A Substitui&#231;&#227;o da F&#233; e a &#201;tica do Sentimento</strong></h3><p>Mas &#233; na adi&#231;&#227;o da f&#233; que esta teoria ganha um outro n&#237;vel de sofistica&#231;&#227;o. Ainda na puberdade, identificara a precariedade e a incoer&#234;ncia das religi&#245;es institucionais e relegara as cren&#231;as ao campo da estultice. Contudo, a vida &#224; deriva requisita ancoramentos e far&#243;is que guiem o navegante . E &#233; aqui que a jovem autora opera uma transmuta&#231;&#227;o: a necessidade humana de transcend&#234;ncia &#233; transferida para a rela&#231;&#227;o limerente. Ela cria uma religiosidade privada. O poema declara o objeto limerente como &#8220;&#250;nica cren&#231;a&#8221;. Trata-se de uma religi&#227;o de uma pessoa s&#243;, onde o sagrado &#233; a pr&#243;pria capacidade de sentir intensamente, se este objeto limerente &#233; reposit&#243;rio e espelho. Que os deuses fossem criados &#224; imagem e semelhan&#231;a do homem e da natureza j&#225; lhe era claro nessa &#233;poca. E que os deuses ditam a moralidade humana por meio de sua mitologia tamb&#233;m. Deste modo, o objeto limerente, sacralizado, possibilitou tamb&#233;m a cria&#231;&#227;o de uma moralidade aut&#244;noma. A &#233;tica comportamental deixa de ser um conjunto de regras externas impostas e passa a ser orientada pela fidelidade ao sentimento. O &#250;nico pecado &#233; a trai&#231;&#227;o &#224; pr&#243;pria intensidade.</p><p>H&#225; um verso potente sobre a quebra de normas: </p><p>&#8220;Se desejasse seguir regras, nem saberia. Quais.&#8221;</p><p>Isso refor&#231;a que o sentimento  &#233; instintivo e indom&#225;vel. Ele n&#227;o cabe em manuais ou comportamentos sociais esperados. &#201; uma rebeldia contra a l&#243;gica, o que torna o obst&#225;culo da indiferen&#231;a ainda mais irrelevante para quem ama. E desvela um conflito perfeitamente lembrado por esta autora, j&#225; n&#227;o mais t&#227;o jovem: a culpa pelo tempo dedicado ao imposs&#237;vel; viver mais tempo na imagina&#231;&#227;o do que no real. E o poema opera nesse limiar entre a cren&#231;a e a descren&#231;a, refor&#231;ando o intento de ser plenamente fiel aos sentimentos, talvez mais para si do que para o mundo.</p><p></p><h3><strong>A Espiritualiza&#231;&#227;o do Sentimento</strong></h3><p>O uso de termos como &#8220;&#250;nica cren&#231;a&#8221;, &#8220;prostrada&#8221; e &#8220;arrependida&#8221; retira o amor do campo casual e o coloca no campo do sagrado. E essa manobra era essencial para driblar a pr&#243;pria racionalidade. O &#250;nico &#8220;pecado&#8221; poss&#237;vel, para a jovem autora, n&#227;o &#233; amar demais, mas sim &#8220;n&#227;o dar vaz&#227;o&#8221; ao que sentia.</p><p>Sacralizar o objeto limerente o tornou quase perene. Um artif&#237;cio, um Deus Ex-Machina sacado das coxias para o centro do palco toda vez que a cena amea&#231;a desandar.</p><h3><strong> A Poesia como V&#225;lvula e Documento</strong></h3><p>O poema &#8220;Indiferen&#231;a&#8221; n&#227;o &#233; apenas um lamento rom&#226;ntico; &#233; um Manifesto de Autocria&#231;&#227;o. Ele documenta o momento em que a subjetividade neurodivergente se recusa a ser domada e cria seu pr&#243;prio &#8220;Deus&#8221; &#224; sua imagem e semelhan&#231;a. A limer&#234;ncia, portanto, emerge n&#227;o como um gasto in&#250;til de energia, mas como uma ferramenta de preserva&#231;&#227;o da identidade, permitindo que a beleza e a &#233;tica pessoal sobrevivam intactas em um ambiente hostil.</p><p></p><p><strong>O que voc&#234; leu aqui &#233; parte de um esfor&#231;o cont&#237;nuo para resgatar a dignidade da nossa pr&#243;pria intensidade. A poesia, para mim, sempre foi o &#8220;Deus Ex-Machina&#8221; que salvou a cena quando o mundo real amea&#231;ava desandar.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p> Qual est&#225;tua ou &#8220;objeto&#8221; ajudou voc&#234; a atravessar seus desertos? &#128640;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Ao apoiar financeiramente esta newsletter/site, voc&#234; viabiliza o tempo e as ferramentas necess&#225;rias para que eu transforme essas mem&#243;rias e poemas em teoria e acolhimento para outros.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Exuberância: Autismo, Masking e a Poesia do Anoitecer]]></title><description><![CDATA[Uma reflex&#227;o profunda sobre o poema "Exuber&#226;ncia". Como o anoitecer revela a face por tr&#225;s do masking social e a intensidade da alma neurodivergente.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/exuberancia-autismo-masking-e-a-poesia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/exuberancia-autismo-masking-e-a-poesia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Apr 2026 14:33:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MpXl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Exuber&#226;ncia
