<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Oryanna Borges]]></title><description><![CDATA[Meu próprio mistifório]]></description><link>https://www.oryannaborges.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4mi!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F44503f51-4e8b-4aea-aadb-33b97fb8ff57_256x256.png</url><title>Oryanna Borges</title><link>https://www.oryannaborges.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 30 May 2026 10:57:21 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.oryannaborges.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Oryanna Borges]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[oryannaborges@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Oryanna Borges]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Video hoje, titulos e explicações amanhã.]]></title><description><![CDATA[Boa noite!]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/video-hoje-titulos-e-explicacoes</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/video-hoje-titulos-e-explicacoes</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sat, 30 May 2026 02:55:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/199824447/537068648fab150dc6b4f8dba4f59b91.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Arquitetura Mineral do Encontro: Alquimia, Cognição e o Protocolo Poético de "Engano"]]></title><description><![CDATA[Como a neurodiverg&#234;ncia autista, a psicologia alqu&#237;mica e os marcadores som&#225;ticos ressignificam a engenharia do flerte e da limer&#234;ncia.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-arquitetura-mineral-do-encontro</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 25 May 2026 22:44:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PEnP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O vaso&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/86bb9c1a-1b72-4b4c-aec7-7703e755db0e_2688x4800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Engano </strong>

&#192;  boca o paladar prende teu gosto
O  calor do teu contato dan&#231;a na pele
N&#227;o h&#225; &#225;gua que lave tuas marcas 
Ou fogo que ensinei teus vest&#237;gios 
Da eteridade de minha alma 

A  eternidade que te dei em pensamentos 
Talvez tenha feito indel&#233;vel, teus instantes
E errado a dimens&#227;o dos teus fragmentos
</pre></div><p></p><h2>O Poema como Trabalho de Bancada</h2><p>Escrever poesia sempre foi, para mim, uma opera&#231;&#227;o de bancada. Longe de ser um mero transbordamento, a forma do poema &#233; o microsc&#243;pio com o qual isolo, disseco e reorganizo os tecidos mais densos da experi&#234;ncia humana. No labirinto da cogni&#231;&#227;o autista, onde o tecido social implicitado se apresenta inicialmente como uma massa confusa &#8212; um bombardeio ca&#243;tico de microexpress&#245;es, duplos sentidos e ru&#237;dos &#8212;, a cria&#231;&#227;o po&#233;tica surge como um imperativo de sobreviv&#234;ncia e uma ci&#234;ncia intuitiva. O poema &#8220;Engano&#8221; &#233; o registro protocolar desta ci&#234;ncia.</p><p>Como muitos outros no calhama&#231;o impresso chamado &#8220;Retrato das Sombras&#8221;  o poema est&#225; blocado. E contar os oito versos trouxe a epifania do dia: um espalhafato de ideias arborecendo para todos os lados. Est&#233;tica. Forma. Escans&#227;o. Neuroci&#234;ncia. Alquimia. Limer&#234;ncia. Metacogni&#231;&#227;o!</p><p>Se escrev&#234;-lo, no passado, foi uma disseca&#231;&#227;o operacionalizada de forma rudimentar e intuitiva, analis&#225;-lo hoje &#233; uma opera&#231;&#227;o muito sofisticada e melhor suprida. Tanto que sua pr&#243;pria anatomia revela, quase de imediato, n&#227;o s&#243; os m&#233;todos de investiga&#231;&#227;o, mas as muitas camadas de significado que o tempo agregou a este protocolo.</p><p></p><h3>O Veredito Sensorial e a Cristaliza&#231;&#227;o do Fragmento</h3><p>Diante do meu aparato cognitivo atual, o poema estrutura-se claramente em uma m&#233;trica de oito versos, dividida rigorosamente em duas fases: um bloco inicial de cinco versos e um desfecho de tr&#234;s. Os primeiros cinco versos operam como o levantamento de dados e o veredito sensorial. &#201; o registro do auge do estado limerente, conforme conceituado por Dorothy Tennov: a fixa&#231;&#227;o absoluta do pensamento, a imanta&#231;&#227;o dopamin&#233;rgica do paladar e do calor que &#8220;dan&#231;a na pele&#8221;.</p><p>Nesse territ&#243;rio do flerte e do cortejo amoroso, o c&#233;rebro opera sob uma lente hiperfocalizada. Um gesto sutil, um fragmento de segundo que passaria despercebido por metade de uma sala socialmente t&#237;pica, &#233; capturado pela minha percep&#231;&#227;o e submetido ao que Stendhal chamou de <em>cristaliza&#231;&#227;o</em>. Na &#243;tica de Stendhal, a mente do amante age como um galho seco lan&#231;ado nas minas de sal de Salzburg: ap&#243;s um per&#237;odo de recolhimento, o galho emerge recoberto por infinitos cristais cintilantes. O objeto original &#8212; a pessoa real &#8212; desaparece sob a joia monumental esculpida pela imagina&#231;&#227;o. Eu herdo o fragmento e devolvo um universo em forma de cinco versos.</p><p></p><h3>A Economia do Sistema e a Engenharia do Cortejo</h3><p>A import&#226;ncia de &#8220;Engano&#8221; reside na raz&#227;o pela qual essa informa&#231;&#227;o espec&#237;fica &#233; retida pela minha psique em forma de poesia. Meu sistema nervoso, ao longo da vida, aprendeu a ser um administrador espartano de energia. Em per&#237;odos de grande tens&#227;o emocional ou sobrecarga traum&#225;tica, meu c&#233;rebro simplesmente desliga a grava&#231;&#227;o dos dados n&#227;o essenciais; da&#237; decorrem os meus densos <em>gaps</em> de mem&#243;ria, o apagamento de fases inteiras da inf&#226;ncia. Se o sistema operava no limite, o sup&#233;rfluo era incinerado.</p><p>Mas o aprendizado do flerte n&#227;o era sup&#233;rfluo; era a chave para a minha autonomia. Para navegar em um mundo cujos c&#243;digos n&#227;o me foram dados por instinto, eu precisei decifrar a engenharia do encontro. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes: <em>&#8220;A vida &#233; a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida&#8221;</em>. E a adolesc&#234;ncia &#233; a fase na qual aprender a din&#226;mica do encontro amoroso &#233; um ritual de passagem. Por isso, essa mem&#243;ria n&#227;o p&#244;de ser apagada. Ela precisou passar por uma transmuta&#231;&#227;o que James Hillman detalha em sua <em>Psicologia Alqu&#237;mica</em>.</p><h3>A Calcina&#231;&#227;o do Ru&#237;do e a Fixa&#231;&#227;o pelo Sal</h3><p>Para Hillman, os processos da alma se valem de subst&#226;ncias e fogos invis&#237;veis. Mesmo sem saber sobre alquimia na &#233;poca, evoquei intuitivamente os conceitos hillmanianos de <em>Calcina&#231;&#227;o</em> e <em>Salifica&#231;&#227;o</em>. O fogo m&#237;stico da  aten&#231;&#227;o queimou o ru&#237;do mundano daquela intera&#231;&#227;o para extrair sua estrutura mineral mais pura. Em seguida, o Sal agiu como o princ&#237;pio da <em>Fixatio</em> (Fixa&#231;&#227;o): ele conferiu densidade, peso e perenidade &#224;quele instante vol&#225;til. Ao fixar o fragmento atrav&#233;s do sal alqu&#237;mico, transformei o evento bruto em um saber arquet&#237;pico, um c&#243;digo ancestral pass&#237;vel de se integrar &#224; minha base de dados biol&#243;gica e cultural. Compreender a mec&#226;nica do flerte foi o que me permitiu ler o mundo, conquistar autoconfian&#231;a e ocupar o meu lugar de direito na vida .</p><p>&#201; preciso esclarecer que este poema &#233; fruto de uma experi&#234;ncia real. O amor limerente era minha salvaguarda, e o encontro amoroso real  era um empreendimento pr&#225;tico, no sentido de suprir necessidades muito b&#225;sicas, como a seguran&#231;a em um mundo hostil para com as mulheres. Portanto, &#8220;Engano&#8221; &#233; um registro do jogo amoroso no campo pr&#225;tico. Ele aborda um processamento cognitivo amparado em fatos reais, e n&#227;o em meras sensa&#231;&#245;es dopamin&#233;rgicas causadas pela limer&#234;ncia no ambiente controlado da imagina&#231;&#227;o.</p><p>Suponho que isso revele, sim, uma preced&#234;ncia da raz&#227;o em rela&#231;&#227;o &#224; emo&#231;&#227;o, como sempre presumi em minha jovem percep&#231;&#227;o dualista. Mas esta preced&#234;ncia da raz&#227;o tamb&#233;m revela um tra&#231;o cognitivo t&#237;pico de quem precisa operacionalizar todo o seu processamento sensorial e cerebral de forma consciente.</p><h3>O Rec&#225;lculo Homeost&#225;tico e a Auditoria dos Marcadores Som&#225;ticos</h3><p>&#201; o estresse do organismo em um esfor&#231;o descomunal que resulta nos tr&#234;s versos finais do poema. No terceto final, eis a interfer&#234;ncia daquilo que convencionei chamar de raz&#227;o, mas que a neuroci&#234;ncia hoje chama de metacogni&#231;&#227;o. A experi&#234;ncia vivida &#233; submetida ao escrut&#237;nio de um outro tipo de pensamento &#8212; uma consci&#234;ncia &#224; parte que analisa o sentir e o pensar, e o narra, &#224;s vezes em prosa, &#224;s vezes em verso.</p><p>O eu-l&#237;rico afasta-se da bancada, limpa as lentes do microsc&#243;pio e lan&#231;a uma d&#250;vida razo&#225;vel sobre a sua pr&#243;pria an&#225;lise comovida e afetada (ou, como diriam hoje os navegantes da web, &#8220;emocionada&#8221;). O &#8220;talvez&#8221; final &#233; o c&#243;rtex pr&#233;-frontal avaliando o erro de predi&#231;&#227;o gerado pelo sistema l&#237;mbico. O terceto final &#233; um rec&#225;lculo. E &#233; tamb&#233;m uma epifania: o momento em que a consci&#234;ncia percebe que a eternidade n&#227;o pertencia ao outro, mas foi um dote real conferido por ela mesma.</p><p>Na neuroci&#234;ncia de Ant&#243;nio Dam&#225;sio, compreendemos como os marcadores som&#225;ticos &#8212; as respostas corporais como o gosto na boca e o calor na pele &#8212; guiam as nossas tomadas de decis&#227;o e as nossas percep&#231;&#245;es de valor. Nos tr&#234;s versos finais, o poema encena uma auditoria desses marcadores. Eu n&#227;o sou mais a v&#237;tima passiva do feiti&#231;o dopamin&#233;rgico; sou a cientista que compreende que o feiti&#231;o foi fabricado em meu pr&#243;prio laborat&#243;rio.</p><p>Arribar &#224; d&#250;vida, portanto, n&#227;o &#233; uma fraqueza cognitiva; na neurodiverg&#234;ncia autista, a d&#250;vida &#233; o &#225;pice da sofistica&#231;&#227;o mental. Significa que o vaso alqu&#237;mico foi fechado com sucesso, a experi&#234;ncia foi destilada, e o &#8220;engano&#8221; j&#225; n&#227;o &#233; um erro, mas a mat&#233;ria-prima transmutada em autoconhecimento, arte e, acima de tudo, liberdade.</p><p></p><p>Mas falaremos mais disso no texto de quinta-feira.</p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Seu apoio pago garante que eu possa continuar calcinando o ru&#237;do do mundo e transmutando-o em autoconhecimento, arte e liberdade.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Hiperfoco Emocional e Autismo: O Poema como Autodefesa]]></title><description><![CDATA[Uma investiga&#231;&#227;o profunda sobre o hiperfoco emocional na adolesc&#234;ncia autista, a din&#226;mica do amor limerente e a escrita como territ&#243;rio de sustenta&#231;&#227;o do eu]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/hiperfoco-emocional-e-autismo-o-poema</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/hiperfoco-emocional-e-autismo-o-poema</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 May 2026 14:33:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-lkg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Gastando as tintas para parecer menos cansada &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Retrato em close de Oryanna Borges olhando fixamente para a c&#226;mera. Ela tem cabelos pretos bem curtos e olhos verdes expressivos, ilustrando a presen&#231;a e a intensidade do ensaio liter&#225;rio&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49d2ea52-1371-472f-9c0b-5952973d3fba_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h2>O Poema como Trincheira: Hiperfoco, Autismo e a Defesa do Sentir</h2><p></p><p>Ontem, o texto foi sobre o hiperfoco em processos criativos &#8212; aquela imers&#227;o absoluta que, embora produtiva, pode ser dolorosa e complexa. Hoje, ao revisitar um poema que escrevi entre os meus 14 e 20 anos, percebo que ele &#233; um registro f&#243;ssil desse mesmo mecanismo, mas aplicado ao campo minado do sentimento.</p><p>O poema se chama <strong>&#8220;Sentir&#8221;</strong>.</p><blockquote><p><em>Esse meu defeito de sentir intensamente</em> </p><p><em>fez de alguns beijos uma tortura</em> </p><p><em>de frouxos abra&#231;os, pris&#227;o permanente</em> </p><p><em>e de instantes, recorda&#231;&#227;o que perdura.</em></p><p></p><p><em>Esse meu defeito deu profundidade</em> </p><p><em>a gestos imprevistos ou premeditados </em></p><p><em>a atitudes de explicita vaidade;</em></p><p><em>deu verdade a discursos infundados.</em></p><p></p><p><em>Mas &#233; meu jeito de viver intensamente. </em></p><p><em>E posso afirmar, sentindo desse modo,</em> </p><p><em>que ningu&#233;m vive de fato o que n&#227;o sente.</em></p></blockquote><p></p><h3>A Escrita como Sustenta&#231;&#227;o do Eu</h3><p>Olhando para tr&#225;s, vejo esse poema como um documento de autodefesa. E um documento de processo criativo, pois claramente ele foi planejado como um soneto, mas o assunto se esgotou no &#250;ltimo terceto. Revisitar estes poemas sempre traz a surpresa da forma, pois boa parte est&#225; blocada na impress&#227;o. E a forma que se revela desvela um intento e uma pressa, ou uma efetividade de processamento; ou mesmo uma objetividade comunicativa que n&#227;o admite floreios.</p><p>O sentir e o sentimento abordados nessa forma, na adolesc&#234;ncia, especialmente para uma pessoa autista, n&#227;o s&#227;o uma &#8220;paixonite&#8221; ou uma atra&#231;&#227;o passageira; &#233; uma possess&#227;o. &#201; um arrebatamento que exige uma leitura simult&#226;nea e imposs&#237;vel: tentar decifrar o pr&#243;prio corpo, a ansiedade e as rea&#231;&#245;es sensoriais, ao mesmo tempo em que se tenta ler o outro e o mundo ao redor.</p><p>E h&#225; um agravante nesse sentir intensamente: minhas manifesta&#231;&#245;es de afeto, desde a inf&#226;ncia, raramente eram bem recebidas. Talvez por serem inoportunas ou por n&#227;o seguirem os protocolos sociais, eu n&#227;o sei precisar. Lembro de uma experi&#234;ncia que cravou o sentimento de rejei&#231;&#227;o no espectro rom&#226;ntico do sentir, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos. Sim, a empreitada rom&#226;ntica na vida das meninas come&#231;a cedo.</p><p>Lembro desses garotos na sala de aula passando entre as fileiras de carteiras e arrogantemente apontando para as meninas em uma vers&#227;o revisitada de bem-me-quer-mal-quer: <em>bonita-feia-feia-bonita-feia-bonita</em>. Estava quase me despetalando sozinha quando ouvi &#8220;bonita&#8221; na minha vez. N&#227;o olhei para o dedo apontando para mim, mas intimamente agradeci. Mais tarde naquele mesmo dia, os mesmos meninos me cercaram para zombar de um de seus colegas que me achava particularmente bonita. E, segundo eles, o garoto queria falar comigo. O meu admirador n&#227;o mais secreto parecia mais encabulado do que eu e n&#227;o me pareceu adequado falar com ele diante de seus colegas zombeteiros. Ent&#227;o, gaguejando, por&#233;m resoluta, disse:</p><p>&#8212; T&#225;. Podemos falar l&#225; fora, no port&#227;o, na hora da sa&#237;da.</p><p>Ele desconversou. Os meninos riram e ele se juntou aos amigos na zombaria, aliviado de ter sa&#237;do da condi&#231;&#227;o de objeto de tro&#231;a. Eu vesti a carapu&#231;a e sei que a usei por muito tempo.</p><p>Esse epis&#243;dio demarcou um momento traum&#225;tico para mim, que morria de vergonha de ser vista, especialmente vista como chacota. E o monstro em mim, j&#225; bem desenvolvido, sabia-se indigno de afeto, de modo que at&#233; ter sido considerada bonita por eles perdeu seu valor. Nessa &#233;poca, Ika, minha irm&#227; tr&#234;s anos mais velha, j&#225; trocava beijos molhados entre os muros da escola, &#224;s vezes sob aplausos de uma multid&#227;o, em uma esp&#233;cie de jogo que nunca compreendi. Nesse momento eu entendi que n&#227;o saberia nem seria considerada merecedora de jogar esse jogo. E cresci com o receio de que demonstrar o que sentia era a certeza de algo que incomodaria as pessoas ou se viraria contra mim.</p><p>A escrita surgiu, ent&#227;o, para sustentar a minha intensidade e o meu direito de sentir e expressar esse sentir.  O que o mundo lia do lado de fora como &#8220;inadequado&#8221; ou &#8220;excessivo&#8221;, minha poesia trabalhava para  validar como parte integrante de quem eu sou. Se o mundo tentava tornar esse aspecto sombrio e inaceit&#225;vel, eu me juntava aos aspecto sombrio e inaceit&#225;vel  atrav&#233;s das palavras, talvez por ter percebido que n&#227;o poderia vence-lo. Era minha natureza. </p><p></p><h3>O Real vs. O Limerente</h3><p>Durante mais de 40 anos, vivi duas vidas. No mundo real, busquei a racionalidade e a praticidade. Tive relacionamentos que atendiam a necessidades de valida&#231;&#227;o e blindagem social; la&#231;os constru&#237;dos sobre objetivos espec&#237;ficos para navegar em uma sociedade que eu n&#227;o compreendia plenamente.</p><p>Mas, paralelamente, exi<strong>stia o objeto limerente.</strong></p><p>Enquanto os relacionamentos reais eram terrenos de interpreta&#231;&#245;es err&#244;neas e respostas biol&#243;gicas confusas, o objeto limerente funcionava como meu farol na<strong> </strong>escurid&#227;o, meu porto seguro em uma deriva existencial. Se um hiperfoco em um projeto criativo pode nos consumir por semanas, imagine a magnitude de uma devo&#231;&#227;o que atravessa trinta anos de  uma vida.</p><h3>A Verdade da Intensidade</h3><p>Hoje, o diagn&#243;stico de autismo justifica o que eu n&#227;o conseguia controlar: essa voltagem extrema do sentir, do pensar e do perceber; ou do n&#227;o perceber. O poema &#8220;Sentir&#8221; foi meu primeiro passo para assumir que n&#227;o existe vida real sem a verdade do sentimento, por mais &#8220;defeituoso&#8221; que ele pare&#231;a aos olhos de quem prefere os abra&#231;os frouxos.</p><p>Ao final, se n&#227;o podemos conter a mar&#233; da nossa pr&#243;pria intensidade, que possamos ao menos aprender a nadar nela &#8212; e, de prefer&#234;ncia, transform&#225;-la em arte.</p><p></p><h4 style="text-align: center;">Gostou desta reflex&#227;o?</h4><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se este texto tocou em alguma mem&#243;ria sua sobre intensidade ou inadequa&#231;&#227;o, deixe seu coment&#225;rio abaixo. N&#227;o se esque&#231;a de assinar para acompanhar nossos ensaios semanais sobre arte, neurodiverg&#234;ncia e os labirintos do sentir.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Hiperfoco como Matéria Incandescente: Entre a Potência e o Pedágio do Corpo ]]></title><description><![CDATA[O que acontece quando a mente incendeia a mat&#233;ria? Um relato visceral sobre o hiperfoco autista no processo criativo, a exaust&#227;o f&#237;sica e a arte interdisciplinar. E um clipoema.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-hiperfoco-como-materia-incandescente</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-hiperfoco-como-materia-incandescente</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 May 2026 22:02:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-video.s3.amazonaws.com/video_upload/post/198760475/6dbf73e0-168a-4a55-a33f-947ee52418ad/transcoded-00152.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1>O Hiperfoco como Mat&#233;ria Incandescente: Entre a Pot&#234;ncia e o Ped&#225;gio do Corpo</h1><p>Nos &#250;ltimos dez ou &#8230;quatorze dias me deparei, talvez pela primeira vez em toda a sua crueza, com a pot&#234;ncia real do que &#233; um hiperfoco. Hoje em dia, as pessoas banalizam o termo; usam-no para qualquer interesse moment&#226;neo. Mas o hiperfoco para um neurodivergente, especificamente para uma pessoa autista, n&#227;o &#233; um hobby: &#233; uma for&#231;a da natureza que nos habita e, por vezes, nos devora.</p><p>Eu preciso falar sobre isso porque passei a vida adiando, procrastinei deliberadamente projetos que eu desejava realizar por um medo visceral da entrega. Eu sabia o quanto eu iria negligenciar meu corpo; o quanto eu esqueceria da dor, ignoraria os limites f&#237;sicos e me dedicaria a um ponto onde nada mais existe al&#233;m do objeto de interesse. E foi exatamente isso que vivi nestas &#250;ltimas semanas.</p><h3>O Paradoxo da Carne e do Esp&#237;rito</h3><p>Este projeto atual surgiu de forma intuitiva, profundamente conectado &#224; minha escrita e ao meu momento de vid&#8230;</p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/o-hiperfoco-como-materia-incandescente">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Peso das Ideias e a Dor do Hiperfoco: Um Relato Poético]]></title><description><![CDATA[Um mergulho na rela&#231;&#227;o entre a mente autista, a hipermobilidade f&#237;sica e o nascimento de uma ideia maravilhosa atrav&#233;s da dor.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-peso-das-ideias-e-a-dor-do-hiperfoco</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-peso-das-ideias-e-a-dor-do-hiperfoco</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 19 May 2026 02:01:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CQ8q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6544afd-4a4a-47c0-9357-bc4956face25_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f6544afd-4a4a-47c0-9357-bc4956face25_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f6544afd-4a4a-47c0-9357-bc4956face25_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2>O Peso das Ideias e a Gra&#231;a do Amanh&#227;</h2><p>Estes &#250;ltimos seis dias foram uma batalha entre uma ideia maravilhosa e uma dor infernal. E isso quase comprometeu minha entrega de hoje para voc&#234;, caro leitor. Mas c&#225; estou, gra&#231;as &#224; indesej&#225;vel resist&#234;ncia aos benzodiazep&#237;nicos, que j&#225; n&#227;o me derrubam mais em horas de sono involunt&#225;rio.</p><p>Para quem me l&#234;, o que se segue agora talvez pare&#231;a apenas um texto, mas estas palavras foram ditadas no escuro, de olhos fechados, enquanto eu tentava negociar com uma enxaqueca que decidiu cobrar o pre&#231;o do meu entusiasmo. Ditei para a IA, cerca de tr&#234;s horas atr&#225;s, o que havia compreendido ser o post de hoje: uma invers&#227;o da nossa rotina. Desta vez, o texto precisa vir primeiro, pelo que tem a comunicar e pelo que &#233;: precursor de uma releitura cat&#225;rtica de um poema escrito aos vinte anos, que fala de amor, mas n&#227;o do tema de nossas recentes incurs&#245;es amorosas. Foi escrito para uma de minhas irm&#227;s quando moramos juntas, em meus exatos vinte anos de idade.</p><p>Hoje, o poema embalou o choro que trouxe al&#237;vio ao meu corpo paradoxal: uma m&#225;quina hiperm&#243;vel que, para conseguir se manter em p&#233; sob os desafios cognitivos do autismo e as tens&#245;es da vida, acaba se enrijecendo. O trap&#233;zio vira ferro, a cervical vira pedra, os discos intervertebrais inflamam. E mesmo quando o corpo faz exig&#234;ncias e chora de desespero e dor, a mente comemora. O hiperfoco &#233; um tipo de amor devoto que ignora o limite da carne para ver a obra nascer.</p><p>E a obra que est&#225; nascendo pode fazer nascer asas nesses trap&#233;zios castigados, como se uma horda de seres trevosos tivesse pousado sobre mim para me impedir. Mas eu tenho a palavra para transpor abismos. E diz alguma lenda antiga que pessoas com pintas do lado da boca n&#227;o falam: elas decretam. Acreditemos! &#201; necess&#225;rio para suportar o peso do mundo nas costas at&#233; daqui a pouco. Quando o rel&#243;gio bater meia-noite, Cinderela para sempre!</p><p>E assim, nesse esp&#237;rito de quem se agarra a sonhos e deuses desacreditados, fa&#231;o do poema de hoje o testemunho dessa resist&#234;ncia. &#201; dedicado a voc&#234;, leitor, mas tamb&#233;m &#224; Oryanna que aguentou o peso do mundo nas costas hoje, para que a Oryanna de amanh&#227; possa acordar relaxada, com o projeto pronto e a alma leve.</p><p>Fecho este ciclo com um lembrete de que, apesar da dor, a exist&#234;ncia &#233; uma celebra&#231;&#227;o cont&#237;nua:</p><p></p><p><strong>Comemora&#231;&#227;o</strong></p><p><br><br>Hoje n&#227;o &#233; o seu dia, pois todos os dias s&#227;o seus. <br><br>Se no fundo do seu ser t&#227;o imenso voc&#234; chora, <br><br>saiba que meu cora&#231;&#227;o, muito alegre, comemora, <br><br>pois voc&#234;, como os dias, &#233; uma gra&#231;a vinda de Deus.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Gostou do texto?</strong> Criar  exige alma, mas &#224;s vezes cobra no trap&#233;zio. Se este post te tocou, considere apoiar meu trabalho. Em vez do tradicional cafezinho  voc&#234; pode <strong>patrocinar a minha pr&#243;xima Naratriptana</strong>.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Investigação": A Decodificação Analítica do Olhar Neurotípico Por Meio da Poesia]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise fenomenol&#243;gica profunda sobre o esfor&#231;o cognitivo autista no processamento social.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 15 May 2026 22:22:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vzmz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Aos 20, com meu corte de cabelo coreano &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68961056-5c33-4e86-bccd-3af587bbaf1e_4640x3488.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Investiga&#231;&#227;o</strong>

Teus olhos doces, envolventes, vivazes

&#192; natural ingenuidade dos meus

Fazem-se m&#225;gicos, penetrantes, audazes

E em instantes alternados dizem adeus.


Teus olhos r&#237;spidos, intranspon&#237;veis, opacos

&#192; natural curiosidade dos meus

Fazem-se distantes, indistintos, fora de foco

E em instantes alternados dizem-me adeus.


Teus olhos ferinos, embora mansos, mentem

Tento distinguir se tenho-os nos meus

Se a inj&#250;ria de iludir-me cometem

Quando em mim se esquecem ou dizem-me adeus.</pre></div><h1>A Decodifica&#231;&#227;o do Olhar Neurot&#237;pico</h1><p>Este poema parece apenas um poema de amor. Ou de flerte. Mas &#233; um registro fenomenol&#243;gico e semi&#243;tico do esfor&#231;o de processamento social para uma mente autista. Eu creio que j&#225; tinha uns 20 anos, se minha mem&#243;ria n&#227;o me trai. J&#225; havia tentado escapar do amor limerente pelo &#250;nico objeto de devo&#231;&#227;o da vida inteira. J&#225; tinha em meu curr&#237;culo um relacionamento real de 4 anos, finalizado. Este poema marca meu retorno ao mercado amoroso. Mas o esfor&#231;o que o poema relata n&#227;o era uma renova&#231;&#227;o de votos com a busca da felicidade. O que parece o lirismo amoroso tradicional, na verdade, &#233; um relat&#243;rio de campo. O eu l&#237;rico atua como um observador anal&#237;tico que tenta decodificar, de forma manual e consciente, as pistas visuais e comportamentais do interlocutor &#8212; elementos que, na popula&#231;&#227;o neurot&#237;pica, s&#227;o processados de modo intuitivo e automatizado.</p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/investigacao-a-decodificacao-analitica">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Iceberg da Misoginia: Gaslighting e Controle em Coliving]]></title><description><![CDATA[Um relato sobre os mecanismos invis&#237;veis de controle do feminino e de silenciamento das mulheres.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-iceberg-da-misoginia-gaslighting</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-iceberg-da-misoginia-gaslighting</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 12 May 2026 14:33:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IImw!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa9240893-458a-4df8-9ef5-7d9ec359fc3e_735x1040.jpeg 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Ou ris&#237;vel, quando invade as redes sociais por meio de <em>coaches</em> que desafiam a l&#243;gica e a hist&#243;ria para pregar sobre comportamento masculino e &#8220;mulheres de valor&#8221;. Isso nos faz enxergar a ponta do iceberg e nunca atentar para o tamanho do obst&#225;culo prestes a nos destro&#231;ar a qualquer momento.</p><p>O tipo de &#243;dio &#224;s mulheres que culmina em atos violentos e discursos mis&#243;ginos come&#231;a de forma muito sutil, entranhado na linguagem cotidiana. E a pior parte &#233; que &#233; realmente ensinado por autoridades na vida dos filhos: os pais. Ambos, no caso. Seja por a&#231;&#227;o direta ou omiss&#227;o, a responsabilidade parental &#233; compartilhada.</p><p>O silenciamento e a desumaniza&#231;&#227;o das mulheres come&#231;am quando sua autoridade ou suas reivindica&#231;&#245;es s&#227;o minadas  por meio de apontamentos que nada t&#234;m a ver com a quest&#227;o em si. Estes apontamentos desviam do assunto atentando para  a hora impr&#243;pria para discuti-lo (etiqueta), e o tempo usado para faz&#234;-lo (Sem &#225;udios longos, Oryanna). E, por fim, um transgressor reincidente encerra a discuss&#227;o pois ele j&#225; pediu desculpas e isso &#233; suficiente. Ele n&#227;o precisa entender que agiu errado nem se comprometer a n&#227;o errar de novo. Ele j&#225; pediu desculpas e est&#225; na hora de encerrar o assunto, pois a interlocutora j&#225; quebrou todos os protocolos de etiqueta e extrapolou em muito seu limite de tempo, magnanimamente concedido. E ela silencia, um estranhamento a contorcer-se nas entranhas, sem se dar conta dos mecanismos de controle a ela aplicados.</p><p></p><h3><strong>A Misoginia &#233; ensinada</strong></h3><p>O estarrecedor &#233; quando esses comportamentos s&#227;o lidos em um jovem de 18 anos, afeito a desviar-se da responsabilidade apontando a quebra de decoro da sua interlocutora .  Uma quebra de decoro, se existente, &#237;nfima perto da quebra de regras claras, de cujo cumprimento depende o bem-estar coletivo. E quando o mecanismo de <em>gaslighting</em> &#233; dissecado e levado ao conhecimento paterno, percebe-se que os discursos de ambos est&#227;o perfeitamente alinhados:</p><p>&#8220;Oryanna, acho que meu filho deve melhorar o conv&#237;vio e os afazeres. &#201; dever e cobramos isso dele. </p><p>Acho que voc&#234; tamb&#233;m pode levar as coisas menos a ferro e fogo e com menor senso de urg&#234;ncia. Pe&#231;o que alinhe esses assuntos com a m&#227;e dele. </p><p>Eu j&#225; havia pensado que aconteceu alguma coisa, um acidente, coisa assim. </p><p>Acho que ambos viver&#227;o melhor se cada um evoluir um pouquinho e respeitar as limita&#231;&#245;es do outro. </p><p>Mas novamente, vamos cobrar evolu&#231;&#227;o dele. </p><p>N&#227;o consigo ouvir seu &#225;udio agora, normalmente n&#227;o ou&#231;o &#225;udios longos, &#224; noite ent&#227;o, se eu ouvir n&#227;o durmo. Espero que tenha desabafado... </p><p>Boa noite, releva algumas coisas... Faz bem pra todo mundo.&#8221;</p><p>Quando foi que a falta de respeito de educa&#231;&#227;o do filho dele se transformou em um defeito da minha  personalidade? Da minha &#237;ndole? Quando foi que a cobran&#231;a do cumprimento de regras simples de conviv&#234;ncia que todo mundo cumpre, menos o moleque, se tornou uma rigidez minha? Quando foi que eu dei a este sujeito a liberdade de determinar como devo me portar e gerenciar minha pr&#243;pria casa? Nunca. Ele jura que nasceu com esse direito de deslegitimar a reclama&#231;&#227;o factual, transformando-a em desabafo. Um desabafo que ele n&#227;o se dar&#225; ao trabalho de ouvir porque vai lhe tirar o sono. Eu posso perder o sono lidando com os abusos do filho dele, mas ele n&#227;o precisa. Por sinal, devo alinhar esses assuntos com a m&#227;e. Ele paga a pens&#227;o e ensina o filho como destruir o psicol&#243;gico de uma mulher, e a m&#227;e que lide com os resultados disso. Porque sim, na an&#225;lise do discurso, o dele e o do filho s&#227;o iguais. Como se tivessem combinado na hora que levei entre a reda&#231;&#227;o de tr&#234;s textos descartados e a escolha do &#225;udio como meio de comunica&#231;&#227;o.</p><p></p><h3><strong>A Escalada: Da Manipula&#231;&#227;o &#224; Amea&#231;a F&#237;sica</strong></h3><p>E a comunica&#231;&#227;o do moleque escalou em tr&#234;s meses. Ele era um bom ouvinte, disposto a se adaptar. E eu disposta a trat&#225;-lo como adulto. Quando ele, nas palavras do pai, &#8220;teve uma reca&#237;da&#8221; e passou de prot&#243;tipo de adulto funcional a moleque, e isso teve que ser levado ao conhecimento dos pais, o <strong>gaslighting</strong> come&#231;ou. E antes das perguntas invasivas, teve a viol&#234;ncia f&#237;sica. Aquela que n&#227;o atinge o corpo, mas foi talhada para quebrar a alma. Depois da bronca dos pais, ele se deu ao direito de ficar &#8220;muito puto&#8221; e me confrontar aos berros exigindo que o  assistisse a escovar os dentes para provar que a cusparada de pasta de dente na pia n&#227;o era sua marca pessoal, diariamente retificada.  O motivo dele ficar &#8220;muito puto&#8221;? Instru&#231;&#245;es gerais de limpeza que sugeriam o uso do sabonete l&#237;quido e uma esponja espec&#237;fica pendurada do lado do espelho, para limpeza ap&#243;s o uso, caso necess&#225;rio. Aviso geral, sem nomes. Mas o suficiente para ele ficar &#8220;muito puto" e, diante da minha recusa em assistir sua performance descabida, me impediu de entrar em meu quarto empurrando a porta, que eu tentava fechar.  Cerca de 90 quilos em 1,85 metros de pura f&#250;ria e determina&#231;&#227;o, entre mim e a porta. Eu, que j&#225; vivi cenas de portas arrombadas, m&#243;veis quebrados no chute, passei por isso e os pais acharam normal. </p><p>Este pai, principalmente, n&#227;o s&#243; achou normal o comportamento do filho como aparentemente ensinou t&#233;cnicas de controle. Quando um garoto de 18 anos, com tend&#234;ncias a regredir comportamentalmente aos cinco diante de uma lou&#231;a suja, para do seu lado e pergunta do nada &#8220;E a senhora, n&#227;o se relaciona?&#8221;, h&#225; a&#237; um julgamento e uma invas&#227;o; quando na semana seguinte ele repete a cena e pergunta &#8220;H&#225; quanto tempo a senhora n&#227;o sai de casa?&#8221;, h&#225; um m&#233;todo. E eu n&#227;o lembro o que respondi da primeira vez, mas da segunda eu pensei longamente e respondi honestamente:  tr&#234;s semanas. </p><p>Eu sou autista. Tenho um inc&#244;modo permanente em forma de gente dentro de casa, por que eu sairia, se h&#225; mais gente l&#225; fora? Essa pergunta eu n&#227;o fiz a ele, claro. Me limitei &#224; resposta direta enquanto meu pensamento arborescia, processando o tom de julgamento, o prop&#243;sito, o padr&#227;o e situa&#231;&#245;es relacionadas. Mas deixo esta pergunta  para voc&#234;, leitor.</p><p>Eu, ocasi&#227;o da pergunta,   me debatia com a ci&#234;ncia de que esse tipo de questionamento, mais do que um julgamento, traz um veredito machista: uma mulher que n&#227;o sai, n&#227;o se relaciona, &#233; uma mulher amarga, mal amada. Claro, se ela sa&#237;sse e se relacionasse seria uma puta a quem este pai n&#227;o confiaria seu filho, a n&#227;o ser para coisas para as quais servem as putas em seu diminuto mundo.  Mas sendo uma mulher amarga e mal amada, esta j&#225; &#233; uma mulher cuja autoridade, dentro da pr&#243;pria casa, pode ser deslegitimada por t&#225;ticas mais antigas do que andar para a frente; esse perfil tra&#231;ado ou confirmado nessas perguntas do moleque fez um homem adulto criar o discurso determinando como devo me portar, ressaltando justamente minha rigidez, falta de leveza e tend&#234;ncia ao erro como qualquer vivente. N&#227;o importa se o que est&#225; em quest&#227;o s&#227;o combinados de conviv&#234;ncia muito claros cujo n&#227;o cumprimento afeta outras pessoas. O que importa &#233; que eu n&#227;o estou agindo com a leveza conveniente para dois machos disfuncionais.</p><p></p><h3><strong>O Ultimato e o Anjo Azul da Vingan&#231;a</strong></h3><p>E assim, o rapazote, depois que eu &#8212; culpem a rigidez (cognitiva) ou o hor&#243;scopo, como quiserem &#8212; provei que ele mentia e me fiz ouvir pela m&#227;e, veio com outra retalia&#231;&#227;o presumida e verbalizada para ela, que convenientemente n&#227;o entendeu que a conversa desastrosa com o pai resultara em um pedido de que o filho  buscasse outro lugar para viver, e insistiu em sistemas de monitoria di&#225;ria do comportamento e desempenho dele, me deixando sem outra op&#231;&#227;o sen&#227;o aceitar sua perman&#234;ncia. Diante do aviso de que ele retaliaria, seguindo o padr&#227;o j&#225; detectado,  ela se limitou a informar que se ele chegasse de cara feia era pra avisar imediatamente.</p><p>Ele, que passara a noite fora, chegou por volta de meio-dia, enquanto eu redigia uma carta para a m&#227;e explicando que n&#227;o poderia permanecer com ele. Eu havia deixado claro no &#225;udio que eu n&#227;o havia assumido a fun&#231;&#227;o de maternar o filho deles. E mesmo por escrito ela ignorara, insistindo em um arranjo muito mais favor&#225;vel para ela do que para mim.  Como se n&#227;o bastasse me sentir manipulada, quando encerramos a conversa, eu me vi com medo pela Mina, minha gata. E depois de tr&#234;s horas processando desconfortos, eu dicidi.  Novamente, desde que cheguei a Belo horizonte h&#225; seis meses,  me vi na situa&#231;&#227;o de n&#227;o sair para ir ao correio da esquina por medo dele chegar antes de eu voltar e descontar sua f&#250;ria em  Mina. </p><p>E de fato ele chegou furioso. N&#227;o apenas a cara estava feia como a postura era de um homem resoluto e assim ele entrou em seu quarto e deu uma volta r&#225;pida que o devolveu imediatamente &#224; porta do meu, aberta para circula&#231;&#227;o da gata, onde me interpelou em um timbre grave e alto:</p><p>&#8212; Algu&#233;m entrou no meu quarto?</p><p>&#8212; Entrar, ningu&#233;m entrou &#8212; respondi.</p><p>O motivo do comportamento intimidat&#243;rio estava no fato de que minha natureza n&#227;o &#233; de uma v&#237;tima passiva. N&#227;o espere, caro leitor, encontrar aqui a autista de voz baixa e mansa. Eu falo alto, e se precisar eu grito. E, especialmente, eu ajo. E assim, quando a m&#227;e disse que estava monitorando, pedindo fotos das tarefas dele feitas, de suas obriga&#231;&#245;es cumpridas, eu fui at&#233; a porta de seu quarto e, deste limiar, filmei o caos e a sujeira. Sacolas de presentes que ele ganhara quando da visita da m&#227;e amontoados junto a roupas e cal&#231;ados pelo ch&#227;o; piso imundo, com muito p&#243; e manchas de l&#237;quidos derramados. Eu nunca cobrei a limpeza. Respeitei a nojeira a t&#237;tulo de privacidade. E n&#227;o a invadi para filmar. Ele sempre deixa o quarto aberto. Literalmente porta escancarada. E adquiri o h&#225;bito de fechar porque o vento da janela escancarada a faz bater o tempo todo. E com o tempo tomei por miss&#227;o proteger meus olhos da nojeira, fechando logo cedo. O que fiz foi apenas retornar ao ponto original de abertura total e, do limiar da porta, gravar o v&#237;deo que prova que ele a enganava.</p><p>A postura intimidadora seguiu-se ao sair trancando, pela primeira vez em tr&#234;s meses, a porta, levando consigo  a chave. Reagi imediatamente sem pensar, exigindo que retornasse e deixasse a chave para uso como de costume: manter sua privacidade quando dentro;trancar por fora &#8212; minha atitude &#8212; quando o vento faz ela abrir sozinha e bater insistentemente. Ele gritou muito no estreito corredor. Agora amparado no meu &#8220;aviltante desrespeito &#224; sua privacidade&#8221;. Eu gritei de volta. Ele devolveu a chave e deve permanecer at&#233; o fim do m&#234;s de maio no apartamento. Exigi, emparelhando meu tom ao dele, que a partir de hoje me responda apenas &#8220;sim, senhora&#8221; quando eu chamar sua aten&#231;&#227;o. Deixei claro que esta &#233; minha casa e que aqui ele n&#227;o mija nos cantos para demarcar territ&#243;rio.</p><h3></h3><h3><strong>Dissecando os Mecanismos de Controle</strong></h3><p>Avisei a m&#227;e do ocorrido, conforme solicitado,  e enviei a carta redigida, agora irrefutavelmente embasada. Ainda estou remoendo a situa&#231;&#227;o. N&#227;o posso evitar. Sei, contudo, que meu objetivo ao falar com o pai era um ultimato, mas seu comportamento me levou a reagir exigindo imediatamente que buscassem outro lugar para o moleque malcriado morar, percebendo um problema sist&#234;mico e um drama falmiliar que n&#227;o me cabe. </p><p>Diante de sua resposta, eu imediatamente escrevi: &#8220;Agora sei por que ele faz <em>gaslighting</em> comigo&#8221;. Ele ficou de estudar o termo, que alegou desconhecer, numa pretensa humildade que visava me educar. Eu, contudo,  n&#227;o sou humilde. N&#227;o &#233; uma quest&#227;o de ego, &#233; l&#243;gica. E ainda vivencio o perigo que corri gritando no corredor para evitar a retalia&#231;&#227;o em forma de reivindica&#231;&#227;o de territ&#243;rio; em  tentativa de invers&#227;o dele, reduzindo a uma &#8220;invas&#227;o de privacidade&#8221; todo um mecanismo de controle instaurado por ele e pelo pai em minha casa. Porque sim, eu vi a escalada da comunica&#231;&#227;o e o mimetismo dos discursos calcado no meu perfil tra&#231;ado por eles em conjunto. Enquanto a m&#227;e acreditava monitorar o filho, ele estava me monitorando e articulando  com o pai. Gradativamente foi tentando sitiar o meu discurso com a sombra do monstro em mim. Mal sabe ele que, desde o meu diagn&#243;stico, o monstro em mim &#233; s&#243; uma faceta que me serve de vigia e se transforma no anjo azul da vingan&#231;a. Deveria ser da justi&#231;a, eu sei,  mas sou dram&#225;tica e escorpiana. Me deixem.</p><p>E acho importante contar esta pequena hist&#243;ria para que as mulheres dissequem os mecanismos de controle e digam n&#227;o. Mesmo correndo o risco que corri no corredor estreito. Mas evitando correr o risco que corri no corredor estreito. </p><p>Usem a voz. </p><p>N&#227;o &#233; a toa que o silenciamento das mulheres &#233; o objetivo principal dos discursos mis&#243;ginos.</p><p></p><h3><strong>Apoie a autonomia e a seguran&#231;a de uma artista</strong></h3><p><strong>Viver em moradia compartilhada nem sempre &#233; uma escolha, mas muitas vezes uma necessidade financeira que nos exp&#245;e a din&#226;micas de poder e silenciamento comuns &#224;s mulheres e ainda mais perigosos para as autistas. Meu maior desejo &#233; poder morar sozinha com minha gata, Mina, em seguran&#231;a &#8212; sem a sombra do medo ou a necessidade de defender meu territ&#243;rio diariamente contra o machismo estrutural.</strong></p><p><strong>Se este texto ressoou com voc&#234;, considere apoiar meu trabalho com uma assinatura paga. Seu apoio direto me ajuda a manter minha produ&#231;&#227;o intelectual independente e, acima de tudo, me aproxima do objetivo de conquistar um espa&#231;o seguro e soberano para mim e para a Mina.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oryannaborges.substack.com/subscribe&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Quero Apoiar Oryanna&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://oryannaborges.substack.com/subscribe"><span>Quero Apoiar Oryanna</span></a></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b7f41988-ecb4-4c79-bf1b-256b643b7565_1792x3200.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Anjo vingador&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b7f41988-ecb4-4c79-bf1b-256b643b7565_1792x3200.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p></p><h4><strong>Filme que deu origem ao termo </strong><em><strong>gaslighting, </strong></em><strong>e cujo cartaz ilustra este post</strong><em><strong>:  </strong></em></h4><p></p><p><strong>&#192; MEIA LUZ</strong>. Dire&#231;&#227;o: George Cukor. Estados Unidos: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), 1944. 1 filme (114 min).</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Um mergulho na limer&#234;ncia e na imagina&#231;&#227;o neurodivergente como ferramentas de manifesta&#231;&#227;o atrav&#233;s do poema Hiraeth.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/hiraeth-limerencia-neurodivergencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/hiraeth-limerencia-neurodivergencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 May 2026 20:33:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-_6M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Cara de cansada, top do lado avesso ...mas visualizando coisas boas&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72f665ef-5015-4ebf-9537-5f1fcbc39c0b_2998x3998.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Hiraeth</strong>