</strong>
Aos poucos a luz recua e anoitece
A saudade &#233; lua branca,  lua cheia
Refletida em teus olhos a noite cresce 
Refletida em mim a lua Incendeia
</pre></div><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Na recente incurs&#227;o por esses poemas amorosos, &#224; luz da neurodiverg&#234;ncia, ele trouxe mais do que sinestesia: trouxe lembran&#231;as.</p><p>Mais do que uma met&#225;fora amorosa, o poema carrega a hist&#243;ria de uma adolesc&#234;ncia tomada pelo trabalho e pelo af&#227; da sobreviv&#234;ncia em um mundo nunca talhado para a poeta . Assim, o anoitecer trazia &#8212; e ainda traz &#8212; uma sensa&#231;&#227;o libertadora. As obriga&#231;&#245;es do dia arrefecem com a luz, e a luta cotidiana abre lugar para o descanso. Ainda me &#233; comum procrastinar e sofrer ao longo do dia para sentir, ao cair da noite, uma necessidade de produzir. Algumas vezes essa necessidade vem da culpa; noutras, vem da inspira&#231;&#227;o, como agora. O anoitecer, assim como aqueles olhos escuros que enfunam as velas dos meus pensamentos, traz-me o balan&#231;o de &#225;guas calmas, de luzes macias e acolhimento.</p><p>O inc&#234;ndio que este poema propaga &#233; um inc&#234;ndio benigno, transformador, ou talvez breve demais para deixar a alma mais do que chamuscada enquanto permanece  aquecida por um tempo. &#201;, talvez, o inc&#234;ndio criador da entrega plena ao mundo dos sonhos.</p><p></p><h3>O Fim da M&#225;scara (O Recuo da Luz)</h3><p>De certo modo, para mim, o anoitecer nunca foi sobre o fim do dia, mas sobre o fim do personagem. A &#8220;luz que recua&#8221; &#233; o silenciamento das demandas externas, das ordens, do masking social que eu, como uma adolescente autista n&#227;o diagnosticada, sustentava at&#233; o limite. Quando a luz sa&#237;a de cena, a minha verdadeira vida come&#231;ava. Uma vida embrion&#225;ria, quase inconsciente, nos bra&#231;os de um sonho lindo e acolhedor.</p><p>A suavidade do poema que, na abordagem sinest&#233;sica, tem um sabor que se perde antes de se dar a conhecer, reflete talvez Vinicius de Moraes em seu Poema dos Olhos da Amada:</p><p></p><p></p><p>&#8220;Oh, minha amada </p><p> Que os olhos teus </p><p>S&#227;o cais noturnos </p><p>Cheios de adeus </p><p>S&#227;o docas mansas </p><p>Trilhando luzes </p><p>Que brilham longe </p><p>Longe nos breus...&#8221;</p><p></p><h3><strong>A Geometria do Objeto Limerente</strong></h3><p>Nesse poema, existe uma divis&#227;o espacial muito clara entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;. Nos olhos dele, a Noite reflete a busca por um conforto sensorial e por uma liberta&#231;&#227;o do masking. Ele era o ponto de repouso, um sil&#234;ncio acolhedor e passivo. A &#8220;Lua que Incendeia&#8221; revela o paradoxo da neurodiverg&#234;ncia. Enquanto o mundo via uma adolescente quieta, deitada no escuro de um quarto nos domingos &#224; tarde, por dentro havia um mundo efervescente. A Lua &#8212; o hiperfoco, a adora&#231;&#227;o, a capacidade de criar mundos &#8212; n&#227;o era fria. Ela incendiava o sistema nervoso e constitu&#237;a novas sinapses.</p><h3>A &#8220;Fuga&#8221; que era Funda&#231;&#227;o</h3><p>Muitas vezes me culpei por achar que essas fantasias e o tempo gasto com recortes, revistas e biografias me tiravam da &#8220;vida real&#8221;. Hoje, entendo que essa era a minha autorregula&#231;&#227;o. O poema registra o momento em que eu transformava a saudade &#8220;de tudo que eu ainda n&#227;o vi&#8221;* em mat&#233;ria-prima criativa. Sem esse ponto de fuga, eu teria colapsado ainda na adolesc&#234;ncia. Gra&#231;as a recursos como o objeto limerente, pude me autocriar e chegar &#224; vida adulta... para colapsar aos trinta anos, quando decidi que precisava ser &#8220;normal&#8221;. O poder incendi&#225;rio dessa lua criadora foi sufocado pela rotina e, sem o tempo para me refugiar nessa dimens&#227;o imagin&#225;ria, a realidade bruta me atropelou.