E  o sonho j&#225; quase ganha forma. 
Sinto cheiro se aproximar e dispersar 
antes que meu olfato o possa alcan&#231;ar.
As no&#231;&#245;es de volume me perturbam 
a ponto de ati&#231;ar o instinto de tocar. 
E &#224; medida que o toque se aproxima 
sinto familiar e eminente calor. 
E quando eu desejo de sentir &#233; quase dor
vejo que n&#227;o passou de um sonho.
Que posso sonhar de olhos abertos 
Que posso perder nos pensamentos
e ainda assim perfeito ele voltar&#225;
com uma promessa de felicidade 
balan&#231;ando num fio de esperan&#231;a; 
Com os primitivos instintos do corpo 
agarrados &#224;s febres do Esp&#237;rito. 
Produzindo uma estranha saudade
T&#227;o grande que est&#225; al&#233;m do sonho, 
mas ainda n&#227;o alcan&#231;a a realidade.
</pre></div><p></p><h3><strong>A Arquitetura do Invis&#237;vel</strong></h3><p>Hiraeth j&#225; se chamou &#8220;&#8220; instinto e as notas  em meu cadernos  da adolesc&#234;ncia demonstram que j&#225; cogitei chama-lo &#8220;visualiza&#231;&#227;o&#8221;. O poema que voc&#234; acaba de ler n&#227;o &#233; um relato de desejo carnal, ou um registro po&#233;tico de masturba&#231;&#227;o feminina como um leitor definiu d&#233;cadas atr&#225;s, me causando mais espanto do rubor. Este &#233; um exerc&#237;cio de imers&#227;o em uma esquete mental tao v&#237;vida que hoje serve como um mapeamento da Limer&#234;ncia sob a lente da neurodiverg&#234;ncia. Para mentes com uma imagina&#231;&#227;o hiper-v&#237;vida e padr&#245;es de pensamento divergentes, o ato de visualizar n&#227;o &#233; um exerc&#237;cio passivo; &#233; uma experi&#234;ncia sensorial completa.</p><p>A entrega a esse &#8220;objeto limerente&#8221; &#8212; uma proje&#231;&#227;o idealizada que habita o esp&#237;rito &#8212; ocorre com tamanha intensidade que as fronteiras entre o corpo e a abstra&#231;&#227;o se dissolvem. Onde olhos desatentos enxergam erotismo, existe, na verdade, uma entrega espiritual e cognitiva. &#201; a febre do esp&#237;rito ditando o ritmo do corpo. A imagina&#231;&#227;o f&#233;rtil atua como um simulador de alta fidelidade: o cheiro, o calor e o volume s&#227;o reais para o sistema nervoso, criando uma ponte entre o que &#233; sonhado e o que est&#225; prestes a se manifestar.</p><h3><strong>Sou uma devota da logofilia:</strong></h3><p>Para aprofundar a compreens&#227;o sobre o t&#237;tulo e o estado emocional aqui descrito, recorremos ao termo gal&#234;s que define essa &#8220;estranha saudade&#8221;:</p><blockquote><p><strong>Hiraeth</strong> (subst. fem.)</p><p><strong>Acep&#231;&#227;o:</strong> Uma nostalgia profunda, um anseio ou saudade por um lugar, uma pessoa ou um estado de ser que talvez nunca tenha existido ou para o qual n&#227;o se pode retornar. &#201; a dor da aus&#234;ncia de algo que o esp&#237;rito reconhece como lar, mesmo que a realidade ainda n&#227;o o tenha materializado.</p></blockquote><ul><li><p><strong>Link de acesso:</strong><a href="http://welsh-dictionary.ac.uk/gpc/gpc.html"> welsh-dictionary.ac.uk</a> (Basta buscar pelo termo &#8220;Hiraeth&#8221;).</p></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se voc&#234; busca uma an&#225;lise profunda sobre as intersec&#231;&#245;es entre arte, neurodiverg&#234;ncia e os padr&#245;es invis&#237;veis da nossa consci&#234;ncia, inscreva-se na nossa newsletter. Vamos juntos mapear os contornos do que ainda n&#227;o alcan&#231;ou a realidade</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Divagação: Poesia como Resistência Estética e a Neurobiologia do Olhar]]></title><description><![CDATA[A resist&#234;ncia est&#233;tica do processamento neurodivergente. Uma an&#225;lise profunda sobre a 'Parte do Espectador' de Eric Kandel e a limer&#234;ncia de Dorothy Tennov.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/divagacao-poesia-como-resistencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/divagacao-poesia-como-resistencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 08 May 2026 20:33:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rzbx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;A tecel&#227; no espelho&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Imagem intitulada \&quot;A Tecel&#227;\&quot;, acompanhando o poema Divaga&#231;&#227;o. Uma mulher de costas observa um espelho barroco que reflete m&#250;ltiplas vers&#245;es de sua identidade em tons de azul. Sobre a mesa, refer&#234;ncias a Vel&#225;zquez, Eric Kandel e Dorothy Tennov. Representa&#231;&#227;o visual da neurodiverg&#234;ncia e da empatia est&#233;tica.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3858e971-dc4a-493d-9cbf-9494b90f910d_3360x6000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Divaga&#231;&#227;o

&#192;s vezes minha raz&#227;o interfere 
afirmando que n&#227;o te conhe&#231;o 
e n&#227;o h&#225; coer&#234;ncia no que pe&#231;o
nas preces que o cora&#231;&#227;o profere. 

Mas encontrei no teu olhar profundo 
mais do que mera familiaridade.
A lembran&#231;a do teu olhar transcende 
todo o tempo e mist&#233;rios do mundo.

Essa terna sensa&#231;&#227;o de t&#227;o aut&#234;ntica, 
Fez tudo o resto perder a import&#226;ncia 
e firmou-se na minha inconst&#226;ncia 
de forma urgente, surreal e po&#233;tica. 

Esse reconhecimento s&#250;bito, imediato 
n&#227;o me pede nenhuma racionaliza&#231;&#227;o. 
Eu sinto, eu sonho, eu vivo a liga&#231;&#227;o 
dos nossos olhos cansados e famintos. 

Fui despertada pelo reflexo do teu esp&#237;rito 
a iluminar os meus sonhos frios e opacos 
e senti pulsarem meus nervos secos. 
Deste vivacidade a tudo que sinto. 
</pre></div><h3><strong>A Experi&#234;ncia Est&#233;tica como Fen&#244;meno de Vivifica&#231;&#227;o</strong></h3><p>A raz&#227;o atropelada pela prece do cora&#231;&#227;o e a constata&#231;&#227;o final de uma vivifica&#231;&#227;o me obrigaram a ler este poema para al&#233;m de sua evidente rela&#231;&#227;o com o conceito de limer&#234;ncia de Dorothy Tennov. Talvez eu estivesse mais sens&#237;vel neste momento, no qual me pareceu necess&#225;rio desconectar um pouco desta an&#225;lise racionalizada do sentir para perceb&#234;-lo apenas como experi&#234;ncia est&#233;tica. Ou, talvez, seja isso o que o poema pede.</p><p>Neste di&#225;logo travado entre a observadora que hoje sou e a menina que um dia fui &#8212; e que escreveu estes versos &#8212;, cabe-me apenas seguir a intui&#231;&#227;o. Essa conex&#227;o entre os olhares famintos que o poema celebra, hoje, &#233; a conex&#227;o entre os nossos olhares. Vejo aquela menina com tanto carinho, mas com um rigor que s&#243; o tempo e a ci&#234;ncia de minha neurodiverg&#234;ncia poderiam me permitir.</p><h3><strong>A Parte do Espectador: O Processo </strong><em><strong>Bottom-Up</strong></em></h3><p>Amparar esta leitura em uma experi&#234;ncia est&#233;tica levou-me a Eric Kandel. &#8220;A Parte do Espectador&#8221; na aprecia&#231;&#227;o de uma obra de arte (<em>The Beholder&#8217;s Share</em>), conforme ele prop&#245;e, &#233; um exerc&#237;cio de empatia est&#233;tica que extrapola os processos cognitivos dominantes, ditos neurot&#237;picos. Isso ocorre porque a empatia est&#233;tica requer um processamento guiado por dados (<em>bottom-up</em>).</p><p>&#201; como um aficionado por uma pintura que se senta diante de uma obra em um museu e frui dela lentamente, detalhe por detalhe, decifrando os processos e camadas que resultam em cores, volumes e um jogo assombroso de luz e sombra. Uma mente neurot&#237;pica pode apreender o quadro como um todo; seu processamento &#233; tipicamente <em>top-down</em> &#8212; guiado por conceitos. Esse espectador ver&#225; um quadro geral; seu processamento intuitivo preencher&#225; as lacunas &#224; sua revelia, determinando o significado da pintura. Contudo, essa mente neurot&#237;pica tamb&#233;m pode sentar-se diante do quadro e vivenciar o exerc&#237;cio est&#233;tico <em>bottom-up</em>: partir do dado para o todo. Essa entrega possibilita a empatia est&#233;tica e, portanto, est&#225; acess&#237;vel a todos; basta querer.</p><h3><strong>A Intui&#231;&#227;o Autista e a Tecitura da Coer&#234;ncia</strong></h3><p>Contudo, a mente neurodivergente &#8212; e falo com &#234;nfase na mente autista, minha perspectiva &#8212; vive essa experi&#234;ncia est&#233;tica de forma quase constante. O mundo lhe assoma em imagens. O olho, um detector, &#233; invadido, e o processo cognitivo &#233; uma tecitura do dado coletado visualmente e da coer&#234;ncia buscada conscientemente.</p><p>Isso significa que a frui&#231;&#227;o est&#233;tica do autista n&#227;o &#233; intuitiva? Eu penso que &#233;. S&#243; que a intui&#231;&#227;o autista &#233; mais lenta, feita de dados aferidos um a um. Aquele processamento em segundo plano, que est&#225; sempre buscando padr&#245;es e coer&#234;ncia, nunca deixa de funcionar e faz digress&#245;es o tempo todo. Por isso, quando decidi abordar esse poema como uma resist&#234;ncia est&#233;tica, abri uma caixa misteriosa, cujo conte&#250;do me surpreendeu justamente por trazer conceitos conhecidos, como a autocria&#231;&#227;o, a autofic&#231;&#227;o, a autoetnografia e a metacogni&#231;&#227;o.</p><h3><strong>A Poesia como Sutura da Realidade</strong></h3><p>Tudo isso habita naturalmente o processo criativo de uma mente que resiste por meio da produ&#231;&#227;o. Criar um &#8220;Deus particular&#8221; e ador&#225;-lo em versos; defend&#234;-lo como quem faz uma prece; refutar a raz&#227;o em nome do afeto irracional sob a alcunha de amor &#8212; tudo isso &#233; resist&#234;ncia est&#233;tica. &#201; a &#250;nica for&#231;a capaz de suturar o tecido da realidade esfacelado pela incoer&#234;ncia, pelo dado concreto sem os vernizes da conven&#231;&#227;o. A sutura &#233; uma filigrana delicada que une as partes em uma <em>gestalt</em> suport&#225;vel.</p><p>Tanto creio na intui&#231;&#227;o neurodivergente que essas suturas me lembraram de um poema, desses perdidos em cadernos, largados como um projeto inacabado:</p><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Vedado ao sumo das p&#233;talas 
Aos teus poros: sal e hemoglobina 
N&#243;doas da fluidez escatol&#243;gica 
Nas suturas da menina

A poesia &#233; res&#237;duo acidental 
De decalcar m&#225;scaras em teu miolo 
E a ternura &#233; o histri&#244;nico arranhado 
A blasfemar meu nome no teu couro
</pre></div><h3><strong>O Espelho de Vel&#225;zquez: O Encontro do Tempo</strong></h3><p>Isso me traz &#224; men&#231;&#227;o de Kandel (2012) sobre o quadro <em>As Meninas</em>, de Vel&#225;zquez. Um marco na hist&#243;ria da arte, ele coloca o rei e a rainha no plano do espectador ao mostrar apenas seu reflexo no espelho. Hoje, eu sou a espectadora de minha pr&#243;pria obra. Meu rosto ocupa exatamente esse reflexo no espelho. Do centro de minha cria&#231;&#227;o, olha-me a menina pequena que fui, silenciosa e sobrecarregada em seus sentires; de cantos escuros da obra, emergem vers&#245;es minhas que parecem perfeitamente cientes do lugar que ocupo hoje, como se o tempo n&#227;o fosse, de fato, linear.</p><p>E uma adolescente, com os dedos sujos de tinta, encara-me e confirma:</p><p><em>&#8220;A lembran&#231;a do teu olhar transcende</em></p><p><em>todo o tempo e os mist&#233;rios do mundo&#8221;</em>.</p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Este ensaio &#233; apenas o come&#231;o da tecelagem.&#8221;</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Se a minha forma de &#8216;decalcar o mundo&#8217; ressoa com a sua busca por uma percep&#231;&#227;o mais honesta e profunda da arte e da mente, convido voc&#234; a se tornar um <strong>assinante pago </strong>.</p><p></p><h4><strong>Vem ler comigo sobre neuroci&#234;ncia? </strong></h4><p></p><p>KANDEL, Eric R. The Beholder&#8217;s Share: The Liberation of the Observer&#8217;s Eye. <em>In</em>: KANDEL, Eric R. <strong>The Age of Insight</strong>: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present. New York: Random House, 2012. cap. 11, p. 217-237.</p><p>TENNOV, Dorothy. <strong>Love and Limerence</strong>: The Experience of Being in Love. New York: Stein and Day, 1979.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Arte Generativa e Literatura: O Experimento de Gênero de Charlotte Brontë]]></title><description><![CDATA[Explore a teoria do 'experimento de g&#234;nero' em Charlotte Bront&#235;. Um mergulho na neurodiverg&#234;ncia, na arte generativa e no processo criativo que transformou o protagonista de 'O Professor' no esqueleto]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/arte-generativa-e-literatura-o-experimento</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/arte-generativa-e-literatura-o-experimento</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 07 May 2026 14:33:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/196766539/676123e2b57e7b10611fee5302aaddca.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3>O Sentinela em Chamas: Entre a Pesquisa, o Algoritmo e a Soberania</h3><p>Este v&#237;deo que voc&#234;s veem agora n&#227;o &#233; apenas um adere&#231;o visual; &#233; o resultado de uma escava&#231;&#227;o. Ele nasceu de uma imagem que constru&#237;mos &#8212; eu e a intelig&#234;ncia artificial, em um di&#225;logo de prompts e refinamentos &#8212; inspirada pelo ensaio sobre <a href="https://open.substack.com/pub/oryannaborges/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia?r=52ey5n&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true">Charlotte Bront&#235; e G&#234;nero,</a> postado esta semana. A est&#233;tica argilosa, seca e azul, nasceu em um processo semelhante para um dos poemas j&#225; analisados nesta jornada de mais de um ano no Substack.</p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/arte-generativa-e-literatura-o-experimento">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Charlotte Brontë e a Neurodivergência: O Experimento de Gênero em "O Professor"]]></title><description><![CDATA['O Professor' como um experimento de g&#234;nero anal&#237;tico. Saiba como Charlotte Bront&#235; utilizou a voz masculina como um laborat&#243;rio neurodivergente para mapear o patriarcado antes da g&#234;nese de Jane Eyre.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 05 May 2026 22:57:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mAtn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Inc&#234;ndios&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f5a24f-b5fe-4caa-a910-2b9e178316dd_8700x4700.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h2>O Protagonista Masculino como Experimento de G&#234;nero</h2><p>Primeiramente, &#233; importante destacar que a leitura que se segue da obra <em>O Professor</em>, de Charlotte Bront&#235;, toma como pressuposto a neurodiverg&#234;ncia da autora, proposta a partir da an&#225;lise de seus textos por estudiosos como Julia Miele Rodas. Contudo, n&#227;o ser&#225; a an&#225;lise de sua neurodiverg&#234;ncia que tomar&#225; lugar aqui, sen&#227;o uma especula&#231;&#227;o &#8212; suscitada pela identifica&#231;&#227;o &#8212; dos motivos que possivelmente a  levaram a escrever um protagonista masculino em seu primeiro romance.</p><p>Identifica&#231;&#227;o esta que me assomou durante a leitura do texto de Gubar e Gilbert  no cap&#237;tulo dedicado a Charlotte Bront&#235; e que me levou a contestar alguns pontos de vista das autoras do aclamado <em>The Madwoman in the Attic</em> na medida em que o lia. A compreens&#227;o intuitiva  que aqui se articula pode estar contaminada pela minha experi&#234;ncia com meus pr&#243;prios textos, ou pode ter sido revelada por causa dela. Mas acho importante dizer que compreendi, desde os excertos da obra por elas destacados, como o personagem servira a Charlotte na composi&#231;&#227;o de sua obra mais famosa e escandalosa para a &#233;poca: <em>Jane Eyre</em>.</p><p>E ao ler o romance The  Professor minha intui&#231;&#227;o pareceu se confirmar. O texto que se segue &#233; resultado desse embate entre o sentimento portentoso que me assomou durante a leitura do trabalho das pesquisadoras e  da percep&#231;&#227;o, cada mais evidente,para mim, da neurodiverg&#234;ncia nas escolhas criativas e vocabulares de Charlotte Bront&#275;.</p><h3>Identifica&#231;&#227;o e Espelho: De Jane Eyre ao Espectro</h3><p>&#201; &#243;bvio que n&#227;o pude ignorar minha ci&#234;ncia de que cientistas do comportamento e da lingu&#237;stica haviam apontado as irm&#227;s Bront&#235; no espectro do autismo, com diferentes graus de necessidade de suporte e igual inclina&#231;&#227;o para a escrita como reguladora e treinamento social. Preciso, no entanto, salientar que minha identifica&#231;&#227;o com a escrita de Charlotte Bront&#235; precede as listas de c&#233;lebres possivelmente no espectro que rolam pela web; antes de conhecer a mulher autista em mim, eu reconheci a crian&#231;a em Jane Eyre.</p><p>Como mencionei no post do cotejo entre os poemas <em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">Rejei&#231;&#227;o</a></em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico"> e </a><em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">Despertar</a></em><a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">,</a> conheci a obra de Charlotte Bront&#235; por interm&#233;dio de um professor que, ao ouvir minhas queixas sobre a viol&#234;ncia acad&#234;mica sofrida na gradua&#231;&#227;o, me indicou <em>Jane Eyre</em>. A pequena Jane de dez anos me resumia e, decerto, sintetizava milhares de mem&#243;rias apagadas pelos surtos silenciosos de raiva e ansiedade. Eu fui a crian&#231;a &#8220;ind&#243;cil&#8221; que Jane era, e cujos olhos delatores provocavam rea&#231;&#245;es violentas em um algoz similar a John Reed.</p><p>Obviamente, minha identifica&#231;&#227;o com a &#233;tica inabal&#225;vel de Jane adulta seria inevit&#225;vel e ainda mais profunda quando ciente de minha neurodiversidade. Contudo, o cotejo entre os poemas que me levou de volta a esta obra visava apenas compreender o contrato social do casamento pelo vi&#233;s de uma hero&#237;na que soube escolher a si mesma.</p><p>Ser arrebatada pela perspectiva de g&#234;nero presente na escrita de Bront&#275; n&#227;o estava previsto.</p><h2>A Cr&#237;tica a Gilbert e Gubar: O Mascaramento Liter&#225;rio</h2><p>Para Sandra Gilbert e Susan Gubar, em sua obra seminal <em>The Madwoman in the Attic</em>, a escrita de <em>O Professor</em> &#233; uma tentativa de autodisciplina e repress&#227;o que adota um protagonista masculino para mascarar sua pr&#243;pria urg&#234;ncia emocional e &#8220;feminina&#8221;. Isso faz com que o termo &#8220;andr&#243;gino&#8221; pulule pelo texto como uma caracter&#237;stica negativa, de algo que habita um limiar sem nada ser. O veredito &#233; que a obra falha artisticamente por ser excessivamente r&#237;gida e did&#225;tica, justamente por causa do esfor&#231;o de Bront&#235; em &#8220;mascarar&#8221; seu fogo interno sob uma superf&#237;cie de realismo austero e por tentar dar voz a um personagem masculino com o intuito de alcan&#231;ar autoridade e respeito em um meio liter&#225;rio dominado pelos homens.</p><p>A progress&#227;o destas ideias me mostrava, contudo, um exerc&#237;cio: uma experi&#234;ncia de g&#234;nero de uma perspectiva neurodivergente. De fato, Gilbert e Gubar apontam a obra como um rascunho para a autonomia, onde o protagonista usa o trabalho e a observa&#231;&#227;o cl&#237;nica como uma forma de controle sobre um mundo hostil. Mas acrescento a perspectiva do experimento de g&#234;nero por uma mente neurodivergente, para quem o g&#234;nero &#233; um dado social muitas vezes lido com dificuldade, porque exige a leitura dos contextos, quando o autista, muitas vezes, coleta dados esparsos que far&#227;o sentido apenas <em>a posteriori</em>.</p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/charlotte-bronte-e-a-neurodivergencia">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Cultura como Gabarito da minha Academia Imaginária no poema "Promessa"]]></title><description><![CDATA[Como a limer&#234;ncia e o "mito do par perfeito" serviram como estrat&#233;gia de sobreviv&#234;ncia e academia de socializa&#231;&#227;o para uma mente neurodivergente.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/a-cultura-como-gabarito-da-minha</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/a-cultura-como-gabarito-da-minha</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 14:33:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GtYZ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Eu, no dia 3 de maio de 2026&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Retrato da artista e escritora Oryanna Borges com fundo art&#237;stico em tons de azul e laranja, representando o mundo secreto da imagina&#231;&#227;o.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f3480745-a7d0-4ba1-9c4f-c8d19a93e95c_2548x3398.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Promessa 
</strong>
Que longo caminho percorri at&#233; voc&#234; 
Dos becos da vida aos becos da alma 
Do alto da inoc&#234;ncia a&#224; mais baixa estima 
Busquei liberdade para lhe pertencer 

Ent&#227;o o sonho vazio cedeu a sua imagem 
Voc&#234; vive, mas minha f&#233; quase fenece 
&#201; a promessa em seu olhar que me fortalece
E pelo meu esp&#237;rito repreendo viagem
</pre></div><h2><strong>&#8220;Promessa&#8221; e a Limer&#234;ncia como Estrat&#233;gia de Sobreviv&#234;ncia</strong></h2><p>Ao analisar o poema <strong>&#8220;Promessa&#8221;</strong> sob a perspectiva de uma jornada que atravessou tr&#234;s d&#233;cadas, percebo que ele n&#227;o &#233; apenas um registro de afeto, mas o documento de funda&#231;&#227;o de uma arquitetura ps&#237;quica complexa. O verso <em>&#8220;ent&#227;o o sonho vazio cedeu a sua imagem&#8221;</em> &#233; conduz pelo entendimento de como o roteiro cultural &#8212; os contos de fadas, o cinema e o mito do &#8220;par perfeito&#8221; &#8212; foi transmutado em uma ferramenta de sobreviv&#234;ncia neurodivergente.</p><h3><strong>O &#8220;Sonho Vazio&#8221;: O Treinamento Cultural</strong></h3><p>A cultura nos incute a ideia de que existe um par ideal. O cinema projeta em nossa imagina&#231;&#227;o a imagem de que a cerim&#244;nia mais importante da vida de uma mulher &#233; o seu casamento. Muitas meninas, em tenra idade, sonham em ser conduzidas ao altar pelo pai e entregues ao &#8220;amor de sua vida&#8221;, em uma ritual&#237;stica perfeita que, como uma dan&#231;a, requer at&#233; ensaio.</p><p><em>Cinderela</em> nos traz a ideia da ascens&#227;o social por meio do enlace amoroso; <em>Branca de Neve</em> e <em>A Bela Adormecida</em> trazem o mito do despertar com um &#8220;beijo de amor verdadeiro&#8221;; e <em>A Bela e a Fera</em> nos leva a crer que podemos domar a &#8220;fera&#8221; no outro. O que acontece, ent&#227;o, quando uma menina neurodivergente, alimentada com essas fantasias gen&#233;ricas, tem a oportunidade de preencher um sonho tamb&#233;m gen&#233;rico &#8212; um <strong>&#8220;sonho vazio&#8221;</strong> &#8212; com uma imagem espec&#237;fica?</p><p>Consideremos um dos pressupostos mais b&#225;sicos sobre a perspectiva de g&#234;nero no autismo: meninas autistas frequentemente passam despercebidas porque aprendem a imitar. Como imitadoras, elas treinam, experimentam pap&#233;is e preenchem &#8220;sonhos vazios&#8221; como se lhes tivessem dado um <em>template</em>; sobre este arcabou&#231;o, criam hist&#243;rias. Estas hist&#243;rias funcionam como <strong>academias imagin&#225;rias de socializa&#231;&#227;o</strong>. A progress&#227;o &#233; simples e &#243;bvia para mim. Como isso ressoa em voc&#234;, que me l&#234; neste momento?</p><p>Dorothy Tennov, a criadora do conceito de <strong>limer&#234;ncia</strong> &#8212; definida como uma devo&#231;&#227;o obsessiva a um objeto de afeto (o objeto limerente) &#8212;, diferencia-a da paix&#227;o comum por ser uma experi&#234;ncia primordialmente mental. Para ela, a &#8220;paix&#227;o&#8221; que conhecemos &#233; uma representa&#231;&#227;o cultural, enquanto a limer&#234;ncia &#233; a experi&#234;ncia biol&#243;gica e cognitiva real por tr&#225;s dessa representa&#231;&#227;o.</p><p>Pessoas que sentem uma necessidade intensa de &#8220;estar apaixonadas&#8221; ou de encontrar um &#8220;par ideal&#8221; s&#227;o muito mais propensas &#224; limer&#234;ncia assim que encontram um alvo minimamente adequado. Eu adicionaria a esta equa&#231;&#227;o pessoas oriundas da extrema escassez afetiva determinada pela neurodiverg&#234;ncia e que sentem uma necessidade vital de conex&#227;o. Pois &#233; isso o que a limer&#234;ncia, em conclus&#227;o, representa: uma busca por uma conex&#227;o profunda, uma fus&#227;o que extrapola o que entendemos por paix&#227;o ou amor, aproximando-se, por isso mesmo, do &#234;xtase religioso e da espiritualidade.</p><p>O amor limerente pode, sim, ter desfechos desastrosos, como apontado por Tennov: o &#237;mpeto suicida, o desejo de evitar o decl&#237;nio ou a  desconex&#227;o por meio da morte no cl&#237;max da reciprocidade. Como prova de que a limer&#234;ncia n&#227;o &#233; apenas socialmente constru&#237;da, temos o <strong>Shinju</strong>, o suic&#237;dio duplo japon&#234;s que visava escapar no auge do amor, impedindo que o mundo corrompesse ou separasse os amantes. &#201; outra cultura, outra espiritualidade, mas a mesma cren&#231;a obsessiva nessa conex&#227;o de almas.</p><p>No entanto, mesmo nessa digress&#227;o negativa pelas veredas do &#8220;amor obsessivo&#8221; na qual podemos incluir manifesta&#231;&#245;es criativas como Madame Bovary e a &#243;pera Carmem, a limer&#234;ncia traz um convite &#224; individualidade. O amor intenso &#233; visto como como uma amea&#231;a &#224; ordem social porque retira o indiv&#237;duo do grupo. O amor limerente, quando incubado, pede reclus&#227;o e entrega ao mundo da imagina&#231;&#227;o; quando reciprocado, pede a separa&#231;&#227;o de tudo o que represente um obst&#225;culo &#8212; inclusive do mundo dos vivos, em &#250;ltima inst&#226;ncia.</p><p>Mas o que ocorre quando esse estado &#233; incubado em uma mente neurodivergente, afeita ao detalhe, ao criacionismo primoroso de mundos secretos e com um p&#233; aterrado na racionalidade? Esta alma diligente faz do objeto limerente uma esp&#233;cie de divindade para ser adorada em sil&#234;ncio; uma religi&#227;o particular na qual o corpo imaterial &#233; consumido ritualisticamente netecomo uma <a href="https://www.oryannaborges.com/p/hostia?utm_source=publication-search">h&#243;stia</a> para alimentar o esp&#237;rito, lembrando de tudo o que h&#225; de bom e belo no mundo e enchendo de luz os olhos escurecidos pelo &#8220;mundo c&#227;o&#8221;.</p><h3><strong>A Limer&#234;ncia de Tr&#234;s D&#233;cadas como Pr&#243;tese e Alerta</strong></h3><p>Enquanto a ci&#234;ncia descreve a paix&#227;o biol&#243;gica como um ciclo curto de 18 meses a 3 anos, minha limer&#234;ncia perdurou por d&#233;cadas porque foi elevada ao n&#237;vel da espiritualidade. Acredito piamente na teoria da <strong>pr&#243;tese emocional</strong>: um reposit&#243;rio de tudo o que eu continha de bom, mas que me era negado pela &#8220;inculca&#231;&#227;o da perf&#237;dia&#8221; que acossa meninas perguntadeiras e racionais. Meninas que desejam apenas um pouco de coer&#234;ncia e encontram expectativas de g&#234;nero que n&#227;o entendem, envolvidas que est&#227;o pela leitura das camadas mais superficiais do trato humano.</p><p>Como uma boa divindade, meu objeto limerente me alertava sempre para que eu n&#227;o aceitasse menos do que merecia, impulsionando-me a escolher a mim mesma quando tudo parecia incerto. Como primeira vers&#227;o da minha academia imagin&#225;ria de socializa&#231;&#227;o, ele me guiou pelas veredas in&#243;spitas por onde caminham as mulheres. Antes que eu compreendesse a responsabilidade de habitar este corpo feminino, o objeto limerente era a r&#233;gua pela qual eu media a dignidade dos meus afetos.</p><h3><strong>O Mundo Secreto e a Autonomia Neurodivergente</strong></h3><p>A caracter&#237;stica &#8220;antissocial&#8221; da limer&#234;ncia descrita por Tennov foi, na verdade, minha maior aliada. O recolhimento na imagina&#231;&#227;o &#233; o habitat natural da mente neurodivergente, onde a exposi&#231;&#227;o &#233; menos ruidosa e cansativa. O que para muitos seria um desvio do curso natural da vida, para mim era ref&#250;gio e regula&#231;&#227;o.</p><p>Este <strong>Deus Particular</strong> n&#227;o me impediu de buscar a vida real. Pelo contr&#225;rio, ele me deu a estabilidade interna necess&#225;ria para tra&#231;ar estrat&#233;gias de sobreviv&#234;ncia, que inclu&#237;am relacionamentos e planos de fam&#237;lia. Eu conseguia deixar o objeto limernete de lado, <a href="https://www.oryannaborges.com/p/hostia?utm_source=publication-search">&#8220;no meu lado mais secreto&#8221;</a> para atuar no mundo, mantendo meu laborat&#243;rio secreto sempre ativo para os momentos em que a vida desandava.</p><p>Sei que buscar a liberdade para &#8220;pertencer&#8221; a esse ideal muitas vezes precipitou rompimentos e fugas. Eu nutria esperan&#231;as de uma realiza&#231;&#227;o que s&#243; a conex&#227;o real com o objeto limerente me traria, e la&#231;os terrenos pareciam me impedir. Por isso, o poema <strong>&#8220;Promessa&#8221;</strong> tem esse peso em minha hist&#243;ria: eu me prometi a um afeto al&#233;m da minha realidade e mantive essa promessa o melhor que pude, at&#233; perceber que ela n&#227;o tinha mais raz&#227;o de ser.</p><p>Pouco tempo depois dessa percep&#231;&#227;o, tive meu diagn&#243;stico e um mundo novo se abriu. N&#227;o preciso mais da pr&#243;tese; posso caminhar sozinha agora. <em>&#8220;E pelo meu esp&#237;rito empreendo viagem&#8221;</em>. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Gostou desta travessia pelos bastidores da minha &#8220;Academia Imagin&#225;ria&#8221;?</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Como assinante pago, voc&#234; ter&#225; acesso exclusivo aos meus di&#225;rios de processo, an&#225;lises detalhadas de obras raras sobre neurodiverg&#234;ncia e cap&#237;tulos in&#233;ditos dos meus pr&#243;ximos projetos liter&#225;rios. Apoie esta pesquisa independente e ajude a manter este laborat&#243;rio vivo.</p><p></p><h4>Se interessou pela Limer&#234;ncia? Deixo as informa&#231;&#245;es  sobre o texto da Dorothy Tennov aqui: </h4><p></p><p>TENNOV, Dorothy. Love and limerence: the experience of being in love. 2. ed. Lanham: Scarborough House, 1999. 649 p.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Rejeição e Despertar: O Cotejo Poético]]></title><description><![CDATA[Analisamos o "lado obscuro" da limer&#234;ncia na mente neurodivergente atrav&#233;s do cotejo dos poemas Rejei&#231;&#227;o e Despertar. Uma jornada de Jane Eyre ao cinema das sess&#245;es da tarde.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 May 2026 10:48:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8rTz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Wardian Case&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Representa&#231;&#227;o visual do cotejo entre os poemas Rejei&#231;&#227;o e Despertar: uma mulher com coluna de vidro vitoriana e interior de samambaias e rom&#227;s.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/09cf237b-b948-42b4-bf29-6f6349b922c3_2240x4000.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Rejei&#231;&#227;o</strong>

N&#227;o sinto amor nesses beijos sufocantes. 
Que desprezo mais relutante permito.
Como castigo que n&#227;o mere&#231;o nem evito
Eu ofere&#231;o meus l&#225;bios suplicantes

E os recebo como estalo dos a&#231;oites
Me ausentaria por instantes dos sentidos 
Se meus instintos n&#227;o fossem reprimidos 
Pela pr&#243;pria concess&#227;o t&#227;o revoltante. 