</p><p>Exuber&#226;ncia, portanto, n&#227;o &#233; sobre o que se v&#234; por fora. &#201; sobre a voltagem alt&#237;ssima de uma alma que s&#243; encontra paz quando o mundo apaga as luzes e permite que o brilho interno, finalmente, transborde.</p><h6></h6><h6>*Da M&#250;sica Indios da Legi&#227;o Urbana</h6><p></p><div id="youtube2-nM_gEzvhsM0" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;nM_gEzvhsM0&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/nM_gEzvhsM0?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Para mim, a noite &#233; o momento em que a m&#225;scara cai e a exuber&#226;ncia interna finalmente respira. E para voc&#234;? O anoitecer traz esse al&#237;vio ou o sil&#234;ncio ainda &#233; um desafio? <strong>Compartilhe sua experi&#234;ncia nos coment&#225;rios &#8212; vamos trocar percep&#231;&#245;es sobre esse 'transbordar' da alma.</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu Ex-Machina: O Silêncio das Vértebras]]></title><description><![CDATA[Dor, Cria&#231;&#227;o e o Direito ao Recolhimento]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-silencio-das-vertebras-dor-criacao</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-silencio-das-vertebras-dor-criacao</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Apr 2026 22:33:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bEy1!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Ilustra&#231;&#227;o de Helena Queria o chap&#233;u&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Eu ex-machina</strong>

Te rendeste e choras crian&#231;a 
e palavras medidas desfio
Tua dor tanto me alcan&#231;a 
que me inunda como um rio 
Quisera fossem elas o manto 
a dissipar de tua alma ou frio 
Fossem olhar cheio de encanto 
cobrindo te amplo e macio.


</pre></div><p></p><h2>O Sil&#234;ncio For&#231;ado das V&#233;rtebras</h2><p>Escrever sempre foi, para mim, uma tecnologia de regula&#231;&#227;o. Mas o que acontece quando o suporte f&#237;sico &#8212; esse arco que sustenta a cabe&#231;a e as ideias &#8212; decide cobrar um ped&#225;gio impag&#225;vel?</p><p>Estou atravessando uma fase de dor aguda, uma dor tor&#225;cica que n&#227;o aceita negocia&#231;&#245;es, posi&#231;&#245;es de conforto ou paliativos. &#201; uma sensa&#231;&#227;o invasiva, que parece transbordar da coluna para os &#243;rg&#227;os internos, transformando o ato de sentar-se diante do computador em um exerc&#237;cio de resist&#234;ncia que, no momento, n&#227;o posso (e n&#227;o quero) performar.</p><p>Para al&#233;m do f&#237;sico, h&#225; um cansa&#231;o mental que pede o avesso da exposi&#231;&#227;o. O corpo, em sua sabedoria bruta, exige recolhimento. Reclama pelo isolamento, pelo escuro e pelo sil&#234;ncio &#8212; luxos raros em dias de casa cheia e feriados compuls&#243;rios.</p><p>Este &#233; um aviso breve aos navegantes : as postagens e as intera&#231;&#245;es desta semana ser&#227;o diferenciadas. Preciso de uma tr&#233;gua das demandas externas, inclusive das acad&#234;micas que j&#225; n&#227;o ressoam mais em mim, para focar no que &#233; essencial: recuperar a integridade do meu corpo e o sil&#234;ncio da minha mente.</p><p>Aos que acompanham meus processos e minhas buscas entre a poesia e o abismo, agrade&#231;o a paci&#234;ncia. Por ora, minha escrita se volta para dentro. Preciso ser, antes de tudo, meu pr&#243;prio territ&#243;rio de cura.</p><p>O poema que compartilho foi feito na adolesc&#234;ncia, e chamava-se piedade. Decidi renome&#225;-lo para Abyss&#225;lia, pois ele prova que eu produzia meu pr&#243;prio acolhimento, como o fa&#231;o agora.</p><p>Com afeto (e em busca de sil&#234;ncio)</p><p><strong>Oryanna Borges</strong></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Pela integridade do corpo e repouso da mente, farei do sil&#234;ncio minha morada esta semana. Se este espa&#231;o te acolhe de alguma forma, considere apoia-lo compartilhando este texto com quem tamb&#233;m precisa de uma tr&#233;gua.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>