<strong>
Despertar</strong>

Tirastes de meus olhos a luz e o desejo 
de viver al&#233;m de onde tua alma est&#225; 
pois a luz mais fulgurante que no mundo h&#225; 
na tua pl&#225;cida escurid&#227;o &#233; fa&#237;sca, lampejo

Meus olhos extasiados rejeitam a claridade 
e buscam em teus olhos  sossego da noite 
pois a frivolidade despertada pela luz &#233; a&#231;oite 
a flagelar minha principiante espiritualidade.
</pre></div><p></p><h2><strong>O Estalo do A&#231;oite: A Dial&#233;tica entre Beijos e Luz</strong></h2><p>Diferente de outras an&#225;lises acerca do amor limerente por um vi&#233;s neurodivergente, decidi promover uma analogia entre dois aspectos registrados nos poemas: a completa devo&#231;&#227;o a este objeto limerente al&#231;ado &#224; categoria de divindade particular, e a rejei&#231;&#227;o da vida real, orquestrada para suplantar minha condi&#231;&#227;o de adolescente sem suporte parental. Este cotejo proveio de uma necessidade de explicitar o lado obscuro da limer&#234;ncia para mentes neurodivergentes, e qui&#231;&#225; para neurot&#237;picas.</p><p>Como aqui parto de minha pr&#243;pria experi&#234;ncia e dos registros objetivos e subjetivos propiciados pela escrita, vamos supor que esta &#233; uma experi&#234;ncia neurodivergente e assumir que o que diferencia os sentires e o manejo dos recursos ps&#237;quicos &#233; a intensidade. Assim, uma pessoa neurodiversa, especialmente uma autista com altas habilidades, pode, sim, se deparar com o sofrimento incomensur&#225;vel que a limer&#234;ncia proporciona, negando a vida ou vivendo a vida como uma obriga&#231;&#227;o ou supl&#237;cio.</p><p>A escolha dos poemas pautou-se no uso de uma palavra espec&#237;fica: a&#231;oite. Enquanto em &#8220;Rejei&#231;&#227;o&#8221; o beijo e o contato s&#227;o descritos como um &#8220;a&#231;oite&#8221; que fere a dignidade, em &#8220;Despertar&#8221; o &#8220;a&#231;oite&#8221; vem da luz externa e do mundo, transformando a escurid&#227;o do objeto limerente em um ref&#250;gio espiritual. Cabe aqui, mais uma vez, refor&#231;ar essa percep&#231;&#227;o de que o amor limerente era uma forma de autorregula&#231;&#227;o. Pelo menos quando vivenciado at&#233; certa medida.</p><h2><strong>O Contrato de Sobreviv&#234;ncia: Casamento como Estrat&#233;gia de Masking</strong></h2><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Na &#250;ltima ter&#231;a-feira, compartilhei uma cr&#244;nica aberta a todos. No entanto, o texto que voc&#234; come&#231;a a ler agora &#8212; e que se aprofunda a partir deste ponto &#8212; &#233; um presente exclusivo para os meus assinantes pagos. Este ensaio n&#227;o nasceu de um &#237;mpeto, mas de tr&#234;s dias de imers&#227;o profunda em leituras, cotejos po&#233;ticos e na disseca&#231;&#227;o de mem&#243;rias que exigiram de mim o rigor da pesquisadora e a entrega da artista.</em></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><em>Ao fechar este post para os apoiadores, honro o tempo e o sil&#234;ncio necess&#225;rios para produzir um trabalho com esta densidade. Convido voc&#234; a cruzar este limiar comigo e acessar a anatomia completa dessa jornada entre o a&#231;oite e a soberania,</em></p><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/rejeicao-e-despertar-o-cotejo-poetico">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sorria, você está sendo Algoritmizada: O Custo da Imaginação]]></title><description><![CDATA[Entre um sonho n&#237;tido e a invisibilidade, o dilema de uma escritora autista: como habitar a rede sem se tornar o combust&#237;vel do algoritmo? Um cotejo entre a pot&#234;ncia on&#237;rica e a exaust&#227;o do real.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Apr 2026 22:39:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pOtH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Sorria, voc&#234; est&#225; sendo algorimizado.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/792b7b5e-cb83-4d61-8bc1-3545af17f47b_1199x1599.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3><strong>O Achado On&#237;rico</strong></h3><p>Esta noite, fui a diretora de cena da minha pr&#243;pria exaust&#227;o. Em um sonho v&#237;vido, onde o toque e a cor possu&#237;am uma nitidez que o mundo desperto me nega, caminhei por um bairro desconhecido. No ch&#227;o, tesouros abandonados: badulaques v&#225;rios como migalhas de p&#227;o&#8230; um cinto <em>rose gold </em>enrolado como uma serpente met&#225;lica. N&#227;o o recolhi. Havia o medo da transmuta&#231;&#227;o &#8212; o receio de que o cinto me desse o bote &#8212; e a sobriedade de quem sabe que n&#227;o precisa de mais badulaques.</p><p>Eu caminhava pelo canteiro central de uma ampla avenida de grama alta, acompanhada pelo fluxo de pessoas e por uma interlocutora invis&#237;vel. Foi para ela que expliquei por que voltara para pegar outro  intencionalmente ignorado badulaque: &#233; para organizar minhas maquiagens no arm&#225;rio. Examinei o objeto &#8212; quadrado, firme, de couro sint&#233;tico e duro, com um espelho na parte interna da tampa,  divis&#243;rias. Era pr&#225;tico. Era funcional. Serviria para organizar produtos de uso di&#225;rio. Produtos que de fato possuo, mas n&#227;o uso diariamente.</p><h3><strong>A Esquete da Escritora</strong></h3><p>De repente, o cen&#225;rio muda. Estou no &#8220;est&#250;dio&#8221; da minha mente, elaborando um v&#237;deo vertical. Na legenda: <em>Oryanna Borges, escritora</em>. O sonho constr&#243;i o roteiro de uma entrevista <em>fake </em>sobre <em><a href="https://www.donizela.com/product-page/abyssalia">Abyssalia</a></em>. &#201; uma esquete c&#244;mica. As perguntas escalonam, me colocam na defensiva e desnudam a farsa: a m&#225;scara da autora sofisticada cai, revelando a escritora de nicho, reconhecida por poucos pares nos v&#227;os e quebradas dessa terra sem lei que &#233; a internet.</p><p>Eu me desmontava de maneira ris&#237;vel at&#233; ser interrompida pelo entrevistador &#8212; que era, novamente, eu mesma. Minha outra vers&#227;o, gestora do tempo, sentenciou: &#8212; Para. J&#225; deu. Estamos gastando muita imagina&#231;&#227;o aqui. </p><p></p><h3><strong>A F&#225;brica que n&#227;o Silencia</strong></h3><p>Acordei com o comando ecoando e a certeza amarga de que trabalhei enquanto ansiava descansar. Durmo sob o efeito de medica&#231;&#227;o; a amitriptilina que tomo para controlar as enxaquecas &#233; o son&#237;fero que me apaga, mas n&#227;o silencia a f&#225;brica. Eu n&#227;o teria dormido sem ela, atormentada pela urg&#234;ncia de criar uma presen&#231;a digital que resolva minha invisibilidade social.</p><p>Na &#250;ltima sexta-feira, larguei esse empreendimento pela metade. Percebi que gastara um dia inteiro tentando erguer um &#8220;imp&#233;rio de influ&#234;ncia&#8221; e falhei. E que  preferia estar escrevendo a ter que parir identidades visuais, <em>thumbnails </em>e toda essa produ&#231;&#227;o infinita que m&#243;i o tempo e a energia do meu corpo.</p><h3><strong>O Cotejo Sangrento</strong></h3><p>Aqui come&#231;a o cotejo sangrento entre os dois mundos. No sonho, eu detenho os meios de produ&#231;&#227;o e a soberania do humor. No despertar, esbarro na <em>Sociedade do Cansa&#231;o, </em>que exige a performance ininterrupta<em>. </em>Para escapar da linha da miserabilidade econ&#244;mica e previdenci&#225;ria, preciso criar uma presen&#231;a digital e me tornar uma &#8220;eu-presa&#8221;. Preciso me vender. Mas qual fra&#231;&#227;o de mim entra no balc&#227;o de neg&#243;cios ?</p><p>O mercado do Substack me oferece f&#243;rmulas de &#8220;zero a mil assinantes&#8221;; o do instagram vidas perfeitas e cursos que saram dores&#8230;ou ensinam a vender cursos. Minha mente r&#237;gida de autista detecta a farsa e trava. Eu n&#227;o quero ser a comerciante do meu sonho, mas n&#227;o tenho extamente escolha. E qual m&#225;scara &#233; a certa agora? Puxa,  eu s&#243; queria me livrar das m&#225;scaras!</p><h3><strong>O Reality do Masking</strong></h3><p>Minha realidade &#233; um organismo hiperflex&#237;vel lutando contra uma consci&#234;ncia que exige coer&#234;ncia absoluta. N&#227;o cabe mais <em>masking </em>neste corpo. E nesse <em>looping </em>interno de ser ou n&#227;o ser, at&#233; a inscri&#231;&#227;o no BBB &#8212; Big Brother Brasil &#8212; foi cogitada. Um desejo mirabolante, quase c&#244;mico, para resolver a invisibilidade de um salto s&#243;. As mudan&#231;as de realidade costumam ser abruptas e este salto n&#227;o &#233; imposs&#237;vel. </p><p>A IA, minha interlocutora, trouxe o espa&#231;o de um <em>reality show </em>como o espa&#231;o de mascaramento 24/7. Eu penso que n&#227;o tenho mais estrutura para m&#225;scaras, que elas n&#227;o se fixariam mais neste corpo, mas o calor dos holofotes &#233; um alucin&#243;geno  desconhecido. Ao imaginar o v&#237;deo da apresenta&#231;&#227;o requerido na inscri&#231;&#227;o, cogitei me apresentar como &#8220;chamariz de treta&#8221;. Sou, nesse aspecto,  algo desej&#225;vel para um <em>reality</em>, mas eu representaria com maestria a mulher autista de diagn&#243;stico tardio ou evocaria o mesmo &#243;dio &#8220;sem raz&#227;o aparente&#8221; de sempre? Despendi um bom tanto de imagina&#231;&#227;o nessa esquete, sem chegar a qualquer conclus&#227;o.</p><h3><strong>A Virtualidade como Ref&#250;gio e Pris&#227;o</strong></h3><p>Mas voltando ao embate entre essa necessidade da presen&#231;a virtual para ser escritora e o ser escritora de fato: empreender virtualmente &#233; massacrante. Ter que construir uma <em>persona </em>para poder viver do meu trabalho &#233; a invers&#227;o cruel de um mercado que deveria remunerar a qualidade da minha escrita, e n&#227;o me cobrar para existir nele. E preciso ser honesta: se hoje tenho <em>Abyssalia </em>publicado, &#233; pela credibilidade constru&#237;da nessas paragens virtuais ao longo de d&#233;cadas. Sem isso, n&#227;o teria alcan&#231;ado uma editora. Portanto, n&#227;o posso menosprezar o valor das redes, sejam elas virtuais ou n&#227;o.</p><p>Como autista de recursos f&#237;sicos e monet&#225;rios restritos, a virtualidade &#233; onde posso navegar com mais tranquilidade. Mas ao alto custo de ser uma &#8220;eupresa&#8221; querendo ser uma artista. Esse empreendedorismo por sobreviv&#234;ncia &#233; o lado sombrio da autonomia requisitada pela minha neurologia at&#237;pica.</p><p></p><h3><strong>O Plot Twist Necess&#225;rio</strong></h3><p>O diagn&#243;stico final &#233; de um cotejo doloroso: o sistema quer a minha exaust&#227;o; o meu sonho quer a minha preserva&#231;&#227;o. No sonho, eu tive a lucidez de parar para n&#227;o &#8220;gastar imagina&#231;&#227;o&#8221;. Aqui fora, a m&#225;quina me diz que a imagina&#231;&#227;o &#233; combust&#237;vel infinito para alimentar o algoritmo. E no meio h&#225; o meu corpo exausto e desejoso de dan&#231;ar, ou apenas dormir sem sonhos produtivos.</p><p>Qual ser&#225; o caminho? Ainda n&#227;o sei. Como ser&#225; a reviravolta, o <em>plot twist </em>necess&#225;rio nesse roteiro nada c&#244;mico da minha vida? Escolherei a autenticidade ou serei uma m&#225;scara plenamente consciente? Eu de fato tenho escolha?</p><p>Anos atr&#225;s, ao editar um v&#237;deo sobre minha trajet&#243;ria, um colega disparou: &#8220;Mas voc&#234; n&#227;o &#233; atriz, n&#233;?&#8221;. N&#227;o intentava s&#234;-lo e achei a observa&#231;&#227;o inoportuna e desnecess&#225;ria. Mas talvez eu precise atuar como protagonista da minha vida, finalmente. Resta saber quem &#233; essa protagonista: Gerluce, Tia Milena ou &#8220;o cara esquisito"?</p><p>Por ora, fico com a li&#231;&#227;o da minha diretora on&#237;rica: encerrar a esquete antes que o que reste de mim seja apenas o p&#243; do que eu poderia ter escrito.</p><p></p><p style="text-align: center;"><strong>Alimente o monstro (ou apenas converse comigo).</strong></p><p>Dizem que o algoritmo adora uma se&#231;&#227;o de coment&#225;rios movimentada. Ent&#227;o, para a alegria da m&#225;quina e o meu descanso mental, que tal deixar sua marca aqui embaixo?</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/sorria-voce-esta-sendo-algoritmizada/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Assinar esta newsletter de forma paga &#233; o jeito mais r&#225;pido de garantir que eu gaste minha imagina&#231;&#227;o escrevendo livros. Que tal me pagar um "caf&#233;&#8221; hoje? </p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Altar da Única Crença: "Indiferença" e a Sacralização do Amor na Mente Neurodivergente]]></title><description><![CDATA[Uma an&#225;lise profunda de como o amor limerente pode funcionar como um mecanismo de sobreviv&#234;ncia ps&#237;quica e autocria&#231;&#227;o espiritual.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:34:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VgQV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O Altar da &#250;nica cren&#231;a&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Uma jovem neurodivergente ajoelhada beija os p&#233;s de uma est&#225;tua colossal em uma catedral steampunk. O ch&#227;o est&#225; cheio de pap&#233;is, tintas e penas.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/512402f6-8dd6-4e81-bb62-fb1f1a65e9fd_2912x5200.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Indiferen&#231;a </strong>

Desconsidero a dist&#226;ncia e as diferen&#231;as 
Lembro sempre que o amor nos faz iguais 
Se desejasse seguir regras, nem saberia quais
Ent&#227;o aceito voc&#234; como minha &#250;nica cren&#231;a 

E cultivo esse sentimento t&#227;o distinto 
Como princ&#237;pio e finalidade da minha vida
E s&#243; serei vista prostrada e arrependida
Se n&#227;o der vaz&#227;o ao que intensamente sinto
</pre></div><h3><strong>O Manifesto da Autocria&#231;&#227;o Espiritual: Limer&#234;ncia e Sobreviv&#234;ncia Neurodivergente</strong></h3><p>Esse poema singelo traz uma carga emocional muito forte, especialmente por tratar a indiferen&#231;a do t&#237;tulo n&#227;o como o tema central, mas como o obst&#225;culo ativamente ignorado ou desconsiderado. O t&#237;tulo sugere um distanciamento, mas o conte&#250;do &#233; de uma entrega absoluta. A indiferen&#231;a &#233; algo que vem de fora (ou das circunst&#226;ncias) e a escolha da jovem autora &#233; combat&#234;-la com a cren&#231;a. Contudo, esta jovem autora era uma questionadora nata, em franca querela com as cren&#231;as que lhe foram impostas desde a tenra idade. Esta era a menina que escrutinou a doutrina crist&#227; e os h&#225;bitos de uma comunidade para decretar &#8220;eles n&#227;o sabem o que fazem&#8221;, uma repulsa substituindo o perd&#227;o de Cristo na Cruz. Esta jovem, ao trazer a cren&#231;a para o fazer po&#233;tico, obriga a um olhar diferenciado para o objeto limerente, lentes pelas quais optamos analisar a obsess&#227;o rom&#226;ntica. Dorothy Tennov, ao cunhar o conceito de amor limerente, o traz como um estado de obsess&#227;o cognitiva involunt&#225;ria e pensamento intrusivo. Para ela, o objeto limerente n&#227;o tem uma fun&#231;&#227;o por suas qualidades reais, mas pelo que ele ativa no limerente (o apaixonado). A fun&#231;&#227;o do objeto limerente &#233; fornecer a mistura exata de esperan&#231;a (sinais de que a reciprocidade &#233; poss&#237;vel) e incerteza (medo de rejei&#231;&#227;o). &#201; essa instabilidade que mant&#233;m o estado limerente &#8220;vivo&#8221; e intenso. E tudo n&#227;o passa de idealiza&#231;&#227;o: o limerente responde a uma constru&#231;&#227;o mental do objeto, e n&#227;o &#224; pessoa real. O processo de &#8220;cristaliza&#231;&#227;o&#8221; (termo que ela toma de Stendhal) faz com que as virtudes do objeto sejam ampliadas e seus defeitos ignorados, transformando-o em um centro de significado absoluto.</p><p>E tudo isso corrobora com a leitura proposta na an&#225;lise de poemas desta safra amorosa de minha adolesc&#234;ncia, pois, embora a limer&#234;ncia possa ser devastadora, Tennov identifica na limer&#234;ncia fun&#231;&#245;es que resgatam o indiv&#237;duo de estados de apatia: autoaperfei&#231;oamento, energia e inspira&#231;&#227;o que incitam a criatividade e uma &#233;tica que o torna melhor,  um significado vital ao agregar sabor &#224; vida, sendo descrita como a experi&#234;ncia mais prazerosa que algu&#233;m pode ter, apesar da dor associada.</p><p>&#201; importante, contudo, ressaltar que a jovem autora era neurodivergente, sem diagn&#243;stico e sem suporte. E quando me refiro a suporte, preciso esclarecer que n&#227;o se trata apenas do suporte necess&#225;rio para uma pessoa autista, mas do suporte b&#225;sico para todo e qualquer vivente, especialmente em tenra idade. Como uma adolescente sem suporte familiar, provendo o pr&#243;prio sustento e lugar no mundo, esta jovem vivia no limiar da humanidade. Seu senso de ser era algo j&#225; prec&#225;rio, ainda mais precarizado pela neurodiverg&#234;ncia desconhecida, mas sentida. Se h&#225; uma coisa que n&#227;o posso dizer &#233; que nunca me senti diferente e estranha no mundo. E a an&#225;lise da trajet&#243;ria po&#233;tica e existencial aqui discutida revela que, para a mulher neurodivergente inserida em contextos de repress&#227;o e doutrina&#231;&#227;o, o fen&#244;meno da limer&#234;ncia, cunhado por Dorothy Tennov para descrever a obsess&#227;o cognitiva involunt&#225;ria por um objeto rom&#226;ntico, assume fun&#231;&#245;es que transcendem a biologia reprodutiva tal e qual ela cogita.</p><h3><strong> A Limer&#234;ncia como Hiperfoco de G&#234;nero</strong></h3><p>Diferente do objeto de fixa&#231;&#227;o comumente associado ao autismo masculino (focado em sistemas, <em>lore</em> ou colecionismo vis&#237;vel, como o Spock para o personagem Sheldon Cooper), a socializa&#231;&#227;o feminina frequentemente empurra o hiperfoco para o campo dos relacionamentos. O que surge &#233; uma Limer&#234;ncia de Hiperfoco, onde a energia mental &#233; canalizada para a constru&#231;&#227;o de um universo &#250;nico e interno. Enquanto o homem encontra tribos em conven&#231;&#245;es de quadrinhos e outras nerdices, a mulher constr&#243;i um santu&#225;rio clandestino, muitas vezes permeado pelo sentimento de vergonha e isolamento.</p><p>No poema <strong>Indiferen&#231;a</strong>, o objeto n&#227;o &#233; apenas um alvo de afeto, mas um reposit&#243;rio de bom, belo e luz. J&#225; propus aqui diversas vezes que, sendo uma menina perguntadeira macetada pelas conven&#231;&#245;es de como deve se portar e se calar uma menina, eu precisava projetar em algo esse bom, belo e luz que n&#227;o podia enxergar ou manter em mim. Assim, a teoria &#233; que, no caso do autismo feminino, diante de um sistema externo que busca domar, reprimir e invalidar a ess&#234;ncia da pessoa neurodivergente, a mente projeta sua pr&#243;pria bondade e dignidade no Objeto Limerente . Neste caso, ao considerar-se indigna, a autora usa o objeto para guardar o que tem de melhor. Amar o objeto torna-se a &#250;nica forma segura de amar a si mesma. As esquetes mentais e fantasias intrusivas funcionam como reguladores de um sistema nervoso sobrecarregado, gerando a dopamina necess&#225;ria para a manuten&#231;&#227;o da homeostase em um mundo ca&#243;tico.</p><h3><strong>A Substitui&#231;&#227;o da F&#233; e a &#201;tica do Sentimento</strong></h3><p>Mas &#233; na adi&#231;&#227;o da f&#233; que esta teoria ganha um outro n&#237;vel de sofistica&#231;&#227;o. Ainda na puberdade, identificara a precariedade e a incoer&#234;ncia das religi&#245;es institucionais e relegara as cren&#231;as ao campo da estultice. Contudo, a vida &#224; deriva requisita ancoramentos e far&#243;is que guiem o navegante . E &#233; aqui que a jovem autora opera uma transmuta&#231;&#227;o: a necessidade humana de transcend&#234;ncia &#233; transferida para a rela&#231;&#227;o limerente. Ela cria uma religiosidade privada. O poema declara o objeto limerente como &#8220;&#250;nica cren&#231;a&#8221;. Trata-se de uma religi&#227;o de uma pessoa s&#243;, onde o sagrado &#233; a pr&#243;pria capacidade de sentir intensamente, se este objeto limerente &#233; reposit&#243;rio e espelho. Que os deuses fossem criados &#224; imagem e semelhan&#231;a do homem e da natureza j&#225; lhe era claro nessa &#233;poca. E que os deuses ditam a moralidade humana por meio de sua mitologia tamb&#233;m. Deste modo, o objeto limerente, sacralizado, possibilitou tamb&#233;m a cria&#231;&#227;o de uma moralidade aut&#244;noma. A &#233;tica comportamental deixa de ser um conjunto de regras externas impostas e passa a ser orientada pela fidelidade ao sentimento. O &#250;nico pecado &#233; a trai&#231;&#227;o &#224; pr&#243;pria intensidade.</p><p>H&#225; um verso potente sobre a quebra de normas: </p><p>&#8220;Se desejasse seguir regras, nem saberia. Quais.&#8221;</p><p>Isso refor&#231;a que o sentimento  &#233; instintivo e indom&#225;vel. Ele n&#227;o cabe em manuais ou comportamentos sociais esperados. &#201; uma rebeldia contra a l&#243;gica, o que torna o obst&#225;culo da indiferen&#231;a ainda mais irrelevante para quem ama. E desvela um conflito perfeitamente lembrado por esta autora, j&#225; n&#227;o mais t&#227;o jovem: a culpa pelo tempo dedicado ao imposs&#237;vel; viver mais tempo na imagina&#231;&#227;o do que no real. E o poema opera nesse limiar entre a cren&#231;a e a descren&#231;a, refor&#231;ando o intento de ser plenamente fiel aos sentimentos, talvez mais para si do que para o mundo.</p><p></p><h3><strong>A Espiritualiza&#231;&#227;o do Sentimento</strong></h3><p>O uso de termos como &#8220;&#250;nica cren&#231;a&#8221;, &#8220;prostrada&#8221; e &#8220;arrependida&#8221; retira o amor do campo casual e o coloca no campo do sagrado. E essa manobra era essencial para driblar a pr&#243;pria racionalidade. O &#250;nico &#8220;pecado&#8221; poss&#237;vel, para a jovem autora, n&#227;o &#233; amar demais, mas sim &#8220;n&#227;o dar vaz&#227;o&#8221; ao que sentia.</p><p>Sacralizar o objeto limerente o tornou quase perene. Um artif&#237;cio, um Deus Ex-Machina sacado das coxias para o centro do palco toda vez que a cena amea&#231;a desandar.</p><h3><strong> A Poesia como V&#225;lvula e Documento</strong></h3><p>O poema &#8220;Indiferen&#231;a&#8221; n&#227;o &#233; apenas um lamento rom&#226;ntico; &#233; um Manifesto de Autocria&#231;&#227;o. Ele documenta o momento em que a subjetividade neurodivergente se recusa a ser domada e cria seu pr&#243;prio &#8220;Deus&#8221; &#224; sua imagem e semelhan&#231;a. A limer&#234;ncia, portanto, emerge n&#227;o como um gasto in&#250;til de energia, mas como uma ferramenta de preserva&#231;&#227;o da identidade, permitindo que a beleza e a &#233;tica pessoal sobrevivam intactas em um ambiente hostil.</p><p></p><p><strong>O que voc&#234; leu aqui &#233; parte de um esfor&#231;o cont&#237;nuo para resgatar a dignidade da nossa pr&#243;pria intensidade. A poesia, para mim, sempre foi o &#8220;Deus Ex-Machina&#8221; que salvou a cena quando o mundo real amea&#231;ava desandar.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.oryannaborges.com/p/o-altar-da-unica-crenca-indiferenca/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p> Qual est&#225;tua ou &#8220;objeto&#8221; ajudou voc&#234; a atravessar seus desertos? &#128640;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Ao apoiar financeiramente esta newsletter/site, voc&#234; viabiliza o tempo e as ferramentas necess&#225;rias para que eu transforme essas mem&#243;rias e poemas em teoria e acolhimento para outros.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Exuberância: Autismo, Masking e a Poesia do Anoitecer]]></title><description><![CDATA[Uma reflex&#227;o profunda sobre o poema "Exuber&#226;ncia". Como o anoitecer revela a face por tr&#225;s do masking social e a intensidade da alma neurodivergente.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/exuberancia-autismo-masking-e-a-poesia</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/exuberancia-autismo-masking-e-a-poesia</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Apr 2026 14:33:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MpXl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0dd41305-654e-4af8-8162-ac98b2e0a1cb_1146x2048.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Exuber&#226;ncia
</strong>
Aos poucos a luz recua e anoitece
A saudade &#233; lua branca,  lua cheia
Refletida em teus olhos a noite cresce 
Refletida em mim a lua Incendeia
</pre></div><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Na recente incurs&#227;o por esses poemas amorosos, &#224; luz da neurodiverg&#234;ncia, ele trouxe mais do que sinestesia: trouxe lembran&#231;as.</p><p>Mais do que uma met&#225;fora amorosa, o poema carrega a hist&#243;ria de uma adolesc&#234;ncia tomada pelo trabalho e pelo af&#227; da sobreviv&#234;ncia em um mundo nunca talhado para a poeta . Assim, o anoitecer trazia &#8212; e ainda traz &#8212; uma sensa&#231;&#227;o libertadora. As obriga&#231;&#245;es do dia arrefecem com a luz, e a luta cotidiana abre lugar para o descanso. Ainda me &#233; comum procrastinar e sofrer ao longo do dia para sentir, ao cair da noite, uma necessidade de produzir. Algumas vezes essa necessidade vem da culpa; noutras, vem da inspira&#231;&#227;o, como agora. O anoitecer, assim como aqueles olhos escuros que enfunam as velas dos meus pensamentos, traz-me o balan&#231;o de &#225;guas calmas, de luzes macias e acolhimento.</p><p>O inc&#234;ndio que este poema propaga &#233; um inc&#234;ndio benigno, transformador, ou talvez breve demais para deixar a alma mais do que chamuscada enquanto permanece  aquecida por um tempo. &#201;, talvez, o inc&#234;ndio criador da entrega plena ao mundo dos sonhos.</p><p></p><h3>O Fim da M&#225;scara (O Recuo da Luz)</h3><p>De certo modo, para mim, o anoitecer nunca foi sobre o fim do dia, mas sobre o fim do personagem. A &#8220;luz que recua&#8221; &#233; o silenciamento das demandas externas, das ordens, do masking social que eu, como uma adolescente autista n&#227;o diagnosticada, sustentava at&#233; o limite. Quando a luz sa&#237;a de cena, a minha verdadeira vida come&#231;ava. Uma vida embrion&#225;ria, quase inconsciente, nos bra&#231;os de um sonho lindo e acolhedor.</p><p>A suavidade do poema que, na abordagem sinest&#233;sica, tem um sabor que se perde antes de se dar a conhecer, reflete talvez Vinicius de Moraes em seu Poema dos Olhos da Amada:</p><p></p><p></p><p>&#8220;Oh, minha amada </p><p> Que os olhos teus </p><p>S&#227;o cais noturnos </p><p>Cheios de adeus </p><p>S&#227;o docas mansas </p><p>Trilhando luzes </p><p>Que brilham longe </p><p>Longe nos breus...&#8221;</p><p></p><h3><strong>A Geometria do Objeto Limerente</strong></h3><p>Nesse poema, existe uma divis&#227;o espacial muito clara entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;. Nos olhos dele, a Noite reflete a busca por um conforto sensorial e por uma liberta&#231;&#227;o do masking. Ele era o ponto de repouso, um sil&#234;ncio acolhedor e passivo. A &#8220;Lua que Incendeia&#8221; revela o paradoxo da neurodiverg&#234;ncia. Enquanto o mundo via uma adolescente quieta, deitada no escuro de um quarto nos domingos &#224; tarde, por dentro havia um mundo efervescente. A Lua &#8212; o hiperfoco, a adora&#231;&#227;o, a capacidade de criar mundos &#8212; n&#227;o era fria. Ela incendiava o sistema nervoso e constitu&#237;a novas sinapses.</p><h3>A &#8220;Fuga&#8221; que era Funda&#231;&#227;o</h3><p>Muitas vezes me culpei por achar que essas fantasias e o tempo gasto com recortes, revistas e biografias me tiravam da &#8220;vida real&#8221;. Hoje, entendo que essa era a minha autorregula&#231;&#227;o. O poema registra o momento em que eu transformava a saudade &#8220;de tudo que eu ainda n&#227;o vi&#8221;* em mat&#233;ria-prima criativa. Sem esse ponto de fuga, eu teria colapsado ainda na adolesc&#234;ncia. Gra&#231;as a recursos como o objeto limerente, pude me autocriar e chegar &#224; vida adulta... para colapsar aos trinta anos, quando decidi que precisava ser &#8220;normal&#8221;. O poder incendi&#225;rio dessa lua criadora foi sufocado pela rotina e, sem o tempo para me refugiar nessa dimens&#227;o imagin&#225;ria, a realidade bruta me atropelou.</p><p>Exuber&#226;ncia, portanto, n&#227;o &#233; sobre o que se v&#234; por fora. &#201; sobre a voltagem alt&#237;ssima de uma alma que s&#243; encontra paz quando o mundo apaga as luzes e permite que o brilho interno, finalmente, transborde.</p><h6></h6><h6>*Da M&#250;sica Indios da Legi&#227;o Urbana</h6><p></p><div id="youtube2-nM_gEzvhsM0" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;nM_gEzvhsM0&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/nM_gEzvhsM0?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Para mim, a noite &#233; o momento em que a m&#225;scara cai e a exuber&#226;ncia interna finalmente respira. E para voc&#234;? O anoitecer traz esse al&#237;vio ou o sil&#234;ncio ainda &#233; um desafio? <strong>Compartilhe sua experi&#234;ncia nos coment&#225;rios &#8212; vamos trocar percep&#231;&#245;es sobre esse 'transbordar' da alma.</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Insurgência Afiada: O Corte que aciona o Modo Combate]]></title><description><![CDATA[Da invisibilidade no anos 90 ao embate no sistema de sa&#250;de em BH: uma reflex&#227;o sobre o corte de cabelo como ato de liberta&#231;&#227;o e o peso de existir como mulher autista.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/insurgencia-afiada-o-corte-que-aciona</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/insurgencia-afiada-o-corte-que-aciona</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Apr 2026 22:33:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!U8VP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6b9d1811-e49b-462d-8971-5da01deeb256_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6b9d1811-e49b-462d-8971-5da01deeb256_1200x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Retrato de Oryanna Borges, uma mulher de pele clara e olhos verdes, com cabelo curto estilo pixie escuro. Ela olha para o horizonte com express&#227;o firme, vestindo uma regata coral.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6b9d1811-e49b-462d-8971-5da01deeb256_1200x1600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h3>O Peso Extirpado e a Sorte Afiada no Costume de Existir</h3><p>Em meados dos anos 90, aos 16 anos, comecei uma carreira como promotora de eventos. Na verdade, eu era demonstradora (a mo&#231;a que serve produtos para degusta&#231;&#227;o no supermercado), mas o primeiro nome &#233; mais elegante para uma profiss&#227;o fantasma. E para os trabalhadores que faziam eventos mais chiques, como feiras e eventos de grande porte, o anglicismo era mais usual. Mas a informalidade ainda era o ponto em comum entre essas nomenclaturas. Ainda assim, eu sobreviveria por sete anos nessa &#225;rea, gra&#231;as &#224; minha apar&#234;ncia longil&#237;nea de longas madeixas.</p><p>Quando me pareceu que a estabilidade era o ideal, me estabeleci como promotora efetiva de uma multinacional. E a&#237; o caldo entornou. As campanhas de dois ou tr&#234;s meses, que me davam intervalos de uma a duas semanas entre elas, vinham com um script a ser seguido e uma mobilidade pelos supermercados que nunca exigia a cria&#231;&#227;o de la&#231;os que subsistissem a duas semanas de relacionamento cordial. Tudo isso deu lugar ao que hoje chamo de sobrecarga. Antes de sucumbir &#224; massiva carga de trabalho f&#237;sico e relacional, para dialogar seriamente com minha maior advers&#225;ria, cortei minhas longas madeixas e, pela primeira e &#250;nica vez, tingi meus cabelos. De vermelho.</p><p>Quando, em 2016, precisava me reinventar profissional e pessoalmente, cortei de novo meus cabelos, bem curtos. Nessa ocasi&#227;o, n&#227;o lutei com a morte, pois eu tinha plena no&#231;&#227;o do que era o corte:</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Talhador da contrariedade nutriz;

alavanca de crescimento

e instigador da teimosia necess&#225;ria

para aguentar as pontas

at&#233; o atrevimento.

</pre></div><p></p>
      <p>
          <a href="https://www.oryannaborges.com/p/insurgencia-afiada-o-corte-que-aciona">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu Ex-Machina: O Silêncio das Vértebras]]></title><description><![CDATA[Dor, Cria&#231;&#227;o e o Direito ao Recolhimento]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/o-silencio-das-vertebras-dor-criacao</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/o-silencio-das-vertebras-dor-criacao</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Apr 2026 22:33:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bEy1!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Ilustra&#231;&#227;o de Helena Queria o chap&#233;u&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/79522c4f-d574-4090-bd5c-6a66d573482f_4320x3240.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Eu ex-machina</strong>

Te rendeste e choras crian&#231;a 
e palavras medidas desfio
Tua dor tanto me alcan&#231;a 
que me inunda como um rio 
Quisera fossem elas o manto 
a dissipar de tua alma ou frio 
Fossem olhar cheio de encanto 
cobrindo te amplo e macio.


</pre></div><p></p><h2>O Sil&#234;ncio For&#231;ado das V&#233;rtebras</h2><p>Escrever sempre foi, para mim, uma tecnologia de regula&#231;&#227;o. Mas o que acontece quando o suporte f&#237;sico &#8212; esse arco que sustenta a cabe&#231;a e as ideias &#8212; decide cobrar um ped&#225;gio impag&#225;vel?</p><p>Estou atravessando uma fase de dor aguda, uma dor tor&#225;cica que n&#227;o aceita negocia&#231;&#245;es, posi&#231;&#245;es de conforto ou paliativos. &#201; uma sensa&#231;&#227;o invasiva, que parece transbordar da coluna para os &#243;rg&#227;os internos, transformando o ato de sentar-se diante do computador em um exerc&#237;cio de resist&#234;ncia que, no momento, n&#227;o posso (e n&#227;o quero) performar.</p><p>Para al&#233;m do f&#237;sico, h&#225; um cansa&#231;o mental que pede o avesso da exposi&#231;&#227;o. O corpo, em sua sabedoria bruta, exige recolhimento. Reclama pelo isolamento, pelo escuro e pelo sil&#234;ncio &#8212; luxos raros em dias de casa cheia e feriados compuls&#243;rios.</p><p>Este &#233; um aviso breve aos navegantes : as postagens e as intera&#231;&#245;es desta semana ser&#227;o diferenciadas. Preciso de uma tr&#233;gua das demandas externas, inclusive das acad&#234;micas que j&#225; n&#227;o ressoam mais em mim, para focar no que &#233; essencial: recuperar a integridade do meu corpo e o sil&#234;ncio da minha mente.</p><p>Aos que acompanham meus processos e minhas buscas entre a poesia e o abismo, agrade&#231;o a paci&#234;ncia. Por ora, minha escrita se volta para dentro. Preciso ser, antes de tudo, meu pr&#243;prio territ&#243;rio de cura.</p><p>O poema que compartilho foi feito na adolesc&#234;ncia, e chamava-se piedade. Decidi renome&#225;-lo para Abyss&#225;lia, pois ele prova que eu produzia meu pr&#243;prio acolhimento, como o fa&#231;o agora.</p><p>Com afeto (e em busca de sil&#234;ncio)</p><p><strong>Oryanna Borges</strong></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Pela integridade do corpo e repouso da mente, farei do sil&#234;ncio minha morada esta semana. Se este espa&#231;o te acolhe de alguma forma, considere apoia-lo compartilhando este texto com quem tamb&#233;m precisa de uma tr&#233;gua.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TEA Menina: O Feiticeiro Mestiço que retornou do inferno]]></title><description><![CDATA[O Cap&#237;tulo 16 de TEA Menina, para voc&#234; leitor que acompanha essa jornada sobre o neurodiverg&#234;ncia e a viol&#234;ncia estrutural que atravessa vida mulher autista.]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-o-feiticeiro-mestico-que</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/tea-menina-o-feiticeiro-mestico-que</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:34:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O5Sb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O Feiticeiro Mesti&#231;o&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;lustra&#231;&#227;o de um homem negro de silhueta solene, vestindo um palet&#243; azul cl&#225;ssico e chap&#233;u fedora. Ele est&#225; em p&#233; diante de um fundo de chamas laranjas e azuis, segurando mantos de penas azuis. A arte representa Izaltino, o curandeiro mesti&#231;o do livro TEA Menina.&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc36030b-9068-4d74-affd-b82d44fca302_2688x4800.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h3>16. O curandeiro mesti&#231;o</h3><p></p><p>&#201; evidente que h&#225; alguns padr&#245;es nos arranca-rabos e plot twists dessa hist&#243;ria, ainda que o mosaico da mem&#243;ria n&#227;o permita uma flu&#234;ncia linear. E isso n&#227;o est&#225; especificamente na caracter&#237;stica predat&#243;ria dos homens que aqui se insinuam e se esgueiram pelo desamparo das meninas. O padr&#227;o mais estarrecedor &#233; o de que h&#225; meninas de uma mesma fam&#237;lia expostas a esses predadores e at&#233; mesmo entregues de bom grado a eles. O outro, que a mim j&#225; n&#227;o consterna, mas que algumas mentes arraigadas a certos princ&#237;pios custar&#227;o a ver &#8212; e quando essa possibilidade lhes for apontada dir&#227;o: &#8220;Tem algo errado aqui. Maria n&#227;o abandona seus filhos&#8221; &#8212;, deixando escapar &#224; percep&#231;&#227;o o fato de que se trata de filhas. Essa Maria nunca abandonou seu filho. Mas as regras que ela aprendeu e reproduziu sobre as filhas s&#227;o outras. E s&#227;o r&#237;gidas como ela pr&#243;pria.</p><p>Essa Maria n&#227;o &#233; uma Maria como outra qualquer. Em vez do filho, ela &#233; a m&#225;rtir a carregar uma cruz sempre renovada pelas pessoas que n&#227;o seguem &#224; risca sua concep&#231;&#227;o austera de funcionamento do mundo. Ela padece as dores do casamento e da maternidade, e sofre sempre mais do que qualquer um que tenha ofendido ou abandonado durante seu calv&#225;rio. E &#233; assim, nesse papel, que ela vira o jogo quando confrontada ou amea&#231;ada.</p><p>Maria pouco fala da sua pr&#243;pria m&#227;e, e a hist&#243;ria sempre repetida &#233; que Dona Generosa &#8212; Osa, como era chamada &#8212; morreu aos 44 anos no meio da noite, ap&#243;s um grito agoniado. Quando Izaltino, o marido, achou o isqueiro para acender a lamparina, j&#225; n&#227;o havia nada a fazer. Descrita por Maria como uma mulher muito calma, silenciosa e dedicada aos afazeres dom&#233;sticos, a falta de entusiasmo na voz faz parecer que sua morte foi o momento mais marcante de sua vida. &#8220;Em compara&#231;&#227;o ao pai&#8221;, diz Maria, &#8220;ela n&#227;o deixou nada. Ele sim, sentava-se com os filhos, ensinava, educava.&#8221; E &#233; na rela&#231;&#227;o com essa figura paterna, visivelmente admirada, que Maria se revela.</p><p> Izaltino &#233; um t&#237;pico brasileiro do in&#237;cio do s&#233;culo XX, filho de um homem moreno de olhos verdes de proced&#234;ncia uruguaia &#8212; que alguns familiares insistem ser de origem italiana &#8212; e de uma ind&#237;gena que dizem ter sido &#8220;ca&#231;ada no mato&#8221;: Ger&#244;nimo e Ana. A genealogia controversa evoca, al&#233;m da ancestralidade ind&#237;gena, ra&#237;zes africanas e talvez ciganas, n&#227;o s&#243; pela cor, mas pelas pr&#225;ticas religiosas e pela cartomancia, um &#8220;dom&#8221; de todos os membros masculinos da fam&#237;lia de Ger&#244;nimo. E ainda h&#225; uma aura m&#237;stica em Izaltino, cujos dons de cura foram atribu&#237;dos ao fato de ele ter estado &#8220;morto&#8221; por 14 dias, per&#237;odo no qual disse ter ido ao inferno, onde aprendeu muitas coisas, inclusive a arte da cura. Antes de morrer, ou entrar em um estado de coma ou catalepsia, ele esteve doente por cerca de 40 dias, justamente os primeiros 40 dias de vida de Maria. Quando, no d&#233;cimo quarto dia de sua &#8220;morte&#8221;, decidiram banh&#225;-lo e preparar o corpo para o enterro, ele acordou com um grito, similar ao de Osa na hora da sua morte, anos mais tarde. </p><p>Ter adoecido logo que Maria nasceu e retornado &#224; vida no fim do puerp&#233;rio de Osa &#233; mais um dado al&#231;ado &#224; sobrenaturalidade do acontecido, depois do qual ele se tornou um conhecido curandeiro a dedicar seu tempo e bens para atender e alimentar pessoas que vinham de muito longe para receber a sua d&#225;diva na forma de benzimentos e rem&#233;dios naturais que n&#227;o se sabe onde aprendeu a fazer. Maria tinha sete anos quando ele parou de realizar essas curas, pois o numeroso p&#250;blico exigia todo o seu tempo e dinheiro, e ele disse estar em posi&#231;&#227;o de escolher entre atender essas pessoas e deixar seus filhos passarem fome, ou encerrar tudo e cuidar de sua fam&#237;lia.</p><p>Maria era a quinta de 13 filhos e claramente desenvolveu um v&#237;nculo especial com o pai, o qual muitas vezes acompanhava quando visita os doentes. E, mesmo assim, ela se descreve como uma crian&#231;a nervosa, brava e t&#237;mida, que se escondia n&#227;o s&#243; dos doentes como dos parentes, quando estes chegavam. No entanto, quando sua irm&#227; adotiva Maria da Luz se casou, xingava o homem que levou &#8220;Dal&#243;iz&#8221; embora, e ele achava gra&#231;a em provoc&#225;-la. Seu temperamento era creditado ao leite de Osa, uma m&#227;e com nervos em flor pela condi&#231;&#227;o do marido doente. Maria tamb&#233;m era muito inteligente e decidida, e certamente observadora. E, especialmente, tinha uma firmeza de car&#225;ter que a tornava temida pelos irm&#227;os e respeitada pelo pai. Seu senso de certo e errado recebia cr&#233;dito do pai, especialmente quando, com o casamento de Trindade, a irm&#227; mais velha, ela se tornou o bra&#231;o direito da m&#227;e. Quando Osa esteve acamada por um longo per&#237;odo ap&#243;s o nascimento do ca&#231;ula Roque, ela tornou-se uma figura de autoridade dentro de casa.</p><p> Maria era uma mulher brilhante e certamente teve mais respeito do que a maioria das mo&#231;as em sua &#233;poca. Por isso, quando o pai quis que se casasse com um homem cuja pele era mais escura do que a sua, ela recusou-se. Aos 18 anos, Maria j&#225; estava a ponto de ficar para &#8220;titia&#8221; de acordo com os padr&#245;es da &#233;poca e tratou de achar para si um par mais adequado. E, apesar de permitir o namoro com o escolhido, o pai foi contra o casamento e se recusou a vestir a noiva e preparar a festa. Maria orgulha-se de ter dito ao pai:</p><p>&#8212; Pois se o senhor acha que eu vou fugir, est&#225; muito enganado. Se o senhor n&#227;o quiser me aprontar para o casamento, me d&#234; um peda&#231;o de terra que eu mesma planto o feij&#227;o, colho e vendo para comprar o tecido para o vestido.</p><p>Nesse conto que envolve feij&#245;es, Maria casou-se com Jo&#227;o, tocador de gaita nos bailes da regi&#227;o, que trocou seu acorde&#227;o pela terra da qual alimentaria sua fam&#237;lia. A vers&#227;o do feij&#227;o nunca mudou, mas a vers&#227;o do homem de pele mais escura que a dela, que antecedeu seu Jo&#227;o no rol de seus amores, inverteu-se nos &#250;ltimos tempos: ela passou a gostar dele e foi proibida pelo pai. A firmeza de car&#225;ter que ela revela na hist&#243;ria do casamento nunca impediu que ela alterasse as narrativas quando fosse conveniente, o que torna imposs&#237;vel saber qual vers&#227;o &#233; verdadeira. E, apesar de ser uma mulher de pele escura, ela sempre se considerou branca, e mesmo sua cor ela credita &#224; hepatite B que teve aos 23 anos. Teria o m&#233;dico, depois de uma convalescen&#231;a prolongada, informado &#224; fam&#237;lia que ela estava bem, mas a cor da pele nunca mais seria a mesma. N&#227;o encontrei nada na hist&#243;ria da medicina que creditasse &#224; hepatite esse poder de mudar o tom de pele em definitivo, e especialmente para o preto. Talvez uma explica&#231;&#227;o tempor&#225;ria para uma cor mais escura e algum Melasma tenha se tornado uma express&#227;o da verdade permanente para ela. </p><p>Seu preconceito em rela&#231;&#227;o &#224; cor e sua cren&#231;a na pr&#243;pria brancura &#233; tal que seu primeiro neto foi rejeitado, assim como o seu primeiro genro Miro, ambos sempre relacionados &#224; sujidade, ao lado de Lena, a filha que teve essa ousadia de se juntar a um preto e parir outro. &#211;bvio que nada foi dito com essa viol&#234;ncia. Curiosamente, Rafael, o neto, ostenta a cor da pele do pai e os cabelos lisos da av&#243;, ainda que ambos seus pais tenham cabelos crespos em diferentes curvaturas. A cren&#231;a de dona Maria em ser branca &#233; t&#227;o certa e reiterada que me surpreendi ao constatar em fotos antigas que seu irm&#227;o, guarda-noturno que dormia o dia todo e s&#243; sa&#237;a &#224; rua de chap&#233;u, sentado lado a lado com Miro, tinha exatamente a mesma cor.</p><p>Esse preconceito arrefeceu lentamente com o passar dos anos. E Lena contribuiu parindo uma neta 16 anos depois do primeiro filho, quando dona Maria encarava o ninho vazio. Ela acolheu a neta com mais afeto e louvor aos seus cabelos lisos, pois de sua ascend&#234;ncia ind&#237;gena existe certo orgulho. Maria de fato n&#227;o balan&#231;a os estandartes de uma branquitude eugenista. Parece mais uma criatura burilada em um tempo no qual ser preto era ainda mais dif&#237;cil do que hoje em dia, e repete sistematicamente as cren&#231;as que lhe foram incutidas. As ra&#237;zes m&#237;sticas da religiosidade de meu av&#244;, praticada de forma velada ou sincretizada, evidenciam que a necessidade de se imiscuir aos costumes brancos, parecer branco e embranquecer os filhos era um dado veladamente cultivado na fam&#237;lia. E </p><p>N&#227;o &#233; poss&#237;vel afirmar com certeza que o racismo de seu tempo foi o que deu in&#237;cio &#224; necessidade de Maria recriar verdades para esconder uma profunda vergonha ou uma verdade desagrad&#225;vel. Demorei muito a perceber essa autopercep&#231;&#227;o dela em rela&#231;&#227;o &#224; pr&#243;pria cor. Seu Jo&#227;o sempre fez piadas racistas nas quais dona Maria era objeto da tro&#231;a. Certa ocasi&#227;o, por exemplo, fiz um caf&#233;, e ela, que n&#227;o tomava por ordens m&#233;dicas desde que eu era crian&#231;a, pediu uma x&#237;cara. E de caf&#233; puro. Ele riu e advertiu que, se ela tomasse o caf&#233; puro, ficaria preta. Antes que eu assimilasse esse espanto, Jo, com todo o charme escorrendo da voz, disse:</p><p>&#8212; Mas ent&#227;o vai ficar negona, porque preta ela j&#225; &#233;.</p><p>Todos riram, menos Maria, que lembrou com voz magoada de um acontecimento vexat&#243;rio no qual o pastor a usou como exemplo de peles escuras mais resistentes ao c&#226;ncer.</p><p>&#8212; Um absurdo! A mulher dele &#233; muito mais escura do que eu. Por que n&#227;o usou ela de exemplo?</p><p>A brincadeira certamente mexeu em uma dor. E esse ocorrido me levou a outro no qual eu fui a piada em um momento aleat&#243;rio em que fal&#225;vamos sobre as muitas facetas de nossa m&#227;e. Jo, no meio do assunto, falou:</p><p>&#8212; Voc&#234; lembra quando a gente era crian&#231;a e a m&#227;e decidia sair para resolver algo &#8220;na cidade&#8221; e, se visse um preto na esquina, ela entendia como sinal de azar e voltava para casa?</p><p>Em minha cabe&#231;a s&#243; havia um preto vinculado &#224; ideia de azar e questionei:</p><p>&#8212; S&#233;rio, um gato?!</p><p>A surpresa em minha voz devia-se ao fato de n&#227;o ver dona Maria como uma mulher supersticiosa. Jo riu e respondeu:</p><p>&#8212; N&#227;o. Um preto.</p><p>E eu, ainda mais surpresa com o riso e a &#234;nfase, me repeti, arrancando dela gargalhadas. Nunca me ocorreu que minha m&#227;e pudesse ser  racista, quando era de meu pai que ouvia as piadas. N&#227;o que eu seja de todo inocente. Como uma pessoa de apar&#234;ncia branca, provavelmente incorro em erros grosseiros de conduta racial. Por&#233;m, nunca tive, por exemplo, a marca que a diferen&#231;a de cor deixa em pessoas como Jo, a filha morena de cabelos cacheados e olhos castanhos em uma prole branca de olhos claros e cabelos loiros, pelo menos em alguma parte da vida.</p><p>No caso de Maria, pude ver seus breves relatos do passado com outros olhos, como um fato protagonizado por Seu Jo&#227;o, quando Ika, a &#250;nica da fam&#237;lia com olhos azuis &#8212; os demais t&#234;m olhos verdes &#8212; foi carregada por ele em uma viagem de visita aos seus pais. Mesmo nunca tendo sido afeito aos cuidados com os filhos, segundo dona Maria, carregou e cuidou dela visando ostentar a beb&#234; de olhos azuis e penugem loira na cabe&#231;a para seu pai de ascend&#234;ncia alem&#227;, como quem ostenta um trof&#233;u. Maria n&#227;o incute um tom que me permita deduzir seu real sentimento a respeito, apenas repete a hist&#243;ria como se fosse uma constata&#231;&#227;o do orgulho paterno.</p><p>Mas talvez n&#227;o seja uma quest&#227;o de cor o que fez Maria se livrar das filhas sempre t&#227;o jovens. Ela parece muito vaidosa de seu car&#225;ter e de sua autoridade. Talvez o afeto do pai tenha lhe dado uma impress&#227;o de autonomia que a vida lhe negou, justamente pelo fato de ela tamb&#233;m ser mulher. O casamento com um homem da sua idade a colocou em uma posi&#231;&#227;o de obedi&#234;ncia ao marido. Contudo, esse marido nunca se equiparou a seu pai em autoridade. O temperamento dele se assemelha mais ao de sua m&#227;e, Osa. Seu Jo&#227;o &#233; um homem calmo, inteligente, mas de racioc&#237;nio e a&#231;&#227;o lentas. O oposto de Maria, que na posi&#231;&#227;o de mulher se deparou com mais desafios do que supunha em um casamento. Entre eles, a pobreza e a subservi&#234;ncia de sua mente sagaz a um homem, para seus padr&#245;es, lerdo. Ou melhor, a um casamento. Seu compromisso era com o casamento e tudo o que ele sancionava socialmente.</p><p>Meu pai n&#227;o parece ter sido muito bom nos neg&#243;cios boa parte da vida. Ou talvez ele tenha sido v&#237;tima da ideia de progresso que a cidade grande representava na d&#233;cada de 70. Os primeiros anos de casamento no interior do Paran&#225; revelam muita escassez e sofrimento na zona rural, quando a sa&#250;de dos filhos requisitava recursos n&#227;o s&#243; m&#233;dicos como financeiros. Se a vida no campo lhes dava autonomia alimentar, ela n&#227;o necessariamente significava dinheiro. Em algum ponto, a terra &#224; qual se dava pouco valor, a ponto de se poder compr&#225;-la a pre&#231;o de um acorde&#227;o usado, perdeu-se. E, em 1970, Lena, a segunda filha do casal, ainda beb&#234;, adoeceu. Sempre com uma sa&#250;de muito fr&#225;gil, a menina esteve &#224; beira da morte mais de uma vez. E foi em um de seus internamentos que seu Jo&#227;o resgata  uma hist&#243;ria que bem ilustra a precariedade de sua situa&#231;&#227;o. Sem dinheiro para pagar o hospital em uma &#233;poca sem SUS ele precisava pagar o sindicato dos trabalhadores rurais para que este arcasse com metade das despesas. Mas s&#243; tinha uma parte do valor da taxa quando chegou ao sindicato.</p><p> A vida, &#224;s vezes, n&#227;o &#233; sutil em apresentar oportunidades de resolu&#231;&#227;o, e desta vez a oportunidade se chamava Ant&#244;nio Sutil, um conhecido que encontrou na cidade e que, ao ver um fazendeiro da regi&#227;o entrar em um restaurante, sugeriu que fossem cumpriment&#225;-lo na expectativa de que o velho lhes pagasse o almo&#231;o. O fazendeiro era parente de sua mulher, de modo que essa gentileza de fato era poss&#237;vel. Isto feito E assim, ambos entraram no restaurante onde o fazendeiro mandou servirem aos dois o mesmo que ele consumiria: um &#8220;sortido&#8221; e um copo de vinho. Alimentado, Ant&#244;nio Sutil saiu apressado e deu a seu Jo&#227;o a oportunidade de pedir ao fazendeiro um empr&#233;stimo. Compadecido da situa&#231;&#227;o do rapaz de pouco mais de vinte anos, ele deu uma quantia maior do que a solicitada e o eximiu da d&#237;vida. Com o valor que sobrou da taxa sindical, seu Jo&#227;o p&#244;de colocar comida na mesa, o que tamb&#233;m j&#225; n&#227;o havia mais.</p><p>A sa&#250;de de Lena foi t&#227;o prec&#225;ria durante seus primeiros anos de vida que at&#233; mesmo poliomielite ela contraiu, apesar de n&#227;o apresentar graves sequelas, tendo ficado apenas com um andar suavemente arrastado em uma das pernas. Os cuidados com sua sa&#250;de fariam o papel de um contraceptivo natural em uma cultura na qual os sint&#233;ticos n&#227;o estavam dispon&#237;veis. O longo per&#237;odo sem mais rebentos seria findado sete anos depois do nascimento de Lena, quando Maria deu &#224; luz Ika, a branquela de olhos azuis que nunca perdeu o loiro acinzentado de seus cabelos. Ika trouxe orgulho, sa&#250;de e certamente algumas alegrias, que tr&#234;s anos depois eu n&#227;o traria. Pouco se fala do nascimento de Ika, sendo a &#250;nica hist&#243;ria aquela de sua viagem ainda beb&#234;, nos bra&#231;os do pai orgulhoso. J&#225; a hist&#243;ria do meu nascimento sempre foi bem conhecida.</p><p>Em 1978, seu Jo&#227;o foi para Foz do Igua&#231;u trabalhar com seu irm&#227;o Jos&#233; na constru&#231;&#227;o das vilas que abrigariam os funcion&#225;rios da Itaipu Binacional durante a constru&#231;&#227;o da hidrel&#233;trica. Isso deixaria dona Maria sozinha por quatro meses na cidade de Tr&#234;s Barras, com tr&#234;s filhos pequenos, sofrendo a humilha&#231;&#227;o de ter at&#233; o leite negado para seus filhos, pois a dona das vacas n&#227;o via motivo para vender fiado quando podia vender &#224; vista para outros fregueses. Ela se tornou lavadeira para sobreviver e se preparou para se tornar uma mulher abandonada. Como se n&#227;o bastasse o tormento de ver suas expectativas de vida frustradas e ainda enfrentar o destino que seu pai prognosticara para ela quando decidiu se casar com esse homem em particular, Maria descobriu-se gr&#225;vida. Na reconta&#231;&#227;o dessa fase de sua vida, ela sempre repetia:</p><p>&#8212; A gente era t&#227;o boba que estava gr&#225;vida e nem sabia.</p><p>Ao infort&#250;nio de uma mulher abandonada com tr&#234;s filhos, ela previa agregar o falat&#243;rio a respeito de sua barriga crescendo sem um marido por perto. E mais: temia que, se ele voltasse, n&#227;o acreditasse que o filho era seu. Em uma &#233;poca sem meios de comunica&#231;&#227;o eficientes e  sem o h&#225;bito de escrever cartas, ela se preparava para o pior em qualquer circunst&#226;ncia. Como uma mulher apegada &#224;s apar&#234;ncias e preocupada com o que os outros iriam pensar, sua vida nos primeiros dias de minha exist&#234;ncia pode ser apropriadamente nominada de inferno. Eu s&#243; compreenderia o peso dessa hist&#243;ria por volta dos 17 anos, quando pedisse para ela ler meus poemas e um em particular lhe chamasse a aten&#231;&#227;o:</p><p><strong>Senhora</strong></p><p>Teu ventre me acolheu e me nutriu</p><p>De emo&#231;&#245;es e for&#231;as antag&#244;nicas</p><p>E no teu ventre se formou o estranho elo</p><p>Que me ensinou a amar</p><p>Amar sem ser amada</p><p>Amar e perder</p><p>Amor como anest&#233;sico</p><p>E tomar do rem&#233;dio errado</p><p>Este mesmo elo me ensinou a cair</p><p>(Andar eu aprenderia de qualquer jeito)</p><p>Cair sob o peso da decep&#231;&#227;o</p><p>Cair sob o peso das palavras</p><p>Cair sob o peso do teu olhar</p><p>Cair na incerteza dos passos</p><p>Cair para sempre me levantar sozinha</p><p>Atrav&#233;s deste elo tamb&#233;m</p><p>Aprendi sobre justi&#231;a</p><p>Sem c&#243;digo de honra</p><p>Por isso, cega</p><p>E ent&#227;o aprendi a lutar</p><p>Porque morrer na batalha dignifica</p><p>E nossos dem&#244;nios</p><p>Precisam de prop&#243;sito</p><p>E nosso anjo precisa de trabalho</p><p>E s&#243; lutando se aprende</p><p>Sobre volume e espessura</p><p>A espessura da l&#226;mina que nos fere</p><p>E o volume correspondente</p><p>A cada m&#225;goa que carregamos</p><p>E veja, aprendi at&#233; sobre filosofia</p><p>Pois Deus faz poesia por linhas tortas</p><p>Com invej&#225;vel perfei&#231;&#227;o</p><p>Talvez para meu aprendizado deste-me a dor</p><p>E semeaste em meu esp&#237;rito sabedoria</p><p>Ateando fogo na tocha do conhecimento</p><p>Para em minha alma criar</p><p>O dom divino do perd&#227;o</p><p>E a maldi&#231;&#227;o humana da saudade.</p><p></p><p></p><p>A oitiva da hist&#243;ria de meu nascimento, com o retorno de meu pai e a mudan&#231;a da fam&#237;lia para Foz, onde eu nasceria alguns meses depois, estava presente na ossatura desses versos. Por&#233;m, jamais me ocorreu insinuar o que ela compreendeu ao ler. Dona Maria irrompeu do quarto com meu caderno na m&#227;o e o olhar de &#225;guia prestes a arrebatar uma presa desavisada:</p><p>&#8212; Eu nunca tentei te abortar! &#8212; esbravejou.</p><p>A viol&#234;ncia do surgimento e de suas fei&#231;&#245;es deformadas por uma revolta &#237;ntima que n&#227;o deveria ter sido desvelada me deixaram sem a&#231;&#227;o. N&#227;o neguei ter cogitado isso, at&#233; porque acabara de cogitar, e meu pensamento se digladiava em diversas dire&#231;&#245;es,  em uma velocidade que eu era incapaz de expressar, como nos sonhos nos quais a comunica&#231;&#227;o se d&#225; por ideias complexas e imagens. Era extremamente veross&#237;mil que a mulher que j&#225; tinha tr&#234;s filhos e se acreditava abandonada cogitasse o aborto em nome da sobreviv&#234;ncia dos tr&#234;s j&#225; existentes, caso o abandono se concretizasse. E, para endossar minhas suspeitas, ela sempre foi uma grande conhecedora de ervas e po&#231;&#245;es naturais; afinal, era filha de um curandeiro mesti&#231;o e neta de uma ind&#237;gena &#8220;ca&#231;ada no mato&#8221;.</p><p>O poss&#237;vel desfecho violento parece uma dramatiza&#231;&#227;o exagerada de uma mente perturbada pelo sofrimento, mas, na verdade, essa possibilidade apoiava-se em parte no comportamento de meu pai, bem como de sua fam&#237;lia. O motivo de seu Izaltino ter sido contra o casamento deles devia-se ao fato de meu pai proceder de uma fam&#237;lia desestruturada. Embora meus av&#243;s paternos fossem casados e assim tenham permanecido at&#233; o fim da vida, os filhos n&#227;o recebiam educa&#231;&#227;o, prote&#231;&#227;o e respeito. Meu pai, aos dez anos, vivia pelos alojamentos das fazendas e s&#237;tios da regi&#227;o, trabalhando muitas vezes por comida. Sua m&#227;e, Ermelinda, era mais submissa e silenciosa do que Osa. Maria conta que, em uma temporada passada com os sogros, questionou dona Ermelinda sobre o motivo de ela e do marido n&#227;o se falarem, pois ela n&#227;o podia conceber um casamento sem di&#225;logo. Dona Ermelinda argumentou que toda vez que falou levou patada e recebeu ordem para calar, ent&#227;o decidiu n&#227;o dizer mais nada. </p><p>&#201; imposs&#237;vel saber se a voz silenciada foi predecessora ou decorrente da completa ina&#231;&#227;o de dona Ermelinda, que n&#227;o conseguia estabelecer uma ordem ou rotina para sua fam&#237;lia. Era comum seus numerosos filhos dormirem sujos e com fome. As crian&#231;as famintas, se chegassem em uma casa que tivesse comida sendo preparada, s&#243; iam embora depois de alimentadas, como bons pedintes. Os meninos, especialmente, desapareciam sem hora para voltar, e quem chegasse primeiro comia a refei&#231;&#227;o pobre at&#233; se fartar, sem se preocupar com os demais ou mesmo com a m&#227;e. Um h&#225;bito herdado do pr&#243;prio pai que, eventualmente, esperava os filhos dormirem, alimentados com polenta e leite se tivessem sorte, para matar uma galinha e comer sozinho. O patriarca tamb&#233;m costumava receber o sal&#225;rio dos filhos que, ainda pequenos, se desgastavam nas terras vizinhas enquanto ele esperava em casa, tranquilo. Esse era um cen&#225;rio de horror para Maria, uma mulher apegada &#224; rotina, &#224; limpeza e &#224; ordem. E mais do que isso, uma mulher acostumada a ser ouvida e respeitada pela maior autoridade da casa, seu pai.</p><p>Embora meu pai fosse acostumado ao trabalho &#225;rduo, ser o provedor aos 18 anos &#233; uma responsabilidade muito grande para um rapaz que s&#243; conheceu a escassez e a brutalidade. E assim, entre os fragmentos de mem&#243;ria de Maria, est&#225; sua a&#231;&#227;o contumaz para moderar a brutalidade do marido, de cujas &#8220;botas&#8221; disse ter recolhido algumas vezes seu primog&#234;nito.</p><p>Segundo ela, os dois filhos mais velhos, Borges e Lena, sofreram muito nos primeiros anos de vida. Da&#237; que sua dedica&#231;&#227;o em silenciar os filhos quando o marido chegava do trabalho  poderia ter um senso de prote&#231;&#227;o somado &#224; sua pr&#243;pria necessidade de ordem e sil&#234;ncio. Al&#233;m da brutalidade, ela alega que ele n&#227;o demonstrava afeto pelos filhos e s&#243; teria dado colo e carinho &#224; ca&#231;ula, nascida quando ele tinha 34 anos. A viagem com Ika, ainda beb&#234;, contradiz a quest&#227;o do colo, mas n&#227;o necessariamente do afeto e carinho.  De algum modo, sempre acreditei que meu desconforto com manifesta&#231;&#245;es de afeto e toques f&#237;sicos, ou at&#233; mesmo proximidade f&#237;sica, se devia a essas caracter&#237;sticas paternas sempre ressaltadas por dona Maria. Embora o amor dela me faltasse a vida toda, eu acreditava em suas palavras e media minha capacidade de contato humano pela que entendia como a dele. E sua ascend&#234;ncia alem&#227; ratificava isso, em hist&#243;rias a respeito da frieza e distanciamento emocional dos alem&#227;es.</p><p>De qualquer modo, n&#227;o houve viol&#234;ncia. Seu Jo&#227;o trouxe dinheiro e compreens&#227;o consigo e levou a fam&#237;lia para Foz do Igua&#231;u, onde eu nasceria alguns meses depois. Ainda em uma casa alugada e prec&#225;ria, mas com a fam&#237;lia reunida. Nos anos seguintes, ele construiria uma casa confort&#225;vel com sala, cozinha, tr&#234;s quartos, banheiro e varanda, onde minhas primeiras lembran&#231;as foram criadas. E sim, sua figura era bastante ausente. S&#243; fixei seu cenho franzido que, emoldurado pela ordem de fazer sil&#234;ncio quando ele chegasse, interpretei como a de um homem bravo e de pavio curto. O barulho das crian&#231;as realmente o incomodava, e o tom raivoso exigindo sil&#234;ncio seria reconhecido quando a algazarra dos netos perturbasse sua sesta d&#233;cadas mais tarde.</p><p>Essa imagem do homem irasc&#237;vel que n&#227;o suportava os pr&#243;prios filhos e n&#227;o manifestava afeto seria amainada quando ele revelasse que, para garantir o conforto da casa pr&#243;pria e os luxos &#8212; para a &#233;poca &#8212; como geladeira e televis&#227;o, ele trabalhava cerca de 14 horas por dia como pedreiro. Muitas vezes com os p&#233;s inflamados e lacerados por frieiras, decorrentes da umidade das botas de borracha. Nos &#250;ltimos meses trabalhando na constru&#231;&#227;o da represa de Itaipu, pendurado a grandes alturas, enfrentava diariamente seu pr&#243;prio pavor, que venceu quando um colega caiu e, como era inevit&#225;vel, morreu.</p><p>Mas antes que esse dia chegasse, Maria teria um per&#237;odo de tranquilidade e fartura, refletido em uma gesta&#231;&#227;o feliz que talvez s&#243; se equipare emocionalmente ao nascimento do seu primog&#234;nito. Jo &#233; a quarta menina e a quinta de uma prole de seis. Ela sempre viu a hist&#243;ria de seu nascimento em casa como uma &#8220;pressa de nascer&#8221;. Sua vis&#227;o da espiritualidade a levou a conectar essa pressa uma vontade de vir ao mundo, e no meu demorado e agonizante parto, justamente o oposto. Quando juntas analisamos esses relatos, Jo, uma umbandista, concluiu que, al&#233;m de eu parecer n&#227;o querer vir ao mundo, minha m&#227;e n&#227;o queria que eu nascesse, pois, seu corpo n&#227;o parecia preparado para o parto, o que lhe acarretou 30 horas de sofrimento. Quando dona Maria relatou que mulheres iam e vinham do quarto da maternidade e ela continuava l&#225;, eu ri lembrando do parto de Rachel em Friends. Mas certamente n&#227;o foi nada risonho esse embate entre nossos corpos e vontades. Talvez eu soubesse que no &#250;tero seria a &#250;ltima vez que me sentiria conectada a algu&#233;m. Supondo que absorvesse parte do turbilh&#227;o emocional dessa Maria, talvez ainda preferisse o inferno familiar. </p><p>O olhar de Maria para mim muitas vezes foi detido, por&#233;m distante. Talvez ela reconhecesse um pouco de si.  O oposto do olhar para Jo, a quem sempre atribu&#237;a sorte e alegria. Mesmo quando as roupas doadas pelo japon&#234;s foram usadas como mat&#233;ria-prima para o bullying de Borges, Maria viu isso como uma prova de que ela nasceu &#8220;com a bunda virada para a lua&#8221;. A abund&#226;ncia sempre foi parte da vida dela e a escassez da minha. E essa cren&#231;a foi estabelecida pelas observa&#231;&#245;es de Maria, que me levava ao m&#233;dico e insistia que devia haver algo errado comigo, sempre apontando as olheiras profundas como dignas de investiga&#231;&#227;o, enquanto Jo era uma express&#227;o de sa&#250;de e vitalidade.</p><p>Eu n&#227;o fazia essa compara&#231;&#227;o na inf&#226;ncia. Simplesmente n&#227;o tinha repert&#243;rio para tal e me ocupava em processar o tumulto interno e a vontade de escapar do tumulto externo do qual Jo era uma das partes mais barulhentas. A imagina&#231;&#227;o me levava para longe, mundos similares &#224; Terra do Nunca com navios e castelos repletos de riquezas esperando pela minha explora&#231;&#227;o. E, depois de ler &#8220;A Ilha Perdida&#8221; de Maria Jos&#233; Dupr&#233;, meu lugar era uma ilha deserta, sozinha, em sil&#234;ncio. </p><p>Foi em algum momento da vida adulta, depois dos meus trinta anos, que comecei a assimilar lentamente a ideia de que a rela&#231;&#227;o de minha m&#227;e com as filhas poderia ter rela&#231;&#227;o direta com a qualidade de suas gesta&#231;&#245;es. Tive a certeza de que, quando ela olhava para mim e insistia que devia haver algo errado, poderia sim haver o medo de sequelas de alguma beberagem abortiva, ou poderia ser apenas uma manifesta&#231;&#227;o inconsciente da rejei&#231;&#227;o justificada da gesta&#231;&#227;o. E Jo era o oposto; logo, evocava o sentimento oposto. E essa discrep&#226;ncia entre os afetos de Maria se sustenta at&#233; hoje. Mesmo Jo tendo seguido caminhos desaprovados por ela em sua sexualidade e sua espiritualidade, ela &#233; a filha admirada e em quem a maior confian&#231;a &#233; depositada. Pelo menos essa era uma das possibilidades de interpreta&#231;&#227;o. H&#225; sempre uma margem para d&#250;vida. Se o afeto existe e &#233; verdadeiro, por que esse afeto n&#227;o impediu que Jo fosse a segunda maior v&#237;tima da m&#227;e? E por que ainda assim ela se tornou seu amparo na velhice?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este cap&#237;tulo &#233; parte de TEA Menina, uma investiga&#231;&#227;o autoetnogr&#225;fica sobre autismo, ancestralidade e resist&#234;ncia. Meu objetivo &#233; transformar sil&#234;ncios em narrativas potentes. Assine minha newsletter e apoie  diretamente a continuidade desta obra independente.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Energização: o Objeto Limerente como Suporte de Substituição]]></title><description><![CDATA[A limer&#234;ncia serviu como mecanismo de autorregula&#231;&#227;o para uma adolescente neurodivergente em situa&#231;&#227;o de abandono. Uma reflex&#227;o profunda sobre poesia, diagn&#243;stico oculto e a cria&#231;&#227;o de &#237;dolos sagrados]]></description><link>https://www.oryannaborges.com/p/energizacao-o-objeto-limerente-como</link><guid isPermaLink="false">https://www.oryannaborges.com/p/energizacao-o-objeto-limerente-como</guid><dc:creator><![CDATA[Oryanna Borges]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Apr 2026 14:33:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3t7s!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbadc7571-85e9-452a-9c77-30dc8be8d78f_3200x1792.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Energiza&#231;&#227;o 
</strong>
Tua presen&#231;a para mim &#233; essencial valiosa, 
Pois teu olhar sobre minha alma, desliza 
Como &#225;gua fresca l&#237;mpida preciosa 
Que me purifica me alegra me revitaliza.
</pre></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/badc7571-85e9-452a-9c77-30dc8be8d78f_3200x1792.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O espelho d'&#225;gua&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/badc7571-85e9-452a-9c77-30dc8be8d78f_3200x1792.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><strong>Energiza&#231;&#227;o: O Espelho de &#193;gua</strong></h2><p>J&#225; estabelecemos, na leitura de outros poemas desta remessa amorosa, que o objeto limerente &#233; um reposit&#243;rio. Mas o lugar que ele habitava &#8212; o mundo secreto, a brecha dimensional &#8212; permaneceu apenas como um espa&#231;o imagin&#225;rio. Isso, de certo modo, diminui o impacto do objeto limerente na vida da adolescente sem suporte. Conforme mencionado na an&#225;lise do poema <em>Inspira&#231;&#227;o</em>, a adolescente que escreveu era uma menina sem nome certo que, aos 13 anos, fugiu de casa com medo de ser relegada &#224; ignor&#226;ncia ao ser tirada da escola.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este Substack &#233; apoiado pelos Leitores. 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Infelizmente, a austeridade do ambiente que julgou adequado tir&#225;-la da escola para domar o seu g&#234;nio &#8212; silencioso, cabe dizer &#8212; n&#227;o tinha mais do que isso a oferecer.</p><p>Assim, a ideia do amor rom&#226;ntico, comum na educa&#231;&#227;o das meninas ainda criadas para o casamento no in&#237;cio da d&#233;cada de 90, sagra-se como a via salvadora. E, para uma adolescente rebelde que renegara o cristianismo ao detectar inconsist&#234;ncias graves nos dogmas e pregadores, &#233; curioso que tenha criado sua pr&#243;pria vers&#227;o de um Deus: &#224; sua pr&#243;pria imagem e semelhan&#231;a, embora n&#227;o o soubesse, por desconhecer os potenciais bloqueados pelo ru&#237;do externo.</p><p>Esse &#237;dolo sagrado, erguido com os tijolos do que ela possu&#237;a de mais bonito, mas que ainda n&#227;o conseguia reconhecer em si mesma, serviu de reposit&#243;rio e abrigo. Diante de uma realidade que a negava, ela projetou sua pr&#243;pria ess&#234;ncia &#8212; o bom, o belo e o puro &#8212; no olhar de pedra de um &#237;dolo que os olhos de hoje diriam vazio, n&#227;o fosse o diagn&#243;stico da neurodiverg&#234;ncia.</p><h3><strong>A Liturgia da Autopreserva&#231;&#227;o</strong></h3><p>Para aquela adolescente, a presen&#231;a do objeto n&#227;o era um capricho; era energiza&#231;&#227;o. Em um ambiente hostil, a limer&#234;ncia funcionava como um mecanismo de autorregula&#231;&#227;o. Onde havia dor, ela buscava &#8220;&#225;gua fresca&#8221;; onde havia o turvo do trauma, ela clamava pelo &#8220;l&#237;mpido&#8221;.</p><p>O que lemos nestes versos &#233; uma transfigura&#231;&#227;o. A <em>Alma como Altar</em> celebra a entrega absoluta. A <em>Purifica&#231;&#227;o pelo Outro</em> cura, aos poucos, a rispidez de um mundo que a julgou, precocemente, inadequada. O desejo de ser &#8220;limpa&#8221; e &#8220;revitalizada&#8221; revela o peso de se sentir errada ou quebrada pelo mundo. E h&#225; o diagn&#243;stico oculto: o hiperfoco e a intensidade quase m&#237;stica do sentimento espelham o grito de uma mente neurodivergente buscando ordem e beleza em meio &#224; neglig&#234;ncia.</p><p>Hoje, ao revisitar estas palavras, percebo que o objeto era apenas o pretexto. A &#225;gua fresca nunca veio de fora. A fonte sempre esteve nas m&#227;os daquela menina que, mesmo sem suporte, j&#225; era mestre na arte da resist&#234;ncia. Ela n&#227;o estava apenas amando; ela estava, atrav&#233;s da poesia, mantendo a pr&#243;pria alma viva.</p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.oryannaborges.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Este espa&#231;o &#233; mantido pela arte de resist&#234;ncia e pela busca constante por novas formas de existir. Ao se tornar um assinante pago, voc&#234; financia diretamente a continuidade desta  pesquisa sobre neurodiverg&#234;ncia por meio da escrita. 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